quinta-feira, agosto 30

20-2007: A festa, que futuro?

Lá passou a festa!
Mais animada para uns, menos animada para outros, (é que nisto das festas é sempre difícil agradar a Deus e ao Diabo), mas honra seja feita às miúdas da Comissão 2007 que, com esforço e o apoio de familiares e amigos, cumpriram a divisa de dar continuidade à tradição e, pelo que me foi dado a perceber, o balanço foi francamente positivo.
Mas tão importante como os festejos propriamente ditos é a habitual "vinda à festa", sempre motivo para encontros e reencontros com amigos e, curiosamente, com os filhos dos amigos; a nova geração de mocidade que nasceu fora e não conhecemos por a não ter visto crescer.
Da miudagem dos 18/20 anos para baixo já não se conhece ninguém. A alguns, pelas parecenças, ainda se lhe deslinda a "linhagem", são a cara ingerida dos progenitores, mas a outros?, não há contorcionismo mental que lhes consiga encarrelher com a genealogia.
No reencontro, mais ou menos cíclico, entre velhas amizades consolidadas na juventude pela partilha de experiências e cumplicidades, alegrias e tristezas, questiona-se o futuro da aldeia e a continuação da festa, vindo à liça comparações com o passado.
São amizades do tempo em que a estudantada se juntava aqui, vinda de todo o lado, para passar as férias escolares. Apanhava a carreira logo após terminadas as aulas e aqui ficava um Verão inteiro até dois ou três dias antes do recomeço das mesmas.
Conjuntamente com os "Franceses" que vinham passar as "vacanças" e a malta que por cá permanecia, na expectativa de agarrar uma oportunidade para se atirar ao mundo, tal como os pássaros na borda do ninho, esperando pelo momento de se sentirem seguros e se lançarem no vazio, experimentando a triunfal sensação do primeiro voo, a "rapaziada do mê tempo" unia-se e havia festa todos os dias.
Mas com o aproximar do dia da mais esperada, a de Santo António, a agitação aumentava.
Di-lo ia o ti Cavalinho, quando uma buliçosa chusma, aos magotes, lhe invadia a taberna: "Ca rai de joldra vem a ser esta, atão pariu p’ra aí a galega, ô quêi?"
Toulões era um mar de gente.
É um facto que o futuro dos jovens, os tais que já não conhecemos, não passa por aqui. Para eles a terra é menos convidativa e até desinteressante. Já não passam cá o Verão. Vêm à Festa, de fugida, já queimados pelo sol da beira mar, quase só para não desapontar a família, que por devoção se reune toda neste dia.
Mas, apesar de tudo, visto o entusiasmo ainda manifestado por alguns mais optimistas, estou em crer que, a exemplo das miúdas que este ano a organizaram, à nova geração, apesar de cá não ter criado raízes, talvez lhe venham a rebentar umas vergônteas, boas pôlas que hão-de aqui pegar de estaca, não deixando morrer a tradição do "vir à Festa".

terça-feira, agosto 21

19-2007: Assim se passou a Festa

Este post é dedidado a todos os Toulonenses, especialmente aos que aqui vêm visitar-me (e sei que são bastantes), fazendo votos de que a Festa do ano que vem seja tão boa ou melhor que a deste ano.









O dia da festa, propriamente dito, começa com a alvorada pelas ruas do povo ao som da banda Filarmónica Idanhense, com o Tó Jacinto a fazer de cicerone.
O andor do padroeiro é, por tradição, sempre transportado pelos elementos da Comissão de Festas. Este ano as catchopas que fizeram a festa, aguentaram nos ombros, como é dado (ou seja, estoicamente), todo o percurso da procissão.
Durante a apresentação do livro "Cancioneiro de Toulões" o seu autor, Manuel A. Marques, (Mnelzinho, como cá é tratado) explica aos seus colegas de palestra o significado do desenho que ilustra a capa. A Vaca-Galhana (ver aqui) que em tempos foi ex-libris do Entrudo de Toulões.
Com esta foto quero homenagear o Tónho "Santantonho", o eterno e honorário festeiro que estava sempre pronto a regar a terreiro para apagar a poeira, no tempo em que a festa se fazia no adro. Apesar do seu atraso, quantas vezes animou a festa, sendo sempre acarinhado pelos Toulonenses.
Esteve tudo bem pensado e notata-se uma evolução de mentalidades. Até a criançada teve direito ao seu momento de festa durante o arraial com um concurso de desenho! É uma boa forma de fazer com que as crianças ganhem afeição pela terra.
Mais ou menos seis arrobitas de carne marcharam enquanto o diabo esfregou um olho.


