quinta-feira, dezembro 14

33-2006: BOAS FESTAS



O dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, é, por tradição na zona raiana, o dia em que os jovens, que esse ano vão às sortes, arrancam o MADEIRO do NATAL.
Em Toulões a azinheira mais grossa que houver no montado, graciosamente cedida pelo proprietário, é arrancada pelo pé .
O madeiro é depois enfeitado à entrada da aldeia, transportado pelas ruas para ser mostrado à população, e descarregado no adro da igreja, onde será "apichado" na noite de consoada para aquecer a alma a quem dele se acercar e onde ficará a arder até ao Ano Novo.
Com a proibição do arranque de azinheiras por motivos ambientais (apenas é permitido o seu abate indiscriminado para abrir clareiras no montado a fim de fomentar a construção de aldeamentos de luxo como forma de fixar as populações ao meio rural) este ano o MADEIRO do NATAL foi pobre.
Em compensação, os jovens de Toulões construíram uma enorme árvore de Natal (conforme mostra o postal) amiga do ambiente e da qual foi feita uma réplica em menor escala que pode ser visitada no Terreiro do Paço em Lisboa.
Estarei de volta depois do Ano Novo
Até lá, um abraço a todos e votos de BOAS FESTAS.

quinta-feira, dezembro 7

32-2006:Tchupistas


Se há notícias sérias, notícias pertinentes, daquelas com fundamento razoável e com as quais rejubilamos, como é o caso da que foi objecto do post anterior sobre o Carriçal, outras há para as quais não se encontra uma explicação lógica que nos permita pensar se valeu a pena serem divulgadas, mesmo que uma chusma de idóneos jornalistas se tenha perfilado para recolher, em primeira mão, a última exclusividade, que fica fora de moda logo que cai o pano do espectáculo mediático.
Em Novembro de 1996, (já lá vão dez anos e parece que foi ontem) uma insólita notícia pôs esta anónima aldeia de gente, tão humilde quão desprotegida, na capa de quase todos os jornais e até teve honras de abertura num dos telejornais da noite.
Nascida sabe-se lá por que artes do diacho, chegou escorreita e sem pecado aos jornais regionais Gazeta do Interior e Povo da Beira, passou pelo JN e, por obra e graça da maleita do "voyeurisme", chegou às televisões já de tal forma empolada que os ecos da sua invulgar existência se repercutiram até aos espanhóis El Mundo e Cambio16, chegando também, pasme-se, até aqui.
Então foi mais ou menos assim:
O Monte Fidalgo é um antigo coito, quase roubado à herdade da Zebreira, encantinhado entre a ribeira da Toulica junto à ermida de São Domingos, os Malhadis e o Vale de Cardas, onde a flor de tabaco Virgínia ainda vai dando algum ar garrido à faina agrícola que, segundo dizem, para rodar a terra respeitando a alternância de culturas (ou talvez pelas agressivas campanhas anti-tabágicas), está a dar as últimas fumaças, preparando-se já a sua substituição pela doce amargura da cana sacarina, com vista à produção de bio-combustível à base de álcool.
O povo, que por aqui vai sobrevivendo das magras oportunidades que esporadicamente vão surgindo, queixando-se de que isto vai de mal a pior, já diz: "É de vício em vício! Larga-se o tabaco e encarrilha-se na copaneira!".
Este terreno de cultura diversificada em que abunda o azinho e o sobro que, apesar da folha pintalgada que denuncia a doença do sobreiro assim como sintomas da seca que nos tem assolado, continua a oferecer de nove em nove anos, quase de mão beijada, umas valentes arrobas de cortiça que mal vão dando para as quebras.
Um enorme olival, em tempos bem tratado, produzia um azeite de primeiríssima qualidade. Hoje, à semelhança do que acontece nos grandes olivais da região, a azeitona fica na oliveira para matar o bicho à passarada.
Visto que a jeira nem chega prá peneira, deixou de ser rentável a sua colheita.
Os olivais fazem agora o deleite dos caçadores de tordos que aqui chegam de todo o país durante a época venatória e vão dando alguma animação a esta zona. Alguns, vindo mais pelo convívio, nem chegam a enxergar os tordos, mas que vão de cá atordoados com as nossas delícias gastronómicas, lá isso vão.
E é aqui que começa a história!
Naquela altura, as pastagens por entre este arvoredo enchiam a barriga a um enorme rebanho que, até então, dava origem a um divinal queijo amarelo da Beira Baixa.
Esse bem cuidado rebanho, sem explicação plausível, começou subitamente a ficar desfalcado.
Um dia faltavam duas ovelhas, passados oito dias faltavam outras duas, na semana seguinte faltavam mais três e assim por diante durante algum tempo. Vinte e tal ovelhas levaram sumiço, tendo sido encontradas mortas apenas nove, todas elas com um profundo buraco na garganta, sem vestígios de mais nada.
Na procura de uma razão que explicasse este facto, chegou-se a uma hipotética conclusão alvitrada pelo ti Zé Pequeno e corroborada por algumas autoridades locais na área agropecuária: "um lobo velho, só com um dente (o outro partira-o por qualquer motivo), atacava os pachorrentos ovinos".
