sábado, julho 7

16-2007: Na Rota das Maravilhas


Núcleo de moinhos de água recuperados no rio Ponsul, a jusante da barragem de Penha Garcia.

A desertificação e o despovoamento do interior são um facto indubitável. Progrediu na proporcionalidade inversa com que se degradou a actividade agrícola, cuja mola real, vítima de pasmo, não deu mais sinais de reacção e ficou sujeita ao cerco da UE, rendida ao sistema de subsídios para não morrer de asfixia.
Mas o futuro, que também passa por aqui, nem todos os dias se apresenta de ar sisudo. Os que conseguirem arrancar-lhe um sorriso, por certo irão ver as suas vidas recomporem-se de tantos e sucessivos tombos e, como não há bem que nunca acabe nem mal sempre dure, (prefiro dizer assim) da desertificação também surgem oportunidades.
À semelhança do sucedido com as nossas aldeias históricas (as Idanhenses), a aposta no turismo de ar livre parece estar a dar uma nova vivacidade a estes pequenos aglomerados populacionais, onde só o relógio da torre parece não ter deixado de acompanhar o ritmo do tempo.
Aproveitando alguns recur- sos com que a natureza graciosamente obsequiou estes locais, a partir desta realidade, gera-se riqueza em benefício desta zona, garantindo melhor qualidade de vida a muito boa gente jovem.
Escarpa quatzítica em Penha Garcia

A prová-lo, está a iniciativa em boa hora tomada pela Naturtejo, empresa intermunicipal integrada por 6 municípios, que se revelou um sucesso.
A apresentação da candidatura de um território que ocupa uma área de 4500 quilómetros quadrados, distribuída pelos municípios aderentes pela qual estão dispersos 16 monumentos naturais (Geossítios - vê-los aqui), foi coroada de êxito no Verão de 2006, ao ser classificada pela UNESCO como "Geoparque da Meseta Meridional".
Para esta empresa, na voz do seu presidente, «o Geoparque Naturtejo é a galinha dos ovos de ouro para os municípios abrangidos.»
E com toda a razão!
Eu, que mantenho sempre algum cepticismo relativamente ao que mexe com esta região, reconheço que este projecto tem pernas para andar. E digo reconheço, não por conhecimento de causa, mas pelo que por aqui se vai observando.
Penha Garcia - Trilobites, rasto de seres marinhos extintos há 250 milhões de anos.
Se hoje pareço ser incoerente com o que disse no post anterior, a realidade é que, neste caso, o investimento privado (criação de infra-estruturas para alojamento e lazer), supera o público (recuperação e manutenção dos locais a visitar) sinal de que as previsões de sucesso foram bem medidas.

A classificação atribuída desencadeou o designado Turismo de Natureza no Centro de Portugal e, pelo seu interesse, justificado com a organização de Rotas pedestres (vê-las aqui) e visitas a monumentos naturais, e outros eventos relacionados, já começou a atrair à região da "Raia Perdida" um grande número de turistas que põem a bulir actividades tradicionais que pareciam adormecidas.
Aqui estou apenas a referir-me ao que constato nas aldeias vizinhas que rodeiam Toulões, todas do concelho de Idanha-a-Nova: (ver Mapa aqui)
Penha-Garcia (Rota dos Fósseis - Parque Iconológico onde as formações rochosas guardam fósseis de seres pré-históricos, Rota do Contrabando e Moinhos do Ponsul), sobre a qual reportam estas fotos, Monsanto (Inselberg Granítico) e Salvaterra do Extremo, Segura e Rosmaninhal (Rota dos Abutres na área protegida do Tejo Internacional) Monfortinho (Rota do Contrabando) sem esquecer algumas que, não sendo abrangidas por este programa, merecem a honra de uma visita.
É o caso de Idanha-a-Velha, aldeia histórica amplamente divulgada por albergar um património histórico de inestimável valor, Medelim (aldeia dos balcões) e Prença-a-Velha (Núcleo Museológico do Azeite) onde um programa cultural com organização da iniciativa da Proençal - Liga de Desenvolvimento de Proença-a-Velha - faz periodicamente reviver as tradições que marcaram a vida dos mais antigos.

