O Entrudo sempre foi sinónimo de borga, pândega e folia desmedidas, perdendo-se no tempo a memória da sua origem.
Entrudo e Carnaval são duas palavras com etimologias diferentes mas que possuem o mesmo significado: o período entre o Domingo da Septuagésima e a Quarta Feira de Cinzas
O termo Entrudo terá origem na palavra "introitus" que em latim significa entrada, conotada com as festas Saturnalias que comemoravam o recomeço de um novo ciclo da Natureza, mãe de todas as coisas.
Entretanto, para o termo Carnaval parece não haver unanimidade de opinião quanto à sua origem. Para alguns deriva de "carnevalemen", (o prazer da carne); para outros terá surgido do latim "carnevale" (adeus carne), ideia reforçada pela cultura cristã que aparece a impor a celebração de um período de abstinência entre o Entrudo e a Páscoa a que se deu o nome de Quaresma.
Há ainda quem defenda que é proveniente das manifestações Gregas em honra de Dionísio, deus do vinho e da inspiração, nas quais o "carrus navalis" era o carro que transportava uma enorme cisterna com vinho para dessedentar os foliões que, depois de bem bebidos, cometiam os excessos "carrus navalescos" (digo eu).
O verdadeiro e genuíno Entrudo à nossa moda, à Portuguesa, provocador, desordeiro, onde a falta de respeito era tolerada até ao limite da paciência, do qual, por aqui, já pouco resta, foi destronado pelos hábitos telenovelescos com rainhas brasileiras ou abrasileiradas que, de corpo ao léu, abanam freneticamente as bundas ao ritmo do samba, nos corsos que percorrem as ruas das cidades do litoral sob a capa do desenvolvimento turístico.
Aqui por Toulões e demais povoações do interior, aliada ao despovoamento, a tradição do Entrudo foi-se perdendo, dando também lugar a uma inspiração moldada pelo modelo carioca e fomentada pelo facilitismo do acesso ao comércio dos 300.
Já lá vai o tempo das carantonhas feitas com uma renda roubada ao telhador do asado, que punha as calhandreiras, curiosas, a conjecturar e a especular sobre quem encorparia aquele traje de disfarce, constituído por uma roupa velha qualquer. E faziam-se apostas para ver quem conseguia percorrer as ruas da aldeia sem ser reconhecido.
Hoje qualquer conjunto de máscara horrorosa e fato a condizer, se adquirem nas lojas chinesas, mas que não valem uma "pêrra-tchica".
Era o tempo das cacadas, com vasilhas de barro roubadas dos quintais e muitas vezes despejadas do seu conteúdo. Com alguma malvadez inconsciente se vertiam as azeitonas, que tanto trabalho deram a colher e estavam agora a adoçar já quase no ponto de servir de conduto em muitas refeições, para levar a talha pela calada da noite, que oportunamente se iria estchabaçar no lajedo da entrada de uma casa cujo dono tivesse calhado na rifa dos entrudos.
Era também o tempo das batalhas com as inofensivas charingas de cana com que os garotos se borrifavam com jactos de água; com os pestilentos "ovos tchocos" que deixavam um cheiro entranhado na roupa não havendo sabonária que o desalojasse. Havia ainda a batalha das laranjas (laranjada) que tantas vezes deixava as raparigas com nódoas negras nas costas que, por essa razão, felizmente há muito desapareceu.
Desapareceu também a vaca-galhana que era o ex-libris do Entrudo em Toulões e que será objecto do próximo post.
Era também o tempo das zurras e das tchocalhadas, em que os jovens percorriam as ruas a tocar chocalhos e caldeiros, numa arruada de algazarra e desassossego que incomodava meio mundo, satirizando e ridicularizando o outro meio, parava à porta de quem durante o ano tivesse dado motivos para pertencer ao outro meio. Bastava não cumprir com os preceitos impostos pelos foliões.
