terça-feira, fevereiro 12

5-2008: Uma cacada na Quaresma


Talvez não já seja muito oportuno, em plena Quaresma, vir remexer nos restos mortais do mafarrico tchocalheiro, morto à meia noite de Terça-Feira-Gorda e enterrado com três pazadas à laia da podoa nas cinzas de Quarta-feira, reconduzidas na pilheirinha dos despejos.
Mas como é para enquadrar a estória deste post, fica escrito...

O período que antecedia esta longa quarentena, nalguns casos iniciado logo a seguir aos Reis, onde um pouco por todo o lado (Toulões, com a Vaca-Galhana a mandar - aqui e aqui - não fugia à regra) era, por natureza, um período de tropelias, provocação e abusos.
Consentindo ou não, cada um dos eleitos pelos Entrudos a ser atchocalhado, zurrado, tchorado ou alvo de umas valentes cacadas à porta de casa, tudo acontecendo a coberto de um anonimato pouco anónimo, com recurso a disfarces urdidos com o que estava à mão de semear ou à escuridão da noite, dependia da carantonha posta pelo visado durante os restantes dias do ano.
Por cá o lema era: "Quem tenha rabos de nagalho, não adormeça ao borralho".
Finda a folia, entra então a Quaresma: sinónimo de abstinência e jejum, de recolhimento e meditação, conceitos impeditivos de toda e qualquer manifestação, acto ou celebração, não condizentes com a o estipulado pelos cânones conciliares.
Estavam proibidos os bailes, os toques desgarrados à guitarra ou à concertina, a solo ou a acompanhar cantares, e até o toque do pífaro dos pastores. Estava também proibido ralhar, praguejar e deitar mau olhado a pessoas e animais.
Qualquer desvio da vereda trilhada por preconceituosos costumes, praticados pela santa ignorância daquelas almas, cujas mentalidades estavam reféns de crendices sobrenaturais e do hermetismo eclesiástico, transformava-se no temor de ser excomungado pela divina providência. Esse temor mantinha o respeito e todos, neste período, homens e mulheres, cumpriam à risca os preceitos estabelecidos.
O seu não cumprimento dava azo a que os santos do altar se revoltassem contra o pecador, condenando-o à lapidação pelo olhar reprovador do povo inteiro.
Pelo menos assim se pensava que era.
Uma vez, aconteceu em Toulões.
A Quaresma chegara, temporoa, com o Inverno ainda sem largar o gabão. O frio intenso que por aqui persistia, traspassando a telha vã das casas pobres, assolava a da ti Maria Cristóva, empontada na correnteza do quarteirão, ao cimo da rua que é hoje a de São José.
Pelas mesmas tchincadeiras que no verão lhe enchiam de zenitais réstias o ambiente sombrio da casa como a querer peneirar o sol, estrelando o chão térreo da habitação, entravam agora arrepiantes correntes de ar que um lume mortiço não conseguia debelar.
Desde que o marido, o ti André, fora levado na paz dos anjos para a Terra da Cadela, nunca mais tivera calor, nem de gente nem decente.
Deitava-se ainda de dia, mal acomodava as quatro pitas que pernoitavam num poleiro improvisado a um canto da casa. A noite passava-a encolhida, esmagada pelo peso de cinco ou seis mantas de arêlos, que nem aqueciam nem arrefeciam, mas moíam o corpo a uma pessoa.
O engenho aguçado da velhota levou-a a arranjar uma alternativa para aquecer os pés durante a noite. Pegou na prática exercida pela ti Mari Pinta, a vizinha, que enchia com água quente uma velha garrafa de porcelana, das da genebra, enfiava-a na manga de uma blusa sem préstimo e colocava-a por debaixo das mantas para temperar a friura da cama.
Aquela botija em grés, cor de terracota, que mais parecia uma pedra reboleira das que correm ribeiro abaixo com as enchentes, deu-lhe a ideia de aquecer um gorrão ao lume para fazer as mesmas vezes.