Para quem aprecie, tudo isto é vivamente recomendável.
Perder-se também quer dizer deslumbrar-se, mas perder-se e não se achar é deslumbrar-se perdidamente.
Com tanta coisa bonita que há por aqui, nestas férias perca-se por cá. Vale a pena visitar toda esta região de gente aberta e verdadeira.
E se por estas terras vos perderdes e não vos achardes é porque estais em TOULÕES. Não foi bafejada por nenhuma das maravilhas atrás citadas, mas garanto-vos que há muita hospitalidade e simpatia para distribuir.
Aqui, "uma côdea de centeio nunca se negou a quem cá veio, mesmo sabendo que "para o diacho que o amassou, nem uma côdea sobejou".

quarta-feira, junho 20

15-2007: Lagartos ao sol

Estou exultante!
O ênfase dado pelas entidades estatais com responsabilidade na matéria, no assinalar do dia dedicado ao Combate à Desertificação e à Seca, superou as minhas expectativas. O nosso Executivo deixou bem claro que seria dado um passo de gigante na recuperação do atraso de anos e anos, em que os sucessivos governos não apresentaram financiamentos, mas que, doravante, será invertida a tendência de desertificação do solo nas zonas afectadas do interior.
Mesmo a comunicação social, da qual se esperava uma tímida referência, badalou o assunto até à exaustão.
O impensável aconteceu: o rescaldo do jogo da selecção de sub 21 de Portugal, que esmagou a sua congénere Israelita, a provar que não passaram à fase seguinte, para disputar os primeiros lugares, porque não quiseram, preferindo, por amor ao futebol, ir disputar a ida aos JO de Pequim (sempre é mais um jogo), foi relegado para plano secundário. Nem sequer foi tido em consideração o estatuto de estrelas dos rapazinhos, ganho pela sua voluntariosa disponibilidade de, nos intervalos dos treinos, fazerem serviço cívico a arrancar mato, dando o seu contributo no atenuar do risco de incêndios e melhorar o meio ambiente.
Deste modo, aprendem também o que custa a vida nesta zona do país.
Foi com este espírito que em 1999, o então ministro do Ambiente (hoje nosso Primeiro), tomou a iniciativa de implementar o Plano de Acção Nacional de Combate à Desertificação, o famigerado PANCD, que visava intervir nesta área e que, até hoje, nunca tinha sido posto em prática.
Pois bem. Com a finalidade de assinalar a data, foi entregue às autarquias, para reduzir os elevados índices de desertificação, um kit de emergência para combate a incêndios há tanto almejado.
À falta de acções de formação para manuseamento do equipamento, que só serão facultadas após terminar a época de fogos (porque agora já não há tempo), foi fornecido aos utilizadores um manual de instruções em estrangeiro. Assim sempre aprendem línguas, não se repetindo a má experiência dos telemóveis que, mais ou menos com a mesma finalidade, foram entregues aos pastores serranos com manual em português, segundo diziam os próprios: "isto para mim é chinês".
Também já se pode dizer que, por cá, o "safe-se quem puder" e o "ai de mim se não for eu", que ia valendo aos raianos, que aqui nasceram e por cá se mantêm, fazerem pela vida, é coisa do passado.
A solvência das autarquias locais é agora um facto.
A conjuntura económica favorável e a vontade política do poder central, dão-lhes capacidade para resolver problemas de fundo, pelo que se acabou o ter que ir atamancando aqui e ali nas situações mais prementes.
As expectativas confirmaram-se e o governo vai passar a dar mais dar mais atenção a este canto de Portugal.
Foram desbloqueadas as verbas destinadas a atenuar a interioridade para resolver de vez o problema da seca e da desertificação, tanto dos solos como humana.
A revitalização da agricultura, que irá permitir a plantação de milhares de hectares de relva para campos de golf, estando garantida a rega através do acordo luso-espanhol (ou hispano-portugués, é a única dúvida) para, aproveitando o transvaze das águas entre Duero Y Tajo, aqui fazer chegar um canal.
Acabaram-se as negociatas para dar destino às verbas do orçamento que todos os anos originava uma nuvem negra provocada por uma clientela de necrófogos, que habitualmente gravitam pelos corredores dos luxuosos gabinetes da tecnocracia, onde agora as decisões que visam dar melhores condições aos desfavorecidos e desprotegidos, já não são tomadas cegamente. É tudo feito com conta, peso e medida.
Já que vem a talhe de foice, bem se pode dizer que esses investimentos, nos quais se incluíam aparelhos de climatização que, ano após ano, substituíam os que haviam sido colocados no ano anterior nesses gabinetes, foram canalizados para outras necessidades.
A climatização é agora feita através da ventilação natural, pelas janelas, e os ocupantes desses espaços tomaram consciência e passaram a sair à rua para apanhar sol, tal como os lagartos nos primeiros raios primaveris.
Todos os anos, em muitas empresas e instituições públicas, eram esbanjadas verbas do orçamento de investimentos que, ao invés de serem aplicadas onde realmente é necessário, eram aplicadas sem critério, gastando-se por gastar, simplesmente para justificar um pedido de investimento num devaneio qualquer e lhe não perder o direito se o investimento tivesse de passar para o ano seguinte.
Acabou-se o cortar no necessário para gastar no supérfluo, ou seja: acabou-se a política do "Isto no é meu nem de mê pai, que se tchape … toca a estranfoniar que prá frente é que é Lisboa".
Assim sendo, já não precisamos de tanta paciência para alimentar a esperança.