Do tempo em que se apanhavam cães na rua, se lhes atava uma lata ao rabo e untava o cu com malagueta. Era vê-los fugir da lata rua afora, caim-caim, com o fogo atrás como um foguete e a lata a bater no cu. E quanto mais o cão fugia mais a lata no cu lhe batia.
Já lá vai o tempo em que no Domingo Gordo, à laia das janeiras, a rapaziada percorria as ruas do povo a "pedir os chouriços" de porta em porta. Cantavam-se umas quadras ao toque da concertina …
Ó senhora cá da casa
Chegue-se aqui à janela
Venha dar-nos um chouriço
Uma moura ou morcela.
E ai de quem se negasse a não recompensar este esforço dos rondistas, com uma peça do fumeiro, de preferência o "tchourcito" da ordem, mas um pão ou um pichorro de vinho também eram bem vindos para ajudar à comesana, que antecedia o "adeus à carne" num jejum de quarenta dias.
Com essa falta, uma cacada com cinza era quase certa ou então uma zurra à porta, ainda maior que a de ter deixado cair o porco do banco no dia da matança.
Por falar em matança, uma tradição de grande autenticidade e ainda fortemente enraizada nos hábitos da população é a de, no dia de Entrudo, se comer a bexiga dos ossos que, ao que parece, e fazendo fé no que vai constando, qualquer dia também desaparece por se estar a tentar proibir a matança do porco.
Seja como for, Entrudo ou Carnaval, será um acontecimento que continuará, ainda que de forma ténue, a marcar uma época do ano por estas terras.
Naquele tempo, todo este excessivo reboliço era tolerado pelo sistema de poder num manifesto abrandamento do exercício da autoridade, que parecia sempre mais atenta a comportamentos político-sociais que a manifestações festivas ou de divertimento.
Uma festa de liberdade, onde tudo é permitido e onde preceitos e bons costumes ficam esquecidos, o Entrudo, durando apenas três dias, acaba na Terça-feira à meia noite, morto à queima roupa, com tiros de caçadeira disparados pelos caçadores dos Toulões.
Entrudo e Carnaval são duas palavras com etimologias diferentes mas que possuem o mesmo significado: o período entre o Domingo da Septuagésima e a Quarta Feira de Cinzas
O termo Entrudo terá origem na palavra "introitus" que em latim significa entrada, conotada com as festas Saturnalias que comemoravam o recomeço de um novo ciclo da Natureza, mãe de todas as coisas.
Entretanto, para o termo Carnaval parece não haver unanimidade de opinião quanto à sua origem. Para alguns deriva de "carnevalemen", (o prazer da carne); para outros terá surgido do latim "carnevale" (adeus carne), ideia reforçada pela cultura cristã que aparece a impor a celebração de um período de abstinência entre o Entrudo e a Páscoa a que se deu o nome de Quaresma.
Há ainda quem defenda que é proveniente das manifestações Gregas em honra de Dionísio, deus do vinho e da inspiração, nas quais o "carrus navalis" era o carro que transportava uma enorme cisterna com vinho para dessedentar os foliões que, depois de bem bebidos, cometiam os excessos "carrus navalescos" (digo eu).
O verdadeiro e genuíno Entrudo à nossa moda, à Portuguesa, provocador, desordeiro, onde a falta de respeito era tolerada até ao limite da paciência, do qual, por aqui, já pouco resta, foi destronado pelos hábitos telenovelescos com rainhas brasileiras ou abrasileiradas que, de corpo ao léu, abanam freneticamente as bundas ao ritmo do samba, nos corsos que percorrem as ruas das cidades do litoral sob a capa do desenvolvimento turístico.
Aqui por Toulões e demais povoações do interior, aliada ao despovoamento, a tradição do Entrudo foi-se perdendo, dando também lugar a uma inspiração moldada pelo modelo carioca e fomentada pelo facilitismo do acesso ao comércio dos 300.