Aquecida a pedra em cima de umas trempes, com elas a transportou até ao quartelho onde dormia e a colocou, sem adornos, ao fundo da enxerga, cobrindo-a com cautela.
Claro está! Uma pedra praticamente incandescente, apanhando uma enxerga de palha moída, quase isca, é como apichar um rastilho a uma bomba rabia.
A imprevidência da velha Cristova originou que o fogo tomasse imediatamente conta do exíguo aposento.
Nem teve discernimento para abafar a ala com as mantas. A sua única reacção foi salvar a imagem imaculada de nossa senhora de Fátima, que lhe dormia à cabeceira enganando a solidão e zelando pela bênção daquele lar e sair numa pressa desengonçada, limitada pela curvatura da acentuada espandilose que a vergava.
Aos gritos por um Deus-me-acuda, abraçando e apertando a santinha contra o peito, saiu com ela porta fora a clamar por socorro.
Nem foi necessário tocar a rebate. O espírito de entreajuda da vizinhança rapidamente acudiu em peso para, num pronto, afogar a tragédia com cântaros e caldeiros de água.
Feito o rescaldo e remediado o estrago, ao outro dia, chega a Rosa Manjarica da fonte com um asado à cabeça, para ali deixar a água ao que desse e viesse.
Apondo-se a transpor a entrada de casa, embateu com o bocal do asado na tosse da porta e este, desamparadamente, estchabaçou-se em mil cacos na pedra da soleira.
A água, perder-se foi o menos; ao asado é que nem o feitio se lhe aproveitou.
Este descuido não podia ter acontecido em pior altura.
A Lhanor (Leonor) Raspa, rival de estimação da Rosa Manjarica por antigos desaguisados com namoricos, chegava no momento com a burra de arrédea, com dois molhos de lenha nas ingarelas, um dos quais para descarregar à porta da ti Maria. Por caridade ia arranjando uns chamiços à velhota, que já não podia ir por eles, para acender o lume.
Aquele monte de cacos à porta não escapou ao espírito de crítica da Lhanor, sempre à coca de uma oportunidade para largar uma laracha:
- Cónho?! Atão é Curesma e ainda andais a dêter cacadas?
A Rosa, que dias antes perdera o humor por uma tchoradela de Entrudo lhe ter desarranjado o namoro da filha com o Tchico da Garruça, desentendida ou por entender, não quis dar fé do gracejo.
Apesar de andar sempre a bater com a mão no peito e a estender a língua à hóstia, não hesitou em retalhar a conversa. Diziam as más línguas, que a dela era mais afiada que a matadeira do ti Zé Cochinho.
- Nós dêtemos cacadas e tu apanhaste os cacos lá no meio do milho c’ o Tónho Fàdista!
Bem!... Como isto do ralhar e do rezar é só para quem tem vagar, a coisa embalou e prolongou-se.
Cada uma desfiou o seu rosário de impropérios e insultos com que roga pragas ao gado desobediente e a coisa descambou para o lado do ralho desfraldado… e lá vieram os alhos e as cebolas, com rama e tudo.
Um branquear de sacrilégios!
Chegando as duas mulheres a vias de facto, com arranhões, arrepelões e roupa rasgada, interveio a boa-vontade apaziguadora da ti Mari Costóva a tentar apartá-las, exibindo à porta a imagem da virgem de Fátima benzida pelo padre António e rogando em voz alta ao Divino Senhor, que pusesse cobro àquele vilipendiar dos predicados da Quaresma.
Mas o impensável aconteceu!
No calor aceso do lavarinto, um encontrão descontrolado de uma das beligerantes fez com que a velhota deixasse cair a Virgem, indo fazer companhia ao asado escavacado de fresco. Não tinha o palmo e meio de estatueta chegado ao chão, a ti Maria leva as mãos à cabeça, temendo pela justiça divina. Já não bastava o castigo calhado em sorte por lhe ter ardido a casa, ainda teria de sofrer as sevícias infligidas pelo escárnio popular.
O quebrar da venerada imagem gerou um grito de dor e desespero, que congelou a refrega.
Subitamente, o silêncio imperou.
- Abençoada cacada que devolveu a ordem à Quaresma!