sexta-feira, junho 15

14:2007- DIA 17 de JUNHO

Barragem da Granja de São Pedro (entre Toulões e Alcafozes)
afectada pela grande seca de 1981/82
17 de Junho de 2007,
DIA MUNDIAL DE COMBATE À DESERTIFICAÇÃO E À SECA
A propósito deste dia:
«Mais de metade do território português corre o risco de ficar deserto e seco nos próximos 20 anos».
«… mas, independentemente desse cenário futuro, cerca de um terço do território já sofre "uma grave desertificação", da qual a seca, os incêndios florestais e o despovoamento do interior, devido à "concentração excessiva da economia e da população no litoral", são "expressões evidentes"…»
«… todo o interior junto à fronteira com Espanha, do Algarve a Trás-os-Montes, está a ficar deserto, com a perda de potencial biológico dos solos (desertificação física) e de população (desertificação humana)».
«… até agora, muito pouco tem sido feito para inverter esta tendência de desertificação e evitar os piores cenários … … defendo a adopção de medidas concretas e eficazes de fixação da população activa nos meios rurais, de conservação do solo e da água e de recuperação das áreas já afectadas
Palavras de EUGÉNIO SEQUEIRA
, ambientalista, presidente da LPN (Liga para a Protecção da Natureza), à imprensa.

quinta-feira, maio 24

13-2007: BTT em Toulões (crónica)