Dado o alerta montou-se uma vigília, mas sem resultados.
Para a televisão, este misterioso fenómeno era, taxativamente, obra de um chupacabras, relacionando esta notícia com as recentemente chegadas de alguns países sul-americanos, dando conta de acontecimentos semelhantes, em que relatos de testemunhas diziam tratar-se de um morcego gigante que atacava as rezes para lhes sugar o sangue, cuja descrição era feita por Jorge Martin da revista UFO, em Outubro de 1996, escrevendo desta maneira:
("Criatura que tem a forma de animal, um par de asas, é muito selvagem, mede cerca de 1,15 m e é horrível", segundo um observador na periferia de Guayaquil, Equador, a 270 Km de Quito. O facto ocorreu em junho de 1996. Esse "Chupacabras" equatoriano tinha semelhanças com o que também apareceu em Porto Rico e México).
Estava oficializado: o chupacabras fizera sangue em Toulões.
A notícia, tal como foi dada a conhecer, passou aos olhos da generalidade portugueses com áureas de fenómeno sobrenatural, e o mistério que encerrava causou alguma perplexidade junto da população. Não era todos os dias que em Portugal se testemunhavam acontecimentos desta natureza.
As imagens dos animais e as entrevistas feitas no local, ao ti Zé Pequeno, o zeloso pastor e ao ti Domingos Gago, o feitor, deram-lhe credibilidade pela forma convicta com que descreveram o sucedido com as ovelhas.
Também numa primeira reacção, os toulonenses, principalmente as pessoas mais velhas que, tal como a generalidade do nosso povo é propenso a crenças e superstições, mal a notícia, pulando as cancelas do bardo, se difundiu no éter, fizeram logo o seu vaticínio, relembrando antigas histórias de bruxas que se contavam nos serões de Inverno sentados ao lume. Via-se, pelos indícios, que a evidência era óbvia: "aquilo é obra da diabólica que por onde passa, dá conta de tudo".
Para os mais sépticos, habituados a lidar diariamente com o gado e com os protagonistas deste enredo, a notícia possuía contornos de veracidade duvidosa e muitos lhe torciam o nariz, de tal forma que durante algumas semanas o fenómeno do chupacabras se tornou anedótico e sem importância, tendo apenas dado origem a mais um episódio, no mínimo, caricato.
A palavra chupacabras, que, entre galhofadas, andava alto e bom som nas bocas do povo, veio desenterrar o fantasma do Tchupa-a-tchiba. A velha alcunha que o ti Martinho ganhara quando era garoto pelo hábito de ordenhar a cabrinha bragada directamente para dentro da boca, mas que os anos deitaram no esquecimento e da qual já ninguém se lembrava.
Nesse tempo o Tchupa-a-tchiba rivalizava no nome com a do Mama-na-burra deixando-os ambos a rabiar que nem uma bicha-tanaza. E quanto mais rabiavam mais lho chamavam.
As nomeadas, oportunistas, apareciam sem serem esperadas, sempre que a ocasião era propícia e geralmente assentavam que nem uma luva, dado o conhecimento que o "padrinho" tinha do "afilhado". (ver aqui uma teoria sobre as alcunhas).
O ti Martinho, já à unha com o peso da idade, agarrado ao cajado de quando ainda era pastor e que agora lhe amparava as cruzes rangentes por via do caruncho, não estava pelos ajustes. Para ele, que ainda não se tinha inteirado das balelas, esta palavra envenenava-lhe o sentido. Confundindo Tchupa-cabra com Tchupa-a-chiba, sentindo-se alvo de chacota, ficava fora de si disparando pragas em todas as direcções .
- Catanos ma tchapem s’eu no esborraçar os miolos a um! - e alçava o cajado com a intenção de arrear no que estivesse mais perto.
Esta história, um mero assunto familiar a ser resolvido entre paredes, que tanta celeuma levantou, permaneceu durante alguns anos num segredo sacramental, até que um dia, zangando-se os compadres, e quando já todos a julgavam definitivamente sepultada, eis que ressuscitou e, trazendo à luz do dia toda a verdade, revelou toda a sabedoria contida no velho adágio.
Nunca constou que a televisão alguma vez tivesse feito mais qualquer referência a este assunto.
É que tirar esta região do anonimato, promovendo aquilo que tem de bom e que vale a pena ser dado a conhecer, não dá audiências, mas propagandear especulações e "aldravadas", valendo-se da boa fé e da ingenuidade desta gente tão vulnerável, transformando assuntos de família em "fait divers" é o que está a dar.
Era de bom tom que, intercalando com big brothers, futebóis e brasileiradas, as televisões que vão sendo, a par da mulher do pão e do homem do peixe que aqui vêm vender, os únicos elementos exteriores que por aqui, quebram a rotina, passassem também a transmitir programas apelativos para auxiliar na batalha contra o analfabetismo e a iliteracia, em prol da nossa cultura e da nossa identidade.