quinta-feira, janeiro 31

4-2008: Dá que pensar!


Um estudo elaborado pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior, surgido há dias na imprensa, estabelece o ranking de todos os concelhos do país, avaliando-os pelo IQV (Índice de Qualidade de Vida) de cada um deles.
Esta avaliação é baseada em múltiplos factores como sejam: a educação e mercado de emprego, as infra-estruturas, o ambiente económico e habitacional, o nível de criminalidade, a intensidade de tráfego e muitos outros, que englobam diversos aspectos ligados à satisfação das necessidades humanas básicas.

Dessa extensa lista de 278 concelhos classificados por IQV, nos 20 lugares com mais baixo índice, 7 pertencem à Beira Interior.
Um
é no distrito de Coimbra
275º - Pampilhosa da Serra - 13,69
Dois
são no distrito de Castelo Branco

262º- Idanha-a-Nova - 30,16,
270º - Penamacor - 21,89,
Quatro
no distrito da Guarda

260º - Figueira de Castelo Rodrigo - 31,71,
268º - Vila Nova de Foz Côa - 25,09,
273º - Aguiar da Beira - 14,97,
278º - Sabugal - 5,29 (último da lista)
- - - x x x x x - - -

Quando os leigos na matéria, como é o meu caso, concebem como conceito de boa qualidade de vida nas pequenas povoações, o privilégio de usufruir de um ambiente calmo, sem "stress", de contactar directamente com a natureza, fazer uma alimentação saudável com produtos biológicos, ter infra-estruturas mínimas de saúde e lazer, fica-se a saber que a qualidade de vida nas aldeias está cheia de imponderáveis.
Lembrando o vento da desertificação que há anos assola esta região, e levou para outras paragens os filhos por aqui nascidos e por aqui criados, sabe-se lá com que dificuldades, foi para muitos o vento da mudança. Esse mesmo vento devolveu às origens alguns menos resistentes ao sopro de saudade, para aqui passarem o resto dos seus dias, usufruindo de algum bem-estar conseguido subindo a pulso a corda da vida.

Agora, dizem eles, regressaram à aldeia para gozar de uma melhor qualidade de vida.
Será que têm razão?
Nota:

Da referida lista, os primeiros 10 lugares são ocupados, por esta ordem, pelas seguintes localidades:

1º - Lisboa - 205,07
2º - Albufeira - 181,04
3º - São João da Madeira - 168,57
4º - Porto - 161,05
5º - Sintra - 158,73
6º - Lagos - 158,51
7º - Cascais - 148,57
8º - Lagoa - 143,95
9º - Vila Franca de Xira - 142,82.
10º - Aveiro 142,81

Fonte: Jornal do Fundão (edição impressa)

terça-feira, janeiro 22

3-2008: Puro Raiano

Folha do tabaco na fase de secagem em estufa
- Coito das Areias (Zebreira / Idanha-a-Nova) -


Com a entrada em vigor da nova Lei do Tabaco, a ASAE virou definitivamente a marca da moda.
A sua, cada vez maior, visibilidade é ganha pelo protagonismo assumido em fazer a todo o custo cumprir a dita lei que, tal como outras anteriores, parece ter sido apressadamente despachada para fugir à ameaça de tsunami, provocada pelas ondas de choque originadas pela descarga da concentração aerofágica, acumulada por um grande da Europa incessantemente forçado a um doloroso deglutir em seco, engasgado com a instabilidade bolsista.
Naturalmente, quando as calamidades acontecem, é sempre o mexilhão que sofre piores danos colaterais, mas, com a ASAE vigilante, aparece sempre no momento oportuno uma mão amiga para dar uma palmada de reconforto, vincando a sua marca com o rigoroso cumprimento da lei.
Veja-se o que tem vindo a acontecer por toda esta Raia com os produtos regionais: enchidos, queijos, vinhos, azeite, doces e toda uma panóplia de sabores e saberes tradicionais cobertos pela poeira da história, que agora é preciso limpar em nome da modernização. Até a matança do porco, símbolo da união entre familiares e vizinhos, exemplo do espírito de entreajuda, está já amarrada ao banco para ser sentenciada.
Todas estas actividades já estão etiquetadas com a marca da ASAE, inclusivamente alguns cafés de aldeia já têm também a publicidade selada na porta, sinal da sua implacável intervenção.
Depois de provado que FUMAR MATA, pois claro, proíbe-se o fumeiro.
Agora chegou a vez do tabaco. Sempre pensei que a fiscalização fosse incidir sobre o contrabando, mas não: foi sobre o consumo e o consumidor, para desgraça dos agricultores idanhenses.A ameaça já pairava no ar desde 2005, quando a EU impôs o corte nos apoios ao cultivo do tabaco em Portugal. A sua produção, que se previa poder chegar até 2010, foi subitamente abandonada no ano passado e, claro está, a campina de Idanha-a-Nova, da qual saíam cerca de 65% da produção nacional na variedade Virgínia, ressentiu-se disso ao ser abrangida por esta medida.
Este abandono trouxe graves implicações sociais à vida agrícola por, no imediato, não ter sido dada alternativa (tudo aponta para a produção de bio-combustíveis, mas pelos vistos os estudos/projectos de viabilidade estão em combustão lenta) o que provoca revolta dos pequenos produtores que ficam de braços cruzados a verem o tabaco consumido, a ser importado.
"Pelo menos, mesmo que inconscientemente acontecesse, já não nos podem culpar da morte prematura de tantos portugueses" – dizem.
O abandono do cultivo do tabaco não implica o automático abandono do vício (ou do prazer) de fumar. Aproveitando a produção que ainda resiste, sem subsídios, e aproveitando a grande reputação de que goza a marca ASAE por todo o país, a ARBI (Associação de Regantes e Beneficiários de Idanha) e a APT (Associação dos Produtores de Tabaco) bem poderiam encetar negociações com o principal representante desta reputada marca (grande apreciador de cigarrilhas), propondo uma parceria para a instalação na campina de Idanha de uma unidade de produção de cigarrilhas e charutos, capaz de competir com as mais famosas marcas cubanas.
Num estudo de mercado elaborado após a promulgação de Lei do Tabaco, concluiu-se que esta forma de apresentação das folhas da planta Nicotina Tabacum, é a que mais probabilidades tem para singrar junto da restrita camada de consumidores, frequentadores dos locais contemplados na excepção à Lei que se adivinha estar para breve.
De futuro, se alguém se abeirar de si e lhe oferecer uma flor de tabaco, ouvirá certamente:
- Vai um puro Raiano ... um ASAE?