(portfólio fotográfico, em baixo, na entrada anterior)
Há dias assim!
Vai-se à terra passar uns dias com a família e retemperar no sossego da aldeia, onde nunca nada parece acontecer, e eis que surge, inesperadamente, uma agitação descontrolada; uma azáfama citadina invulgar por estas bandas, que, neste caso, até é um bom argumento para trazer à rua os velhotes que por aqui vão andando.
A realização da 2ª Maratona Internacional BTT de Idanha-a-Nova, neste fim de semana, que integrou Toulões no seu percurso, trouxe ao conhecimento dos mais idosos as vivências de uma modalidade desportiva com grande adesão, para eles completamente desconhecida.
Os cerca de 900 atletas participantes, (mais 1000 inscritos a edição deste ano), vindos de diversos pontos do país, e também alguns espanhóis, deram tamanho colorido à aldeia que mais parecia dia de festa. E pelo que constatei, comparando com os 350 da edição do ano passado (a 1ª) que por cá passou quase despercebida, apercebi-me que provaram, gostaram, repetiram e trouxeram amigos.
Com partida de Idanha-a-Nova, num percurso que uniu as localidades de Alcafozes, Toulões, Salvaterra-do-Extremo, Zarza-la-Mayor (Espanha), Segura, Zebreira e regresso de novo à Idanha, os "biciclistas" tiveram de percorrer, por montes e vales, "caminhos com algumas zonas técnicas (como dizem os entendidos)", circulando sempre por trilhos rurais que nem o GPS consegue vislumbrar.
Entre Toulões e Zarza (Sarça, como se diz por aqui) esses trilhos são os mesmos pelos quais os antigos contrabandistas palmilhavam no seu jogo do gato e do rato com as autoridades aduaneiras, dum e outro lado da fronteira e que, posteriormente, foram também usados pela rapaziada nova quando ia de bicicleta até Salvaterra para num saltinho a Espanha, ir às festas, comprar sapatilhas, calças da Lois ou chumbinhos de pressão de ar para caçar pássaros.
Quantas vezes, por aqueles gorroais no atravessar dos ribeiros, às vezes com dois numa bicicleta, se furava uma câmara de ar, contrariedade essa que mandava desenrascar.
Se os participantes nestas provas se equipam com boas ferramentas e sofisticado material de substituição, naquele tempo, enchia-se o pneu com um nagalho feito de duas ou três paveias de junça, de juncos e ás vezes até mato que, tal como nesta ocasião, "ala que se faz tarde, que no caminho tem de se andar a nove".
Mas a competição não é levada a sério por todos da mesma forma. À chegada ao posto de abastecimento aqui instalado, os que lutavam por um lugar na frente nem sequer pararam, mas os farrombões, os que participam habitualmente nestas iniciativas a pensar mais no jantar convívio do que na classificação final têm outras prioridades:
- Onde é que está esse chouriço afamado, que eu só cá vim por ele?
Está claro que chouriço nem cheirá-lo, mas certamente que o sentir da hospitalidade raiana não deixou ninguém indiferente. Bastava ver a forma como as gentes de Toulões que assistiam ao passar dos concorrentes se dispuseram, espontaneamente, a colaborar na distribuição de garrafas de água e comida (estou convencido que nas outras terras foi igual) e como alguns desses concorrentes, nada preocupados com a classificação, paravam e conviviam.
Para estes (e estas – honra seja feita às senhoras participantes), a ver pelo desgaste físico com que por aqui passaram, rompendo por uma canícula de 35º, pouco habitual em fins de Maio, o melhor prémio terá sido um banho retemperador ao atravessar a Ribeira Espanhola (rio Erges) pela ponte nova, ali no Vale de Idanha, ligeiramente a montante de Salvaterra.
Em Toulões trataram-se também algumas mazelas decorrentes de algumas quedas aparatosas (ossos do ofício).