quinta-feira, novembro 23

31-2006:O TGV da Beira Baixa


Toulões é uma pequena aldeia que, tal como as suas congéneres da raia perdida, ficou irremediavelmente esquecida nos confins da interioridade, no limiar que une (ou que separa) as duas nações que, dormindo juntas no leito ibérico, quantas vezes acordam de costas voltadas.
"No limiar do iberismo pensam alguns".
Efectivamente, há quem já nos considere espanhóis, o que, em parte, é uma meia verdade.
Durante muitos anos, dizia-se a mangar, era bem mais fácil chegar a Madrid do que a Lisboa. Até à entrada de Portugal na CEE e antes da construção das IPs 2 e 6, (agora A23, por enquanto SCUT sem custos para o utilizador) demorava-se quase metade do tempo a fazer o percurso até Madrid (370 Km) do que até Lisboa (310 Km).
O bom entendimento com "los pueblos" fronteiriços dura há séculos. Apesar das históricas escaramuças entre os dois países que remontam ao início da portugalidade, este relacionamento manteve-se e cimentou-se ainda mais durante a guerra civil espanhola, quando muitos de "nuestros hermanos", fugindo a uma morte que ceifava o povo a eito, procuraram acolhimento do lado português.
O contrabando de géneros de um lado para o outro da fronteira, também permitiu um maior estreitamento entre as duas margens do Erges, num tempo em que o escudo batia facilmente a peseta no braço de ferro do câmbio, devido à fraca economia de além ribeira. A peseta, a rondar os 4 ou 5 tostões, proporcionava grandes vantagens na aquisição de produtos espanhóis, mas com a contrariedade de ficarem sempre sujeitos a ser apreendidos pela Guarda Fiscal.
Num ápice, a economia espanhola fortaleceu a peseta. Então, invertendo a tendência cambial, deixou de ser compensador ir a Espanha fazer compras, passando o comércio das nossas cidades fronteiriças a atrair os nossos vizinhos, apesar de continuarem a ser acerrimamente defensores daquilo que é deles.
Agora, com a livre circulação no espaço europeu, com a entrada em vigor da moeda única (nessa altura já a peseta valia 15 tostões) e com a crescente pujança da economia espanhola, vai-se naturalmente a Espanha abastecer de combustível, encomendar materiais de construção, mudar as lentes aos óculos e tanta coisa, com grande vantagem para a magra bolsa dos raianos.
Às vezes, deveras que bem nos apetecia ser espanhóis.
E ainda mais!
Com a implementação do TGV e a inicialmente prevista ligação por Cáceres, a entrar em Portugal aqui por perto, a distância até Madrid encurtar-se-ia significativamente.
Mas..., está decidido, está decidido. O TGV vai mesmo passar por Badajoz.
Segundo se diz por aí: "esta opção é a melhor para todos os lisboetas, enquanto que a entrada por Cáceres seria boa apenas para os portugueses".
Enfim, como as aleatórias decisões políticas dos governantes são mais dogmáticas que os postulados do Zé-Povinho, somos constantemente forçados a carregar com o nosso inconformismo.
Às vezes, em conversas sérias, brincando com o assunto, tivemos a imaginária esperança de que a passagem do TGV aqui por perto, seria uma mais valia para toda esta região.
Com algum privilégio, Toulões até teria um apeadeiro que serviria também o aeródromo de Termas de Monfortinho, a escassos quilómetros, que, desde a abertura da reserva de caça turística do Espírito Santo, aumentou de tal forma o tráfego aéreo que já se pensou em acrescentar a pista que iria, na sua reinauguração, receber o Airbus A380 no seu primeiro voo comercial (Ricardo Salgado como interessado e Sousa Cintra como utilizador já deram o seu aval).
Com esta obra a avançar em detrimento da da Ota, poupar-se-iam uns milhões que serviriam para melhorar a estrada que liga Toulões-Torre-Monfortinho e que há meia dúzia de anos tirou os já poucos habitantes do Carriçal de um soturno isolamento.
Esta estrada, com ligação a Espanha, ramificaria pelos concelhos vizinhos, sendo uma linha nevrálgica na estratégia para desenvolver toda a zona raiana.
Criavam-se incentivos não fictícios para uma nova agricultura biológica, já que é a actividade para a qual estamos naturalmente vocacionados.
Renovavam-se e ampliavam-se os canais de regadio da campina; retomava-se a produção de azeite mediante o renovo dos olivais, assim como o restauro dos lagares ou a construção de novos; adquiria-se maquinaria para encher os campos com grandes cearas (esquecendo os trangénicos) limpando o mato atreito a incêndios; curava-se e renovava-se o montado de sobro e azinho, tal como a criação de novos pólos veterinários para ajuda à exploração pecuária, nomeadamente o porco preto que tanto gosta de se alimentar, vagueando de azinheiro em azinheiro enchendo o corpinho de bolota e outros mais que fariam renascer aqui uma vida nova, um pouco à imagem do que se fez do lado espanhol com os subsídios da CEE.
Para aquisição de mercedes, jeeps e outros veículos de trabalho a custos bonificados, os interessados teriam, tão só, de comprovar a rentabilização do investimento feito com o incentivo de que beneficiaram, prova essa que serviria também para ganhar o direito a futuros incentivos.
Este sonho poria certamente Toulões e toda esta região, no mapa do desenvolvimento.
Estou já mesmo a imaginar as televisões a acotovelarem-se para entrevistar o Zé Torres, nosso digníssimo presidente da junta, sobre projectos futuros para a fixação de pessoas e a reabertura das escolas primárias para que incutam às crianças o orgulho de ter nascido aqui.
Voltaria o burburinho da canalha no recreio que em alegres cantigas de roda trauteava agora: "O TGV da Beira Baixa / Tem vinte e quatro janelas / Mais abaixo, mais … (vocês sabem o resto)".
A ser real este feito, a sua notícia relegaria para segundo plano uma grande reportagem jornalística sobre um acontecimento que fez aqui concentrar todas as atenções, mas que passados dois dias não passava de uma longínqua efeméride.
Essa notícia, no último dia de Novembro de 2002, (não sei se ainda há quem se lembre) foi precisamente sobre o Carriçal (Carcel como dizem os mais velhos).
Neste pequeno aglomerado pertencente à freguesia, a cerca de 5 Km, onde, com pompa e circunstância, se inaugurou a luz eléctrica que, tardiamente, veio trazer alguma qualidade de vida às gentes desta terra, que nem aldeia é, onde o passado está bem presente, mas em que para o presente, mesmo com a recente chegada da luz, não se vislumbram réstias de futuro.
Este acontecimento, raro nos dias que correm, foi celebrado com festa da rija pela numerosa comitiva de convidados da autarquia que se deslocaram a este lugar, longe de tudo, e pela população residente, para assistir ao "dar ó botão" no Carriçal.
"Afectível, afectível, só cá moram três pessoas, mas o tempo da zêtona ajunta cá mai gente…agora stamos cá… (pausa para pensar) …cinco!", respondia desoladamente a ti Moreira Felisbela, do cume dos seus 80 anos, ao jornalista da TSF João Morais (que merecia um prémio pela excelência da reportagem que aqui fez (Na penumbra) e pelo seu profissionalismo na arte que tem de reportar sobre assuntos da ruralidade).
O presidente da Câmara de Idanha-a-Nova, Álvaro Rocha, também inquirido a pronunciar-se sobre esta obra, começando naturalmente por refutar a possível ideia de eleitoralismo inerente ao evento e salientando que os três votos destas pessoas nem sequer fizeram a diferença para os seis que lhe deram a vitória (no mandato anterior), respondeu em tom de confidência:
- Sabe que, às vezes, com os desperdícios dos investimentos de obras maiores, fazem-se estes pequenos milagres!
Esta deixa leva-nos a perguntar: onde, depois de concluídas estas obras faraónicas, TGV / Ota, irão ser aplicados os desperdícios do esbanjamento?

