
terça-feira, maio 13
segunda-feira, abril 28
10-2008:Rua dos Toulões
Diz quem sabe que um topónimo, para além de constituir um referencial para cada lugar, possui também um significado de grande importância para as gentes desse lugar.
Tal como uma alcunha, quando assenta, acompanha uma vida até ao seu termo, quantas vezes ramificando na árvore genealógica de geração em geração, tendo tido na sua origem uma razão de ser, também o topónimo perpetua no tempo um valor inerente a acontecimentos marcantes da vida social e cultural de um povo.
Em Toulões, nome que parece ter brotado da mesma nascente que fornece água à ribeira da Toula, a atribuição de topónimos não foge à regra.
Cada barroca, cada cabeço, cada chão, etc., está identificado por um nome, às vezes sabe-se lá com que significado, mas sempre a simbolizar uma homenagem a algo ou alguém que ficou ligado à razão pela qual foi baptizado esse lugar.
O mesmo acontece com as ruas do povo, as quais, desde a formação deste aglomerado urbano, foram nomeadas, geralmente relacionando-as com a peculiaridade de um morador ou com uma qualquer singularidade que caísse no goto da população, ficando apenas gravado na mente de cada um.
E ninguém lhe trocava o nome.
A título de exemplo, vá-se lá saber por que razão o Terreiro das Baraças (largo que hoje perdeu o nome), situado na confluência das agora ruas da Senhora das Cabeças e do Café Novo, não poderia ser o Terreiro da ti Pilheta ou do ti Sabiel (Xavier), o Terreiro do ti Canilhas (ferreiro), ou mesmo o Terreiro do do ti Margaça, ou o Terreiro de outros ainda, todos tão legítimos moradores no largo como a família Baraças.
Neste ponto custa-me aceitar o facto de (e a constatação não é só minha) nenhum Toulonense ter merecido a honra de ter sido evocada a sua memória numa lápide marmórea à entrada de uma rua.
Dizendo mais, apenas 4 pessoas tiveram essa honra: três santos e um rei.
Santo António e Nossa Senhora das Cabeças, padroeiros da aldeia, e ainda São José, patrono dos carpinteiros e por dois venerado: pelo ti Tchica que lhe fez o andor com madeira tirada do pinho mais nobre que se criou na Morracha e pelo velho Beirão (o velho Tchuço, tão atentado pelos garotos) que lhe ofereceu um bordão de marmeleiro, descascado, e desempenado, ao lume e posto a secar num depinduradouro fixo na parede da oficina.
Ao rei D. João IV, foi-lhe concedida essa homenagem, não pelo feito de nos ter libertado dos espanhóis (talvez hoje esteja arrependido) mas porque, segundo consta, doou algumas terras do termo às gentes de Toulões. Foi uma forma de recompensar um bravo soldado, filho deste lugarejo de pastores pendente das faldas da Morracha, por ter dado umas jeiras a ajudar na restauração da soberania do país.
Mas como a história também é feita de deduções, às vezes pouco sustentadas, por mim, diria que Independência por independência, para Toulões foi mais importante a promovida pelo Eng. Borges de Almeida, forasteiro mas proprietário nesta terra, que em 1951 conseguiu convencer autoridades civis e eclesiásticas a conceder ao lugar o título de freguesia, rompendo a forçada ligação umbilical que a ligava à Paróquia da Zebreira, tantas vezes motivo de desavenças.
Também a Principal, que deu nome à Rua, não é mais importante que a Dona Carolina, ou que o ti Zé Magro, que, com a sua influência, proporcionaram a tantos toulonenses a franquia das portas para um melhor futuro com um emprego em Lisboa; ou que o Capitão Geraldes a quem, em parte, se deve a atempada vinda da luz eléctrica e, não fora a revolução de Abril que interrompeu a obra ainda na fase de terraplanagem, também a estrada para a Granja que encurtou o caminho para a sede de concelho, terminada há dez ou doze anos, lhe seria devida.
Se de acordo com a Lei em vigor, compete também às juntas de freguesia a responsabilidade de apresentar propostas às Comissões de Toponímia das Câmaras Municipais para dar nomes de às Ruas, Largos, etc., penso que a mesma competência poderão ter para os alterar.