quinta-feira, janeiro 17

quarta-feira, janeiro 2

1-2008: Tratado novo, vida nova

Aldeia fronteiriça de SEGURA (Idanha-a-Nova), vista da ponte internacional sobre o rio Erges. No Império Romano, esta ponte estava inserida na estrada que servia de ligação entre Mérida e Braga.
O ano de 2007 acabou como acabou!
Bem ou mal, só o tempo dirá se o Tratado Europeu, nascido em Lisboa, nos trouxe benefícios assinaláveis ou se, como de costume, graças à habilidade portuguesa em negociar, nos temos de contentar com promessas de prosperidade para o futuro.
Mas isso fica para depois!
O que interessa agora é que, feito o registo de nascimento do Tratado Reformador, Portugal no exercício da presidência da EU batalhou para que o seu baptizado fosse celebrado em simultâneo, conseguindo-o in extremis.
Numa pomposa cerimónia (chamaram-lhe cimeira), com a presença de toda a família europeísta a testemunhar o acto, foi-lhe então atribuída a graça da nossa bela cidade de Lisbonne, capital de "ce petit pays" plantado na extrema ocidental do velho continente. Esta peculiaridade, considerada pelo poeta a fronteira onde a terra acaba e o mar começa, deixa nos europeus menos conhecedores da nossa história (e nada interessados nela), a convicção de que nem somos carne nem somos peixe.
Para estes, o local de onde saíram homens destemidos, que se aventuraram por mares nunca dantes navegados, em viagens que à escala da época corresponderiam às viagens espaciais de hoje, trazendo notícias do achamento de novos mundos que tornaram Portugal maior, não passa de um pequeno país de emigrantes e pescadores de bacalhau, marinheiros que nunca meteram calado a romper por águas para além da Trafaria.
Este esforço, feito para que tudo corresse de feição, viu-se recompensado. Portugal foi colocado na prateleira da história da EU, pelo feito de ter conseguido reunir 27 países pertencentes à família europeia em redor de um projecto comum: o tradicional retrato de família.
É, em sentido lato, aquilo a que podemos chamar: trabalhar para o boneco.
São momentos como este, descurando a divulgação do documento às populações, a única parte que importa registar.
Para assinalar o evento, foi oferecido a cada um dos membros mais chegados desta grande família uma caneta em prata de lei, para assinar, e legitimar, uma reforma que garante a nossa incapacidade reivindicativa e a consequente precariedade da nossa economia, assim como o corte nos investimentos em projectos para desenvolvimento das zonas mais desfavorecidas do nosso Interior, em detrimento de países menos necessitados ou menos periféricos e com menos capacidade negocial que a portuguesa.
Também, pela nossa reconhecida hospitalidade, e por ser Natal, foi oferecido a cada um de nós um alicate obliterador dourado, para fazer mais um furo no cinto de cada vez que formos chamados a realizar um esforço suplementar e, assim, poder aguentar a carestia de vida.
E a generosidade não acabou por aqui!
Com a decisão de ratificar parlamentarmente o documento, fomos poupados à enfadonha tarefa de ter de nos pronunciar sobre o assunto. Efectivamente, essa coisa de ter de ir às urnas, a um domingo, ainda por cima sempre na incerteza em saber de que lado está o gume do voto, que deixa em nós a frustrante sensação de, consecutivamente, ficarmos entalados entre o voto e a parede, é uma chatice.

