sábado, setembro 22

22-2007: Pajarito - Black-bull com asas

... Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias… Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. ...
...- Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.

Pronto!

Excerto de Miura (BICHOS) - Miguel Torga

terça-feira, setembro 4

21-2007: Sra do Loreto - Alcafozes

Pela primeira vez, Portugal recebeu a Red Bull Air Race 2007.
Este fim de semana nas margens do Douro entre o Porto e Vila Nova Gaia, para assistir ao espectáculo, uma enchente humana invadiu a zona ribeirinha. Até parecia que o rio havia transbordado.
Não fora a divulgação feita ao evento, ao ver toda aquela mole de gente que lá se juntou, muitos pensariam que se estava a assistir a uma corrida de rabelos à antiga duriense.
Mas não!
Todos os que se abeiraram do rio saberiam ao que iam.
O que muito poucos saberiam é que também neste mesmo fim de semana, em Alcafozes (uma aldeia vizinha, aqui a uns escassos 12 ou 13 Km de Toulões), iam decorrer (coincidência ou não – e nada divulgados) os festejos celebrados em honra de Nossa Senhora do Loreto, a Virgem Santíssima que em 24 de Março de 1920 foi consagrada pelo Papa Bento XV, Padroeira Universal da Aviação.
Está assim explicada a razão para tanto arrojo colocado nas manobras vertiginosas com que os malucos das máquinas voadoras que, competindo nos céus do Douro, brindaram o povo que assistiu àquele espectáculo inédito entre nós. É que ter as costas protegidas por Nossa Sra do Loreto sempre transmite outra confiança.
É na busca dessa protecção que, tradicionalmente, à romaria desta Santa que todos anos no dia em que culmina a festa (segunda feira a seguir ao primeiro fim de semana de Setembro) ali convergem representantes das mais diversas entidades ligadas à aeronáutica militar e civil para assistir à missa campal e fazer guarda de honra à padroeira durante a procissão em redor do recinto da festa.
Ele é o representante do Estado Maior e de vários militares da Força Aérea, ele são os representantes das Companhias Aéreas e dos seus tripulantes, das Associações e Sindicatos do sector da Aviação Comercial, dos Aero-Clubes dispersos pelo país (com especial destaque para o de Castelo Branco por ser o anfitrião), etc. e muitos populares, todos a encherem de ofertas e recordações a capela do santuário.
No decorrer da procissão, todos os anos uma esquadrilha de aviões patrulha os céu de Alcafozes, deixando atrás de si um troar ensurdecedor a fazer os fiéis se lembrarem de Santa Bárbara e um rasto de fumo branco como marca da sua passagem. Por vezes, quando o tempo o permite, também há lançamento de "páras".
Este ano coube aos F16 da FA e a algumas aeronaves do Aero-Clube de Castelo Branco cumprirem a tradição, mas noutros tempos, quando a guerra colonial que consumia material bélico nado criado de norte a sul do país, esse papel cabia às esquadrilhas de aviões Fiat e outros, que aproveitavam para sobrevoar as aldeias limítrofes e propagandear a actividade da Força Aérea com o lançamento de "papelinhos", no sentido de cativarem o interesse dos jovens e levá-los a alistarem-se nesta força militar.

Avião "T37 C", oferecido pela Força Aéra Portuguesa
(clicar sobre a foto para ler a placa)


Bom, mas se a parte religiosa da festa é, a seguir à Sra do Almortão, a romaria mais concorrida no concelho de Idanha-a-Nova, a parte pagã é também das que consegue atrair mais gente.
É, de longa data, conhecido o dinamismo e o espírito mobilizador das sucessivas Comissões de Festas alcafozenhas, que todos os anos tentam fazer melhor que o ano anterior, sempre como primeira preocupação, arranjar programas que mantenham a festa em alta durante três dias, nos quais nunca podem faltar as tradicionais garraiadas.
Foi das primeiras aldeias da região a possuir capacidade financeira para contratar artistas portugueses de nomeada.