Foi no aspecto da assistência que quanto a mim houve um senão da organização que poderia ter aqui previsto, já não digo um posto de enfermagem, mas pelo menos uma caixa de primeiros socorros. Uma dor de alma ver alguns chegarem aqui todos esfarraixados nas pernas e nos braços, sem haver ninguém, nem nada, para desinfectar escoriações.
Esta visão ensanguentada trouxe logo à discussão, entre os presentes, comparações conjecturadas e foi então que veio à baila um episódio passado com o Gardoxa; o primeiro garoto a ter uma "bciclete" nos Toulões.
Uma vez, ainda numa fase de aprendizagem no domínio do equilíbrio em duas rodas, pedalando atabalhoadamente pela rua da igreja abaixo, mesmo à porta do ti Cascarão, atropela um vulto do qual não se conseguiu desviar. O vulto, uma mulher, caiu para um lado e ele caiu desamparado para o outro. Ao levantar-se da calçada, tolhido, exibindo umas chagas que nem Lázaro, na sua ingenuidade de gaiato de sete anos, dirige-se à mulher com a educação que a raiva às vezes nos dá em momentos de descontrolo: "Filha da puta, por causa de ti é que eu caí!"
A senhora, sentindo-se ultrajada na sua razão, esgargalou-lhe os olhos com que noutras ocasiões lhe impusera respeito. O Gardoxa, ao reconhecer naquele olhar contundente a autoridade da dona Deolinda, sua professora, pareceu ter desaparecido por entre as pedras da calçada embrulhado na dor que as feridas lhe provocavam.
Mas se alguns se "espalharam" foi porque não tiveram a sorte milagrosa do Zé "Chouchinho", um ás do pedal que fazia da sua pasteleira, mais pesada que o cilindro de ferro fundido que jaze cheio de ferrugem no campo da bola, o seu meio de transporte para o trabalho.
Uma história também relembrada ocasionalmente entre amigos, ocorrida numa tarde de um início primavera, ainda invernosa, sobre o pontão do ribeiro do Vale das Vacas.
O pontão, acabado de ser construído, com a laje do tabuleiro a fazer uma pequena depressão a meio onde se acumulava água das chuvas, formava um charco que obrigava os passantes a contorná-lo, passando junto à berma ainda sem guardas.
O Zé regressava do trabalho, num corte de lenha no Vale de Cardas, acompanhado por alguns colegas que também se deslocavam diariamente de bicicleta.
Chegado ao pontão, ao tentar desviar-se do charco, a roda dianteira da bicicleta resvala do pontão e o Zé, por um enésimo instante, viu-se mesmo estatelado três metros abaixo, no leito do ribeiro.
Mas eis que uma instintiva guinada de guiador fez com que, milagrosamente, uma pontinha de inerte saliente do betão, lhe deitasse mão à roda e a pusesse de novo em cima do pontão. Naquele aparato, e enquanto o Zé se recompunha do susto, limpando o suor com que o nervoso lhe inundou a fronte, instataneamante caleada, só a cesta da merenda, que vinha mal presa no suporte traseiro da bicicleta, parece ter sofrido danos colaterais ao mergulhar de chapão na água lamacenta do charco.
"Tinhas o anjo da guarda debaixo da ponte!"
O fenómeno foi objecto de estudo cientifico por parte dos colegas que pararam a tentar perceber como tal acontecera. O próprio Zé "Chouchinho" todos os dias ali descia da bicicleta como que para se ver pedalar e rever o movimento impossível que o segurou.
Esta história, que contada parece "história", mesmo com o testemunho dos colegas, deixou muitas vezes o Zé agarrado ao epíteto de poupa.
"Pou-pou, és um mintroso!" diziam-lhe.
Mas história à parte, com esta corrida de bicicletas que animou Toulões, foi gratificante verificar como estes acontecimentos mexeram pela positiva com esta população idosa, tirando-a da rotina quotidiana.
Como diz o ti António "Lagarto" referindo-se à velhice: "cada dia que passa, é um dia a mais outro a menos!" e assim se alterando o velho ditado com a palavras adequadas na idade certa:
Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e retarda o envelhecer.