A música teve muito som, muito movimento, mas pouca luz (daí as fotos terem um cariz mais artístico do que documental). Talvez o único senão da festa foi o facto de o conjunto tocar mais para a malta nova. O pessoal de idade mais avançada, que gosta dar o seu pésinho de dança ao som de música popular, desta vez foi mais o tempo que ficou a ver.

SÓ ME RESTA DESEJAR BOA SORTE AOS FESTEIROS DE 2008 E DEIXAR AQUI UM ABRAÇO A TODOS.

sexta-feira, julho 27

18-2007: FESTAS DE TOULÕES

Para todos quantos aqui chegam dando-me o prazer da vossa visita, mas, no caso, especialmente para os vizinhos, aqui deixo o cartaz das festas de verão deste ano com o respectivo programa do qual destaco três momentos:

PRIMEIRO (Sábado - 17:30h)

Faz também parte do programa das festas um momento cultural com o lançamento do livro "Cancioneiro de Toulões" pelo nosso conterrâneo Manuel Antunes Marques.
Imaginando o conteúdo desse livro, deixo uma das décimas desgraçadíssimas criada pelo ti Zé Louro, dita e cantada durante anos pelo povo de Toulões, tendo chegado até hoje como abaixo se regista.


Houve uma grande zaragata
Nos termos da nossa terra
Não quis acudir ninguém
Ao caminho de Salvaterra
O Ribeiro do Malhão
Como é bruto e revoltoso
Deu uma sova no Raposo
E esfaqueou o Barrocão
Na eira do Fontanhão
Espetou cem vezes a faca
Depois com uma estaca
Quis destripar as Lameiras
Então lá no Vale das Eiras
Houve uma grande zaragata

O Malhadil da Barronceira
Deu uma sova no do meio
Esperaram pelo correio
E foram dar parte à Zebreira
O Ribeiro da Feiteira
Mais bravo que uma fera
Cortou a cabeça à Serra
E um braço ao Serralhão
Houve grande revolução
Nos termos da nossa terra.

Archelona e Muro de Barro
Ao formarem novas herdades
Chincaram os olhos aos Frades
Lá prá Horta do Catarro
O Vale das Vacas veio num carro
E veio o Agulhão também
Porque o Vale das Azedas tem
Dez facadas na barriga
Corre o sangue à Toula arriba
E não lhe acode ninguém

Lá anda o Malhadil Cabeiro
Aos pontapés nas Lágrimas
Lá andam as Fontainhas
À bulha pelo Barreiro
Viu-se também o Chão Cimeiro
Aos Direitos fazer guerra
Mas ao ouvir gritar a Serra
Fugiu e anda a monte
Foi visto no Chão da Fonte
Ao Caminho de Salvaterra.


SEGUNDO (Sábado 19:30h)


O tradicional porco no espeto.


É tão bom que estou à vontade para garantir:

"NEM O TOUCINHO CÁ FICA!".

TERCEIRO (Todo o resto da festa)

A animação e a boa disposição estão garantidas. Para além dos artistas que constam do cartaz, estarão também presentes (por ordem alfabética): Emanuel, Mónica Sintra, Quim Barreiros, Quinzinho de Portugal, Rute Marléne, Vários Acordeonistas, etc., todos eles constantes do repertório em CD do Sr. Esteves (o homen da aparelhagem).
Fica aqui um aviso aos artistas participantes.
Dado ser tradição dançar o fandango durante o arraial, aquele que for solicitado e não o saiba tocar, para além de não receber, ser-lhe há apichada a canalha e será encorrido até ao leque da Zebreira.

