quinta-feira, janeiro 21

1-2010: Regresso


Tinha-me proposto publicar este post no início do ano, mas como compromissos e prioridades são coisas que as vezes se tornam incompatíveis, teve de ser adiado. Mesmo assim deixo aqui algumas fotos do madeiro do Natal deste ano, para adoçar a curiosidade de alguns dos visitantes da Arca, alguns vindos de bem longe, que por aqui passam em demanda de imagens da nossa terra.
Este ano coube ao neto do ti Paiva, o Cristiano, único habilitado a ir às sortes em 2010, a árdua tarefa de o arrancar e trazer até ao adro. Para que conste, e porque a Brigada do Ambiente parece andar alerta, este excelente exemplar de azinheiro estava seco e foi arrancado com a devida licença.
Neste meu regresso quero saudar todos os que por cá foram passando durante esta minha prolongada ausência, especialmente aos que deixaram o seu comentário.
Neste sentido, sem esquecer os restantes, quero deixar uma palavra à Sra Joaquina Celestino, eu que de início pesava tratar-se uma anónima, não propriamente para lhe agradecer a gentileza dos seus comentários, mas para a felicitar pelo seu contributo para o Jornal Raiano (ou estarei enganado?).

Um abraço a todos e fazendo minhas as palavras da MPS: "já se passaram todas as datas adequadas mas, mesmo assim, não deixo de desejar a todos um Feliz Ano 2010".

quinta-feira, julho 16

13-2009: Metamorfose

Casulo inicial - 1ª fase

Casulo com abertura provisória - 2ª fase

Metamorfose consumada - 3ª fase

Na pungente pacatez que lancina na quietude das aldeias Raianas, a fazer crer que uma ruralidade dorida, a gravitar suspensa nos ponteiros do tempo, está à espera de melhores dias, eis que, inesperadamente, contrariando a opinião de quem suscita a dificuldade em algo de novo acontecer por aqui, surge uma fulgurante mudança metamórfica.
Originada pela intempérie que fustigou Toulões e toda a região de Idanha-a-Nova numa noite invernosa de há dois anos, estas três fotos atestam as transformações sofridas pela porta da casa, arrancada pelas marcegas, casulo onde viveram uma vida inteira a tia Adosinda e o ti Mné Régio; porta em cuja soleira o valor da honestidade e a honradez foram certa vez elevadas ao seu máximo grau. Uma história que talvez um dia ainda aqui há-de vir a ser contada.
Esta porta, abertura única de ligação da habitação com o mundo, característica tradicional do tipo de construção em algumas zonas do interior beirão, com a funcionalidade de, durante o estio, defender os seus ocupantes das agressivas temperaturas que assolam esta região, tornando-as mais escuras e, consequentemente, mais frescas.
A falta de luminosidade no interior destas casas foi também fonte inspiradora para o velho Eusébio, um alentejano de Alter do Chão que durante alguns anos fez vida como lenhador e corticeiro cá em Toulões, fazendo, nas horas vagas, de poeta e filósofo na taberna.
Estranhando o contraste entre a bracura do reboco afagado das casas do seu Alentejo e o xisto à vista das Beirãs, comparava as nossas casas, sombrias, com a mulher na sua essência, mais ou menos nestes termos:
"Estas casas sem janelas são como as mulheres: todas escuras por dentro. Entrando nelas, deixamos de enxergar, perdemo-nos nos seus meandros e tarda-se em conseguir tornar a ver a claridade do dia."


quinta-feira, julho 2

12-2009: Ao chegar a Velho


Em tchegando a velho,
Um homa é uma merda
Já nem lhe vale quem o herda
Perde o vigor, perde a posse
Mal mija, dá-lhe a tosse
Encarrapatam-se-lhe as orelhas
Mal vê po’trás das sobrancelhas
A um homa mirram-se-lhe os parentes
Ós poucos caem-lhe os dentes
Já nem tchega c’o escarro à pilheira
Malhar: nem na eira, nem na feira

Em tchegando a velho,
Um homa fica ca alma vazia
À falta de alma, sobra sabedoria
Mas, no sendo mais senhor do seu nariz,
Já ninguém faz caso do que ele diz.
(... palavras dos velhos. Eu só as alinhei.)