domingo, maio 13

11-2007: O segredo de Fátima

Foto tirada no Santuário da Sra. do Almortão (2006)

São públicos os valores respeitantes aos fabulosos lucros obtidos pelos Serviços do Santuário de Fátima, com uma grande fatia proveniente das dádivas dos fiéis. Talvez por esta razão, desde o ano 2000, tenha sido tomada a decisão de não guardar segredo sobre o assunto, tornando transparente o "Resumo das Contas" e sendo mesmo dada a possibilidade aos peregrinos contribuintes, de pedirem cópias do relatório, um pouco contra a vontade do Vaticano que, segundo alguma imprensa, manifesta alguma apetência pela gestão dos dinheiros gerados pelo "Altar do Mundo".
Todo o movimento que gera estas avultadas receitas, gera igualmente uma enorme quantidade de postos de trabalho no comércio e turismo locais, contribuindo directa ou indirectamente para a grande revitalização da economia de uma zona que inicialmente parecia destinada a ser apenas um lugar de meditação, quase deserto, que em trinta anos passa de aldeia a cidade, contrastando com a interioridade raiana cada vez mais acentuada.
A 13 de Maio de 1967, aquando da comemoração do cinquentenário das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, com a presença de Sua Santidade o Papa Paulo VI, que aqui se deslocou para rezar pela paz no mundo e em simultâneo pela unidade da Igreja. Nesse dia, no Santuário da Cova da Iria, a escassos quilómetros da aldeia de Fátima, estiveram presentes milhares de peregrinos, vindos de todos os cantos do país, incluindo alguns de Toulões que aqui chegaram "sabe Deus como".
Se tivermos em conta as dificuldades de comunicação, de acesso viário e a escassez de meios de transporte nessa altura, adivinhamos as dificuldades e os sacrifícios que a fé ajuda a ultrapassar.
Hoje, derrubadas estas barreiras, chegam anualmente cerca de seis milhões de fiéis ao Santuário da Cova da Iria, considerada "terra mística de procura incessante de fé, porto seguro de todos aqueles que procuram luz, harmonia e paz" que, aproveitando a visibilidade proporcionada pelo evento, (é mostrada ao mundo como um lugar pacato que beneficiou da bênção divina dada a esta região desde 1917) se torna num pólo de desenvolvimento do turismo religioso por excelência, apesar de se dizer que a Igreja se encontra numa manifesta crise de Fé.
Quando em 1967 um rebanho humano apraiou por estas terras áridas, talvez a ninguém lhe palpitasse que passados dez anos esta aldeia de pastores fosse elevada a vila (19/7/1977) e muito menos que, vinte anos depois (em 4/6/1997), a Assembleia da República elevasse a vila de Fátima à categoria de cidade.
Em termos de desenvolvimento, quer económico, quer urbanístico, a evidente ascensão desta localidade não terá sido um milagre, mas olhando com alguma superstição para as datas dos acontecimentos, reparo que o algarismo 7 é constante em todas elas.
Neste ano que corre (2007) nada parece acontecer relacionado com o facto, mas em 2017, coincidindo com as celebrações do centenário das aparições, é bem provável, (e fica aqui o meu vaticínio) que se dê a coincidência de haver festa rija para comemorar a elevação da cidade a concelho.
-Talvez estejamos perante um dos segredos de Fátima?