BOAS FESTAS E BOAS FÉRIAS A TODOS, ... EU TAMBÉM VOU!

quarta-feira, julho 18

17-2007: A lenda de TOULÕES

O texto de hoje (transcrição integral) é da autoria do Dr. Jaime Lopes Dias, estudioso das nossas tradições e escritor erudito, que o publicou no 1º dos 11 volumes que compõem a sua obra Etnografia da Beira.
Conta-nos uma lenda sobre Toulões, que remonta aos primórdios da formação da localidade e deu origem à ainda hoje celebrada festa de Santo António.


SANTO ANTÓNIO E O LÔBO BRANCO
A ânsia de maiores rendimentos e a necessidade de melhor aproveitamento dos extensos incultos de entre Zebreira e Alcafozes, levaram alguns moradores desta última povoação - a que se juntaram outros de Monsanto e de Idanha-a-Velha - a fixar-se, no comêço do século XIX, a sudoeste da Serra da Monracha, junto da ribeira da Toula.
Surgiram as primeiras cabanas de colmo, constituiu-se o primeiro núcleo de povoadores a que vieram associar-se outros de Idanha-a-Nova, Salvaterra do Extremo e Zebreira, por forma que Toulões tinha já em 1840 mais de quarenta fogos.
Apascentando os seus rebanhos, cultivando as terras de Malhadiz foreiras do município de Monsanto, a vida, embora dura, corria-lhes em boa paz.
Em presença de extensos matagais que o duro trabalho de cada dia não chegava para desbravar, todos, homens e mulheres, velhos e crianças tinham o seu mester.
Enquanto os homens acompanhavam, rêgo a rêgo, as juntas de bois no revoltear do terreno, ou levantavam, de sol a sol, o pesado enchadão, as mulheres entregavam-se aos serviços domésticos, à sacha e à monda nos campos, e as crianças à guarda dos rebanhos.
E mal o sol despontava, lá iam todos, diariamente campo em fora, cada qual à sua ocupação.
No lar de uma das pobres choupanas, preparada já a ceia e reünidos os familiares, faltou certo dia o mais tenro dos pequeninos.
Debalde esperaram os seus, por largos minutos, o regresso.
Divulgada a notícia pela povoação, todos os moradores, núcleo de bons vizinhos, onde os desgostos como a alegria de um são desgostos ou alegria de todos, pressentindo desgraça, correram à porfia, montes e vales, a gritar e a clamar inutilmente pelo infeliz desaparecido.
Passaram dias, correram meses, e novas crianças faltaram.
Inùtilmente procuravam aquelas almas aflitas, na simplicidade dos seus conceitos razão justificativa de tão grande desgraça!
Os mais velhos, baseados na velha crença de que lôbo que uma vez se alimente de carne humana passa a atacar e procurar o homem, atribuíam àquelas feras a sua dor, o seu luto.
Toulões passava dias aflitivos.
Um grupo de homens bons, seguros na sua fé, resolveu tomar a iniciativa duma festa a Santo António, advogado das coisas perdidas e patrono dos vivos, para que os livrasse de tão grande dano.
A festa realizou-se, efectivamente, com o maior luzimento, e desde então, aquêle pequenino povo, escudado na sua devoção pelo santo, passou a viver confiante, sem maiores receios. Desaparecera a origem dos seus sobressaltos e da sua dor.
Dificuldades monetárias que surgiram, ou desleixo que o nosso povo costuma bem traduzir nas palavras «só lembra Santa Bárbara quando faz trovões», deixaram que a festa caísse em desuso.
Passaram dias, anos, e quando todos se julgavam em boa paz e segurança, Jerónimo Manso, de poucos anos de idade, que apascentava o gado de seus pais, foi súbita e inesperadamente atacado por um lôbo de côr pardacenta com uma malha branca no abdómen. Às garras da fera teria perecido se lavradores que próximo andavam não tivessem acudido com rapidez aos gritos aflitivos do pequeno.
Ao pobrezinho pôde ainda a fera roubar um pedaço de couro cabeludo, pelo que teve de usar, durante tôda a sua vida, que foi comprida, um pedaço de cabaça das de trepar, para proteger a parte desnudada.
Estava o povo de TouIões reentrado em amargurados dias de desassossêgo e intranqüilidade!
Era preciso dar caça à fera, empregar os últimos esforços para que, de uma vez, se limpasse o lugar daquela peste.
Exímios caçadores percorreram as redondezas. Viram o lôbo, chegaram mesmo a atirar-lhe.
Voltar a cumprir a promessa feita a Santo António era dever de boa gratidão, remédio certo, no crença e fé de TouIões.
E a festa. embora à custa de sacrifícios, ressuscitou.
Veio a música, e à missa, que foi a grande instrumental e com tôda a pompa, acorreu todo o povo debaixo da mais funda impressão. E quando todos se preparavam para fazer sair a procissão: pendões já no ar, insígnias multicolores de confrarias a dar nota garrida, alguém veio dizer que o lôbo fôra encontrado morto no campo.
Muitos correram a certificar-se da veracidade da boa nova. Hossanas a Santo António! A fera estava efectivamente morta! Lágrimas de dor, mas lágrimas de alegria! Santo António, que era já Santo, passava a ser, mais do que nunca, protector de Toulões e advogado das coisas perdidas!
E a fé que revolve montanhas, a fé santa e pura que salva e redime, passou a ser mais sólida e mais vigorosa do que nunca entre os incansáveis e bons vizinhos da Toula: os toulões.



