quinta-feira, janeiro 17

quarta-feira, janeiro 2

1-2008: Tratado novo, vida nova

Aldeia fronteiriça de SEGURA (Idanha-a-Nova), vista da ponte internacional sobre o rio Erges. No Império Romano, esta ponte estava inserida na estrada que servia de ligação entre Mérida e Braga.
O ano de 2007 acabou como acabou!
Bem ou mal, só o tempo dirá se o Tratado Europeu, nascido em Lisboa, nos trouxe benefícios assinaláveis ou se, como de costume, graças à habilidade portuguesa em negociar, nos temos de contentar com promessas de prosperidade para o futuro.
Mas isso fica para depois!
O que interessa agora é que, feito o registo de nascimento do Tratado Reformador, Portugal no exercício da presidência da EU batalhou para que o seu baptizado fosse celebrado em simultâneo, conseguindo-o in extremis.
Numa pomposa cerimónia (chamaram-lhe cimeira), com a presença de toda a família europeísta a testemunhar o acto, foi-lhe então atribuída a graça da nossa bela cidade de Lisbonne, capital de "ce petit pays" plantado na extrema ocidental do velho continente. Esta peculiaridade, considerada pelo poeta a fronteira onde a terra acaba e o mar começa, deixa nos europeus menos conhecedores da nossa história (e nada interessados nela), a convicção de que nem somos carne nem somos peixe.
Para estes, o local de onde saíram homens destemidos, que se aventuraram por mares nunca dantes navegados, em viagens que à escala da época corresponderiam às viagens espaciais de hoje, trazendo notícias do achamento de novos mundos que tornaram Portugal maior, não passa de um pequeno país de emigrantes e pescadores de bacalhau, marinheiros que nunca meteram calado a romper por águas para além da Trafaria.
Este esforço, feito para que tudo corresse de feição, viu-se recompensado. Portugal foi colocado na prateleira da história da EU, pelo feito de ter conseguido reunir 27 países pertencentes à família europeia em redor de um projecto comum: o tradicional retrato de família.
É, em sentido lato, aquilo a que podemos chamar: trabalhar para o boneco.
São momentos como este, descurando a divulgação do documento às populações, a única parte que importa registar.
Para assinalar o evento, foi oferecido a cada um dos membros mais chegados desta grande família uma caneta em prata de lei, para assinar, e legitimar, uma reforma que garante a nossa incapacidade reivindicativa e a consequente precariedade da nossa economia, assim como o corte nos investimentos em projectos para desenvolvimento das zonas mais desfavorecidas do nosso Interior, em detrimento de países menos necessitados ou menos periféricos e com menos capacidade negocial que a portuguesa.
Também, pela nossa reconhecida hospitalidade, e por ser Natal, foi oferecido a cada um de nós um alicate obliterador dourado, para fazer mais um furo no cinto de cada vez que formos chamados a realizar um esforço suplementar e, assim, poder aguentar a carestia de vida.
E a generosidade não acabou por aqui!
Com a decisão de ratificar parlamentarmente o documento, fomos poupados à enfadonha tarefa de ter de nos pronunciar sobre o assunto. Efectivamente, essa coisa de ter de ir às urnas, a um domingo, ainda por cima sempre na incerteza em saber de que lado está o gume do voto, que deixa em nós a frustrante sensação de, consecutivamente, ficarmos entalados entre o voto e a parede, é uma chatice.

- Tratado novo, vida nova. O baptizado foi giro, pá. ?
- "Porreiro, pá!, o Tratado de Lisboa ficará na História por abrir novos caminhos no ideal europeu!" 
O pior é que, terminado o fogo de artifício e apagadas a luzes -"calabaça, calabaça, cada qual p´ra sua casa" - Portugal ficou de novo sozinho em Lisboa, entregue a si próprio, a limpar os restos da festa e a arrumar a casa.
Aos Raianos, resta-nos a consolação de a Europa ser aqui ao lado. Facilmente podemos lá ir comprar, por bom dinheiro, os sonhos daqui levados por umas cascas de alhos.
Basta tão só arregaçar as calças e atravessar a Ribeira Espanhola (Rio Erges), com a vantagem de nem sequer ser preciso passar a salto, como fizeram muitos dos que de cá partiram à sua conquista em finais da década de 50.