Se assim for, deixo aqui a sugestão de renomear algumas ruas de Toulões, atribuindo-lhes nomes de insignes beneméritos desta povoação.
Poderia começar-se pela Rua do Chanesco. Não este que está aqui a escrever para nenhures, mas qualquer um dos que com as suas tchanesquices fez algo de merecedor para poder figurar nos anais da história dos Toulões.
quarta-feira, abril 2
9-2008: Sra do Almortão
A romaria da Senhora do Almurtão, fervorosamente celebrada pelas gentes do concelho de Idanha-A-Nova, era certamente, e continua a ser, a maior manifestação religiosa da Raia Perdida.À capela, construída no sítio da Água Murta onde, segundo a lenda, "- Milagre! Milagre! - apareceu aos pastores uma linda e resplandecente imagem da Virgem em cima de um murtão (moita de murtas)" chegavam, nos dias de romaria, milhares de romeiros para, numa devoção matriarcal, assistir às celebrações eucarísticas em louvor da virgem padroeira do concelho e Lhe "dar as alvíssaras" com cantares ao toque do adufe, instrumento musical que é o símbolo máximo da tradição idanhense.
Em tempos passados, terminadas as celebrações religiosas, famílias inteiras partilhavam um farnel composto das mais variadas iguarias, preparadas atempadamente (galinha dourada, almôndegas e pastéis de bacalhau, ovos verdes e outras), bem regadas com tintol da região. De sombra em sombra dava-se a salvação aos amigos, provava-se-lhe o repasto e fazia-se a festa.
Era o extravasar de toda a alegria reprimida durante a vivência Quaresmal, terminada apenas 15 dias antes.
Promessas saldadas, fazia-se viagem de regresso a casa, cada qual à sua terra, conscientes do dever cumprido.
Mas como critérios são de quem os deixa, este é apenas um desabafo.
quinta-feira, março 20
8-2008: A Festa de Flores
Estas celebrações, tal como um pouco por todo o país católico, têm o ponto alto na Sexta-Feira de Paixão com a realização em muitas aldeias das procissões dos passos e do enterro do Senhor e depois no Sábado quando se fazem repicar os sinos a anunciar a Aleluia.
Destas celebrações sobressaem, de insólitas que se mostram, as do Ladoeiro e de Idanha-a-Nova.
No Ladoeiro, a denominada "Procissão dos Penitentes", realizada na Sexta-feira Santa, tem a particularidade de nela apenas poderem participar homens, razão pela qual é também conhecida "Procissão dos Homens".
As mulheres só assistem, de dentro de casa, espreitando furtivamente por entre as cortinas das janelas, com velas e candeias acesas.
Em Idanha realiza-se a festa dos apitos. Sábado de Aleluia, após o anúncio da Ressurreição de Cristo, toda a população, munida de apitos, se junta na Igreja para, de seguida, percorrer as ruas a vila numa marcha ruidosa que termina à porta de casa do padre. Esta tradição termina com o reverendo a lançar, da janela, uma arrebatina de amêndoas aos presentes.
As celebrações da Paixão em Toulões sempre foram muito simples. A merecer alguma nota, talvez seja uma particularidade da procissão dos passos.
Não havendo, como noutras terras, infraestruras a assinalar as estações da "Via Sacra", estas eram improvisadas com cadeiras enfeitadas com flores, panos de linho rendados e iluminadas com velas. Estes enfeites ornamentavam cada um dos 14 quadros representando uma cena da Paixão, colocados um por cada cadeira.
Votos de uma Páscoa feliz para todos!!!!
quarta-feira, março 5
7-2008: Fazer uma bola
Ainda a propósito da Lei do Tabaco, cuja aplicação, com rigor, parece ser tudo menos consensual.
É uma constatação que, para o Estado, o tabagismo sempre foi um problema pouco preocupante. Bem menos que a gestão dos impostos gerados pela comercialização do tabaco.
Durante anos a fio, mesmo já se sabendo que o tabaco era prejudicial à saúde, permitiu-se o incentivo ao seu consumo através de vários meios propagandísticos e, até, segundo alguns rumores, recorrendo à mais refinada hipocrisia que rege a política, nele era feita a adição intencional de substâncias causadoras do aumento da dependência.