sexta-feira, abril 27

10-2007: Trabalhos de Maio

Cabo Ruivo - Lisboa 1958
Construção de um empreendimento industrial
Foto de autor deconhecido

Passadas as celebrações do 25 de Abril, trinta e três anos depois, os cravos da Liberdade parecem definhar a cada ano que passa.
E não é de admirar! Basta ver o respeito que algumas entidades públicas guardam pelos valores de Abril. Como exemplo, a pontaria da presidência da CML, na escolha da data de inauguração da polémica obra do túnel do Marquês, talvez perspectivando lá poder enterrar os poucos cravos que ainda mantêm algum viço, ou então esconder os rabos de palha de algum manjerico sob suspeição, enquanto o desfile comemorativo da efeméride lhe passa por cima.
Bom, mas vamos ao início!
Em 1974, para a maior parte da gente das aldeias do interior raiano, o anúncio do fim da ditadura teve o mesmo impacto que tivera o 5 de Outubro de 1910 com a queda da Monarquia e a implantação da República ou, mais recentemente, o primeiro passo em solo lunar por parte do americano Neil Armstrong, ou seja: impacto nulo a que nem se pode chamar indiferença nem incredulidade.
A mente da população, mantida na ignorância, era impedida de alargar horizontes para lá das fronteiras do seu termo e compreender o 25 de Abril, foi uma árdua tarefa que chegou a conta gotas.
Ninguém tinha consciência política e o único governo que conheciam era apenas o seu próprio governo. Aquele com que geriam o ganha-pão para o sustento da casa e da família.
Dos governantes que conduziam os destinos da nação apenas conheciam os que zelozamente pairavam pendurados sobre o quadro negro da escola, representados pela nova Santíssima Trindade: Jesus Cristo redentor, ministro de Deus, crucificado para salvar o Mundo, auxiliado na sua laboriosa gesta pelo chefe do governo ao momento, um homem austero, que adorava seroar em família, permanecia, tal como o seu antecessor, orgulhosamente só, pendurado à direita de Cristo Pai.
Do outro lado, estava dependurado o chefe do estado. Enfaixado, olhando fixamente para a parede em frente com carranca de poucos amigos, fazia do uso da tesoura o seu modo de evitar a inépcia.
O país desandava a pão e vinho e cantava-se o fado da "sardinha para três", que contava a história da miséria, num tempo em que o fraco sustento dependia de uma economia enfezada, proporcionada por uma decadente agricultura tradicional, caracterizada pelo uso de velhos métodos que não acompanharam a evolução surgida na Europa depois da Segunda Guerra, só atenuada após o aparecimento da metalurgia do Tramagal.
Para escapar deste quadro dantesco, muita gente nova foi levada a procurar outro modo de vida em terras do litoral, principalmente em Lisboa.
Chegada a idade para trabalhar, aí com 11 ou 12 anos, muitos garotos eram despachados "a escorregar, tábua abaixo" (como dizem alguns alfacinhas invejosos do que o seu suor produziu) até à capital, para servir de mocinhos de recados e de caixeiros em lojas e mercearias.
Os mais velhos, já com a tropa feita, candidatavam-se a incorporar os contingentes das forças de segurança, os sapadores bombeiros, que lhes garantiam um emprego com condições dignas para poderem ajeitar a vidinha.
Para os que não conseguiam ou para aqueles a quem o trabalho não correspondia às expectativas, sobrava a construção civil. Trabalho mais duro, é certo, mas não menos honrado e com um horário que nada tinha a ver com o sol-a-sol das jeiras agrícolas.
Mas alguns Toulonenses que tentaram a aventura lisboeta, sentiram-se atraídos pela envergadura das chaminés fumegantes que rasgavam o horizonte sobre as águas do Tejo, avistadas do outro lado do rio mesmo em frente ao Terreiro do Paço.
Era o sinal da industrialização que transformara o Barreiro, outrora terra de fragateiros, num dos maiores pólos de desenvolvimento do país e que dava pelo nome de Companhia União Fabril.
A CUF clamava por braços de trabalho e foram estes homens de mãos calejadas que formaram a grande mole operária, que de trabalhadores rurais rapidamente passaram a operários fabris de uma indústria que florescia num desabrochar primaveril, prontos a limpar da memória o grito justo de revolta contra o estampido do chicote dos feitores.
Chegados à grande urbe, esta deu-lhes a conhecer uma nova realidade: a luta operária na defesa de melhores condições de trabalho, coisa que na ruralidade raiana, nunca entrara em sonho nenhum.
Alguns mais deslumbrados, depressa se viram enredados na entusiasmante malha ideológico-partidária e no consequente trabalho de campo de fazer chegar a todos os que partilhavam dos mesmos ideais a informação que uniformizava o pensamento e que tornou a CUF no principal bastião da luta proletária.
Vieram as reuniões secretas às tantas da noite no Pinhal do Forno, para os lados de Alhos-Vedros, ou no Pinhal do Castanho nos arrabaldes da Baixa da Banheira, onde ouviam as palestras dos "cabecilhas", alguns com experiências trazidas de outras reuniões clandestinas, organizadas nos montados do Couço e outros lugares do Alentejo.
Ali se vinham ouvir notícias do mundo operário que ajudavam a delinear estratégias de combate laboral.
O ti Sebastião, funcionário da CUF quase desde a sua fundação, Toulonense que nunca se negou a dar a mão a um conterrâneo, fora sufragado pelo destino para tomar conta da telefonia. Colocava um o copo com água sobre o aparelho para afogar as frequências denunciadoras antes que chegassem aos detectores da Legião, que formava acérrimas milícias anticomunistas.
E foi numa noite de 1 de Maio que, através da onda curta da Rádio Moscovo, chegou solenemente pela voz de um ex-colega do ti Sebastião, Francisco Ferreira (Chico da Cuf), exilado na URSS, a mensagem, palavra de ordem, proclamada cerca de cem anos antes por Karl Marx:
PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