Já lá vai o tempo das carantonhas feitas com uma renda roubada ao telhador do asado, que punha as calhandreiras, curiosas, a conjecturar e a especular sobre quem encorparia aquele traje de disfarce, constituído por uma roupa velha qualquer. E faziam-se apostas para ver quem conseguia percorrer as ruas da aldeia sem ser reconhecido.
Hoje qualquer conjunto de máscara horrorosa e fato a condizer, se adquirem nas lojas chinesas, mas que não valem uma "pêrra-tchica".
Era o tempo das cacadas, com vasilhas de barro roubadas dos quintais e muitas vezes despejadas do seu conteúdo. Com alguma malvadez inconsciente se vertiam as azeitonas, que tanto trabalho deram a colher e estavam agora a adoçar já quase no ponto de servir de conduto em muitas refeições, para levar a talha pela calada da noite, que oportunamente se iria estchabaçar no lajedo da entrada de uma casa cujo dono tivesse calhado na rifa dos entrudos.
Era também o tempo das batalhas com as inofensivas charingas de cana com que os garotos se borrifavam com jactos de água; com os pestilentos "ovos tchocos" que deixavam um cheiro entranhado na roupa não havendo sabonária que o desalojasse. Havia ainda a batalha das laranjas (laranjada) que tantas vezes deixava as raparigas com nódoas negras nas costas que, por essa razão, felizmente há muito desapareceu.
Desapareceu também a vaca-galhana que era o ex-libris do Entrudo em Toulões e que será objecto do próximo post.
Era também o tempo das zurras e das tchocalhadas, em que os jovens percorriam as ruas a tocar chocalhos e caldeiros, numa arruada de algazarra e desassossego que incomodava meio mundo, satirizando e ridicularizando o outro meio, parava à porta de quem durante o ano tivesse dado motivos para pertencer ao outro meio. Bastava não cumprir com os preceitos impostos pelos foliões.
Do tempo em que se apanhavam cães na rua, se lhes atava uma lata ao rabo e untava o cu com malagueta. Era vê-los fugir da lata rua afora, caim-caim, com o fogo atrás como um foguete e a lata a bater no cu. E quanto mais o cão fugia mais a lata no cu lhe batia.
Já lá vai o tempo em que no Domingo Gordo, à laia das janeiras, a rapaziada percorria as ruas do povo a "pedir os chouriços" de porta em porta. Cantavam-se umas quadras ao toque da concertina …
Ó senhora cá da casa
Chegue-se aqui à janela
Venha dar-nos um chouriço
Uma moura ou morcela.
E ai de quem se negasse a não recompensar este esforço dos rondistas, com uma peça do fumeiro, de preferência o "tchourcito" da ordem, mas um pão ou um pichorro de vinho também eram bem vindos para ajudar à comesana, que antecedia o "adeus à carne" num jejum de quarenta dias.
Com essa falta, uma cacada com cinza era quase certa ou então uma zurra à porta, ainda maior que a de ter deixado cair o porco do banco no dia da matança.
Por falar em matança, uma tradição de grande autenticidade e ainda fortemente enraizada nos hábitos da população é a de, no dia de Entrudo, se comer a bexiga dos ossos que, ao que parece, e fazendo fé no que vai constando, qualquer dia também desaparece por se estar a tentar proibir a matança do porco.
Seja como for, Entrudo ou Carnaval, será um acontecimento que continuará, ainda que de forma ténue, a marcar uma época do ano por estas terras.
Naquele tempo, todo este excessivo reboliço era tolerado pelo sistema de poder num manifesto abrandamento do exercício da autoridade, que parecia sempre mais atenta a comportamentos político-sociais que a manifestações festivas ou de divertimento.
Uma festa de liberdade, onde tudo é permitido e onde preceitos e bons costumes ficam esquecidos, o Entrudo, durando apenas três dias, acaba na Terça-feira à meia noite, morto à queima roupa, com tiros de caçadeira disparados pelos caçadores dos Toulões.