Cobram bem, mas também animam os festejos e atraem forasteiros em quantidade suficiente para darem consumo aos mais diversos e apetitosos petiscos, garantindo, assim, um encaixe financeiro que, somado às dádivas da população e às receitas das rifas que são (ou eram – ainda comprei algumas) vendidas em qualquer parte do mundo onde haja um alcafozenho, ajudam a assegurar o futuro da festa.
Bem! Mas o objectivo da entrada de hoje não é propriamente o de contar a história da festa à Senhora do Loreto, porque para isso qualquer filho desta aldeia Raiana o saberá fazer melhor que eu.
É, isso sim, a de contar uma história conhecida de todos os toulonenses do meu tempo; a cornada sofrida pelo t’Zé Monteiro Pêla-Ruça, que o deixou empalamado por uma valente temporada.
Numa altura em que ainda não tinha pegado a moda dos cantores, entretenimento maior em Alcafozes eram as afamadas largadas à vara larga pelas ruas do povo, com tradição certamente recolhida das famosas "touredas" de Idanha-a-Nova, aonde acudia gente de todos os povos das redondezas.




O rei da Música Pop Portuguesa, Quim Barreiros, condimentou o ambiente festivo com o picante das sua cantigas.


A garraiada nocturna não teve a emoção de outros tempos

Agora as garraiadas são feitas num redondel construído junto ao recinto das festas, se bem me lembro, aí por finais da década de 80, onde já foram feitas touradas a sério, com cavaleiros, forcados e tudo.
Mas já não é a mesma coisa. Verdade seja dita que também já não há rapazes com "farnis" como havia antigamente, destemidos e com genica para enfrentar o garraio.
As ruas que desembocam no largo da igreja eram vedadas com cancelas robustas e nalgumas portas, principalmente numa das tabernas que dá para o largo, que faz esquina no lado poente do mesmo, era colocado, ao alto, um tranqueiro a atravancar a passagem, impedindo a entrada à rês que estivesse a ser corrida.
Os animais que participavam neste divertimento eram vacas bravas, mas em último, para aumentar a adrenalina aos mais tesos, era na maior parte das vezes libertado um touro. Um verdadeiro. Um daqueles que, como escreveu Herberto Hélder, "é uma espécie de pedra gigante dotada de dinamismo", com força bastante para levantar um reboque de tractor carregado de gente (como aconteceu uma vez no Ladoeiro - não ganharam para o susto!) e com a manha aprendida a correr atrás dos cavalos e dos forcados, nalguma das monumentais praças portuguesas.
Como a grande maioria das gentes raianas, o t’Zé Pêla-Ruça também gostava de "faenas" e fora à festa na companhia de uns amigos. A dado momento, para retemperar o organismo da desidratação provocada pelo calor da movimentação no largo, entraram na taberna para beber um copo.
Na rua um touro "bromelho" torrado fora largado e, ali mesmo à porta da tasca, investia num espantalho feito com uma saca de serapilheira cheia com palha centeia, como que a querer provar à assistência que a cor da pelagem nada tem a ver com a bravura.
O espantalho suspenso numa corda que, pelo ar, atravessava de um lado para o outro da rua, era manobrada numa janela de um primeiro andar, de forma a dar movimento àquela figura humanizada para distrair ou assanhar a fera.
Aborrecido com o engano, o animal virou-se para a porta da taberna e investiu contra umas pernas que se mostravam em movimentos de pontapés no vazio vindos lá de dentro rente ao tranqueiro, no qual se vingou o touro por ter falhado a investida. O pau, mal seguro, à segunda ou terceira cornada saltou de "su sítio" e meia tonelada de carne entrou de rompante tasca adentro, marrando às cegas, sem sequer ter parado para colocar a questão, que habitualmente os touros colocam aos forcados antes do momento da reunião, aquando das pegas de caras nas touradas à portuguesa.
Quando touro e forcado, num frente a frente, cruzam olhares com hesitações mútuas, o touro já farto de ser enganado, com uma das patas dianteiras a escavar na arena, parece perguntar ao moço:
- Vens cá tu ou vou lá eu?
Aqui não foi o caso. O touro, ao entrar na taberna, parecia raposa em galinheiro. A debandada foi geral. Enquanto uns voaram pela janela ou esbracejaram pela porta, outros, que até se vangloriariam da sua grandeza, borrados da sua cagança, tentaram fazer-se pequeninos e invisíveis, e imóveis reduziram-se à sua natural insignificância.



