quarta-feira, fevereiro 27

6-2008: 2 anos passados...

Eu tenho em casa uma arca

Eu tenho em casa uma arca
feita de ferro e madeira
onde guardo coisas velhas
guardadas de igual maneira
velhos bocados de trapo
restos de loiça e metal
coisas que têm bons cheiros
ou que talvez cheirem mal
mas que são testemunho
do que fui e do que sou
suporte ao peso da herança
da terra que me gerou
e toda a gente tem arcas
mas que não abrem a ninguém
pois não se diz nem se mostra
tudo aquilo que se tem
e só quando o homem velho
for o homem libertado
deixaremos de ter coisas
fechadas a cadeado.
Este poema, da autoria de MOITA MACEDO, dedico-o a todos os que têm a paciência de vir afuroar no meu Arcaz.
A Arca Velha nasceu do carinho que tenho pela minha terra e pela genuinidade das suas gentes, protagonistas destas estórias que fui aprendendo a contar, com a ajuda dos vossos ensinamentos, ao longo destes dois anos passados.
BEM HAJAS VÓS!!!

terça-feira, fevereiro 12

5-2008: Uma cacada na Quaresma


Talvez não já seja muito oportuno, em plena Quaresma, vir remexer nos restos mortais do mafarrico tchocalheiro, morto à meia noite de Terça-Feira-Gorda e enterrado com três pazadas à laia da podoa nas cinzas de Quarta-feira, reconduzidas na pilheirinha dos despejos.
Mas como é para enquadrar a estória deste post, fica escrito...