- Tratado novo, vida nova. O baptizado foi giro, pá. ?
- "Porreiro, pá!, o Tratado de Lisboa ficará na História por abrir novos caminhos no ideal europeu!" 
O pior é que, terminado o fogo de artifício e apagadas a luzes -"calabaça, calabaça, cada qual p´ra sua casa" - Portugal ficou de novo sozinho em Lisboa, entregue a si próprio, a limpar os restos da festa e a arrumar a casa.
Aos Raianos, resta-nos a consolação de a Europa ser aqui ao lado. Facilmente podemos lá ir comprar, por bom dinheiro, os sonhos daqui levados por umas cascas de alhos.
Basta tão só arregaçar as calças e atravessar a Ribeira Espanhola (Rio Erges), com a vantagem de nem sequer ser preciso passar a salto, como fizeram muitos dos que de cá partiram à sua conquista em finais da década de 50.

Com o 1º post deste ano quero desejar a todos um BOM ANO 2008

terça-feira, dezembro 11

23-2007: O Madeiro do Natal


Na quadra natalícia, por estas terras da raia perdida cujas tradições valorizam o nosso legado cultural, "aldeia sem madeiro no adro é como um presépio sem menino Jesus".
Era neste pressuposto que todos os anos na noite de 7 e no dia 8 de Dezembro, os habilitados a mancebos viviam uma azáfama de formigueiro para fazer chegar ao adro o maior tronco de azinheiro que houvesse no montado.
Era previamente escolhido e solicitado ao seu proprietário que, também por uma questão honra, orgulho e muitas vezes uma ponta de vaidade, raramente se negava à oferta.
Era uma noite de trabalho. Com os enxadões e o garrafão a serem elementos preponderantes nesta tarefa, até chegar a hora de, com um calabre engalhado nos ramos, por o azinheiro de cambecas, não havia descanso.
Só então era feito um intervalo para retemperar e recuperar do esforço, em redor do enorme lazarete, com umas presas assadas directamente em cima das brazas, ou na ponta de um espeto improvisado no momento.
E se os enxadões, esses, eram postos em descanso, o garrafão continuava activo e a cumprir o seu papel de não deixar arrefecer os ânimos. É que por esta altura do ano já um barbeiro sem navalha se apronta a escanhoar rente a penugem a estes imberbes de rosto desprotegido.
Só ao romper do dia se regressava ao trabalho para o madeiro ser carregado e transportado até ao adro da Igreja.



Com uma paragem técnica à entrada do povo, para as raparigas (noivas ou faladas) emprestarem os seus lenços mais garridos aos rapazes, que os atavam ao tronco, cruzando o peito. Enfeitava-se a canga e os cornos das vacas com laranjas (desde há uns anos utilizam-se tractores) e cobriam-se ramos de azinheiro, trazidos para o efeito, com colchas floreadas, sendo depois erguidos como estandartes enquanto a carrada dava a volta pelas ruas do povo e, por entre enfeites, toques de concertina e cantares ao Menino Jesus, davam-se vivas ao Madeiro:
"Viva o Madeiro do Natal e a junta do t’ João Bombarral"
"Viva a malta do Madeiro e o carro do t’ Zé Monteiro"
"Viva o tocador"
"Viva o garrafão"
"Viva o Madeiro, que ainda está inteiro".