sábado, junho 6

11-2009: A caminho da EUROPA

Caminho de SEGURA (fronteira com a Europa)
Não pensava publicar este texto no dia de hoje, devido ao respeito pela reflexão que a lei obriga a guardar em véspera do acto eleitoral, não fosse ele, à ultima da hora, influenciar alguém a não ir votar. Mas como isto de eleições já não é o que era e o respeito pelos valores da cidadania parece ter ido a banhos, houve quem antecipasse os resultados enquanto eu gatafunhava estas linhas. Assim, realizadas as eleições, e depois de anunciada a vitória em toda a linha do seu vencedor, José Eduardo Bettencourt, estas parece terem ficado resolvidas.
Assim sendo, olhem, ...lá vai disto:
Alguém disse uma vez: "Desde a invenção da imprensa, esta tem servido a reis, eclesiásticos e governantes para controlar e manipular a opinião pública".
Acompanhando a evolução da imprensa através dos tempos desde a original máquina de Gutemberg, famosa por ter dado ao prelo a primeira edição impressa do famigerado jornal da caserna, revolucionando a forma de transmitir as notícias ao conferir-lhe o cunho da credibilidade (o que vem escrito em jornal não tem discussão), a história revela-nos esta verdade como insofismável. Hoje, graças ao avanço tecnológico que desenvolveu os meios de comunicação, fontes de polémica e lutas intestinas pelo seu controlo, o mesmo se verifica relativamente à televisão, a caixinha mágica que nos entra casa adentro e que dizem ter mudado o mundo.
Então, em tempo de eleições…ui,ui. Alegando o bem-estar do povo, é um "vê se te avias antes que eleitor te descubra a careca".
Com mais uma campanha eleitoral, cada partido pôs na rua a máquina de propaganda eleitoral, atido à influência exercida pela televisão junto dos potenciais eleitores. Para os elucidar sobre as vantagens de uma Europa Unida, a sobriedade e o bom senso deram lugar ao folclore. Aqui a palavra é coisa vã e todos os partidos fazem questão de usar a cantiga do cigano, tanto para embarrilar adversários políticos como para fazer chegar a sua mensagem a um eleitorado que, à força de tanta oratória caída à rua, já acredita mais no que dizem as pedras da caçada.
Em abono da verdade, são os pequenos partidos que, bombos da festa ou não, e nem sequer se podendo dizer que vão a votos para ajudar ao colorido das campanhas, não recaindo sobre estes a auréola redentora proporcionada pelos holofotes da televisão, pretendem ser esclarecedores e tentam fomentar o combate à abstenção. Contudo, sente-se-lhes no discurso, mais ou menos moderado, o pensamento nas legislativas que se aproximam e o tilintar dos 12 ou 13 euritos que vale cada cruzinha à frente da sua sigla .
Quanto aos partidos ditos maiores, circunstancialmente dizem o que convém, falam do acessório e omitem o principal. O debate para discutir a Europa, incentivando o apelo ao voto, parece mais ir mais no sentido de convencer aos abstencionistas a se manterem fiéis aos seus princípios, fica para depois de conhecidos os resultados eleitorais. Com mais ou menos votos, a ocupação dos 20 e picos lugares que cabem a Portugal no Parlamento Europeu pouco importa, já que esses, mais lugar, menos lugar, estão antecipadamente garantidos e com
salário de deputado Europeu melhorado.
Quanto aos discursos, que pretensamente se querem esclarecedores, alguns até os podemos considerar sem qualificação já que, pela maneira como os oradores, candidatos, atropelavam as palavras, não houve a possibilidade de dar credito à sua voz.
Veja-se o caso do secretário geral do PS (ou seria o nosso Primeiro - é que ainda não consegui entender esta destrinça de cargos) que, demonstrando um estreitamento cada vez maior entre os dois povos da península, se deslocou propositadamente a Valência para, com o seu homólogo espanhol, abrir em simultâneo a campanha eleitoral das Europeias nos dois países irmãos (em simultâneo é como quem diz: primeiro em Espanha e sete horas depois em Portugal).
Não fora a televisão, tanto espanhóis como portugueses não teriam tido a grata oportunidade de apreciar a eloquência de José Socrates a discursar num escorreito castelhano, espernicado numa pronúncia quase tão boa como a do ti Zé Domingos, daquela vez quando, em tempos de contrabando, entrou na igreja de Portage para negociar a carga do café com o padre da paróquia.
-
Cónho senhor cura, osté tiem que me pagar mais um catchito.
- Habla de espacio, José, que no te entiendo.
- Que inveja tengo dos crios espanholes que, com 4 o 5 anhitos, todos sabem hablar melhor que ió
– pensava o ti Zé em voz alta para o padre ouvir.
Depois de esmiuçado o discurso, concluiu-se que todos os espanhóis conseguiram perfeitamente entender a última frase: "Viva España, viva a Europa".
Para retribuir a generosidade a Sócrates, José Zapatero (não sei se o nome lhe assenta em redundância combinada com el sombrero de charro do Zapata, ou se alguma adjectivação a qualificá-lo como mau tocador de rabecão) veio abrir a campanha europeia no comício de Coimbra. Zapatero, num português tão límpido como as águas que flúem entre as margens do Mondego, e que até terão levado mais um pouco de desalento aos pescadores da Figueira da Foz, conseguiu esclarecer toda a gente do que é o ideal europeu e as vantagens de ser participativo na vida eleitoral Europeia. Com a sua característica bem espanhola de arrebatar simpatias, conquistou a dos portugueses, reforçando-lhes a opinião de que a Europa é para ser discutida pelos europeus e não pelos portugueses.
Para rematar este discurso, especialmente dirigido a "noestros hermanos", termina com dois emocionados vivas: "bibá pòrtugal, BIBÁ ESPAÑA!!!"