Subitamente, sem a necessária preocupação com o desmame, foi posta em prática a proibição de fumar em tudo quanto é sítio, não se descortinando com que finalidade: se para proteger os fumadores passivos, se para diminuir o tabagismo nos activos e, consequentemente, reduzir os gastos com o tratamento da doença, ou se para agradar a algum lobi "bruxellois".
Seja como for, uma coisa é certa: o governo, numa louvável atitude de magnanimidade, propôs-se a ajudar todos os fumadores. Em simultâneo com a entrada em vigor da Lei do Tabaco, o Ministério da Saúde surpreendeu tudo e todos, ao decidir encerrar os postos de atendimento das urgências hospitalares um pouco por todo o país.
A decisão não podia ser mais acertada. Estou em crer que esta medida radical, que todos os grandes fumadores agradecem, foi a forma mais eficaz de ajudar os que mais sofrem com os malefícios do tabaco, a deixarem de fumar de uma vez por todas. Mas em tudo isto há mãozinha da porca parideira da política, de cujos partos vêm a nascer os reticentes, os renitentes, os resistentes e outros indecentes inconvenientes. Estes, não conseguindo a força de vontade adequada para romper com o maquinal impulso de alimentar o vício, num acender de cigarro vêem o seu nome na lista dos proscritos pelas entidades empregadoras.
As pausas para ir à rua repor os níveis de nicotina no organismo e controlar a ansiedade provocada pela sua falta, passaram a constituir crime. Para os legisladores é mais um berbicacho envolto numa nuvem de fumo que, pretendendo-se resolvido pelo lado pedagógico, o mais provável é que siga também o caminho da coima.
O "tchupa que se apaga a deitar fumo ao ar e a semear piriscas na calçada, à hora de "fazer uma bola", a breve trecho, poderá também vir a ser reprimido.
"Fazer uma bola"?
"Fazer uma bola" é uma expressão utilizada pelas gentes de Toulões, significando uma pequena pausa para fumar na "hora do patrão".
Nascida no tempo em que a povoação fornecia matéria humana para desenvolver trabalho árduo nos muitos coitos existentes pelo termo, esta balda era naturalmente aceite pelos proprietários. A fazer jus às actuais pausas previstas (ou não), na recente lei laboral, que tanta celeuma tem provocado, faziam parte integrante dos acordos de trabalho apalavrados.
As bolas eram tantas quantas as combinadas, mas eram os capatazes que estipulavam o momento de paragem e o tempo que duravam (10 a 15 minutos), variando o critério segundo o capataz, fosse ou não fumador.
Durante a jorna, na altura de sol-a-sol, passou a constituir um direito adquirido, mas unicamente pelos fumadores. Quem não fumava não usufruia do direito à bola, pelo que, alguns trabalhadores, principalmente as mulheres a quem, por preconceito, estava vedado o direito de fumar, sentindo-se injustiçados pela desigualdade, fizeram ouvir as suas razões mas sem resultado.
Na realidade, e somando diariamente todos os tempos de pausa, quem fumava trabalhava menos hora e meia a duas horas que os restantes trabalhadores.
Só muito mais tarde, por uma questão de justiça, também para com os não fumadores, a evolução das mentalidades trazida pelos raios de sol de uma primavera de Abril, impôs a equidade entre homens e mulheres.
Posteriormente, "fazer uma bola", para além do seu significado de origem, passou também a constituir uma curta paragem para dessedentar o organismo desidratado pela arduosidade da labuta, ou simplesmente para uma bucha repositora de energia.
Como origem da expressão contavam-se várias teorias, mas a que parece mais plausível, é que relatava a história do ti Isidro Aleixo, aquando dum quinto nos Abegões.
Nos trabalhos do campo, principalmente na ceifa, em pleno verão, não se podia fumar. O risco de apichar fogo à seara merecia as mais apuradas atenções. Assim sendo, os ceifadores, (também chamados quinteiros), estavam autorizados a interromper a labuta para poderem matar o vício.