terça-feira, novembro 21

30-2006: Meio desafio aceite


Após alguns dias de ausência inesperada, estou de regresso a este convívio virtual.
Foi com alguma surpresa que me deparei com um desafio proposto, quase em simultâneo, por dois companheiros de lide:
O Joaquim (Por terras do rei Wamba) e o Jorge (O sino da aldeia).
Aceito com satisfação o desafio, mas apenas pela metade. Vou revelar as cinco manias, mas, no que toca a desafiar mais cinco é difícil, dado que durante este tempo de ausência gorou-se a oportunidade, visto que praticamente todos os que costumo visitar já foram desafiados.
Como dizia um famoso fadista do antigamente: "com letra minha e música do meu pai... ENTÃO AQUI VAI."
1 – Tenho a mania que não tenho mania nenhuma, mas algumas pessoas apontam-me as que se seguem:
2 – Que tenho a mania de dizer sempre que sou de onde sou, enquanto outros dizem que são da Beira, de Castelo Branco ou, vá lá, de Idanha-a-Nova.
Quando me ouvem dizer que sou "dos Toulões" percebem "estou longe" e consecutivamente vem logo a pergunta: "estás longe?" Eu respondo sempre da mesma maneira: "estou, mas é como se lá estivesse".
3 – Que tenho a mania de que não há melhor fruta que o diospiro e que os figos inverniços eram melhores se viessem antes dos temporões.
4 – Que tenho a mania dos sapatos de camurça porque não é preciso dar-lhes graxa. (aqui digo-lhes que: brilho?, só quanto baste)
5 – Que tomar café sem açúcar é tomar uma atitude drástica.
UM ABRAÇO A TODOS!

segunda-feira, outubro 30

29-2006: A frágua

Pormenor de um "cancelão" construído no final dos anos 50.
Todas as peças foram trabalhadas manualmente e a assemblagem foi feita através de rebitagem. Este trabalho, que hoje nos parece tosco, era, à época, considerado de qualidade superior .

Engenho de furar manual com sistema de engrenagem para 2 velocidades. Era uma ferramenta essencial para a execução de serralharias (tipo foto acima). Esta reliquia, que pertenceu ao ti Zé Heleno, está a embelezar o jardim da habitação de um seu familiar.


Em tempos, quando uma intensa actividade agrícola enchia os celeiros do país, mas só dava pão a meio alqueire de gente, com a chegada do São Miguel e o início das sementeiras, o ferreiro não tinha mãos a medir.
O trabalho redobrava. Reparar os arados, em que aguçar rêlhas, substituir aivecas, arranjar os dentes das grades e compor outras ferragens, eram tarefas urgentes, a realizar antes que passasse a maré trazida pelas primeiras chuvas do Outono que punham a jeito a terra para ser esventrada e da qual se tirava um ano inteiro de sustento para família.
Depois, era mais o tempo que passava no tronco a ferrar as vacas de tiro do que na frágua, onde a feitura das ferraduras e dos canêlos havia sido prévia, sabendo, por experiência, da avalanche que chegava nesta época, em que o esforço dos animais e o consequente desgaste das protecções dos cascos era acrescido.
A valentia e a disponibilidade do ti Zé Guardado Campos para o trabalho, era por todos reconhecida. O ti Zé Ferreiro, como lhe chamavam, quando se punha a malhar o metal sobre aquela bigorna de aço, cujo timbre competia com o do sino da igreja quando tocava a rebate, numa chamada do povo da aldeia a reunir para acudir a uma desgraça, em que nos dias da aragem de leste levava o som da emergência a salvar o Cabeço dos Frades, fazendo-se ouvir em clarinho no arraial da Pingona.
Com a sua hercúlea envergadura e o seu basto bigode, quando calhava a cravar ferraduras, impunha o respeito a qualquer cavalgadura.
Temendo alguma reacção intempestiva do ferreiro, "as bestas nem buliam as orelhas!" - como contava o ti Mné Correia.
Cada vez que o ti Zé Ferreiro moldava o ferro amolecido na incandescência da forja, avivada pelo sopro de um velho fole que ia aguentando o fôlego graças ao amaciar das rugas pela bola de sebo enfarruscada, religiosamente embrulhada num farrapo de saca e guardada numa buraca da parede, o povo evitava passar-lhe à porta, escudando-se da estridência das pancadas, capazes de perfurar os tímpanos aos mais incautos.
Os dele já há muito deixaram de reagir ao estímulo das vibrações sonoras. Quando a frágua zunia, por toda a aldeia se sentia a cadência do seu malhar que ensurdecia o martelo e a bigorna.
Pensa-se que terá nascido daqui a expressão bastamente usada em Toulões - "Estar com os ouvidos na casa do ti Zé Ferreiro" - que me parece ser exclusiva desta terra (e corrijam-me se estiver errado).
Usa-se para chamar a atenção a alguém que não ouve porque está distraído, com o sentido na lua, ou alguém a fazer ouvidos de mercador porque, pura e simplesmente, para os dissimulados, qualquer chamamento não passa de um imperceptível ruído de fundo.
Hoje a expressão continua a utilizar-se amiúde, mas, com a usura provocada pelo passar do tempo, foi perdendo o "ti Zé" e o "Ferreiro" passou de próprio a comum, resultando no que hoje se diz:"estar com os ouvidos na casa do ferreiro!?"
Mas as histórias já muito antigas deste homem, do qual dificilmente se compreendia como é que, com aquele corpanzil de arrasa montanhas e com umas mãos tão grossas e calejadas, dava ao mundo peças tão habilmente forjadas, eram saudosamente relembradas, quer pelo ti Canilhas, quer pelo Ti Zé Heleno que, com jeito, lhe herdaram a arte.
Embora ambos lá tivessem o seu géniosito, que por vezes originava discussões de índole profissional, havia um ponto com o qual comungavam:
A paciência com que aturavam os garotos tardes inteiras, quando estes andavam ao desafio para ver qual deles lhes ganharia as graças e a honra de poder dar ao fole. Era uma brincadeira que ajudava a granjear confiança e que de vez em quando resultava nuns favores.
Havia sempre uma vez para, numa aberta, pedir o caldeamento de um arame de reforço de caldeiro velho, retirado para fazer as argolas que guiavam em alegres correrias ao desafio pelas ruas do povo.
Cada qual tinha o seu dom.
O ti Canilhas era exímio aguçador de ferramenta. A têmpera que lhe dava, sempre no ponto, acrescentava todavia um pouco mais de vida aos enxadões, malhos e picaretas que lhe passavam pelas mãos.
Era também um excelente ferrador. Para além do cravar das ferragens nas patas dos animais, tinha sempre grande preocupação com o aparar dos cascos e com as doenças que poderiam estar latentes. Quantas vezes uma raspadela e uma leve desinfecção com creolina era um preventivo para a evitar a coxeira que inferiorizava o animal.
O ti Zé Heleno, esse, dedicava-se mais àquele trabalho de ferreiro que hoje se designa por serralharia civil.
Eram afamados nas redondezas os engenhos e noras com os respectivos alcatruzes, portões, gradeamentos para varandas, e outros trabalhos similares que saíam da sua lavra.
Tinha também um jeito especial para colocar aros de bandagem nas rodas dos carros de vacas.
Mas a sua actividade não se resumia a trabalhos de ferro.
Era requisitado por muita gente de fora como especialista em fazer sangrias no vivo doente. Através de um ponto de incisão localizado de acordo com o sintoma (e aqui contava a experiência), de onde escoava o sangue maligno debelando a maleita, sendo depois naturalmente renovado.
Em bestas com augamento, era lancetado o pescoço lateralmente junto à cabeça, deixando escorrer o sangue na quantidade razoável.
Em animais com sintomas de doidice, principalmente bezerras, a incisão era no rabo ou nas patas dianteiras em que as feridas eram desinfectadas com aguardente e ligadas com um pano até sararem. Em último recurso, caso o animal não melhorasse, fazia-lhe uma verga de fogo entre os cornos, na zona dos miolos, que consistia em marcar com um ferro em brasa uma pequena circunferência (um O). Nos dias imediatos, as ventas eram-lhe borrifadas com vinagre para a obrigar a espirrar e assim soltar alguma viscosidade que se tivesse alojado no cérebro.