Esta sequência de fotos foi tirada um ou dois anos após a inauguração da "praça"




O ti Pêla-Ruça, não. Descansadamente encostado ao balcão a dar três dedos de conversa entre dois goles de tinto, nem tempo teve para pestanejar. Foi apanhado por aquele "red bull" que lhe meteu um corno entre as pernas e lhe deu asas para ir aos céus.
Mas como o tecto do estabelecimento era o limite, depois de ter esbarrado nos caibros do forro, não lhe valendo a protecção da Senhora do Loreto, foi forçado a um voo picado e aterrou desamparado no cimento do chão, apenas almofadado com uma camada composta por um manto de cascas de tremoços, cascas de cascabuéis e um salpicado de piriscas brancas.
Por sorte o animal, que para além de míope, estrábico e daltónico também devia sofrer de claustrofobia, vendo-se encurralado naquela exiguidade, atraído pelo movimento do pessoal em fuga, desviou a atenção para a luz vinda da porta e conforme entrou assim saiu, poupando o ti Zé a mais umas valentes cornadas.
Mas a Santa redimiu-se e só um milagre seu fez com que a ambulância dos bombeiros voasse entre Idanha e Alcafozes para socorrer o homem e o transportar ao hospital.



Mas uma coisa é certa: o ti Pela-ruça, pequeno, era homem de fibra!

Porque se não fosse, nunca mais voltava às touradas de Alcafozes, como aconteceu muitas mais vezes.
E quando o episódio da cornada vinha à baila havia sempre alguém que lembrava a arrancada, sempre oportuna, do ti João Páscoa:
- São cousas ó Zéi. No dizem que quem se quer bem sempre se encontra?

Atão assim foi, parente!

quinta-feira, agosto 30

20-2007: A festa, que futuro?

Lá passou a festa!
Mais animada para uns, menos animada para outros, (é que nisto das festas é sempre difícil agradar a Deus e ao Diabo), mas honra seja feita às miúdas da Comissão 2007 que, com esforço e o apoio de familiares e amigos, cumpriram a divisa de dar continuidade à tradição e, pelo que me foi dado a perceber, o balanço foi francamente positivo.
Mas tão importante como os festejos propriamente ditos é a habitual "vinda à festa", sempre motivo para encontros e reencontros com amigos e, curiosamente, com os filhos dos amigos; a nova geração de mocidade que nasceu fora e não conhecemos por a não ter visto crescer.
Da miudagem dos 18/20 anos para baixo já não se conhece ninguém. A alguns, pelas parecenças, ainda se lhe deslinda a "linhagem", são a cara ingerida dos progenitores, mas a outros?, não há contorcionismo mental que lhes consiga encarrelher com a genealogia.
No reencontro, mais ou menos cíclico, entre velhas amizades consolidadas na juventude pela partilha de experiências e cumplicidades, alegrias e tristezas, questiona-se o futuro da aldeia e a continuação da festa, vindo à liça comparações com o passado.
São amizades do tempo em que a estudantada se juntava aqui, vinda de todo o lado, para passar as férias escolares. Apanhava a carreira logo após terminadas as aulas e aqui ficava um Verão inteiro até dois ou três dias antes do recomeço das mesmas.
Conjuntamente com os "Franceses" que vinham passar as "vacanças" e a malta que por cá permanecia, na expectativa de agarrar uma oportunidade para se atirar ao mundo, tal como os pássaros na borda do ninho, esperando pelo momento de se sentirem seguros e se lançarem no vazio, experimentando a triunfal sensação do primeiro voo, a "rapaziada do mê tempo" unia-se e havia festa todos os dias.
Mas com o aproximar do dia da mais esperada, a de Santo António, a agitação aumentava.
Di-lo ia o ti Cavalinho, quando uma buliçosa chusma, aos magotes, lhe invadia a taberna: "Ca rai de joldra vem a ser esta, atão pariu p’ra aí a galega, ô quêi?"
Toulões era um mar de gente.
É um facto que o futuro dos jovens, os tais que já não conhecemos, não passa por aqui. Para eles a terra é menos convidativa e até desinteressante. Já não passam cá o Verão. Vêm à Festa, de fugida, já queimados pelo sol da beira mar, quase só para não desapontar a família, que por devoção se reune toda neste dia.
Mas, apesar de tudo, visto o entusiasmo ainda manifestado por alguns mais optimistas, estou em crer que, a exemplo das miúdas que este ano a organizaram, à nova geração, apesar de cá não ter criado raízes, talvez lhe venham a rebentar umas vergônteas, boas pôlas que hão-de aqui pegar de estaca, não deixando morrer a tradição do "vir à Festa".