Mas em Toulões esta tradição já não é o que era.
Por mor do despovoamento agravado dia a dia e pela consequente falta de cachopada, desde há uns anos que o Madeiro vem sendo arrancado pelos homens residentes, sempre com a ameaça de a tradição um dia acabar de vez.
Nesta eminência, e alterando radicalmente a tradição, antecipando-se mesmo à intenção do governo em tornar o recenseamento militar extensivo às raparigas, foi a filha da Natércia, que sem quintos, organizou sozinha o arranque do madeiro de há dois ou três anos, por ter sido a única criança nascida em Toulões, a atingir a idade de ir às sortes.
E a ameaça cumpriu-se! Neste Natal não houve Madeiro em Toulões.
Nas vésperas da noite do caramelo, adaptando as tradições antigas aos tempos modernos, graças à facilidade em agora se poder dispor de maquinaria pesada, na urgência lá se arranjou um azinheiro e uma sobreira velha, conseguindo garantir-se o calor necessário para aquecer o Menino na noite da consoada e também, diga-se, para não deixar a aldeia em pouco (é que com isto das rivalidades entre aldeias era importante manter a dignidade).
Apesar deste esforço de última hora, o Madeiro propriamente dito, com todo o simbolismo do ritual do arranque daquele tronco, que ditava a passagem à idade adulta de todos os jovens incumbidos de o colocar no adro, nunca podendo ter um perímetro inferior ao medido pela bitola de duas braçadas de homem, esse, ficou no montado.
Sem gente a nascer nas aldeias, vão-se as tradições.
Foi pertinente a preocupação manifestada por Sua Excelência o Presidente da República para com a baixa taxa de natalidade por estas bandas, numa recente visita oficial que fez pelo vizinho distrito da Guarda.
Mas sabendo que a imensidão da vontade dos políticos é proporcional à imensidão de votos que os possam eleger, é certo e sabido que não há vontade que aqui chegue para por cá fixar as pessoas.
Carlos Drummond de Andrade, numa passagem do seu poema "Reverência ao destino…", dizia
:
… FÁCIL, é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação
DIFÍCIL é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem para fazer ….

Valha-nos o Natal para todos os anos, por aqui, irmos podendo assistir à alegria que é o nascimento de uma criança, mesmo se o feliz acontecimento ocorre numa manjedoura em vez de numa ambulância dos bombeiros a caminho da maternidade.
A breve trecho, iremos ter o adro de Toulões vazio de Madeiro e até, sabe-se lá, o presépio sem Menino Jesus.

Nota:
Se em Toulões e outras aldeias raianas a tendência é para que a tradição se extinga, outras terras há em que ela parece estar cada vez mais enraizada.

Veja-se o caso de Penamacor onde todos os anos o madeiro é sempre maior que o do ano anterior(a foto é do Natal de 2006, 2 dias depois de ter sido ateado), chegando a roçar o exagero e a apregoar-se ser este o maior Madeiro do país.(ver aqui o madeiro de 2007).
Tradição à parte, o que parece ganhar-se em grandiosidade e ostentação, parece perde-se em convicção pelos valores do Natal.

Já em Proença-a-Velha, uma vizinha aldeia do concelho de Idanha-a-Nova, são mais comedidos. O Madeiro é mais pequeno, mas toda a população colabora e se empenha para manter bem viva a sua tradição, tornando este evento uma atracção, tanto para os da terra como para forasteiros.

A prová-lo está este livro da autoria de João Mugeiro e João Adolfo Geraldes, editado pela Magno Edições e pela Proençal (ver link ao lado - Proença-a-velha), onde é feita uma excelente descrição dos rituais do Madeiro ao longo dos tempos e em que cerca de metade desse livro está ilustrado com fotografias da autoria de Marcin Górski, tiradas à guisa de reportagem ao Madeiro de 2005.

Essas fotografias foram mostradas numa exposição que esteve patente no Núcleo Museológico do Lagar de Azeite, em Proença-a-Velha, no Natal de 2006, e que tive a oportunidade de visitar.
Actualmente podem ainda ser vistas aqui (http://www.pontosdevista.net/expoi.php?id=247)

sábado, setembro 22

22-2007: Pajarito - Black-bull com asas

... Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias… Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. ...
...- Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.

Pronto!