Mas o ti Zé Heleno não curava só os aleméis.
Curou um cobrão já adiantado à ti Teresa Rita, coitada, já com o bicho alastrado pelo corpo, quase a juntar a cabeça com o rabo. A velhota, a quem uma benzelhoa já tinha tentado curar a moléstia com rezas e defumadouros, lá vinha agora, dia sim dia não, toda encorcovada com a bolsinha do "tremez" que depejava em cima da bigorna. O ti Zé, com uma pazinha de ferro que parecia uma rapa de masseira, em brasa, colocava-a sobre a manchinha do cereal que queimava de forma a libertar um óleo com o qual lhe untava a zona afectada. Um fumo espesso e um cheiro intenso a queimado invadiam as imediações como que a assinalar o sucesso da intervenção.

E uma vez também, um arrepiante berro de dor, libertado numa voz de criança, logo seguido de um intenso odor a carne queimada, escaparam da forja. O João Pesaduras que lá ia mandar aguçar uma picareta do pai, reagiu instintivamente, correndo os poucos metros que faltavam com o coração nas mãos, a pensar que algum amigo fizera como Txulas. Na semana anterior queimara uma mão ao apanhar, uma das ferraduras ainda em brasa, que o ti Zé aventava para do chão da forja, onde arrefeciam lentamente, recobertas pela terra enegrecida pelo coque e pela jorra que sobrava do material em fusão.
Felizmente enganara-se.
O grito de desespero soltara-o um garoto de fora, que o pai ali trouxera na esperança de lhe curar um nascido, depositando toda fé na promessa feita à Senhora do Almortão e na sabedoria do ti Zé Heleno, afamado por queimar, com uma ponta de fogo, a moléstia pela raiz a este tumor gangrenoso que dizia ser um cabrunco.
Enquanto o rapaz gemia, ainda com a maçã do rosto marcada, o Pesaduras, que já conhecia os cantos à casa, apressou-se a abondar a almotria do azeite para o preparado. Uma mistura com pó de cal morta para untar a zona ferrada, era aplicada em cataplasma e renovada diariamente para atenuar a dor e facilitar a cicatrização da queimadura.
Terminado o serviço, o ti Zé Heleno, enquanto arrumava a ferramenta, exibe a enorme tenaz com que manipulava as peças enrubecidas no braseiro da forja.
- Se fô p’ciso tamém arranco dentes! No éi o´João? - disse ele a lembrar uma vez em que pregou um susto ao rapazito, ameaçando, na brincadeira, meter-lhe o tira dentes, como lhe chamava, pela boca dentro.
O João, a observar as caretas que o garoto fazia e a pensar na dor que estaria a suportar, nem respondeu. Estava, naquele momento, com os ouvidos na casa do ferreiro.

INTÉRPRETE PARA FORASREIROS

abondar; passar, fazer alcançar, dar
aleméis; plural de alemel – animal
augamento; doença que aparecia nas bestas manifestando-se por cansaço e apatia quando estas, passando por um local onde habitualmente se lhe dava algo de comer, não se lhe matava esse desejo. Uma mão-cheia de ração ou duas ou três passas de figo serviam para desaugar o animal (dizia-se que também acontecia nas crianças).
cabrunco; carbúnculo (ver aqui)
canêlos; ferros com função de ferradura que se aplicavam nas patas das vacas de trabalho.
cobrão; doença cutânea (ver aqui)
dissimulados; teimosos, fingidos
frágua; forja, oficina de ferreiro
malho; machado
manchinha; pequena mão-cheia, pequena quantidade
nascido; tumor
o vivo; os animais em geral