A FESTA ESTÁ À PORTA, O PROGRAMA VEM A SEGUIR!

sábado, julho 7

16-2007: Na Rota das Maravilhas


Núcleo de moinhos de água recuperados no rio Ponsul, a jusante da barragem de Penha Garcia.

A desertificação e o despovoamento do interior são um facto indubitável. Progrediu na proporcionalidade inversa com que se degradou a actividade agrícola, cuja mola real, vítima de pasmo, não deu mais sinais de reacção e ficou sujeita ao cerco da UE, rendida ao sistema de subsídios para não morrer de asfixia.
Mas o futuro, que também passa por aqui, nem todos os dias se apresenta de ar sisudo. Os que conseguirem arrancar-lhe um sorriso, por certo irão ver as suas vidas recomporem-se de tantos e sucessivos tombos e, como não há bem que nunca acabe nem mal sempre dure, (prefiro dizer assim) da desertificação também surgem oportunidades.
À semelhança do sucedido com as nossas aldeias históricas (as Idanhenses), a aposta no turismo de ar livre parece estar a dar uma nova vivacidade a estes pequenos aglomerados populacionais, onde só o relógio da torre parece não ter deixado de acompanhar o ritmo do tempo.
Aproveitando alguns recur- sos com que a natureza graciosamente obsequiou estes locais, a partir desta realidade, gera-se riqueza em benefício desta zona, garantindo melhor qualidade de vida a muito boa gente jovem.
Escarpa quatzítica em Penha Garcia

A prová-lo, está a iniciativa em boa hora tomada pela Naturtejo, empresa intermunicipal integrada por 6 municípios, que se revelou um sucesso.
A apresentação da candidatura de um território que ocupa uma área de 4500 quilómetros quadrados, distribuída pelos municípios aderentes pela qual estão dispersos 16 monumentos naturais (Geossítios - vê-los aqui), foi coroada de êxito no Verão de 2006, ao ser classificada pela UNESCO como "Geoparque da Meseta Meridional".
Para esta empresa, na voz do seu presidente, «o Geoparque Naturtejo é a galinha dos ovos de ouro para os municípios abrangidos.»
E com toda a razão!
Eu, que mantenho sempre algum cepticismo relativamente ao que mexe com esta região, reconheço que este projecto tem pernas para andar. E digo reconheço, não por conhecimento de causa, mas pelo que por aqui se vai observando.
Penha Garcia - Trilobites, rasto de seres marinhos extintos há 250 milhões de anos.
Se hoje pareço ser incoerente com o que disse no post anterior, a realidade é que, neste caso, o investimento privado (criação de infra-estruturas para alojamento e lazer), supera o público (recuperação e manutenção dos locais a visitar) sinal de que as previsões de sucesso foram bem medidas.