terça-feira, agosto 21

19-2007: Assim se passou a Festa

Este post é dedidado a todos os Toulonenses, especialmente aos que aqui vêm visitar-me (e sei que são bastantes), fazendo votos de que a Festa do ano que vem seja tão boa ou melhor que a deste ano.









O dia da festa, propriamente dito, começa com a alvorada pelas ruas do povo ao som da banda Filarmónica Idanhense, com o Tó Jacinto a fazer de cicerone.
O andor do padroeiro é, por tradição, sempre transportado pelos elementos da Comissão de Festas. Este ano as catchopas que fizeram a festa, aguentaram nos ombros, como é dado (ou seja, estoicamente), todo o percurso da procissão.
Durante a apresentação do livro "Cancioneiro de Toulões" o seu autor, Manuel A. Marques, (Mnelzinho, como cá é tratado) explica aos seus colegas de palestra o significado do desenho que ilustra a capa. A Vaca-Galhana (ver aqui) que em tempos foi ex-libris do Entrudo de Toulões.
Com esta foto quero homenagear o Tónho "Santantonho", o eterno e honorário festeiro que estava sempre pronto a regar a terreiro para apagar a poeira, no tempo em que a festa se fazia no adro. Apesar do seu atraso, quantas vezes animou a festa, sendo sempre acarinhado pelos Toulonenses.
Esteve tudo bem pensado e notata-se uma evolução de mentalidades. Até a criançada teve direito ao seu momento de festa durante o arraial com um concurso de desenho! É uma boa forma de fazer com que as crianças ganhem afeição pela terra.
Mais ou menos seis arrobitas de carne marcharam enquanto o diabo esfregou um olho.


A música teve muito som, muito movimento, mas pouca luz (daí as fotos terem um cariz mais artístico do que documental). Talvez o único senão da festa foi o facto de o conjunto tocar mais para a malta nova. O pessoal de idade mais avançada, que gosta dar o seu pésinho de dança ao som de música popular, desta vez foi mais o tempo que ficou a ver.

SÓ ME RESTA DESEJAR BOA SORTE AOS FESTEIROS DE 2008 E DEIXAR AQUI UM ABRAÇO A TODOS.

sexta-feira, julho 27

18-2007: FESTAS DE TOULÕES

Para todos quantos aqui chegam dando-me o prazer da vossa visita, mas, no caso, especialmente para os vizinhos, aqui deixo o cartaz das festas de verão deste ano com o respectivo programa do qual destaco três momentos:

PRIMEIRO (Sábado - 17:30h)

Faz também parte do programa das festas um momento cultural com o lançamento do livro "Cancioneiro de Toulões" pelo nosso conterrâneo Manuel Antunes Marques.
Imaginando o conteúdo desse livro, deixo uma das décimas desgraçadíssimas criada pelo ti Zé Louro, dita e cantada durante anos pelo povo de Toulões, tendo chegado até hoje como abaixo se regista.


Houve uma grande zaragata
Nos termos da nossa terra
Não quis acudir ninguém
Ao caminho de Salvaterra
O Ribeiro do Malhão
Como é bruto e revoltoso
Deu uma sova no Raposo
E esfaqueou o Barrocão
Na eira do Fontanhão
Espetou cem vezes a faca
Depois com uma estaca
Quis destripar as Lameiras
Então lá no Vale das Eiras
Houve uma grande zaragata

O Malhadil da Barronceira
Deu uma sova no do meio
Esperaram pelo correio
E foram dar parte à Zebreira
O Ribeiro da Feiteira
Mais bravo que uma fera
Cortou a cabeça à Serra
E um braço ao Serralhão
Houve grande revolução
Nos termos da nossa terra.