terça-feira, outubro 17

28-2006: O rei dos matrecos



A televisão faz milagres.
As campanhas publicitárias que nos invadem o quotidiano, entrando-nos, inclusive, todos dias casa adentro sob a forma de tentação, em que tudo nos é apresentado como que a moldar-nos a opinião e a vontade e a forçar-nos a ter um conceito das coisas adequado às pretensões de quem quer vender, de que só nos apercebemos quando já a ilusão nos apanhou desprevenidos.
Neste campo, é de realçar (negativamente do meu ponto de vista de consumidor) a acção dos psicólogos e sociólogos ao serviço do marketing e da publicidade que nos apresentam essas coisas de forma irresistível e quase incontornável.
Isto a propósito da campanha curso que, mercê do spot colocado no pequeno ecrã, parece ter ressuscitado o mais que morto e enterrado jogo dos matraquilhos, desde há anos engolido pelas máquinas de jogos electrónicos que dão cabo da vista e dos nervos à rapaziada mais nova, tornando-a egoísta, fomentando o seu isolamento e a consequente perda do gosto pelo convívio.
Este anúncio trouxe-me á memória os tempos em que com um grupo de amigos fazíamos grandes jogatanas à "roda bota fora", chegando ao ponto de apanhar autênticos suadouros de cavalos de arado.
O jogo dos matraquilhos era um jogo salutar
Jogava-se, ganhava-se, perdia-se, estava sempre tudo bem, porque nisto do ganhar e do perder a diferença estava apenas na cara com que se ficava. E não havia renhonós.
Mas o gosto por este jogo já vinha de trás.
Quando, ainda garotecos, dávamos rodioscas e mais rodioscas para conseguir a milagrosa moeda de 10 tostões que inevitavelmente ia parar ao moedeiro da mesa dos "bonecos" do ti J’quim da Fonte, quando ainda tinha a taberna nos baixos da casa do Tónho Maria e que fazia jorrar uma enchente de abifas de madeira.
Ainda mal chegávamos aos varões. Jogávamos empoleirados em cima de grades de pirolitos para conseguir uma melhor panorâmica do relvado.
Era o nosso promontório.
Os anos foram passando e, em todos, o gosto foi sempre acompanhando, mas havia um elemento que se destacava. O Bombarralito tinha o jogo nas veias.
O tempo passado agarrado aos varões deu-lhe uma habilidade e uma rapidez de movimentos permitindo-lhe fazer fintas que trocavam os olhos aos adversários e causavam espanto na assistência como se de um espectáculo de ilusionismo se tratasse.
Mas fazia outras fintas.
Quando cumprimentava os mais velhos, homens de labuta com quem partilhava a convivência em conversas sobre experiências da vida do dia a dia.
No firme aperto de mão cada um tinha o seu sentir. Sentia-lhes o trabalho reflectido naquela aspereza provocada pelo adoçar da ferramenta e depois sentia-lhes o sentir de quando lhes ouvia da própria boca o inesperado elogio, olhando-lhe para a palma da mão e mostrando-a aos amigos, como fez e disse uma vez o ti "Fanecas":
- Este é que é um estudante com deve ser. Ponde os olhos nestas mãs de cavador!
Mas logo ali se lhe esbarrondava a admiração e se lhe soltava o sorriso, ao saber que aquelas irrisórias calosidades, comparadas com as suas, eram ganhas com o passar do tempo, agarrado às "mãzeiras" dos bonecos.
Quando havia jogos renhidos, a salinha do café novo era um vulcão em erupção. Uma algazarra tremenda que punha tudo em reboliço.
À sala ao lado chegava o desassossego da matraquilhada desconcentrando o ti Valentim e o ti França. Dois esgrimistas em duelo que, sentados frente a frente, defendiam cada qual a sua dama num jogo sem subterfúgios. Ali não havia mandingas.
Nada a esconder, o jogo estava à vista de todos. Inclusive dos mirones que rodeavam os jogadores com um olho nas damas e o outro na mesa do lado, sobre a qual a sueca gerava uma disputa vasa a vasa. Despi-la sim, mas ninguém queria apanhar a chita.
Incomodados, ou um ou o outro, o que estava no momento a perder, gritava a pedir silêncio. E era geralmente à vez.
Quando era o ti Valentim, dizia ele, com a calma que o caracterizava, como se estivesse a falar para si próprio:
- Estes gajos pá, não têm respeito nenhum pá, p’cisavam todos era de um boa mão de ensino pá!
Quando era o ti França, mais ríspido, berrava repetidamente sempre a mesma coisa:
- Pouco barulho, cambada de matchos couceiros. Em vez de estarem aí agarrados aos varões agarrem-se aos varais para ver se amansam.
E às vezes amansavam.
As férias escolares não eram só divertimento.
Para além de ajudar a família nos trabalhos do campo e cooperar com alguns amigos, sempre graciosamente, a malta arranjava uns trabalhinhos para ganhar um cobres que davam um jeitão nas idas às festas das redondezes e para uns gastos extra.
Bem-bonda o esforço que os pais faziam para os trazer a estudar, ainda ter que lhes andar a pedinchar para isto ou para aquilo. Alem do mais, com estes trabalhos fintava-se o ócio evitando a queda na monotonia da espreguiçadeira e, em simultâneo, a fama de parasita com que alguns estudantes eram rotulados.
Esta pelo menos, a ele, passava-lhe ao lado.
O trabalho que mais gostava de fazer era ir à areia ao Aravil.
É verdade que ás vezes era duro, mas dava-lhe gozo porque trabalhava bem o físico. Balançar pasadas de areia do leito do ribeiro cá para fora. Primeiro para um "banco" e depois para a margem e só à terceira é que era carregada para o reboque. Custava.
Mas no final vinha a compensação. A viagem de regresso era meia hora de sesta deitados em cima daquele confortável colchão areia.
Mas houve uma vez em que a coisa piou fino.
Um trabalho habitualmente simples tornou-se num inferno. Um dia inteirinho a amassar barro para fazer "adobres" com uma enxada de cabo rugoso e cheio de escadinas. A coisa mais leve deste trabalho era a palha que se lhe misturava para dar consistência.
Para quem tinha mãos de estudante, como dizia o ti João Páscoa, ao fim de pouco tempo era como pegar num ferro em brasa. No fim do dia tinha as mãos numa lástima.
Nessa noite não houve rei dos matrecos.
As mãozeiras escaldavam-lhe os calos ainda dormentes fazendo-o perder todo o seu fulgor.
Mas o esforço valeu a nota de quinhentos que lhe permitiria ir com os amigos à Zarza fazer a festa do São "Bertlameu".
Davam para pagar a entrada no baile da pista, tomar umas cubatas, comprar um saquinho de terrum para adoçar a boca aos velhotes e ainda sobrava para, já madrugada alta, tomar um cacau quente com um churro antes de iniciar o caminho de regresso, a pé até Salvaterra.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
Bota; deita
bem-bonda; já não basta, já não bastava
cubata; gíria espanhola que significa "cuba-libre"