A classificação atribuída desencadeou o designado Turismo de Natureza no Centro de Portugal e, pelo seu interesse, justificado com a organização de Rotas pedestres (vê-las aqui) e visitas a monumentos naturais, e outros eventos relacionados, já começou a atrair à região da "Raia Perdida" um grande número de turistas que põem a bulir actividades tradicionais que pareciam adormecidas.
Aqui estou apenas a referir-me ao que constato nas aldeias vizinhas que rodeiam Toulões, todas do concelho de Idanha-a-Nova: (ver Mapa aqui)
Penha-Garcia (Rota dos Fósseis - Parque Iconológico onde as formações rochosas guardam fósseis de seres pré-históricos, Rota do Contrabando e Moinhos do Ponsul), sobre a qual reportam estas fotos, Monsanto (Inselberg Granítico) e Salvaterra do Extremo, Segura e Rosmaninhal (Rota dos Abutres na área protegida do Tejo Internacional) Monfortinho (Rota do Contrabando) sem esquecer algumas que, não sendo abrangidas por este programa, merecem a honra de uma visita.
É o caso de Idanha-a-Velha, aldeia histórica amplamente divulgada por albergar um património histórico de inestimável valor, Medelim (aldeia dos balcões) e Prença-a-Velha (Núcleo Museológico do Azeite) onde um programa cultural com organização da iniciativa da Proençal - Liga de Desenvolvimento de Proença-a-Velha - faz periodicamente reviver as tradições que marcaram a vida dos mais antigos.

Para quem aprecie, tudo isto é vivamente recomendável.
Perder-se também quer dizer deslumbrar-se, mas perder-se e não se achar é deslumbrar-se perdidamente.
Com tanta coisa bonita que há por aqui, nestas férias perca-se por cá. Vale a pena visitar toda esta região de gente aberta e verdadeira.
E se por estas terras vos perderdes e não vos achardes é porque estais em TOULÕES. Não foi bafejada por nenhuma das maravilhas atrás citadas, mas garanto-vos que há muita hospitalidade e simpatia para distribuir.
Aqui, "uma côdea de centeio nunca se negou a quem cá veio, mesmo sabendo que "para o diacho que o amassou, nem uma côdea sobejou".