O período que antecedia esta longa quarentena, nalguns casos iniciado logo a seguir aos Reis, onde um pouco por todo o lado (Toulões, com a Vaca-Galhana a mandar - aqui e aqui - não fugia à regra) era, por natureza, um período de tropelias, provocação e abusos.
Consentindo ou não, cada um dos eleitos pelos Entrudos a ser atchocalhado, zurrado, tchorado ou alvo de umas valentes cacadas à porta de casa, tudo acontecendo a coberto de um anonimato pouco anónimo, com recurso a disfarces urdidos com o que estava à mão de semear ou à escuridão da noite, dependia da carantonha posta pelo visado durante os restantes dias do ano.
Por cá o lema era: "Quem tenha rabos de nagalho, não adormeça ao borralho".
Finda a folia, entra então a Quaresma: sinónimo de abstinência e jejum, de recolhimento e meditação, conceitos impeditivos de toda e qualquer manifestação, acto ou celebração, não condizentes com a o estipulado pelos cânones conciliares.
Estavam proibidos os bailes, os toques desgarrados à guitarra ou à concertina, a solo ou a acompanhar cantares, e até o toque do pífaro dos pastores. Estava também proibido ralhar, praguejar e deitar mau olhado a pessoas e animais.
Qualquer desvio da vereda trilhada por preconceituosos costumes, praticados pela santa ignorância daquelas almas, cujas mentalidades estavam reféns de crendices sobrenaturais e do hermetismo eclesiástico, transformava-se no temor de ser excomungado pela divina providência. Esse temor mantinha o respeito e todos, neste período, homens e mulheres, cumpriam à risca os preceitos estabelecidos.
O seu não cumprimento dava azo a que os santos do altar se revoltassem contra o pecador, condenando-o à lapidação pelo olhar reprovador do povo inteiro.
Pelo menos assim se pensava que era.
Uma vez, aconteceu em Toulões.
A Quaresma chegara, temporoa, com o Inverno ainda sem largar o gabão. O frio intenso que por aqui persistia, traspassando a telha vã das casas pobres, assolava a da ti Maria Cristóva, empontada na correnteza do quarteirão, ao cimo da rua que é hoje a de São José.
Pelas mesmas tchincadeiras que no verão lhe enchiam de zenitais réstias o ambiente sombrio da casa como a querer peneirar o sol, estrelando o chão térreo da habitação, entravam agora arrepiantes correntes de ar que um lume mortiço não conseguia debelar.
Desde que o marido, o ti André, fora levado na paz dos anjos para a Terra da Cadela, nunca mais tivera calor, nem de gente nem decente.
Deitava-se ainda de dia, mal acomodava as quatro pitas que pernoitavam num poleiro improvisado a um canto da casa. A noite passava-a encolhida, esmagada pelo peso de cinco ou seis mantas de arêlos, que nem aqueciam nem arrefeciam, mas moíam o corpo a uma pessoa.
O engenho aguçado da velhota levou-a a arranjar uma alternativa para aquecer os pés durante a noite. Pegou na prática exercida pela ti Mari Pinta, a vizinha, que enchia com água quente uma velha garrafa de porcelana, das da genebra, enfiava-a na manga de uma blusa sem préstimo e colocava-a por debaixo das mantas para temperar a friura da cama.
Aquela botija em grés, cor de terracota, que mais parecia uma pedra reboleira das que correm ribeiro abaixo com as enchentes, deu-lhe a ideia de aquecer um gorrão ao lume para fazer as mesmas vezes.
Aquecida a pedra em cima de umas trempes, com elas a transportou até ao quartelho onde dormia e a colocou, sem adornos, ao fundo da enxerga, cobrindo-a com cautela.
Claro está! Uma pedra praticamente incandescente, apanhando uma enxerga de palha moída, quase isca, é como apichar um rastilho a uma bomba rabia.
A imprevidência da velha Cristova originou que o fogo tomasse imediatamente conta do exíguo aposento.
Nem teve discernimento para abafar a ala com as mantas. A sua única reacção foi salvar a imagem imaculada de nossa senhora de Fátima, que lhe dormia à cabeceira enganando a solidão e zelando pela bênção daquele lar e sair numa pressa desengonçada, limitada pela curvatura da acentuada espandilose que a vergava.
Aos gritos por um Deus-me-acuda, abraçando e apertando a santinha contra o peito, saiu com ela porta fora a clamar por socorro.
Nem foi necessário tocar a rebate. O espírito de entreajuda da vizinhança rapidamente acudiu em peso para, num pronto, afogar a tragédia com cântaros e caldeiros de água.
Feito o rescaldo e remediado o estrago, ao outro dia, chega a Rosa Manjarica da fonte com um asado à cabeça, para ali deixar a água ao que desse e viesse.
Apondo-se a transpor a entrada de casa, embateu com o bocal do asado na tosse da porta e este, desamparadamente, estchabaçou-se em mil cacos na pedra da soleira.
A água, perder-se foi o menos; ao asado é que nem o feitio se lhe aproveitou.
Este descuido não podia ter acontecido em pior altura.
A Lhanor (Leonor) Raspa, rival de estimação da Rosa Manjarica por antigos desaguisados com namoricos, chegava no momento com a burra de arrédea, com dois molhos de lenha nas ingarelas, um dos quais para descarregar à porta da ti Maria. Por caridade ia arranjando uns chamiços à velhota, que já não podia ir por eles, para acender o lume.
Aquele monte de cacos à porta não escapou ao espírito de crítica da Lhanor, sempre à coca de uma oportunidade para largar uma laracha:
- Cónho?! Atão é Curesma e ainda andais a dêter cacadas?
A Rosa, que dias antes perdera o humor por uma tchoradela de Entrudo lhe ter desarranjado o namoro da filha com o Tchico da Garruça, desentendida ou por entender, não quis dar fé do gracejo.
Apesar de andar sempre a bater com a mão no peito e a estender a língua à hóstia, não hesitou em retalhar a conversa. Diziam as más línguas, que a dela era mais afiada que a matadeira do ti Zé Cochinho.
- Nós dêtemos cacadas e tu apanhaste os cacos lá no meio do milho c’ o Tónho Fàdista!
Bem!... Como isto do ralhar e do rezar é só para quem tem vagar, a coisa embalou e prolongou-se.
Cada uma desfiou o seu rosário de impropérios e insultos com que roga pragas ao gado desobediente e a coisa descambou para o lado do ralho desfraldado… e lá vieram os alhos e as cebolas, com rama e tudo.
Um branquear de sacrilégios!
Chegando as duas mulheres a vias de facto, com arranhões, arrepelões e roupa rasgada, interveio a boa-vontade apaziguadora da ti Mari Costóva a tentar apartá-las, exibindo à porta a imagem da virgem de Fátima benzida pelo padre António e rogando em voz alta ao Divino Senhor, que pusesse cobro àquele vilipendiar dos predicados da Quaresma.
Mas o impensável aconteceu!
No calor aceso do lavarinto, um encontrão descontrolado de uma das beligerantes fez com que a velhota deixasse cair a Virgem, indo fazer companhia ao asado escavacado de fresco. Não tinha o palmo e meio de estatueta chegado ao chão, a ti Maria leva as mãos à cabeça, temendo pela justiça divina. Já não bastava o castigo calhado em sorte por lhe ter ardido a casa, ainda teria de sofrer as sevícias infligidas pelo escárnio popular.
O quebrar da venerada imagem gerou um grito de dor e desespero, que congelou a refrega.
Subitamente, o silêncio imperou.
- Abençoada cacada que devolveu a ordem à Quaresma!

quinta-feira, janeiro 31

4-2008: Dá que pensar!