esbarrondava; de esbarrondar - desmoronar, ruir, demolir
escadinas; pequenas farpas da madeira
mandinga; batota, truque de magia
mão de ensino; correctivo, lição de moral
renhonós; hesitações, meias medidas, queixumes
rodioscas; voltas sobre si mesmo
terrum; do espanhol "turrón"

quarta-feira, outubro 11

27-2006: Uma experiência de vida

O canal 2 da RTP passa no dia 15 de Outubro (domingo) às 11:15h, no programa "CONSEGUIR" uma entrevista com António Brás.
Hoje publico esta entrada para prestar homenagem ao Brás, um amigo de longa data que um dia, lá na estupidez onde a vida dá a volta, perdeu irremediavelmente a visão.
Com base na sua experiência vivida desde então, escreveu um livro (capa acima) com a intenção de ajudar pessoas nas mesmas condições e para lhes dizer também que, afinal, o negro é apenas a mistura de todas as cores.

Excerto da nota do editor
O livro oferece informações e respostas a muitas das dificuldades e dúvidas que quotidianamente se colocam aos que são forçados a viver com limitações de visão, organizado em três partes fundamentais: o processo clínico, as ajudas técnicas (o uso do computador) e as reflexões e contactos.
Destinatários desta obra são também os "normovisuais" que tendo um familiar ou amigo portador desse tipo de problema, queiram ajuda-lo, ou dedicando-se pessoalmente à sua leitura, uma vez que ninguém se pode considerar imune a um problema de visão uma qualquer patologia, acidente de viação ou de trabalho podem transformar, a todo o momento, a nossa vida e a "visão" que dela temos."
UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA
UM LIVRO DIFERENTE
Excerto do livro
Aos meus amigos.
Verdadeiros "soldados" da solidariedade. As vossas "piadas", a vossa "companhia" a vossa verdadeira amizade, foram tónicos que "bebia" sofregamente.
Quanta energia. Que enorme "corrente". Quantas "promessas". Amigos assim poucos há.
O meu reconhecimento e gratidão! Jamais vos esquecerei. Uns mais que outros, mas sempre com carinho.
António Brás