Com o 1º post deste ano quero desejar a todos um BOM ANO 2008

terça-feira, dezembro 11

23-2007: O Madeiro do Natal


Na quadra natalícia, por estas terras da raia perdida cujas tradições valorizam o nosso legado cultural, "aldeia sem madeiro no adro é como um presépio sem menino Jesus".
Era neste pressuposto que todos os anos na noite de 7 e no dia 8 de Dezembro, os habilitados a mancebos viviam uma azáfama de formigueiro para fazer chegar ao adro o maior tronco de azinheiro que houvesse no montado.
Era previamente escolhido e solicitado ao seu proprietário que, também por uma questão honra, orgulho e muitas vezes uma ponta de vaidade, raramente se negava à oferta.
Era uma noite de trabalho. Com os enxadões e o garrafão a serem elementos preponderantes nesta tarefa, até chegar a hora de, com um calabre engalhado nos ramos, por o azinheiro de cambecas, não havia descanso.
Só então era feito um intervalo para retemperar e recuperar do esforço, em redor do enorme lazarete, com umas presas assadas directamente em cima das brazas, ou na ponta de um espeto improvisado no momento.
E se os enxadões, esses, eram postos em descanso, o garrafão continuava activo e a cumprir o seu papel de não deixar arrefecer os ânimos. É que por esta altura do ano já um barbeiro sem navalha se apronta a escanhoar rente a penugem a estes imberbes de rosto desprotegido.
Só ao romper do dia se regressava ao trabalho para o madeiro ser carregado e transportado até ao adro da Igreja.



Com uma paragem técnica à entrada do povo, para as raparigas (noivas ou faladas) emprestarem os seus lenços mais garridos aos rapazes, que os atavam ao tronco, cruzando o peito. Enfeitava-se a canga e os cornos das vacas com laranjas (desde há uns anos utilizam-se tractores) e cobriam-se ramos de azinheiro, trazidos para o efeito, com colchas floreadas, sendo depois erguidos como estandartes enquanto a carrada dava a volta pelas ruas do povo e, por entre enfeites, toques de concertina e cantares ao Menino Jesus, davam-se vivas ao Madeiro:
"Viva o Madeiro do Natal e a junta do t’ João Bombarral"
"Viva a malta do Madeiro e o carro do t’ Zé Monteiro"
"Viva o tocador"
"Viva o garrafão"
"Viva o Madeiro, que ainda está inteiro".

Mas em Toulões esta tradição já não é o que era.
Por mor do despovoamento agravado dia a dia e pela consequente falta de cachopada, desde há uns anos que o Madeiro vem sendo arrancado pelos homens residentes, sempre com a ameaça de a tradição um dia acabar de vez.
Nesta eminência, e alterando radicalmente a tradição, antecipando-se mesmo à intenção do governo em tornar o recenseamento militar extensivo às raparigas, foi a filha da Natércia, que sem quintos, organizou sozinha o arranque do madeiro de há dois ou três anos, por ter sido a única criança nascida em Toulões, a atingir a idade de ir às sortes.
E a ameaça cumpriu-se! Neste Natal não houve Madeiro em Toulões.
Nas vésperas da noite do caramelo, adaptando as tradições antigas aos tempos modernos, graças à facilidade em agora se poder dispor de maquinaria pesada, na urgência lá se arranjou um azinheiro e uma sobreira velha, conseguindo garantir-se o calor necessário para aquecer o Menino na noite da consoada e também, diga-se, para não deixar a aldeia em pouco (é que com isto das rivalidades entre aldeias era importante manter a dignidade).
Apesar deste esforço de última hora, o Madeiro propriamente dito, com todo o simbolismo do ritual do arranque daquele tronco, que ditava a passagem à idade adulta de todos os jovens incumbidos de o colocar no adro, nunca podendo ter um perímetro inferior ao medido pela bitola de duas braçadas de homem, esse, ficou no montado.
Sem gente a nascer nas aldeias, vão-se as tradições.
Foi pertinente a preocupação manifestada por Sua Excelência o Presidente da República para com a baixa taxa de natalidade por estas bandas, numa recente visita oficial que fez pelo vizinho distrito da Guarda.
Mas sabendo que a imensidão da vontade dos políticos é proporcional à imensidão de votos que os possam eleger, é certo e sabido que não há vontade que aqui chegue para por cá fixar as pessoas.
Carlos Drummond de Andrade, numa passagem do seu poema "Reverência ao destino…", dizia
:
… FÁCIL, é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação
DIFÍCIL é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem para fazer ….