Um estudo elaborado pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior, surgido há dias na imprensa, estabelece o ranking de todos os concelhos do país, avaliando-os pelo IQV (Índice de Qualidade de Vida) de cada um deles.
Esta avaliação é baseada em múltiplos factores como sejam: a educação e mercado de emprego, as infra-estruturas, o ambiente económico e habitacional, o nível de criminalidade, a intensidade de tráfego e muitos outros, que englobam diversos aspectos ligados à satisfação das necessidades humanas básicas.

Dessa extensa lista de 278 concelhos classificados por IQV, nos 20 lugares com mais baixo índice, 7 pertencem à Beira Interior.
Um
é no distrito de Coimbra
275º - Pampilhosa da Serra - 13,69
Dois
são no distrito de Castelo Branco

262º- Idanha-a-Nova - 30,16,
270º - Penamacor - 21,89,
Quatro
no distrito da Guarda

260º - Figueira de Castelo Rodrigo - 31,71,
268º - Vila Nova de Foz Côa - 25,09,
273º - Aguiar da Beira - 14,97,
278º - Sabugal - 5,29 (último da lista)
- - - x x x x x - - -

Quando os leigos na matéria, como é o meu caso, concebem como conceito de boa qualidade de vida nas pequenas povoações, o privilégio de usufruir de um ambiente calmo, sem "stress", de contactar directamente com a natureza, fazer uma alimentação saudável com produtos biológicos, ter infra-estruturas mínimas de saúde e lazer, fica-se a saber que a qualidade de vida nas aldeias está cheia de imponderáveis.
Lembrando o vento da desertificação que há anos assola esta região, e levou para outras paragens os filhos por aqui nascidos e por aqui criados, sabe-se lá com que dificuldades, foi para muitos o vento da mudança. Esse mesmo vento devolveu às origens alguns menos resistentes ao sopro de saudade, para aqui passarem o resto dos seus dias, usufruindo de algum bem-estar conseguido subindo a pulso a corda da vida.

Agora, dizem eles, regressaram à aldeia para gozar de uma melhor qualidade de vida.
Será que têm razão?
Nota:

Da referida lista, os primeiros 10 lugares são ocupados, por esta ordem, pelas seguintes localidades:

1º - Lisboa - 205,07
2º - Albufeira - 181,04
3º - São João da Madeira - 168,57
4º - Porto - 161,05
5º - Sintra - 158,73
6º - Lagos - 158,51
7º - Cascais - 148,57
8º - Lagoa - 143,95
9º - Vila Franca de Xira - 142,82.
10º - Aveiro 142,81

Fonte: Jornal do Fundão (edição impressa)

terça-feira, janeiro 22

3-2008: Puro Raiano

Folha do tabaco na fase de secagem em estufa
- Coito das Areias (Zebreira / Idanha-a-Nova) -