quarta-feira, junho 20

15-2007: Lagartos ao sol

Estou exultante!
O ênfase dado pelas entidades estatais com responsabilidade na matéria, no assinalar do dia dedicado ao Combate à Desertificação e à Seca, superou as minhas expectativas. O nosso Executivo deixou bem claro que seria dado um passo de gigante na recuperação do atraso de anos e anos, em que os sucessivos governos não apresentaram financiamentos, mas que, doravante, será invertida a tendência de desertificação do solo nas zonas afectadas do interior.
Mesmo a comunicação social, da qual se esperava uma tímida referência, badalou o assunto até à exaustão.
O impensável aconteceu: o rescaldo do jogo da selecção de sub 21 de Portugal, que esmagou a sua congénere Israelita, a provar que não passaram à fase seguinte, para disputar os primeiros lugares, porque não quiseram, preferindo, por amor ao futebol, ir disputar a ida aos JO de Pequim (sempre é mais um jogo), foi relegado para plano secundário. Nem sequer foi tido em consideração o estatuto de estrelas dos rapazinhos, ganho pela sua voluntariosa disponibilidade de, nos intervalos dos treinos, fazerem serviço cívico a arrancar mato, dando o seu contributo no atenuar do risco de incêndios e melhorar o meio ambiente.
Deste modo, aprendem também o que custa a vida nesta zona do país.
Foi com este espírito que em 1999, o então ministro do Ambiente (hoje nosso Primeiro), tomou a iniciativa de implementar o Plano de Acção Nacional de Combate à Desertificação, o famigerado PANCD, que visava intervir nesta área e que, até hoje, nunca tinha sido posto em prática.
Pois bem. Com a finalidade de assinalar a data, foi entregue às autarquias, para reduzir os elevados índices de desertificação, um kit de emergência para combate a incêndios há tanto almejado.
À falta de acções de formação para manuseamento do equipamento, que só serão facultadas após terminar a época de fogos (porque agora já não há tempo), foi fornecido aos utilizadores um manual de instruções em estrangeiro. Assim sempre aprendem línguas, não se repetindo a má experiência dos telemóveis que, mais ou menos com a mesma finalidade, foram entregues aos pastores serranos com manual em português, segundo diziam os próprios: "isto para mim é chinês".
Também já se pode dizer que, por cá, o "safe-se quem puder" e o "ai de mim se não for eu", que ia valendo aos raianos, que aqui nasceram e por cá se mantêm, fazerem pela vida, é coisa do passado.
A solvência das autarquias locais é agora um facto.
A conjuntura económica favorável e a vontade política do poder central, dão-lhes capacidade para resolver problemas de fundo, pelo que se acabou o ter que ir atamancando aqui e ali nas situações mais prementes.
As expectativas confirmaram-se e o governo vai passar a dar mais dar mais atenção a este canto de Portugal.
Foram desbloqueadas as verbas destinadas a atenuar a interioridade para resolver de vez o problema da seca e da desertificação, tanto dos solos como humana.
A revitalização da agricultura, que irá permitir a plantação de milhares de hectares de relva para campos de golf, estando garantida a rega através do acordo luso-espanhol (ou hispano-portugués, é a única dúvida) para, aproveitando o transvaze das águas entre Duero Y Tajo, aqui fazer chegar um canal.
Acabaram-se as negociatas para dar destino às verbas do orçamento que todos os anos originava uma nuvem negra provocada por uma clientela de necrófogos, que habitualmente gravitam pelos corredores dos luxuosos gabinetes da tecnocracia, onde agora as decisões que visam dar melhores condições aos desfavorecidos e desprotegidos, já não são tomadas cegamente. É tudo feito com conta, peso e medida.
Já que vem a talhe de foice, bem se pode dizer que esses investimentos, nos quais se incluíam aparelhos de climatização que, ano após ano, substituíam os que haviam sido colocados no ano anterior nesses gabinetes, foram canalizados para outras necessidades.
A climatização é agora feita através da ventilação natural, pelas janelas, e os ocupantes desses espaços tomaram consciência e passaram a sair à rua para apanhar sol, tal como os lagartos nos primeiros raios primaveris.
Todos os anos, em muitas empresas e instituições públicas, eram esbanjadas verbas do orçamento de investimentos que, ao invés de serem aplicadas onde realmente é necessário, eram aplicadas sem critério, gastando-se por gastar, simplesmente para justificar um pedido de investimento num devaneio qualquer e lhe não perder o direito se o investimento tivesse de passar para o ano seguinte.
Acabou-se o cortar no necessário para gastar no supérfluo, ou seja: acabou-se a política do "Isto no é meu nem de mê pai, que se tchape … toca a estranfoniar que prá frente é que é Lisboa".
Assim sendo, já não precisamos de tanta paciência para alimentar a esperança.

sexta-feira, junho 15

14:2007- DIA 17 de JUNHO

Barragem da Granja de São Pedro (entre Toulões e Alcafozes)
afectada pela grande seca de 1981/82
17 de Junho de 2007,
DIA MUNDIAL DE COMBATE À DESERTIFICAÇÃO E À SECA
A propósito deste dia:
«Mais de metade do território português corre o risco de ficar deserto e seco nos próximos 20 anos».
«… mas, independentemente desse cenário futuro, cerca de um terço do território já sofre "uma grave desertificação", da qual a seca, os incêndios florestais e o despovoamento do interior, devido à "concentração excessiva da economia e da população no litoral", são "expressões evidentes"…»
«… todo o interior junto à fronteira com Espanha, do Algarve a Trás-os-Montes, está a ficar deserto, com a perda de potencial biológico dos solos (desertificação física) e de população (desertificação humana)».
«… até agora, muito pouco tem sido feito para inverter esta tendência de desertificação e evitar os piores cenários … … defendo a adopção de medidas concretas e eficazes de fixação da população activa nos meios rurais, de conservação do solo e da água e de recuperação das áreas já afectadas
Palavras de EUGÉNIO SEQUEIRA
, ambientalista, presidente da LPN (Liga para a Protecção da Natureza), à imprensa.