Valha-nos o Natal para todos os anos, por aqui, irmos podendo assistir à alegria que é o nascimento de uma criança, mesmo se o feliz acontecimento ocorre numa manjedoura em vez de numa ambulância dos bombeiros a caminho da maternidade.
A breve trecho, iremos ter o adro de Toulões vazio de Madeiro e até, sabe-se lá, o presépio sem Menino Jesus.

Nota:
Se em Toulões e outras aldeias raianas a tendência é para que a tradição se extinga, outras terras há em que ela parece estar cada vez mais enraizada.

Veja-se o caso de Penamacor onde todos os anos o madeiro é sempre maior que o do ano anterior(a foto é do Natal de 2006, 2 dias depois de ter sido ateado), chegando a roçar o exagero e a apregoar-se ser este o maior Madeiro do país.(ver aqui o madeiro de 2007).
Tradição à parte, o que parece ganhar-se em grandiosidade e ostentação, parece perde-se em convicção pelos valores do Natal.

Já em Proença-a-Velha, uma vizinha aldeia do concelho de Idanha-a-Nova, são mais comedidos. O Madeiro é mais pequeno, mas toda a população colabora e se empenha para manter bem viva a sua tradição, tornando este evento uma atracção, tanto para os da terra como para forasteiros.

A prová-lo está este livro da autoria de João Mugeiro e João Adolfo Geraldes, editado pela Magno Edições e pela Proençal (ver link ao lado - Proença-a-velha), onde é feita uma excelente descrição dos rituais do Madeiro ao longo dos tempos e em que cerca de metade desse livro está ilustrado com fotografias da autoria de Marcin Górski, tiradas à guisa de reportagem ao Madeiro de 2005.

Essas fotografias foram mostradas numa exposição que esteve patente no Núcleo Museológico do Lagar de Azeite, em Proença-a-Velha, no Natal de 2006, e que tive a oportunidade de visitar.
Actualmente podem ainda ser vistas aqui (http://www.pontosdevista.net/expoi.php?id=247)

sábado, setembro 22

22-2007: Pajarito - Black-bull com asas

... Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias… Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. ...
...- Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.

Pronto!