Excerto de Miura (BICHOS) - Miguel Torga

terça-feira, setembro 4

21-2007: Sra do Loreto - Alcafozes

Pela primeira vez, Portugal recebeu a Red Bull Air Race 2007.
Este fim de semana nas margens do Douro entre o Porto e Vila Nova Gaia, para assistir ao espectáculo, uma enchente humana invadiu a zona ribeirinha. Até parecia que o rio havia transbordado.
Não fora a divulgação feita ao evento, ao ver toda aquela mole de gente que lá se juntou, muitos pensariam que se estava a assistir a uma corrida de rabelos à antiga duriense.
Mas não!
Todos os que se abeiraram do rio saberiam ao que iam.
O que muito poucos saberiam é que também neste mesmo fim de semana, em Alcafozes (uma aldeia vizinha, aqui a uns escassos 12 ou 13 Km de Toulões), iam decorrer (coincidência ou não – e nada divulgados) os festejos celebrados em honra de Nossa Senhora do Loreto, a Virgem Santíssima que em 24 de Março de 1920 foi consagrada pelo Papa Bento XV, Padroeira Universal da Aviação.
Está assim explicada a razão para tanto arrojo colocado nas manobras vertiginosas com que os malucos das máquinas voadoras que, competindo nos céus do Douro, brindaram o povo que assistiu àquele espectáculo inédito entre nós. É que ter as costas protegidas por Nossa Sra do Loreto sempre transmite outra confiança.
É na busca dessa protecção que, tradicionalmente, à romaria desta Santa que todos anos no dia em que culmina a festa (segunda feira a seguir ao primeiro fim de semana de Setembro) ali convergem representantes das mais diversas entidades ligadas à aeronáutica militar e civil para assistir à missa campal e fazer guarda de honra à padroeira durante a procissão em redor do recinto da festa.
Ele é o representante do Estado Maior e de vários militares da Força Aérea, ele são os representantes das Companhias Aéreas e dos seus tripulantes, das Associações e Sindicatos do sector da Aviação Comercial, dos Aero-Clubes dispersos pelo país (com especial destaque para o de Castelo Branco por ser o anfitrião), etc. e muitos populares, todos a encherem de ofertas e recordações a capela do santuário.
No decorrer da procissão, todos os anos uma esquadrilha de aviões patrulha os céu de Alcafozes, deixando atrás de si um troar ensurdecedor a fazer os fiéis se lembrarem de Santa Bárbara e um rasto de fumo branco como marca da sua passagem. Por vezes, quando o tempo o permite, também há lançamento de "páras".
Este ano coube aos F16 da FA e a algumas aeronaves do Aero-Clube de Castelo Branco cumprirem a tradição, mas noutros tempos, quando a guerra colonial que consumia material bélico nado criado de norte a sul do país, esse papel cabia às esquadrilhas de aviões Fiat e outros, que aproveitavam para sobrevoar as aldeias limítrofes e propagandear a actividade da Força Aérea com o lançamento de "papelinhos", no sentido de cativarem o interesse dos jovens e levá-los a alistarem-se nesta força militar.

Avião "T37 C", oferecido pela Força Aéra Portuguesa
(clicar sobre a foto para ler a placa)


Bom, mas se a parte religiosa da festa é, a seguir à Sra do Almortão, a romaria mais concorrida no concelho de Idanha-a-Nova, a parte pagã é também das que consegue atrair mais gente.
É, de longa data, conhecido o dinamismo e o espírito mobilizador das sucessivas Comissões de Festas alcafozenhas, que todos os anos tentam fazer melhor que o ano anterior, sempre como primeira preocupação, arranjar programas que mantenham a festa em alta durante três dias, nos quais nunca podem faltar as tradicionais garraiadas.
Foi das primeiras aldeias da região a possuir capacidade financeira para contratar artistas portugueses de nomeada.

Cobram bem, mas também animam os festejos e atraem forasteiros em quantidade suficiente para darem consumo aos mais diversos e apetitosos petiscos, garantindo, assim, um encaixe financeiro que, somado às dádivas da população e às receitas das rifas que são (ou eram – ainda comprei algumas) vendidas em qualquer parte do mundo onde haja um alcafozenho, ajudam a assegurar o futuro da festa.
Bem! Mas o objectivo da entrada de hoje não é propriamente o de contar a história da festa à Senhora do Loreto, porque para isso qualquer filho desta aldeia Raiana o saberá fazer melhor que eu.
É, isso sim, a de contar uma história conhecida de todos os toulonenses do meu tempo; a cornada sofrida pelo t’Zé Monteiro Pêla-Ruça, que o deixou empalamado por uma valente temporada.
Numa altura em que ainda não tinha pegado a moda dos cantores, entretenimento maior em Alcafozes eram as afamadas largadas à vara larga pelas ruas do povo, com tradição certamente recolhida das famosas "touredas" de Idanha-a-Nova, aonde acudia gente de todos os povos das redondezas.




O rei da Música Pop Portuguesa, Quim Barreiros, condimentou o ambiente festivo com o picante das sua cantigas.