Ainda naquele tempo não se sabia o que eram cigarros enrolados mecanicamente (este foi um luxo que apareceu muito mais tarde). O tabaco vinha, avulso, em embalagens de onça, sendo enrolado numa mortalha de papel ao momento para ser fumado. À falta de tabaco, muitas das vezes faziam-se cigarros com barbas de milho, moía-se parra seca, e outras ervas, para matar o vício de boca… e não perder o direito à bola.
O ti Isidro era um fumador que não ganhava para tabaco.
-"Ele no o fuma, come-o!" - diziam, referindo-se ao facto de o homem, entre duas bolas, pôr o cigarro apagado nos beiços, a um canto da boca, fazendo-o bailar de um lado para o outro com a ponta da língua, desfazendo-se paulatinamente com a saliva.
Fazia cigarros enormes, mas atamancados. Tão grosseiros que pareciam bolas de embude; daquelas que se deitavam nas charcas da ribeira para entontecer os peixes e facilitar a sua apanha.
Todos se admiravam com aquela alarvidade que contrastava com arte de bem-fazer o cigarro. Antes de o acender, o fumador punha na sua feitura toda uma habilidade no depenicar do tabaco com a ponta dos dedos, autênticas pinças a escalpelizar nas entranhas da pataca, no espalhar, no humedecer com a língua a cola no bordo da mortalha, no enrolar o tabaco dando-lhe a forma e a consistência desejadas.
Era toda uma linguagem gestual que revelava muito mais do que a simples vontade de fumar. Este ambiente de velório ao cigarro culminava na precisão do gesto de petiscar a pederneira (mais tarde do espanhol isqueiro de torcida (mecha)) com que se iniciava o ritual de cremação do amortalhado.
O vício do Ti Isidro e seu modo desajeitado, não lhe permitiam contemplações. Tanto que, durante muito ano, chegada a hora da pausa para enrolar, e fumar, um cigarro, todos ganhavam jeito a chamar pelo companheiro de jeira:
- Ti Isidro, vamos cá a fazer uma bola!
E bola ficou até hoje!
quarta-feira, fevereiro 27
6-2008: 2 anos passados...
Eu tenho em casa uma arca
feita de ferro e madeira
onde guardo coisas velhas
guardadas de igual maneira
velhos bocados de trapo
restos de loiça e metal
coisas que têm bons cheiros
ou que talvez cheirem mal
mas que são testemunho
do que fui e do que sou
suporte ao peso da herança
da terra que me gerou
e toda a gente tem arcas
mas que não abrem a ninguém
pois não se diz nem se mostra
tudo aquilo que se tem
e só quando o homem velho
for o homem libertado
deixaremos de ter coisas
fechadas a cadeado.
terça-feira, fevereiro 12
5-2008: Uma cacada na Quaresma

Talvez não já seja muito oportuno, em plena Quaresma, vir remexer nos restos mortais do mafarrico tchocalheiro, morto à meia noite de Terça-Feira-Gorda e enterrado com três pazadas à laia da podoa nas cinzas de Quarta-feira, reconduzidas na pilheirinha dos despejos.
O período que antecedia esta longa quarentena, nalguns casos iniciado logo a seguir aos Reis, onde um pouco por todo o lado (Toulões, com a Vaca-Galhana a mandar - aqui e aqui - não fugia à regra) era, por natureza, um período de tropelias, provocação e abusos.
Consentindo ou não, cada um dos eleitos pelos Entrudos a ser atchocalhado, zurrado, tchorado ou alvo de umas valentes cacadas à porta de casa, tudo acontecendo a coberto de um anonimato pouco anónimo, com recurso a disfarces urdidos com o que estava à mão de semear ou à escuridão da noite, dependia da carantonha posta pelo visado durante os restantes dias do ano.
Por cá o lema era: "Quem tenha rabos de nagalho, não adormeça ao borralho".
Estavam proibidos os bailes, os toques desgarrados à guitarra ou à concertina, a solo ou a acompanhar cantares, e até o toque do pífaro dos pastores. Estava também proibido ralhar, praguejar e deitar mau olhado a pessoas e animais.
Qualquer desvio da vereda trilhada por preconceituosos costumes, praticados pela santa ignorância daquelas almas, cujas mentalidades estavam reféns de crendices sobrenaturais e do hermetismo eclesiástico, transformava-se no temor de ser excomungado pela divina providência. Esse temor mantinha o respeito e todos, neste período, homens e mulheres, cumpriam à risca os preceitos estabelecidos.
