A Zebreira, com mais ou menos garantias de prosperidade, desde tempos ancestrais soube proporcionar meios de sobrevivência ao seu povo que, reconhecida e agradecidamente, retribuía venerando-lhe Santo Isidro, e Nossa Senhora da Piedade.
Deu pão a muitos lavradores, pastores e outros que, seguindo as regras estipuladas para o seu fabrico, dela tiravam usufruto.
Este processo de exploração (objecto de vários estudos de carácter sociológico – ver aqui um deles) remonta ao início do Século XVII, tendo durado até 1954, altura em foi reformulado por um diploma legal emanado do Estado Novo até ao 25 de Abril. Nesta altura, a actividade na Herdade nitidamente reduzida por mor da emigração maciça de muitos trabalhadores para Lisboa e para o estrangeiro uns anos antes, passou, sob a égide de uma liberdade em botão, a ser gerido pelo método do "regabofe".
Mas este processo, antes da primeira reformulação, tinha uma particularidade constatada por muitos toulonenses. Apesar deste lugar anexo ser (ainda com a designação de Monte dos Toulões) parte integrante da Junta de Paróquia da Zebreira, até 1951, à qual todos os lavradores de Toulões pagavam os seus impostos, era-lhes sonegado o direito de utilização, pelo impedimento em participar nos "sorteios da Herdade".
Esta é provavelmente a origem da rivalidade fratricida que perdurou durante anos entre os povos de Toulões e da Zebreira. A oportunidade de se hostilizarem e até humilharem mutuamente, nunca era desperdiçada. Perante esta atitude da recíproca falta de cordialidade entre ambos os contactos eram pouco mais que ocasionais.
Os da Zebreira, salvo bem fundadas excepções, raramente se chegavam aos Toulões. Tão raras eram que dos dizeres do povo aqui nasceu o ditado: "Zebrêrenho que pr’aqui venha, só se for de ida à Snhô d’Assenha)" aludindo ao facto de Toulões se interpor no caminho que leva ao santuário da Senhora da Azenha em Monsanto, escondido pelo horizonte recortado do vulto majestoso da serra da Murracha.
Outros, mais empedernidos, glosavam o ditado substituindo "Assenha" por "lenha", chacoteando com os que, fazendo vida na Herdade, andavam aqui pelos arrabaldes ao rebusco de uns gravatos para aquecer o caldo. É que, dada a adesão à Campanha do Trigo decretada pelo Estado em 1929 e cujos resquícios vivem ainda nas ruínas da "Agrícola", nome dado por aqui à Estação Experimental de Culturas de Sequeiro, em agonia ali no leque de Segura, uma grande parte da Herdade foi arroteada, tendo sido dizimado o montado de azinho. Ganhou-se em área cultivável, mas os utilizadores da Herdade ficaram sem a lenha das limpezas.
Por sua vez, os dos Toulões apenas se deslocavam à sede de freguesia por três, vá lá quatro, motivos: para irem à feira de Setembro, que por questões de força maior terminavam quase sempre numa rodada de albroque; para irem ao mercado de Janeiro: a derradeira oportunidade de compra do bacorinho que dali a um ano, depois de anafado com o que a terra dá, haveria de morrer deitado e uma parte amortalhada na sua própria tripa e a outra sepultada na salgadeira até haver ordem para ser exumada; para irem ao ti João Afonso mandar lavrar o assento à canalha, às vezes procurando-o na horta.
Esta razão, por falta de vagar, dia a dia protelada ou delegada em alguém que inadiavelmente tivesse de lá se deslocar, acontecia frequentemente muito para além do prazo limite. A data de nascença, sob pena de coima, teria obrigatóriamente de se encaixar nos três (?) meses anteriores à data da participação. Este delegar de funções, a juntar ao facto de o Ti João Afonso tomar nota dos registos em papel de mortalha, sujeitos a posteriormente desaparecerem em fumo, aquando da transposição para os livros originava idades falsas e deturpações no apelido de família. Bastas vezes se encontram irmãos com apelidos diferentes, filhos ilegítimos à força.
Uma última razão para justificar uma ida à Zebreira, que só acontecia perante a eminente ameaça de extrema-unção, era para uma visita de médico ao Dr. Guesóstmo (Crisóstomo), sempre na esperança de não lhe ouvir uma palavra de despedida definitiva. Este médico municipal não era propriamente um João Semana como Fernando Namora que nesta época acudia à desgraça lá "detrás da serra", mas era digno do respeito de todos, também pela forma conciliadora com que lidava com as rivalidades entre Toulões e a Zebreira.