A garraiada nocturna não teve a emoção de outros tempos

Agora as garraiadas são feitas num redondel construído junto ao recinto das festas, se bem me lembro, aí por finais da década de 80, onde já foram feitas touradas a sério, com cavaleiros, forcados e tudo.
Mas já não é a mesma coisa. Verdade seja dita que também já não há rapazes com "farnis" como havia antigamente, destemidos e com genica para enfrentar o garraio.
As ruas que desembocam no largo da igreja eram vedadas com cancelas robustas e nalgumas portas, principalmente numa das tabernas que dá para o largo, que faz esquina no lado poente do mesmo, era colocado, ao alto, um tranqueiro a atravancar a passagem, impedindo a entrada à rês que estivesse a ser corrida.
Os animais que participavam neste divertimento eram vacas bravas, mas em último, para aumentar a adrenalina aos mais tesos, era na maior parte das vezes libertado um touro. Um verdadeiro. Um daqueles que, como escreveu Herberto Hélder, "é uma espécie de pedra gigante dotada de dinamismo", com força bastante para levantar um reboque de tractor carregado de gente (como aconteceu uma vez no Ladoeiro - não ganharam para o susto!) e com a manha aprendida a correr atrás dos cavalos e dos forcados, nalguma das monumentais praças portuguesas.
Como a grande maioria das gentes raianas, o t’Zé Pêla-Ruça também gostava de "faenas" e fora à festa na companhia de uns amigos. A dado momento, para retemperar o organismo da desidratação provocada pelo calor da movimentação no largo, entraram na taberna para beber um copo.
Na rua um touro "bromelho" torrado fora largado e, ali mesmo à porta da tasca, investia num espantalho feito com uma saca de serapilheira cheia com palha centeia, como que a querer provar à assistência que a cor da pelagem nada tem a ver com a bravura.
O espantalho suspenso numa corda que, pelo ar, atravessava de um lado para o outro da rua, era manobrada numa janela de um primeiro andar, de forma a dar movimento àquela figura humanizada para distrair ou assanhar a fera.
Aborrecido com o engano, o animal virou-se para a porta da taberna e investiu contra umas pernas que se mostravam em movimentos de pontapés no vazio vindos lá de dentro rente ao tranqueiro, no qual se vingou o touro por ter falhado a investida. O pau, mal seguro, à segunda ou terceira cornada saltou de "su sítio" e meia tonelada de carne entrou de rompante tasca adentro, marrando às cegas, sem sequer ter parado para colocar a questão, que habitualmente os touros colocam aos forcados antes do momento da reunião, aquando das pegas de caras nas touradas à portuguesa.
Quando touro e forcado, num frente a frente, cruzam olhares com hesitações mútuas, o touro já farto de ser enganado, com uma das patas dianteiras a escavar na arena, parece perguntar ao moço:
- Vens cá tu ou vou lá eu?
Aqui não foi o caso. O touro, ao entrar na taberna, parecia raposa em galinheiro. A debandada foi geral. Enquanto uns voaram pela janela ou esbracejaram pela porta, outros, que até se vangloriariam da sua grandeza, borrados da sua cagança, tentaram fazer-se pequeninos e invisíveis, e imóveis reduziram-se à sua natural insignificância.



Esta sequência de fotos foi tirada um ou dois anos após a inauguração da "praça"




O ti Pêla-Ruça, não. Descansadamente encostado ao balcão a dar três dedos de conversa entre dois goles de tinto, nem tempo teve para pestanejar. Foi apanhado por aquele "red bull" que lhe meteu um corno entre as pernas e lhe deu asas para ir aos céus.
Mas como o tecto do estabelecimento era o limite, depois de ter esbarrado nos caibros do forro, não lhe valendo a protecção da Senhora do Loreto, foi forçado a um voo picado e aterrou desamparado no cimento do chão, apenas almofadado com uma camada composta por um manto de cascas de tremoços, cascas de cascabuéis e um salpicado de piriscas brancas.
Por sorte o animal, que para além de míope, estrábico e daltónico também devia sofrer de claustrofobia, vendo-se encurralado naquela exiguidade, atraído pelo movimento do pessoal em fuga, desviou a atenção para a luz vinda da porta e conforme entrou assim saiu, poupando o ti Zé a mais umas valentes cornadas.
Mas a Santa redimiu-se e só um milagre seu fez com que a ambulância dos bombeiros voasse entre Idanha e Alcafozes para socorrer o homem e o transportar ao hospital.



Mas uma coisa é certa: o ti Pela-ruça, pequeno, era homem de fibra!

Porque se não fosse, nunca mais voltava às touradas de Alcafozes, como aconteceu muitas mais vezes.
E quando o episódio da cornada vinha à baila havia sempre alguém que lembrava a arrancada, sempre oportuna, do ti João Páscoa:
- São cousas ó Zéi. No dizem que quem se quer bem sempre se encontra?

Atão assim foi, parente!