sábado, abril 14

9-2007: As alvíssaras

A nomeada da Senhora do Almortão (ou do Almurtão) expande-se muito para lá da campanha da Idanha, tal como referem algumas quadras da cantiga. O ecoar do seu "cancioneiro" chega aos quatro cantos do país, recriado pelo talento de grandes nomes do nosso panorama musical, trazendo alguns benefícios na implementação do turismo nesta região.
Vultos como Zeca Afonso, Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Janita Salomé, e outros, dando voz ao tema da Sra. do Almortão, encantados com a sua musicalidade, tornaram ainda mais célebre esta ária considerada o hino do município de Idanha-a-Nova.
Muitas vezes, inadvertidamente, dávamos connosco a cantarolá-la, um pouco à maneira de como, em grupo na escola, se estudava a tabuada em voz alta: "Todos sabíamos a música de cor, mas alguns tardavam a acertar com a letra".
Se a Senhora do Almortão (a cantiga) é conhecida pela quase generalidade dos portugueses, pela simplicidade de três ou quatro quadras que unanimemente foram escolhidas pelos cantores atrás referidos, das quais se destaca uma, talvez a mais conhecida, tida como uma sentimental manifestação do patriotismo raiano, pedindo à "tão linda arraiana para virar costas a Castela e não querer ser castelhana", poucos saberão que esta canção não tem letra definida.
Todos os anos, novas quadras de cariz popular, muitas delas improvisadas num despejar de alma, são cantadas por vozes anónimas, principalmente por mulheres devotas dos povos das redondezas dando vida nova à cantiga.
Acompanhadas por concertinas, realejos, zamburras e pelo rufar ritmado dos adufes que elas próprias (as agora designadas Adufeiras) tocam de forma tão exímia, com essas novas quadras cumpria-se a tradição de "dar as alvíssaras à Virgem do Almortão", como que a fazer anunciar a chegada do "rancho" à romaria, para venerar a santa padroeira do concelho.
A criatividade dessas quadras, juntamente com a actuação dos romeiros no alpendre à porta da ermida, chegaram mesmo a ser apreciadas por um júri, com vista a premiar os melhores desempenhos, tendo havido anos de grandes despiques entre aldeias, para ver qual delas ganharia "o ramo".
Esta tradição também era naturalmente cumprida pelas gentes de Toulões.
O canto de um grupo de mulheres, às vezes esganiçado, mas sempre afinado por uma fé inabalável, mesmo abafado pelo som dos diversos instrumentos que as acompanhavam, convenceu o júri a atribuir-lhes o simbólico troféu, que eu me lembre, por duas ou três vezes.
Era ainda a altura em que os cantares eram ensaiados durante a viagem em grupo, feita em carros de vacas, carroças engalanadas, burros e cavalos albardados com adornos garridos em que se parava a meio percurso para almoçar e dar também repasto às bestas.
Pelo caminho afinavam-se as gargantas. As mulheres cantavam para decorar os versos novos e os homens, incluindo os tocadores que pouco ou nada cantavam, também afinavam as suas, mas era mais com a "borracha" do vinho à laia espanhola.
Para a maioria destes, o "ir dar as alvíssaras" era uma quase obrigação num toca a despachar porque na festa há outras prioridades.
Terminada a intervenção, empinados à porta da capela, os homens empontavam as mulheres com a canalha e, acompanhando os tocadores, iam eles dar a volta às capelinhas e ler umas epístolas, balcão aqui, balcão ali. Os cânticos a Nossa Senhora depressa descambavam em despiques à desgarrada entre romeiros de diversas freguesias, sempre ao toque da concertina.
Até à hora da missa campal e da procissão que se lhe segue não havia regra.
Mesmo para alguns, só a derradeira morteirada da descarga pirotécnica a assinalar o final da procissão, que para as mulheres significa o recolher de Nossa Senhora à ermida e para os homens o recolher dos romeiros à sombra onde os espera uma merenda bem farta, punha termo ao sempre a aviar.
Contava-se a história de tocador "afamado", ainda com a figadeira a destilar os excessos dos três dias de festa em Toulões em honra da Senhora das Cabeças, que se realiza nas vésperas da Sra. do Almortão, para além de carregar com a concertina carregava também com uma valente borratcheira.
Quando quis recolher ao local onde tinha a merenda, para ir mais leve, foi aliviar a carga nas traseiras do muro que circunda o recinto. Já sem força nas pernas, aí ficou de joelhos um bom catcho numa penitência involuntária, com corpo sobre a sanfona e o chapéu caído por terra perante um ror de gente num constante formigar.
Na hora da abalada, depois de mais uma volta pelo recinto para comprar as últimas lembranças aos que não puderam vir à festa, o "rancho" preparou-se para a cantadela na apresentação das despedidas à santa, mas do tocador não havia rasto.
Encontrado em maus preparos e com a cabeça ainda pesada, a custo lá se levantou.
Rabugento, apanhou o chapéu do chão e qual não foi o seu espanto que, ao pô-lo, tilintaram-lhe umas quantas moedas na careca. Uma esmola de dez ou quinze marréis fora deixada por alguns fiéis mais caridosos que o confundiram com um mendigo.
Lá se compôs e foi com o grupo cantar o "até pró ano". Ele, que raramente cantava, embalado ainda pela desgarrada de umas horas atrás, saiu-se assim:
Senhora do Almortão
Ajoelho-me a vossos pés
Bem-haja por esta esmola
Que vale bem uns copos de três

Bem, esta quadra não pertence certamente à recolha feita por alguns ilustres idanhenses, estudiosos do fenómeno poético dedicado à Senhora do Almortão, mas, agora que já vos oiço a trautear a cantiga, aqui vos deixo umas quadras de Toulões, (que poderiam bem ser de outra terra qualquer do concelho), para poderdes cantar no dia 23 de Abril (de segunda feira a oito dias) já que este ano eu não vou poder lá estar.

Senhora do Almortão
Este ano já trago noivo
Venho-vos agradecer
Com estas flores de goivo

Refrão (substitui o bem conhecido "olha a laranjinha...")
Vai de fogo e mus’ca
Q’arrail tão lindo
Ai, velhos e novos
Tudo lá vai indo
Vai devagarinho
Sem alevantar pó
Trai-lari-lo-lela,
Trai-lari-lo-ló

Senhora do Almortão
Já passei o Aravil
Levo-vos rosas brancas
No regaço do mandil

(refrão)

Senhora do Almortão
Nossa Santa padroeira
Vimos enfeitar-vos o andor
Com rosinhas de albardeira

(refrão)