Archelona e Muro de Barro
Ao formarem novas herdades
Chincaram os olhos aos Frades
Lá prá Horta do Catarro
O Vale das Vacas veio num carro
E veio o Agulhão também
Porque o Vale das Azedas tem
Dez facadas na barriga
Corre o sangue à Toula arriba
E não lhe acode ninguém

Lá anda o Malhadil Cabeiro
Aos pontapés nas Lágrimas
Lá andam as Fontainhas
À bulha pelo Barreiro
Viu-se também o Chão Cimeiro
Aos Direitos fazer guerra
Mas ao ouvir gritar a Serra
Fugiu e anda a monte
Foi visto no Chão da Fonte
Ao Caminho de Salvaterra.


SEGUNDO (Sábado 19:30h)


O tradicional porco no espeto.


É tão bom que estou à vontade para garantir:

"NEM O TOUCINHO CÁ FICA!".

TERCEIRO (Todo o resto da festa)

A animação e a boa disposição estão garantidas. Para além dos artistas que constam do cartaz, estarão também presentes (por ordem alfabética): Emanuel, Mónica Sintra, Quim Barreiros, Quinzinho de Portugal, Rute Marléne, Vários Acordeonistas, etc., todos eles constantes do repertório em CD do Sr. Esteves (o homen da aparelhagem).
Fica aqui um aviso aos artistas participantes.
Dado ser tradição dançar o fandango durante o arraial, aquele que for solicitado e não o saiba tocar, para além de não receber, ser-lhe há apichada a canalha e será encorrido até ao leque da Zebreira.

BOAS FESTAS E BOAS FÉRIAS A TODOS, ... EU TAMBÉM VOU!

quarta-feira, julho 18

17-2007: A lenda de TOULÕES

O texto de hoje (transcrição integral) é da autoria do Dr. Jaime Lopes Dias, estudioso das nossas tradições e escritor erudito, que o publicou no 1º dos 11 volumes que compõem a sua obra Etnografia da Beira.
Conta-nos uma lenda sobre Toulões, que remonta aos primórdios da formação da localidade e deu origem à ainda hoje celebrada festa de Santo António.