Com a entrada em vigor da nova Lei do Tabaco, a ASAE virou definitivamente a marca da moda.
A sua, cada vez maior, visibilidade é ganha pelo protagonismo assumido em fazer a todo o custo cumprir a dita lei que, tal como outras anteriores, parece ter sido apressadamente despachada para fugir à ameaça de tsunami, provocada pelas ondas de choque originadas pela descarga da concentração aerofágica, acumulada por um grande da Europa incessantemente forçado a um doloroso deglutir em seco, engasgado com a instabilidade bolsista.
Naturalmente, quando as calamidades acontecem, é sempre o mexilhão que sofre piores danos colaterais, mas, com a ASAE vigilante, aparece sempre no momento oportuno uma mão amiga para dar uma palmada de reconforto, vincando a sua marca com o rigoroso cumprimento da lei.
Veja-se o que tem vindo a acontecer por toda esta Raia com os produtos regionais: enchidos, queijos, vinhos, azeite, doces e toda uma panóplia de sabores e saberes tradicionais cobertos pela poeira da história, que agora é preciso limpar em nome da modernização. Até a matança do porco, símbolo da união entre familiares e vizinhos, exemplo do espírito de entreajuda, está já amarrada ao banco para ser sentenciada.
Todas estas actividades já estão etiquetadas com a marca da ASAE, inclusivamente alguns cafés de aldeia já têm também a publicidade selada na porta, sinal da sua implacável intervenção.
Depois de provado que FUMAR MATA, pois claro, proíbe-se o fumeiro.
Agora chegou a vez do tabaco. Sempre pensei que a fiscalização fosse incidir sobre o contrabando, mas não: foi sobre o consumo e o consumidor, para desgraça dos agricultores idanhenses.A ameaça já pairava no ar desde 2005, quando a EU impôs o corte nos apoios ao cultivo do tabaco em Portugal. A sua produção, que se previa poder chegar até 2010, foi subitamente abandonada no ano passado e, claro está, a campina de Idanha-a-Nova, da qual saíam cerca de 65% da produção nacional na variedade Virgínia, ressentiu-se disso ao ser abrangida por esta medida.
Este abandono trouxe graves implicações sociais à vida agrícola por, no imediato, não ter sido dada alternativa (tudo aponta para a produção de bio-combustíveis, mas pelos vistos os estudos/projectos de viabilidade estão em combustão lenta) o que provoca revolta dos pequenos produtores que ficam de braços cruzados a verem o tabaco consumido, a ser importado.
"Pelo menos, mesmo que inconscientemente acontecesse, já não nos podem culpar da morte prematura de tantos portugueses" – dizem.
O abandono do cultivo do tabaco não implica o automático abandono do vício (ou do prazer) de fumar. Aproveitando a produção que ainda resiste, sem subsídios, e aproveitando a grande reputação de que goza a marca ASAE por todo o país, a ARBI (Associação de Regantes e Beneficiários de Idanha) e a APT (Associação dos Produtores de Tabaco) bem poderiam encetar negociações com o principal representante desta reputada marca (grande apreciador de cigarrilhas), propondo uma parceria para a instalação na campina de Idanha de uma unidade de produção de cigarrilhas e charutos, capaz de competir com as mais famosas marcas cubanas.
Num estudo de mercado elaborado após a promulgação de Lei do Tabaco, concluiu-se que esta forma de apresentação das folhas da planta Nicotina Tabacum, é a que mais probabilidades tem para singrar junto da restrita camada de consumidores, frequentadores dos locais contemplados na excepção à Lei que se adivinha estar para breve.
De futuro, se alguém se abeirar de si e lhe oferecer uma flor de tabaco, ouvirá certamente:
- Vai um puro Raiano ... um ASAE?

quinta-feira, janeiro 17

quarta-feira, janeiro 2

1-2008: Tratado novo, vida nova

Aldeia fronteiriça de SEGURA (Idanha-a-Nova), vista da ponte internacional sobre o rio Erges. No Império Romano, esta ponte estava inserida na estrada que servia de ligação entre Mérida e Braga.
O ano de 2007 acabou como acabou!
Bem ou mal, só o tempo dirá se o Tratado Europeu, nascido em Lisboa, nos trouxe benefícios assinaláveis ou se, como de costume, graças à habilidade portuguesa em negociar, nos temos de contentar com promessas de prosperidade para o futuro.
Mas isso fica para depois!
O que interessa agora é que, feito o registo de nascimento do Tratado Reformador, Portugal no exercício da presidência da EU batalhou para que o seu baptizado fosse celebrado em simultâneo, conseguindo-o in extremis.
Numa pomposa cerimónia (chamaram-lhe cimeira), com a presença de toda a família europeísta a testemunhar o acto, foi-lhe então atribuída a graça da nossa bela cidade de Lisbonne, capital de "ce petit pays" plantado na extrema ocidental do velho continente. Esta peculiaridade, considerada pelo poeta a fronteira onde a terra acaba e o mar começa, deixa nos europeus menos conhecedores da nossa história (e nada interessados nela), a convicção de que nem somos carne nem somos peixe.
Para estes, o local de onde saíram homens destemidos, que se aventuraram por mares nunca dantes navegados, em viagens que à escala da época corresponderiam às viagens espaciais de hoje, trazendo notícias do achamento de novos mundos que tornaram Portugal maior, não passa de um pequeno país de emigrantes e pescadores de bacalhau, marinheiros que nunca meteram calado a romper por águas para além da Trafaria.
Este esforço, feito para que tudo corresse de feição, viu-se recompensado. Portugal foi colocado na prateleira da história da EU, pelo feito de ter conseguido reunir 27 países pertencentes à família europeia em redor de um projecto comum: o tradicional retrato de família.
É, em sentido lato, aquilo a que podemos chamar: trabalhar para o boneco.
São momentos como este, descurando a divulgação do documento às populações, a única parte que importa registar.
Para assinalar o evento, foi oferecido a cada um dos membros mais chegados desta grande família uma caneta em prata de lei, para assinar, e legitimar, uma reforma que garante a nossa incapacidade reivindicativa e a consequente precariedade da nossa economia, assim como o corte nos investimentos em projectos para desenvolvimento das zonas mais desfavorecidas do nosso Interior, em detrimento de países menos necessitados ou menos periféricos e com menos capacidade negocial que a portuguesa.
Também, pela nossa reconhecida hospitalidade, e por ser Natal, foi oferecido a cada um de nós um alicate obliterador dourado, para fazer mais um furo no cinto de cada vez que formos chamados a realizar um esforço suplementar e, assim, poder aguentar a carestia de vida.
E a generosidade não acabou por aqui!
Com a decisão de ratificar parlamentarmente o documento, fomos poupados à enfadonha tarefa de ter de nos pronunciar sobre o assunto. Efectivamente, essa coisa de ter de ir às urnas, a um domingo, ainda por cima sempre na incerteza em saber de que lado está o gume do voto, que deixa em nós a frustrante sensação de, consecutivamente, ficarmos entalados entre o voto e a parede, é uma chatice.