O seu não cumprimento dava azo a que os santos do altar se revoltassem contra o pecador, condenando-o à lapidação pelo olhar reprovador do povo inteiro.
Pelo menos assim se pensava que era.
A Quaresma chegara, temporoa, com o Inverno ainda sem largar o gabão. O frio intenso que por aqui persistia, traspassando a telha vã das casas pobres, assolava a da ti Maria Cristóva, empontada na correnteza do quarteirão, ao cimo da rua que é hoje a de São José.
Pelas mesmas tchincadeiras que no verão lhe enchiam de zenitais réstias o ambiente sombrio da casa como a querer peneirar o sol, estrelando o chão térreo da habitação, entravam agora arrepiantes correntes de ar que um lume mortiço não conseguia debelar.
Desde que o marido, o ti André, fora levado na paz dos anjos para a Terra da Cadela, nunca mais tivera calor, nem de gente nem decente.
Deitava-se ainda de dia, mal acomodava as quatro pitas que pernoitavam num poleiro improvisado a um canto da casa. A noite passava-a encolhida, esmagada pelo peso de cinco ou seis mantas de arêlos, que nem aqueciam nem arrefeciam, mas moíam o corpo a uma pessoa.
O engenho aguçado da velhota levou-a a arranjar uma alternativa para aquecer os pés durante a noite. Pegou na prática exercida pela ti Mari Pinta, a vizinha, que enchia com água quente uma velha garrafa de porcelana, das da genebra, enfiava-a na manga de uma blusa sem préstimo e colocava-a por debaixo das mantas para temperar a friura da cama.
Aquela botija em grés, cor de terracota, que mais parecia uma pedra reboleira das que correm ribeiro abaixo com as enchentes, deu-lhe a ideia de aquecer um gorrão ao lume para fazer as mesmas vezes.
Aquecida a pedra em cima de umas trempes, com elas a transportou até ao quartelho onde dormia e a colocou, sem adornos, ao fundo da enxerga, cobrindo-a com cautela.
Claro está! Uma pedra praticamente incandescente, apanhando uma enxerga de palha moída, quase isca, é como apichar um rastilho a uma bomba rabia.
A imprevidência da velha Cristova originou que o fogo tomasse imediatamente conta do exíguo aposento.
Nem teve discernimento para abafar a ala com as mantas. A sua única reacção foi salvar a imagem imaculada de nossa senhora de Fátima, que lhe dormia à cabeceira enganando a solidão e zelando pela bênção daquele lar e sair numa pressa desengonçada, limitada pela curvatura da acentuada espandilose que a vergava.
Aos gritos por um Deus-me-acuda, abraçando e apertando a santinha contra o peito, saiu com ela porta fora a clamar por socorro.
Nem foi necessário tocar a rebate. O espírito de entreajuda da vizinhança rapidamente acudiu em peso para, num pronto, afogar a tragédia com cântaros e caldeiros de água.
Feito o rescaldo e remediado o estrago, ao outro dia, chega a Rosa Manjarica da fonte com um asado à cabeça, para ali deixar a água ao que desse e viesse.
Apondo-se a transpor a entrada de casa, embateu com o bocal do asado na tosse da porta e este, desamparadamente, estchabaçou-se em mil cacos na pedra da soleira.
A água, perder-se foi o menos; ao asado é que nem o feitio se lhe aproveitou.
A Lhanor (Leonor) Raspa, rival de estimação da Rosa Manjarica por antigos desaguisados com namoricos, chegava no momento com a burra de arrédea, com dois molhos de lenha nas ingarelas, um dos quais para descarregar à porta da ti Maria. Por caridade ia arranjando uns chamiços à velhota, que já não podia ir por eles, para acender o lume.
Aquele monte de cacos à porta não escapou ao espírito de crítica da Lhanor, sempre à coca de uma oportunidade para largar uma laracha:
- Cónho?! Atão é Curesma e ainda andais a dêter cacadas?
A Rosa, que dias antes perdera o humor por uma tchoradela de Entrudo lhe ter desarranjado o namoro da filha com o Tchico da Garruça, desentendida ou por entender, não quis dar fé do gracejo.