Excerto de Miura (BICHOS) - Miguel Torga

terça-feira, setembro 4

21-2007: Sra do Loreto - Alcafozes

Pela primeira vez, Portugal recebeu a Red Bull Air Race 2007.
Este fim de semana nas margens do Douro entre o Porto e Vila Nova Gaia, para assistir ao espectáculo, uma enchente humana invadiu a zona ribeirinha. Até parecia que o rio havia transbordado.
Não fora a divulgação feita ao evento, ao ver toda aquela mole de gente que lá se juntou, muitos pensariam que se estava a assistir a uma corrida de rabelos à antiga duriense.
Mas não!
Todos os que se abeiraram do rio saberiam ao que iam.
O que muito poucos saberiam é que também neste mesmo fim de semana, em Alcafozes (uma aldeia vizinha, aqui a uns escassos 12 ou 13 Km de Toulões), iam decorrer (coincidência ou não – e nada divulgados) os festejos celebrados em honra de Nossa Senhora do Loreto, a Virgem Santíssima que em 24 de Março de 1920 foi consagrada pelo Papa Bento XV, Padroeira Universal da Aviação.
Está assim explicada a razão para tanto arrojo colocado nas manobras vertiginosas com que os malucos das máquinas voadoras que, competindo nos céus do Douro, brindaram o povo que assistiu àquele espectáculo inédito entre nós. É que ter as costas protegidas por Nossa Sra do Loreto sempre transmite outra confiança.
É na busca dessa protecção que, tradicionalmente, à romaria desta Santa que todos anos no dia em que culmina a festa (segunda feira a seguir ao primeiro fim de semana de Setembro) ali convergem representantes das mais diversas entidades ligadas à aeronáutica militar e civil para assistir à missa campal e fazer guarda de honra à padroeira durante a procissão em redor do recinto da festa.
Ele é o representante do Estado Maior e de vários militares da Força Aérea, ele são os representantes das Companhias Aéreas e dos seus tripulantes, das Associações e Sindicatos do sector da Aviação Comercial, dos Aero-Clubes dispersos pelo país (com especial destaque para o de Castelo Branco por ser o anfitrião), etc. e muitos populares, todos a encherem de ofertas e recordações a capela do santuário.
No decorrer da procissão, todos os anos uma esquadrilha de aviões patrulha os céu de Alcafozes, deixando atrás de si um troar ensurdecedor a fazer os fiéis se lembrarem de Santa Bárbara e um rasto de fumo branco como marca da sua passagem. Por vezes, quando o tempo o permite, também há lançamento de "páras".
Este ano coube aos F16 da FA e a algumas aeronaves do Aero-Clube de Castelo Branco cumprirem a tradição, mas noutros tempos, quando a guerra colonial que consumia material bélico nado criado de norte a sul do país, esse papel cabia às esquadrilhas de aviões Fiat e outros, que aproveitavam para sobrevoar as aldeias limítrofes e propagandear a actividade da Força Aérea com o lançamento de "papelinhos", no sentido de cativarem o interesse dos jovens e levá-los a alistarem-se nesta força militar.

Avião "T37 C", oferecido pela Força Aéra Portuguesa
(clicar sobre a foto para ler a placa)


Bom, mas se a parte religiosa da festa é, a seguir à Sra do Almortão, a romaria mais concorrida no concelho de Idanha-a-Nova, a parte pagã é também das que consegue atrair mais gente.
É, de longa data, conhecido o dinamismo e o espírito mobilizador das sucessivas Comissões de Festas alcafozenhas, que todos os anos tentam fazer melhor que o ano anterior, sempre como primeira preocupação, arranjar programas que mantenham a festa em alta durante três dias, nos quais nunca podem faltar as tradicionais garraiadas.
Foi das primeiras aldeias da região a possuir capacidade financeira para contratar artistas portugueses de nomeada.

Cobram bem, mas também animam os festejos e atraem forasteiros em quantidade suficiente para darem consumo aos mais diversos e apetitosos petiscos, garantindo, assim, um encaixe financeiro que, somado às dádivas da população e às receitas das rifas que são (ou eram – ainda comprei algumas) vendidas em qualquer parte do mundo onde haja um alcafozenho, ajudam a assegurar o futuro da festa.
Bem! Mas o objectivo da entrada de hoje não é propriamente o de contar a história da festa à Senhora do Loreto, porque para isso qualquer filho desta aldeia Raiana o saberá fazer melhor que eu.
É, isso sim, a de contar uma história conhecida de todos os toulonenses do meu tempo; a cornada sofrida pelo t’Zé Monteiro Pêla-Ruça, que o deixou empalamado por uma valente temporada.
Numa altura em que ainda não tinha pegado a moda dos cantores, entretenimento maior em Alcafozes eram as afamadas largadas à vara larga pelas ruas do povo, com tradição certamente recolhida das famosas "touredas" de Idanha-a-Nova, aonde acudia gente de todos os povos das redondezas.




O rei da Música Pop Portuguesa, Quim Barreiros, condimentou o ambiente festivo com o picante das sua cantigas.