SANTO ANTÓNIO E O LÔBO BRANCO
A ânsia de maiores rendimentos e a necessidade de melhor aproveitamento dos extensos incultos de entre Zebreira e Alcafozes, levaram alguns moradores desta última povoação - a que se juntaram outros de Monsanto e de Idanha-a-Velha - a fixar-se, no comêço do século XIX, a sudoeste da Serra da Monracha, junto da ribeira da Toula.
Surgiram as primeiras cabanas de colmo, constituiu-se o primeiro núcleo de povoadores a que vieram associar-se outros de Idanha-a-Nova, Salvaterra do Extremo e Zebreira, por forma que Toulões tinha já em 1840 mais de quarenta fogos.
Apascentando os seus rebanhos, cultivando as terras de Malhadiz foreiras do município de Monsanto, a vida, embora dura, corria-lhes em boa paz.
Em presença de extensos matagais que o duro trabalho de cada dia não chegava para desbravar, todos, homens e mulheres, velhos e crianças tinham o seu mester.
Enquanto os homens acompanhavam, rêgo a rêgo, as juntas de bois no revoltear do terreno, ou levantavam, de sol a sol, o pesado enchadão, as mulheres entregavam-se aos serviços domésticos, à sacha e à monda nos campos, e as crianças à guarda dos rebanhos.
E mal o sol despontava, lá iam todos, diariamente campo em fora, cada qual à sua ocupação.
No lar de uma das pobres choupanas, preparada já a ceia e reünidos os familiares, faltou certo dia o mais tenro dos pequeninos.
Debalde esperaram os seus, por largos minutos, o regresso.
Divulgada a notícia pela povoação, todos os moradores, núcleo de bons vizinhos, onde os desgostos como a alegria de um são desgostos ou alegria de todos, pressentindo desgraça, correram à porfia, montes e vales, a gritar e a clamar inutilmente pelo infeliz desaparecido.
Passaram dias, correram meses, e novas crianças faltaram.
Inùtilmente procuravam aquelas almas aflitas, na simplicidade dos seus conceitos razão justificativa de tão grande desgraça!
Os mais velhos, baseados na velha crença de que lôbo que uma vez se alimente de carne humana passa a atacar e procurar o homem, atribuíam àquelas feras a sua dor, o seu luto.
Toulões passava dias aflitivos.
Um grupo de homens bons, seguros na sua fé, resolveu tomar a iniciativa duma festa a Santo António, advogado das coisas perdidas e patrono dos vivos, para que os livrasse de tão grande dano.
A festa realizou-se, efectivamente, com o maior luzimento, e desde então, aquêle pequenino povo, escudado na sua devoção pelo santo, passou a viver confiante, sem maiores receios. Desaparecera a origem dos seus sobressaltos e da sua dor.
Dificuldades monetárias que surgiram, ou desleixo que o nosso povo costuma bem traduzir nas palavras «só lembra Santa Bárbara quando faz trovões», deixaram que a festa caísse em desuso.
Passaram dias, anos, e quando todos se julgavam em boa paz e segurança, Jerónimo Manso, de poucos anos de idade, que apascentava o gado de seus pais, foi súbita e inesperadamente atacado por um lôbo de côr pardacenta com uma malha branca no abdómen. Às garras da fera teria perecido se lavradores que próximo andavam não tivessem acudido com rapidez aos gritos aflitivos do pequeno.
Ao pobrezinho pôde ainda a fera roubar um pedaço de couro cabeludo, pelo que teve de usar, durante tôda a sua vida, que foi comprida, um pedaço de cabaça das de trepar, para proteger a parte desnudada.
Estava o povo de TouIões reentrado em amargurados dias de desassossêgo e intranqüilidade!
Era preciso dar caça à fera, empregar os últimos esforços para que, de uma vez, se limpasse o lugar daquela peste.
Exímios caçadores percorreram as redondezas. Viram o lôbo, chegaram mesmo a atirar-lhe.
Voltar a cumprir a promessa feita a Santo António era dever de boa gratidão, remédio certo, no crença e fé de TouIões.
E a festa. embora à custa de sacrifícios, ressuscitou.
Veio a música, e à missa, que foi a grande instrumental e com tôda a pompa, acorreu todo o povo debaixo da mais funda impressão. E quando todos se preparavam para fazer sair a procissão: pendões já no ar, insígnias multicolores de confrarias a dar nota garrida, alguém veio dizer que o lôbo fôra encontrado morto no campo.
Muitos correram a certificar-se da veracidade da boa nova. Hossanas a Santo António! A fera estava efectivamente morta! Lágrimas de dor, mas lágrimas de alegria! Santo António, que era já Santo, passava a ser, mais do que nunca, protector de Toulões e advogado das coisas perdidas!
E a fé que revolve montanhas, a fé santa e pura que salva e redime, passou a ser mais sólida e mais vigorosa do que nunca entre os incansáveis e bons vizinhos da Toula: os toulões.



A FESTA ESTÁ À PORTA, O PROGRAMA VEM A SEGUIR!

sábado, julho 7

16-2007: Na Rota das Maravilhas


Núcleo de moinhos de água recuperados no rio Ponsul, a jusante da barragem de Penha Garcia.

A desertificação e o despovoamento do interior são um facto indubitável. Progrediu na proporcionalidade inversa com que se degradou a actividade agrícola, cuja mola real, vítima de pasmo, não deu mais sinais de reacção e ficou sujeita ao cerco da UE, rendida ao sistema de subsídios para não morrer de asfixia.
Mas o futuro, que também passa por aqui, nem todos os dias se apresenta de ar sisudo. Os que conseguirem arrancar-lhe um sorriso, por certo irão ver as suas vidas recomporem-se de tantos e sucessivos tombos e, como não há bem que nunca acabe nem mal sempre dure, (prefiro dizer assim) da desertificação também surgem oportunidades.
À semelhança do sucedido com as nossas aldeias históricas (as Idanhenses), a aposta no turismo de ar livre parece estar a dar uma nova vivacidade a estes pequenos aglomerados populacionais, onde só o relógio da torre parece não ter deixado de acompanhar o ritmo do tempo.
Aproveitando alguns recur- sos com que a natureza graciosamente obsequiou estes locais, a partir desta realidade, gera-se riqueza em benefício desta zona, garantindo melhor qualidade de vida a muito boa gente jovem.
Escarpa quatzítica em Penha Garcia