Apesar de andar sempre a bater com a mão no peito e a estender a língua à hóstia, não hesitou em retalhar a conversa. Diziam as más línguas, que a dela era mais afiada que a matadeira do ti Zé Cochinho.
- Nós dêtemos cacadas e tu apanhaste os cacos lá no meio do milho c’ o Tónho Fàdista!
Bem!... Como isto do ralhar e do rezar é só para quem tem vagar, a coisa embalou e prolongou-se.
Cada uma desfiou o seu rosário de impropérios e insultos com que roga pragas ao gado desobediente e a coisa descambou para o lado do ralho desfraldado… e lá vieram os alhos e as cebolas, com rama e tudo.
Um branquear de sacrilégios!
Chegando as duas mulheres a vias de facto, com arranhões, arrepelões e roupa rasgada, interveio a boa-vontade apaziguadora da ti Mari Costóva a tentar apartá-las, exibindo à porta a imagem da virgem de Fátima benzida pelo padre António e rogando em voz alta ao Divino Senhor, que pusesse cobro àquele vilipendiar dos predicados da Quaresma.
Mas o impensável aconteceu!
No calor aceso do lavarinto, um encontrão descontrolado de uma das beligerantes fez com que a velhota deixasse cair a Virgem, indo fazer companhia ao asado escavacado de fresco. Não tinha o palmo e meio de estatueta chegado ao chão, a ti Maria leva as mãos à cabeça, temendo pela justiça divina. Já não bastava o castigo calhado em sorte por lhe ter ardido a casa, ainda teria de sofrer as sevícias infligidas pelo escárnio popular.
O quebrar da venerada imagem gerou um grito de dor e desespero, que congelou a refrega.
Subitamente, o silêncio imperou.
- Abençoada cacada que devolveu a ordem à Quaresma!
quinta-feira, janeiro 31
4-2008: Dá que pensar!

Um estudo elaborado pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior, surgido há dias na imprensa, estabelece o ranking de todos os concelhos do país, avaliando-os pelo IQV (Índice de Qualidade de Vida) de cada um deles.
Esta avaliação é baseada em múltiplos factores como sejam: a educação e mercado de emprego, as infra-estruturas, o ambiente económico e habitacional, o nível de criminalidade, a intensidade de tráfego e muitos outros, que englobam diversos aspectos ligados à satisfação das necessidades humanas básicas.
Dessa extensa lista de 278 concelhos classificados por IQV, nos 20 lugares com mais baixo índice, 7 pertencem à Beira Interior.
Um é no distrito de Coimbra
275º - Pampilhosa da Serra - 13,69
Dois são no distrito de Castelo Branco
262º- Idanha-a-Nova - 30,16,
270º - Penamacor - 21,89,
Quatro no distrito da Guarda
260º - Figueira de Castelo Rodrigo - 31,71,
268º - Vila Nova de Foz Côa - 25,09,
273º - Aguiar da Beira - 14,97,
278º - Sabugal - 5,29 (último da lista)

Quando os leigos na matéria, como é o meu caso, concebem como conceito de boa qualidade de vida nas pequenas povoações, o privilégio de usufruir de um ambiente calmo, sem "stress", de contactar directamente com a natureza, fazer uma alimentação saudável com produtos biológicos, ter infra-estruturas mínimas de saúde e lazer, fica-se a saber que a qualidade de vida nas aldeias está cheia de imponderáveis.
Lembrando o vento da desertificação que há anos assola esta região, e levou para outras paragens os filhos por aqui nascidos e por aqui criados, sabe-se lá com que dificuldades, foi para muitos o vento da mudança. Esse mesmo vento devolveu às origens alguns menos resistentes ao sopro de saudade, para aqui passarem o resto dos seus dias, usufruindo de algum bem-estar conseguido subindo a pulso a corda da vida.
Será que têm razão?
2º - Albufeira - 181,04
3º - São João da Madeira - 168,57
4º - Porto - 161,05
5º - Sintra - 158,73
6º - Lagos - 158,51
7º - Cascais - 148,57
8º - Lagoa - 143,95
9º - Vila Franca de Xira - 142,82.
10º - Aveiro 142,81
Fonte: Jornal do Fundão (edição impressa)