A garraiada nocturna não teve a emoção de outros tempos

Agora as garraiadas são feitas num redondel construído junto ao recinto das festas, se bem me lembro, aí por finais da década de 80, onde já foram feitas touradas a sério, com cavaleiros, forcados e tudo.
Mas já não é a mesma coisa. Verdade seja dita que também já não há rapazes com "farnis" como havia antigamente, destemidos e com genica para enfrentar o garraio.
As ruas que desembocam no largo da igreja eram vedadas com cancelas robustas e nalgumas portas, principalmente numa das tabernas que dá para o largo, que faz esquina no lado poente do mesmo, era colocado, ao alto, um tranqueiro a atravancar a passagem, impedindo a entrada à rês que estivesse a ser corrida.
Os animais que participavam neste divertimento eram vacas bravas, mas em último, para aumentar a adrenalina aos mais tesos, era na maior parte das vezes libertado um touro. Um verdadeiro. Um daqueles que, como escreveu Herberto Hélder, "é uma espécie de pedra gigante dotada de dinamismo", com força bastante para levantar um reboque de tractor carregado de gente (como aconteceu uma vez no Ladoeiro - não ganharam para o susto!) e com a manha aprendida a correr atrás dos cavalos e dos forcados, nalguma das monumentais praças portuguesas.
Como a grande maioria das gentes raianas, o t’Zé Pêla-Ruça também gostava de "faenas" e fora à festa na companhia de uns amigos. A dado momento, para retemperar o organismo da desidratação provocada pelo calor da movimentação no largo, entraram na taberna para beber um copo.
Na rua um touro "bromelho" torrado fora largado e, ali mesmo à porta da tasca, investia num espantalho feito com uma saca de serapilheira cheia com palha centeia, como que a querer provar à assistência que a cor da pelagem nada tem a ver com a bravura.
O espantalho suspenso numa corda que, pelo ar, atravessava de um lado para o outro da rua, era manobrada numa janela de um primeiro andar, de forma a dar movimento àquela figura humanizada para distrair ou assanhar a fera.
Aborrecido com o engano, o animal virou-se para a porta da taberna e investiu contra umas pernas que se mostravam em movimentos de pontapés no vazio vindos lá de dentro rente ao tranqueiro, no qual se vingou o touro por ter falhado a investida. O pau, mal seguro, à segunda ou terceira cornada saltou de "su sítio" e meia tonelada de carne entrou de rompante tasca adentro, marrando às cegas, sem sequer ter parado para colocar a questão, que habitualmente os touros colocam aos forcados antes do momento da reunião, aquando das pegas de caras nas touradas à portuguesa.
Quando touro e forcado, num frente a frente, cruzam olhares com hesitações mútuas, o touro já farto de ser enganado, com uma das patas dianteiras a escavar na arena, parece perguntar ao moço:
- Vens cá tu ou vou lá eu?
Aqui não foi o caso. O touro, ao entrar na taberna, parecia raposa em galinheiro. A debandada foi geral. Enquanto uns voaram pela janela ou esbracejaram pela porta, outros, que até se vangloriariam da sua grandeza, borrados da sua cagança, tentaram fazer-se pequeninos e invisíveis, e imóveis reduziram-se à sua natural insignificância.



Esta sequência de fotos foi tirada um ou dois anos após a inauguração da "praça"




O ti Pêla-Ruça, não. Descansadamente encostado ao balcão a dar três dedos de conversa entre dois goles de tinto, nem tempo teve para pestanejar. Foi apanhado por aquele "red bull" que lhe meteu um corno entre as pernas e lhe deu asas para ir aos céus.
Mas como o tecto do estabelecimento era o limite, depois de ter esbarrado nos caibros do forro, não lhe valendo a protecção da Senhora do Loreto, foi forçado a um voo picado e aterrou desamparado no cimento do chão, apenas almofadado com uma camada composta por um manto de cascas de tremoços, cascas de cascabuéis e um salpicado de piriscas brancas.
Por sorte o animal, que para além de míope, estrábico e daltónico também devia sofrer de claustrofobia, vendo-se encurralado naquela exiguidade, atraído pelo movimento do pessoal em fuga, desviou a atenção para a luz vinda da porta e conforme entrou assim saiu, poupando o ti Zé a mais umas valentes cornadas.
Mas a Santa redimiu-se e só um milagre seu fez com que a ambulância dos bombeiros voasse entre Idanha e Alcafozes para socorrer o homem e o transportar ao hospital.



Mas uma coisa é certa: o ti Pela-ruça, pequeno, era homem de fibra!

Porque se não fosse, nunca mais voltava às touradas de Alcafozes, como aconteceu muitas mais vezes.
E quando o episódio da cornada vinha à baila havia sempre alguém que lembrava a arrancada, sempre oportuna, do ti João Páscoa:
- São cousas ó Zéi. No dizem que quem se quer bem sempre se encontra?