- Tratado novo, vida nova. O baptizado foi giro, pá. ?
- "Porreiro, pá!, o Tratado de Lisboa ficará na História por abrir novos caminhos no ideal europeu!" 
O pior é que, terminado o fogo de artifício e apagadas a luzes -"calabaça, calabaça, cada qual p´ra sua casa" - Portugal ficou de novo sozinho em Lisboa, entregue a si próprio, a limpar os restos da festa e a arrumar a casa.
Aos Raianos, resta-nos a consolação de a Europa ser aqui ao lado. Facilmente podemos lá ir comprar, por bom dinheiro, os sonhos daqui levados por umas cascas de alhos.
Basta tão só arregaçar as calças e atravessar a Ribeira Espanhola (Rio Erges), com a vantagem de nem sequer ser preciso passar a salto, como fizeram muitos dos que de cá partiram à sua conquista em finais da década de 50.

Com o 1º post deste ano quero desejar a todos um BOM ANO 2008

terça-feira, dezembro 11

23-2007: O Madeiro do Natal


Na quadra natalícia, por estas terras da raia perdida cujas tradições valorizam o nosso legado cultural, "aldeia sem madeiro no adro é como um presépio sem menino Jesus".
Era neste pressuposto que todos os anos na noite de 7 e no dia 8 de Dezembro, os habilitados a mancebos viviam uma azáfama de formigueiro para fazer chegar ao adro o maior tronco de azinheiro que houvesse no montado.
Era previamente escolhido e solicitado ao seu proprietário que, também por uma questão honra, orgulho e muitas vezes uma ponta de vaidade, raramente se negava à oferta.
Era uma noite de trabalho. Com os enxadões e o garrafão a serem elementos preponderantes nesta tarefa, até chegar a hora de, com um calabre engalhado nos ramos, por o azinheiro de cambecas, não havia descanso.
Só então era feito um intervalo para retemperar e recuperar do esforço, em redor do enorme lazarete, com umas presas assadas directamente em cima das brazas, ou na ponta de um espeto improvisado no momento.
E se os enxadões, esses, eram postos em descanso, o garrafão continuava activo e a cumprir o seu papel de não deixar arrefecer os ânimos. É que por esta altura do ano já um barbeiro sem navalha se apronta a escanhoar rente a penugem a estes imberbes de rosto desprotegido.
Só ao romper do dia se regressava ao trabalho para o madeiro ser carregado e transportado até ao adro da Igreja.



Com uma paragem técnica à entrada do povo, para as raparigas (noivas ou faladas) emprestarem os seus lenços mais garridos aos rapazes, que os atavam ao tronco, cruzando o peito. Enfeitava-se a canga e os cornos das vacas com laranjas (desde há uns anos utilizam-se tractores) e cobriam-se ramos de azinheiro, trazidos para o efeito, com colchas floreadas, sendo depois erguidos como estandartes enquanto a carrada dava a volta pelas ruas do povo e, por entre enfeites, toques de concertina e cantares ao Menino Jesus, davam-se vivas ao Madeiro:
"Viva o Madeiro do Natal e a junta do t’ João Bombarral"
"Viva a malta do Madeiro e o carro do t’ Zé Monteiro"
"Viva o tocador"
"Viva o garrafão"
"Viva o Madeiro, que ainda está inteiro".