A prová-lo, está a iniciativa em boa hora tomada pela Naturtejo, empresa intermunicipal integrada por 6 municípios, que se revelou um sucesso.
A apresentação da candidatura de um território que ocupa uma área de 4500 quilómetros quadrados, distribuída pelos municípios aderentes pela qual estão dispersos 16 monumentos naturais (Geossítios - vê-los aqui), foi coroada de êxito no Verão de 2006, ao ser classificada pela UNESCO como "Geoparque da Meseta Meridional".
Para esta empresa, na voz do seu presidente, «o Geoparque Naturtejo é a galinha dos ovos de ouro para os municípios abrangidos.»
E com toda a razão!
Eu, que mantenho sempre algum cepticismo relativamente ao que mexe com esta região, reconheço que este projecto tem pernas para andar. E digo reconheço, não por conhecimento de causa, mas pelo que por aqui se vai observando.
Penha Garcia - Trilobites, rasto de seres marinhos extintos há 250 milhões de anos.
Se hoje pareço ser incoerente com o que disse no post anterior, a realidade é que, neste caso, o investimento privado (criação de infra-estruturas para alojamento e lazer), supera o público (recuperação e manutenção dos locais a visitar) sinal de que as previsões de sucesso foram bem medidas.

A classificação atribuída desencadeou o designado Turismo de Natureza no Centro de Portugal e, pelo seu interesse, justificado com a organização de Rotas pedestres (vê-las aqui) e visitas a monumentos naturais, e outros eventos relacionados, já começou a atrair à região da "Raia Perdida" um grande número de turistas que põem a bulir actividades tradicionais que pareciam adormecidas.
Aqui estou apenas a referir-me ao que constato nas aldeias vizinhas que rodeiam Toulões, todas do concelho de Idanha-a-Nova: (ver Mapa aqui)
Penha-Garcia (Rota dos Fósseis - Parque Iconológico onde as formações rochosas guardam fósseis de seres pré-históricos, Rota do Contrabando e Moinhos do Ponsul), sobre a qual reportam estas fotos, Monsanto (Inselberg Granítico) e Salvaterra do Extremo, Segura e Rosmaninhal (Rota dos Abutres na área protegida do Tejo Internacional) Monfortinho (Rota do Contrabando) sem esquecer algumas que, não sendo abrangidas por este programa, merecem a honra de uma visita.
É o caso de Idanha-a-Velha, aldeia histórica amplamente divulgada por albergar um património histórico de inestimável valor, Medelim (aldeia dos balcões) e Prença-a-Velha (Núcleo Museológico do Azeite) onde um programa cultural com organização da iniciativa da Proençal - Liga de Desenvolvimento de Proença-a-Velha - faz periodicamente reviver as tradições que marcaram a vida dos mais antigos.

Para quem aprecie, tudo isto é vivamente recomendável.
Perder-se também quer dizer deslumbrar-se, mas perder-se e não se achar é deslumbrar-se perdidamente.
Com tanta coisa bonita que há por aqui, nestas férias perca-se por cá. Vale a pena visitar toda esta região de gente aberta e verdadeira.
E se por estas terras vos perderdes e não vos achardes é porque estais em TOULÕES. Não foi bafejada por nenhuma das maravilhas atrás citadas, mas garanto-vos que há muita hospitalidade e simpatia para distribuir.
Aqui, "uma côdea de centeio nunca se negou a quem cá veio, mesmo sabendo que "para o diacho que o amassou, nem uma côdea sobejou".