Atão assim foi, parente!

quinta-feira, agosto 30

20-2007: A festa, que futuro?

Lá passou a festa!
Mais animada para uns, menos animada para outros, (é que nisto das festas é sempre difícil agradar a Deus e ao Diabo), mas honra seja feita às miúdas da Comissão 2007 que, com esforço e o apoio de familiares e amigos, cumpriram a divisa de dar continuidade à tradição e, pelo que me foi dado a perceber, o balanço foi francamente positivo.
Mas tão importante como os festejos propriamente ditos é a habitual "vinda à festa", sempre motivo para encontros e reencontros com amigos e, curiosamente, com os filhos dos amigos; a nova geração de mocidade que nasceu fora e não conhecemos por a não ter visto crescer.
Da miudagem dos 18/20 anos para baixo já não se conhece ninguém. A alguns, pelas parecenças, ainda se lhe deslinda a "linhagem", são a cara ingerida dos progenitores, mas a outros?, não há contorcionismo mental que lhes consiga encarrelher com a genealogia.
No reencontro, mais ou menos cíclico, entre velhas amizades consolidadas na juventude pela partilha de experiências e cumplicidades, alegrias e tristezas, questiona-se o futuro da aldeia e a continuação da festa, vindo à liça comparações com o passado.
São amizades do tempo em que a estudantada se juntava aqui, vinda de todo o lado, para passar as férias escolares. Apanhava a carreira logo após terminadas as aulas e aqui ficava um Verão inteiro até dois ou três dias antes do recomeço das mesmas.
Conjuntamente com os "Franceses" que vinham passar as "vacanças" e a malta que por cá permanecia, na expectativa de agarrar uma oportunidade para se atirar ao mundo, tal como os pássaros na borda do ninho, esperando pelo momento de se sentirem seguros e se lançarem no vazio, experimentando a triunfal sensação do primeiro voo, a "rapaziada do mê tempo" unia-se e havia festa todos os dias.
Mas com o aproximar do dia da mais esperada, a de Santo António, a agitação aumentava.
Di-lo ia o ti Cavalinho, quando uma buliçosa chusma, aos magotes, lhe invadia a taberna: "Ca rai de joldra vem a ser esta, atão pariu p’ra aí a galega, ô quêi?"
Toulões era um mar de gente.
É um facto que o futuro dos jovens, os tais que já não conhecemos, não passa por aqui. Para eles a terra é menos convidativa e até desinteressante. Já não passam cá o Verão. Vêm à Festa, de fugida, já queimados pelo sol da beira mar, quase só para não desapontar a família, que por devoção se reune toda neste dia.
Mas, apesar de tudo, visto o entusiasmo ainda manifestado por alguns mais optimistas, estou em crer que, a exemplo das miúdas que este ano a organizaram, à nova geração, apesar de cá não ter criado raízes, talvez lhe venham a rebentar umas vergônteas, boas pôlas que hão-de aqui pegar de estaca, não deixando morrer a tradição do "vir à Festa".

terça-feira, agosto 21

19-2007: Assim se passou a Festa

Este post é dedidado a todos os Toulonenses, especialmente aos que aqui vêm visitar-me (e sei que são bastantes), fazendo votos de que a Festa do ano que vem seja tão boa ou melhor que a deste ano.









O dia da festa, propriamente dito, começa com a alvorada pelas ruas do povo ao som da banda Filarmónica Idanhense, com o Tó Jacinto a fazer de cicerone.
O andor do padroeiro é, por tradição, sempre transportado pelos elementos da Comissão de Festas. Este ano as catchopas que fizeram a festa, aguentaram nos ombros, como é dado (ou seja, estoicamente), todo o percurso da procissão.
Durante a apresentação do livro "Cancioneiro de Toulões" o seu autor, Manuel A. Marques, (Mnelzinho, como cá é tratado) explica aos seus colegas de palestra o significado do desenho que ilustra a capa. A Vaca-Galhana (ver aqui) que em tempos foi ex-libris do Entrudo de Toulões.
Com esta foto quero homenagear o Tónho "Santantonho", o eterno e honorário festeiro que estava sempre pronto a regar a terreiro para apagar a poeira, no tempo em que a festa se fazia no adro. Apesar do seu atraso, quantas vezes animou a festa, sendo sempre acarinhado pelos Toulonenses.
Esteve tudo bem pensado e notata-se uma evolução de mentalidades. Até a criançada teve direito ao seu momento de festa durante o arraial com um concurso de desenho! É uma boa forma de fazer com que as crianças ganhem afeição pela terra.
Mais ou menos seis arrobitas de carne marcharam enquanto o diabo esfregou um olho.