quinta-feira, maio 24

13-2007: BTT em Toulões (crónica)

(portfólio fotográfico, em baixo, na entrada anterior)
Há dias assim!
Vai-se à terra passar uns dias com a família e retemperar no sossego da aldeia, onde nunca nada parece acontecer, e eis que surge, inesperadamente, uma agitação descontrolada; uma azáfama citadina invulgar por estas bandas, que, neste caso, até é um bom argumento para trazer à rua os velhotes que por aqui vão andando.
A realização da 2ª Maratona Internacional BTT de Idanha-a-Nova, neste fim de semana, que integrou Toulões no seu percurso, trouxe ao conhecimento dos mais idosos as vivências de uma modalidade desportiva com grande adesão, para eles completamente desconhecida.
Os cerca de 900 atletas participantes, (mais 1000 inscritos a edição deste ano), vindos de diversos pontos do país, e também alguns espanhóis, deram tamanho colorido à aldeia que mais parecia dia de festa. E pelo que constatei, comparando com os 350 da edição do ano passado (a 1ª) que por cá passou quase despercebida, apercebi-me que provaram, gostaram, repetiram e trouxeram amigos.
Com partida de Idanha-a-Nova, num percurso que uniu as localidades de Alcafozes, Toulões, Salvaterra-do-Extremo, Zarza-la-Mayor (Espanha), Segura, Zebreira e regresso de novo à Idanha, os "biciclistas" tiveram de percorrer, por montes e vales, "caminhos com algumas zonas técnicas (como dizem os entendidos)", circulando sempre por trilhos rurais que nem o GPS consegue vislumbrar.
Entre Toulões e Zarza (Sarça, como se diz por aqui) esses trilhos são os mesmos pelos quais os antigos contrabandistas palmilhavam no seu jogo do gato e do rato com as autoridades aduaneiras, dum e outro lado da fronteira e que, posteriormente, foram também usados pela rapaziada nova quando ia de bicicleta até Salvaterra para num saltinho a Espanha, ir às festas, comprar sapatilhas, calças da Lois ou chumbinhos de pressão de ar para caçar pássaros.
Quantas vezes, por aqueles gorroais no atravessar dos ribeiros, às vezes com dois numa bicicleta, se furava uma câmara de ar, contrariedade essa que mandava desenrascar.
Se os participantes nestas provas se equipam com boas ferramentas e sofisticado material de substituição, naquele tempo, enchia-se o pneu com um nagalho feito de duas ou três paveias de junça, de juncos e ás vezes até mato que, tal como nesta ocasião, "ala que se faz tarde, que no caminho tem de se andar a nove".
Mas a competição não é levada a sério por todos da mesma forma. À chegada ao posto de abastecimento aqui instalado, os que lutavam por um lugar na frente nem sequer pararam, mas os farrombões, os que participam habitualmente nestas iniciativas a pensar mais no jantar convívio do que na classificação final têm outras prioridades:
- Onde é que está esse chouriço afamado, que eu só cá vim por ele?
Está claro que chouriço nem cheirá-lo, mas certamente que o sentir da hospitalidade raiana não deixou ninguém indiferente. Bastava ver a forma como as gentes de Toulões que assistiam ao passar dos concorrentes se dispuseram, espontaneamente, a colaborar na distribuição de garrafas de água e comida (estou convencido que nas outras terras foi igual) e como alguns desses concorrentes, nada preocupados com a classificação, paravam e conviviam.
Para estes (e estas – honra seja feita às senhoras participantes), a ver pelo desgaste físico com que por aqui passaram, rompendo por uma canícula de 35º, pouco habitual em fins de Maio, o melhor prémio terá sido um banho retemperador ao atravessar a Ribeira Espanhola (rio Erges) pela ponte nova, ali no Vale de Idanha, ligeiramente a montante de Salvaterra.
Em Toulões trataram-se também algumas mazelas decorrentes de algumas quedas aparatosas (ossos do ofício).