quarta-feira, junho 20

15-2007: Lagartos ao sol

Estou exultante!
O ênfase dado pelas entidades estatais com responsabilidade na matéria, no assinalar do dia dedicado ao Combate à Desertificação e à Seca, superou as minhas expectativas. O nosso Executivo deixou bem claro que seria dado um passo de gigante na recuperação do atraso de anos e anos, em que os sucessivos governos não apresentaram financiamentos, mas que, doravante, será invertida a tendência de desertificação do solo nas zonas afectadas do interior.
Mesmo a comunicação social, da qual se esperava uma tímida referência, badalou o assunto até à exaustão.
O impensável aconteceu: o rescaldo do jogo da selecção de sub 21 de Portugal, que esmagou a sua congénere Israelita, a provar que não passaram à fase seguinte, para disputar os primeiros lugares, porque não quiseram, preferindo, por amor ao futebol, ir disputar a ida aos JO de Pequim (sempre é mais um jogo), foi relegado para plano secundário. Nem sequer foi tido em consideração o estatuto de estrelas dos rapazinhos, ganho pela sua voluntariosa disponibilidade de, nos intervalos dos treinos, fazerem serviço cívico a arrancar mato, dando o seu contributo no atenuar do risco de incêndios e melhorar o meio ambiente.
Deste modo, aprendem também o que custa a vida nesta zona do país.
Foi com este espírito que em 1999, o então ministro do Ambiente (hoje nosso Primeiro), tomou a iniciativa de implementar o Plano de Acção Nacional de Combate à Desertificação, o famigerado PANCD, que visava intervir nesta área e que, até hoje, nunca tinha sido posto em prática.
Pois bem. Com a finalidade de assinalar a data, foi entregue às autarquias, para reduzir os elevados índices de desertificação, um kit de emergência para combate a incêndios há tanto almejado.
À falta de acções de formação para manuseamento do equipamento, que só serão facultadas após terminar a época de fogos (porque agora já não há tempo), foi fornecido aos utilizadores um manual de instruções em estrangeiro. Assim sempre aprendem línguas, não se repetindo a má experiência dos telemóveis que, mais ou menos com a mesma finalidade, foram entregues aos pastores serranos com manual em português, segundo diziam os próprios: "isto para mim é chinês".
Também já se pode dizer que, por cá, o "safe-se quem puder" e o "ai de mim se não for eu", que ia valendo aos raianos, que aqui nasceram e por cá se mantêm, fazerem pela vida, é coisa do passado.
A solvência das autarquias locais é agora um facto.
A conjuntura económica favorável e a vontade política do poder central, dão-lhes capacidade para resolver problemas de fundo, pelo que se acabou o ter que ir atamancando aqui e ali nas situações mais prementes.
As expectativas confirmaram-se e o governo vai passar a dar mais dar mais atenção a este canto de Portugal.
Foram desbloqueadas as verbas destinadas a atenuar a interioridade para resolver de vez o problema da seca e da desertificação, tanto dos solos como humana.
A revitalização da agricultura, que irá permitir a plantação de milhares de hectares de relva para campos de golf, estando garantida a rega através do acordo luso-espanhol (ou hispano-portugués, é a única dúvida) para, aproveitando o transvaze das águas entre Duero Y Tajo, aqui fazer chegar um canal.
Acabaram-se as negociatas para dar destino às verbas do orçamento que todos os anos originava uma nuvem negra provocada por uma clientela de necrófogos, que habitualmente gravitam pelos corredores dos luxuosos gabinetes da tecnocracia, onde agora as decisões que visam dar melhores condições aos desfavorecidos e desprotegidos, já não são tomadas cegamente. É tudo feito com conta, peso e medida.
Já que vem a talhe de foice, bem se pode dizer que esses investimentos, nos quais se incluíam aparelhos de climatização que, ano após ano, substituíam os que haviam sido colocados no ano anterior nesses gabinetes, foram canalizados para outras necessidades.
A climatização é agora feita através da ventilação natural, pelas janelas, e os ocupantes desses espaços tomaram consciência e passaram a sair à rua para apanhar sol, tal como os lagartos nos primeiros raios primaveris.
Todos os anos, em muitas empresas e instituições públicas, eram esbanjadas verbas do orçamento de investimentos que, ao invés de serem aplicadas onde realmente é necessário, eram aplicadas sem critério, gastando-se por gastar, simplesmente para justificar um pedido de investimento num devaneio qualquer e lhe não perder o direito se o investimento tivesse de passar para o ano seguinte.
Acabou-se o cortar no necessário para gastar no supérfluo, ou seja: acabou-se a política do "Isto no é meu nem de mê pai, que se tchape … toca a estranfoniar que prá frente é que é Lisboa".
Assim sendo, já não precisamos de tanta paciência para alimentar a esperança.