Mas em Toulões esta tradição já não é o que era.
Por mor do despovoamento agravado dia a dia e pela consequente falta de cachopada, desde há uns anos que o Madeiro vem sendo arrancado pelos homens residentes, sempre com a ameaça de a tradição um dia acabar de vez.
Nesta eminência, e alterando radicalmente a tradição, antecipando-se mesmo à intenção do governo em tornar o recenseamento militar extensivo às raparigas, foi a filha da Natércia, que sem quintos, organizou sozinha o arranque do madeiro de há dois ou três anos, por ter sido a única criança nascida em Toulões, a atingir a idade de ir às sortes.
E a ameaça cumpriu-se! Neste Natal não houve Madeiro em Toulões.
Nas vésperas da noite do caramelo, adaptando as tradições antigas aos tempos modernos, graças à facilidade em agora se poder dispor de maquinaria pesada, na urgência lá se arranjou um azinheiro e uma sobreira velha, conseguindo garantir-se o calor necessário para aquecer o Menino na noite da consoada e também, diga-se, para não deixar a aldeia em pouco (é que com isto das rivalidades entre aldeias era importante manter a dignidade).
Apesar deste esforço de última hora, o Madeiro propriamente dito, com todo o simbolismo do ritual do arranque daquele tronco, que ditava a passagem à idade adulta de todos os jovens incumbidos de o colocar no adro, nunca podendo ter um perímetro inferior ao medido pela bitola de duas braçadas de homem, esse, ficou no montado.
Sem gente a nascer nas aldeias, vão-se as tradições.
Foi pertinente a preocupação manifestada por Sua Excelência o Presidente da República para com a baixa taxa de natalidade por estas bandas, numa recente visita oficial que fez pelo vizinho distrito da Guarda.
Mas sabendo que a imensidão da vontade dos políticos é proporcional à imensidão de votos que os possam eleger, é certo e sabido que não há vontade que aqui chegue para por cá fixar as pessoas.
Carlos Drummond de Andrade, numa passagem do seu poema "Reverência ao destino…", dizia
:
… FÁCIL, é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação
DIFÍCIL é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem para fazer ….

Valha-nos o Natal para todos os anos, por aqui, irmos podendo assistir à alegria que é o nascimento de uma criança, mesmo se o feliz acontecimento ocorre numa manjedoura em vez de numa ambulância dos bombeiros a caminho da maternidade.
A breve trecho, iremos ter o adro de Toulões vazio de Madeiro e até, sabe-se lá, o presépio sem Menino Jesus.

Nota:
Se em Toulões e outras aldeias raianas a tendência é para que a tradição se extinga, outras terras há em que ela parece estar cada vez mais enraizada.

Veja-se o caso de Penamacor onde todos os anos o madeiro é sempre maior que o do ano anterior(a foto é do Natal de 2006, 2 dias depois de ter sido ateado), chegando a roçar o exagero e a apregoar-se ser este o maior Madeiro do país.(ver aqui o madeiro de 2007).
Tradição à parte, o que parece ganhar-se em grandiosidade e ostentação, parece perde-se em convicção pelos valores do Natal.

Já em Proença-a-Velha, uma vizinha aldeia do concelho de Idanha-a-Nova, são mais comedidos. O Madeiro é mais pequeno, mas toda a população colabora e se empenha para manter bem viva a sua tradição, tornando este evento uma atracção, tanto para os da terra como para forasteiros.

A prová-lo está este livro da autoria de João Mugeiro e João Adolfo Geraldes, editado pela Magno Edições e pela Proençal (ver link ao lado - Proença-a-velha), onde é feita uma excelente descrição dos rituais do Madeiro ao longo dos tempos e em que cerca de metade desse livro está ilustrado com fotografias da autoria de Marcin Górski, tiradas à guisa de reportagem ao Madeiro de 2005.

Essas fotografias foram mostradas numa exposição que esteve patente no Núcleo Museológico do Lagar de Azeite, em Proença-a-Velha, no Natal de 2006, e que tive a oportunidade de visitar.
Actualmente podem ainda ser vistas aqui (http://www.pontosdevista.net/expoi.php?id=247)

sábado, setembro 22

22-2007: Pajarito - Black-bull com asas

... Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias… Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. ...
...- Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.

Pronto!

Excerto de Miura (BICHOS) - Miguel Torga