A música teve muito som, muito movimento, mas pouca luz (daí as fotos terem um cariz mais artístico do que documental). Talvez o único senão da festa foi o facto de o conjunto tocar mais para a malta nova. O pessoal de idade mais avançada, que gosta dar o seu pésinho de dança ao som de música popular, desta vez foi mais o tempo que ficou a ver.

SÓ ME RESTA DESEJAR BOA SORTE AOS FESTEIROS DE 2008 E DEIXAR AQUI UM ABRAÇO A TODOS.

sexta-feira, julho 27

18-2007: FESTAS DE TOULÕES

Para todos quantos aqui chegam dando-me o prazer da vossa visita, mas, no caso, especialmente para os vizinhos, aqui deixo o cartaz das festas de verão deste ano com o respectivo programa do qual destaco três momentos:

PRIMEIRO (Sábado - 17:30h)

Faz também parte do programa das festas um momento cultural com o lançamento do livro "Cancioneiro de Toulões" pelo nosso conterrâneo Manuel Antunes Marques.
Imaginando o conteúdo desse livro, deixo uma das décimas desgraçadíssimas criada pelo ti Zé Louro, dita e cantada durante anos pelo povo de Toulões, tendo chegado até hoje como abaixo se regista.


Houve uma grande zaragata
Nos termos da nossa terra
Não quis acudir ninguém
Ao caminho de Salvaterra
O Ribeiro do Malhão
Como é bruto e revoltoso
Deu uma sova no Raposo
E esfaqueou o Barrocão
Na eira do Fontanhão
Espetou cem vezes a faca
Depois com uma estaca
Quis destripar as Lameiras
Então lá no Vale das Eiras
Houve uma grande zaragata

O Malhadil da Barronceira
Deu uma sova no do meio
Esperaram pelo correio
E foram dar parte à Zebreira
O Ribeiro da Feiteira
Mais bravo que uma fera
Cortou a cabeça à Serra
E um braço ao Serralhão
Houve grande revolução
Nos termos da nossa terra.

Archelona e Muro de Barro
Ao formarem novas herdades
Chincaram os olhos aos Frades
Lá prá Horta do Catarro
O Vale das Vacas veio num carro
E veio o Agulhão também
Porque o Vale das Azedas tem
Dez facadas na barriga
Corre o sangue à Toula arriba
E não lhe acode ninguém

Lá anda o Malhadil Cabeiro
Aos pontapés nas Lágrimas
Lá andam as Fontainhas
À bulha pelo Barreiro
Viu-se também o Chão Cimeiro
Aos Direitos fazer guerra
Mas ao ouvir gritar a Serra
Fugiu e anda a monte
Foi visto no Chão da Fonte
Ao Caminho de Salvaterra.


SEGUNDO (Sábado 19:30h)


O tradicional porco no espeto.


É tão bom que estou à vontade para garantir:

"NEM O TOUCINHO CÁ FICA!".

TERCEIRO (Todo o resto da festa)

A animação e a boa disposição estão garantidas. Para além dos artistas que constam do cartaz, estarão também presentes (por ordem alfabética): Emanuel, Mónica Sintra, Quim Barreiros, Quinzinho de Portugal, Rute Marléne, Vários Acordeonistas, etc., todos eles constantes do repertório em CD do Sr. Esteves (o homen da aparelhagem).
Fica aqui um aviso aos artistas participantes.
Dado ser tradição dançar o fandango durante o arraial, aquele que for solicitado e não o saiba tocar, para além de não receber, ser-lhe há apichada a canalha e será encorrido até ao leque da Zebreira.

BOAS FESTAS E BOAS FÉRIAS A TODOS, ... EU TAMBÉM VOU!