Façam o favor de não perder.
É na 2 domingo 15 às 11:15


sábado, setembro 30

26-2006: No rescaldo da festa I V

Festa de 1986 com a actuação do rancho de Toulões, orientado pelo ti Pedro "Castanho" que, com a colaboração de algumas pessoas, o conseguiu manter vivo durante cerca de dois anos.
Com esta quarta e derradeira entrada, termina o rescaldo da festa de verão que incidiu essencialmente sobre as suas particularidades pagãs, já que a parte religiosa era, e continua a ser, semelhante a tantas outras.
Talvez a merecer algum destaque e que, neste aspecto, tornava Toulões diferente das demais aldeias (pelo menos da grande maioria), era o leilão dos "banzos" dos andores e das bandeiras com que se fazia a procissão e cuja receita revertia para ajudar à realização da festa.
Com frequência havia acesos despiques entre os licitadores que, tentando a todo o custo cumprir uma promessa, pagavam o que fosse necessário para manifestar a sua fé e ser parte activa na procissão que percorre as ruas do povo.
Mesmo pagando, as bandeiras e os andores não davam para as encomendas.
"Mudam-se os tempos mudam-se as vontades".
Este costume, certamente por défice de devoção, entrou em desuso em meados da década de 80 e desde então, mesmo sem leilão, com alguma dificuldade se arranjam voluntários que queiram preencher as vagas em aberto e participar na procissão, transportando seja que imagem for.
Bom, mas vamos ao arraial.
Noutros tempos não havia conjuntos musicais.
Os arraiais eram abrilhantados pela aparelhagem e por tocadores de acordeão, os "cordionistas".
O homem da aparelhagem foi durante anos o senhor Silva de Tinalhas.
Já era considerado um homem da terra pela simpatia e pela seriedade com que lidava com todos, assim como pelo empenho que punha no seu profissionalismo.
Chegava com sua camioneta, ia cumprimentar os festeiros e com os dois altifalantes amarrados no tejadilho, que mais pareciam clarins a anunciar a boa nova, em dose dupla, ia dar a volta pelas ruas para avisar da sua chegada.
Era um primeiro exalar de cheiro a festa.
Toda a canalha, numa agitação provocada pelo nervosismo da impaciência, ia aderrabo daquela charanga ambulante. Os festeiros, também a acompanhar, lá iam para uma última ronda relembrar aos retardatários da quase obrigatoriedade de pagar para a festa, contribuindo na ajuda à sua realização.
E dos esquecidos, ou que se faziam, não rezava a "listra" dos beneméritos, da qual, era quase certo, a menos que houvesse voluntários, de entre os poucos inconstantes, três eram nomeados festeiros para o ano seguinte.
E desonra lhes cairia sobre o nome se se negassem!
Entrementes, o adro era enfeitado com arcos floridos, com serpentinas e com "fitas" que as raparigas briosa e dedicadamente faziam com tiras de papel de todas as cores coladas numa guita. Fazendo lembrar as velhinhas dobadouras do linho, iam sendo enroladas em volta de uma cesta para evitar emaranhos e seguidamente suspensas de um lado para o outro da rua, unindo as casas pelos beirados, como que a querer remendar a ralação entre as famílias, por vezes desavindas.
A festa também apelava à união.
"Estendiam-se as luzes". Gambiarras com dezenas de lâmpadas, cruzavam-se com os restantes enfeites, mas só produzindo o seu efeito depois de cair a noite.
Era como se o céu estrelado estivesse mesmo ali ao alcance da nossa mão.
Nesse tempo ainda a iluminação eléctrica, que desconfiadamente embisgava o olho à tecnologia luminotécnica, e se via negra para rasgar a escuridão, não tinha chegado a Toulões.
As ruas eram alumiadas apenas nas noites de luar.
A luz que brilhava no arraial, era produzida por um gerador que ficava até de madrugada, de castigo, a gemer atrás da igreja.
Ideias iluminadas de galfarrotes.
Uma vez o Zé Fô, que tinha a fama de um malino e a curiosidade de um engenhoso, abrigado pelo lusco-fusco que o escondia do frenesim do adro, lembrou-se de verter águas sobre o escape do motor-gerador, para ver o efeito da lufada de vapor que aquilo fazia.
Apanhado à falsa-fé por um encosto do colega do lado, um movimento mais desajeitado obrigou-o a direccionar o jorro sobre o cachimbo da vela de ignição. Para além do esticão que apanhou na "betchola", abafou o pavio, deixando o arraial às escuras e os dançarinos a inventariar as constelações.
Para quem namoriscava pela surra era a oportunidade para fazer brilhar a sua estrela.
O burburinho do costume.
O que é que foi, o que é que não foi?
O desinquieto do Zé, que era d’ orêlo, desabelhou logo dali para fora com os amigos, deixando a responsabilidade ao abandono. É que ser apanhado pela patrulha dava, no momento, sete e quinhentos de coima por ter urinado na via pública e ao chegar a casa ainda ganhava uma valente orelhada do pai para recuperar o prejuízo.
Aqui a autoridade era imposta, era mantida e, sobretudo, era respeitada.
Pouco depois foi o regresso à normalidade.
Siga a dança qu’o tocador é homa (homem) de confiança!
O tocador era quase sempre o do ano anterior. O Sr. Alziro da Orca ou um do Salgueiro do Campo, cujo nome, perdoem-me, se me varreu da memória (um homem também não se pode alembrar de tudo).
Ambos eram bons. Fosse qual deles fosse, sacava do repertório de êxitos da Eugénia Lima, do Filipe de Brito ou outros bem populares que guardavam no ouvido e que, com uma destreza estonteante, lhe saíam pelas pontas dedos, punham uma multidão a contribuir para prosperidade dos filhos dos "Sapateiros" cá da terra.
Quando o tocador descansava, entravava a aparelhagem. Para além de outras sanfonadas, dançava-se ao som dos discos da Maria Albertina ou do António Mafra, que naquela altura punha meio Portugal à espera do "carteiro da 9 para as 10".
Enquanto um povo esperava, outro desesperava.
No arraial, só música nacional. Esporadicamente se ouviam estrangeiradas.
Música inconveniente, para o status vigente, ouvia-se recatadamente lá por Lisboa por mancebos que gostavam dos Beatles e dos Rolling Stones e que, tal como o rapaz americano de canção da Joane Baez, viviam descontentes com o nosso Vietnam.
Aqui, apenas o Josélito, "El ruiseñor"(rouxinol) da voz de ouro, tinha cabimento. Importado de aqui ao lado e bem aceite por via da empatia transfronteiriça, começava a comover multidões com aquela voz de menino que era, enaltecendo a beleza natural "da Campanera":
"Porque te han pintao las ojeras, flor del lírio real?"
A dada altura, instruído por um dos festeiros lá vinha o sempre prestável Tónho "Santoantónho", com o regador de lata apagar a poeira do terreiro. Interrompendo a dança, de propósito ou não, regava de caminho a planta dos pés dos bailarinos.
Era o momento para respirar fundo e ganhar novo fôlego porque este era também o sinal de que o balho ia atingir o seu auge.
Se para o nosso povo não havia festa sem foguetes, para os Toulonenses também não havia festa sem fandango.
A pedido, o tocador lá ensaiava os primeiros acordes, que depois de encarrilar era coisa para durar "até vir a abó da missa".
Toda a gente o balhava até à exaustão e às vezes mais que uma vez durante a noite. A alameda de pares em que se entrava e saía sem interromper a cadência, por vezes extravazava para além dos limites do recinto.
A circunferência de cadeiras em que descansavam as mulheres mais velhas que vinham acompanhar as filhas e algumas quadrilheiras que rodeavam o adro, era obrigada a abrir alas e dar espaço aos foliões numa alegria contagiante.
Muitos faziam gala em mostrar as suas aptidões de fandangueiro, demonstrando que a coisa era levada a sério.
O fandango tornou-se aqui tradição e ai do tocador que não o soubesse tocar. Era esfandangado sem dó nem piedade.
Estranha-se que uma dança originária de uma região ainda distante como é o Ribatejo, tivesse sido adoptada pelas gentes de Toulões com tão grande entusiasmo.
A razão, sem certeza absoluta, deve-se, num tempo em que o trabalho por aqui não chegava para todos, às campanhas da monda e da ceifa que alguns faziam por terras de gaibéus e de campinos, onde já estava enraizada e já era considerada dos grandes elementos do folclore e da cultura popular do nosso país.
Terminados os festejos era tempo de regressar ao trabalho e retomar o ritmo habitual.
Todo o aparato do arraial fora desmontado. Apenas as fitas colocadas pelas raparigas, ainda ali permaneciam quase até à autodestruição, como que querer perpetuar a festa, evitando a sua queda no precipício do esquecimento.
As guitas, agora despidas dos enfeites, eram agora ponto de encontro das andorinhas que, com a chegada do Outono, ali se reagrupavam e ganhavam alento para continuar o ciclo migratório, levando consigo definitivamente a alegria da festa que era trazida de volta no início de cada Primavera.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
aderrabo (ir ou andar a); perseguir, andar atrás de
balho – balhava; baile - bailava
betchola; pilinha
orêlo (ser de ou ter); ser expedito, perspicaz, manhoso, desenrascado
embisgava; de embisgar – piscar olho ou franzir o sobrolho
esfandangado; de esfandangar – despedaçar, esfarrapar, destruir
à falsa-fé; à traição, ser enganado, premeditadamente
galfarrote; rapaz buliçoso
malino; velhaco, mal intencionado, malicioso
quadrilheiras; alcoviteiras
sanfonadas; de sanfona – harmónio, concertina