domingo, maio 24

10-2009: Lenga-lenga à porta

Para não ouvir " depois da casa arrombada trancas à porta... " escuso-me a aidentificar este local
(tal como aconteceu a uma enorme pia em "cantaria" na vinha do Ti Dominguinhos)
(outros exemplos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui... emuitos mais)


Miscelânea de lenga-lengas



Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta

Truz, truz, truz,
Nem chus, nem bus
Truz, truz, truz,
- Oh da casa!
Truz, truz, truz,
Pode-se entrar patroa?
Trago-lhe duas notícias
Quer a má ou quer a boa?
Truz, truz, truz,
- Quem vem lá?
- Gente viva, que morta não se quer cá!
- Onde é que estás?
-Na cadeirinha
- O que estás a fazer?
- Renda sem linha
Tiroliroliro
À porta assentada
Todos a dormir
Só eu acordada
Tiroliroliro
À porta assentada
Estou a fazer renda
Com uma linha apagada

segunda-feira, maio 11

8-2009: Fátima

Casa da Ti Flávia (adro)
Levas e levas de peregrinos em direcção a Fátima. E estrebuchem no papel os livres pensadores. Se não há sobrenatural, como eles afirmam, há pelo menos transcendência. Elêusis, Delfos, Meca, Compostela, Lourdes e outros locais onde o céu e a terra se confundem são a mesma Cova da Iria renovada no tempo. O ar miraculoso que ali se respira, mesmo que fraudulento, vem ao encontro de aparências recônditas do nosso subconsciente. O homem é um crédulo envergonhado quando tem de acreditar sozinho. Mas, se encontra companheiros de fé, desafia todas as críticas e absurdos. Apoiado no número, desinibido, faz de chavascais lugares santos, que visita sempre que pode, carregado das suas atribulações. E, em procissão, vai-as alijando pelo caminho, até que, despojado de todas as gangas mundanais, tem acesso disponível às nascentes sagradas que, parecendo manar do chão bendito que pisa, lhe brotam de dentro da própria alma.

Coimbra, 12 de Maio de 1975

MIGUEL TORGA, "Diário XII "

sexta-feira, abril 24

7-2009: Senhora do Almortão

Dia 27 de Abril, segunda feira, realiza-se mais uma tradicional romaria à Senhora do Almortão, padroeira do concelho de Idanha-a-Nova.
Uma das características desta romaria é o “dar as alvíssaras” à Santa por parte dos romeiros. Vindos de toda as terras do concelho, entoam a cantiga ao som do adufe cujas quadras, as mais conhecidas, se repetem ano a ano ou então, outras novas são elaboradas para o efeito ou saídas de improviso ali à porta da capela.
Todas elas, escolhidas ou não, estão sujeitas a fazer parte da recolha que compõe o “Cancioneiro da Senhora do Almortão”.

No que me toca, aqui deixo o meu contributo.
Senhora do Almortão
À vossa porta m’impino
Dai um rumo a Portugal
Que ele anda sem destino

Senhora do Almortão
Rogai pelos pecadores
Dai dignidade aos políticos
Equiparai-os aos pastores

Senhora do Almortão
Livrai-nos do desgoverno
Prometeram-nos o céu
E ofereceram-nos o Inferno

Senhora do Almortão
Livrai-nos desta crise
Dai alento aos Raianos
E a quem dele mais precise

Senhora do Almortão
Minha tão linda arraiana
Virai costa a Castela
Enquanto sejais Lusitana

Senhora do Almortão
Neste Abril lá estarei
Fazei cumprir a liberdade
Que ainda a não encontrei