Foi no aspecto da assistência que quanto a mim houve um senão da organização que poderia ter aqui previsto, já não digo um posto de enfermagem, mas pelo menos uma caixa de primeiros socorros. Uma dor de alma ver alguns chegarem aqui todos esfarraixados nas pernas e nos braços, sem haver ninguém, nem nada, para desinfectar escoriações.
Esta visão ensanguentada trouxe logo à discussão, entre os presentes, comparações conjecturadas e foi então que veio à baila um episódio passado com o Gardoxa; o primeiro garoto a ter uma "bciclete" nos Toulões.
Uma vez, ainda numa fase de aprendizagem no domínio do equilíbrio em duas rodas, pedalando atabalhoadamente pela rua da igreja abaixo, mesmo à porta do ti Cascarão, atropela um vulto do qual não se conseguiu desviar. O vulto, uma mulher, caiu para um lado e ele caiu desamparado para o outro. Ao levantar-se da calçada, tolhido, exibindo umas chagas que nem Lázaro, na sua ingenuidade de gaiato de sete anos, dirige-se à mulher com a educação que a raiva às vezes nos dá em momentos de descontrolo: "Filha da puta, por causa de ti é que eu caí!"
A senhora, sentindo-se ultrajada na sua razão, esgargalou-lhe os olhos com que noutras ocasiões lhe impusera respeito. O Gardoxa, ao reconhecer naquele olhar contundente a autoridade da dona Deolinda, sua professora, pareceu ter desaparecido por entre as pedras da calçada embrulhado na dor que as feridas lhe provocavam.
Mas se alguns se "espalharam" foi porque não tiveram a sorte milagrosa do Zé "Chouchinho", um ás do pedal que fazia da sua pasteleira, mais pesada que o cilindro de ferro fundido que jaze cheio de ferrugem no campo da bola, o seu meio de transporte para o trabalho.
Uma história também relembrada ocasionalmente entre amigos, ocorrida numa tarde de um início primavera, ainda invernosa, sobre o pontão do ribeiro do Vale das Vacas.
O pontão, acabado de ser construído, com a laje do tabuleiro a fazer uma pequena depressão a meio onde se acumulava água das chuvas, formava um charco que obrigava os passantes a contorná-lo, passando junto à berma ainda sem guardas.
O Zé regressava do trabalho, num corte de lenha no Vale de Cardas, acompanhado por alguns colegas que também se deslocavam diariamente de bicicleta.
Chegado ao pontão, ao tentar desviar-se do charco, a roda dianteira da bicicleta resvala do pontão e o Zé, por um enésimo instante, viu-se mesmo estatelado três metros abaixo, no leito do ribeiro.
Mas eis que uma instintiva guinada de guiador fez com que, milagrosamente, uma pontinha de inerte saliente do betão, lhe deitasse mão à roda e a pusesse de novo em cima do pontão. Naquele aparato, e enquanto o Zé se recompunha do susto, limpando o suor com que o nervoso lhe inundou a fronte, instataneamante caleada, só a cesta da merenda, que vinha mal presa no suporte traseiro da bicicleta, parece ter sofrido danos colaterais ao mergulhar de chapão na água lamacenta do charco.
"Tinhas o anjo da guarda debaixo da ponte!"
O fenómeno foi objecto de estudo cientifico por parte dos colegas que pararam a tentar perceber como tal acontecera. O próprio Zé "Chouchinho" todos os dias ali descia da bicicleta como que para se ver pedalar e rever o movimento impossível que o segurou.
Esta história, que contada parece "história", mesmo com o testemunho dos colegas, deixou muitas vezes o Zé agarrado ao epíteto de poupa.
"Pou-pou, és um mintroso!" diziam-lhe.
Mas história à parte, com esta corrida de bicicletas que animou Toulões, foi gratificante verificar como estes acontecimentos mexeram pela positiva com esta população idosa, tirando-a da rotina quotidiana.
Como diz o ti António "Lagarto" referindo-se à velhice: "cada dia que passa, é um dia a mais outro a menos!" e assim se alterando o velho ditado com a palavras adequadas na idade certa:
Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e retarda o envelhecer.