quarta-feira, fevereiro 17

4-2010: Entrudo 2010 - Toulões

Uma azelhice de carácter tecnológico obrigou-me a atrasar a publicação deste post, mas mesmo assim não quero deixar de vos dar parte do que aconteceu nas ruas de Toulões no passado Domingo Gordo.

À falta de Sol, (diz-se que quando nasce é para todos, mas neste momento só tem olhos para a governanta das trevas, a Lua, fascinado pela sua face oculta), que deixou o dia enfoucedo, com 2 graus de temperatura e a ameaçar chuva, pouco convidativo a diversões fora de portas, não demoveu os foliões de sairem de casa e o substituirem, banhando as ruas dos Toulões com réstias de alegria e boa disposição.

domingo, janeiro 31

3-2010. As Janeiras (2)

O "cantar das janeiras" em Toulões, nos últimos anos trazido prá rua por um empenhado e animado grupo de conterrâneos, de modo a confraternizar e fazer a festa, dando um safanão na letargia que teima em se querer instalar no quotidiano das aldeias raianas, é visto como uma forma deste povo, cujo futuro se considera ultrapassado, viver o presente com um novo vigor.
Apesar do entusiasmo patente no semblante dos mais velhos, que usufruem sofregamente destes pedaços de memória viva, consta não terem sido as janeiras um costume muito enraizado no tradicionalismo Toulonense, contrariamente ao que acontecia noutras terras do concelho. Pelo menos, do que se conta do tempo em ainda havia gente que se visse nas aldeias, não há alembrança de alguma vez se ter assistido ao evento da forma organizada como agora se proporciona, embora os procedimentos, um pouco mais encenados, sejam aparentemente os mesmos.
Em tempos idos as janeiras eram cantadas por um restrito número de grupos, compostos por duas ou três pessoas membros de famílias necessitadas, à porta das casas mais remediadas.
Este costume tinha aqui muito pouca expressão e foi tendencialmente desaparecendo, um pouco absorvido pelo de "pedir os tchouriços" na Segunda-Feira-Gorda (é que, enquanto se cantavam as janeiras, já esta tradição maior assomava ao postigo da entrada do mês de Fevereiro) era encarado por muita gente como um disfarçado acto de mendicidade e, só por essa razão, correspondido caritativamente graças à religiosidade que emparelha o seu lado solidário.
Apesar da boa vontade, poucos chouriços se davam às janeiras. Davam-se, isso sim, enchidos menos nobres como eram os batateiros, as farinheiras ou as morcelas, que duas ou três semanas depois da matança já tinham ajudado a lamber os dedos.
Levassem as janeiras uns butchanos ou umas mouras, já era um "viva o velho". É que os chouriços, esses, alguns feitos a preceito pelas moças namoradeiras e de reserva a uma ponta da vara do fumeiro para serem dados a um rapaz do partido, que nas vésperas de Entrudo lhe viesse cantar à porta:

Deus abençoe esta casa
Onde à noite nasce a Lua
Quando a dona vem à porta
Alumia toda a rua

Hoje já não é bem assim.

Canta-se, mas já não se dão chouriços, nem morcelas, nem nada que ao porco tenha pertencido porque já poucos matam.

Os convivas, recebidos à porta ou convidados a entrar, são agora mimoseados com doces, caseiros ou não, bebidas finas e vão-se embora a arruler.
Às janeiras, cantadas depois do sol-por durante o mês de Janeiro até se dar a volta à aldeia, dá-se dinheiro, dinheiro esse que é depois aplicado a favor da comunidade numa grande almoçarada, realizada Domingo Gordo, no "salão", para quem quiser aparecer.

sábado, janeiro 23

2-2010: As Janeiras (1)

Transcrição do artigo publicado no Diário de Notícias, na sua edição nº 1 de 1865, no Domingo, dia 1 de Janeiro."

O mez de Janeiro que os romanos chamavam de Januarius tomou o seu nome de Jano, divindade pagã que presidia aos caminhos e a quem atribuíam a virtude de adivinhar o futuro. Tem este mez 31 dias. No seu primeiro dia é ainda uso em várias terras das nossas províncias, aonde os costumes são mais puros, e as tradições mais duradouras, oferecerem-se alguns mimos e presentes, a que se dá o nome de janeiros. É opinião de graves auctores, que este costume o herdamos nós dos romanos, entre os quaes elle foi introduzido por Tacio, contemporâneo de Rómulo. Tomou Tácio por bom agouro certos ramos cortados no bosque da deusa Strenia, os quaes lhe foram a elle offerecidos no primeiro dia do anno, e esse acaso tornou-se em moda, ficando a final, costume. Dar Strena, ou Trena era o mesmo que desejar felicidades multiplicadas às pessoas a quem se oferecia um cante virtuoso e poético, passou de edade a edade a ponto de ainda, passados já vinte e seis seculos, estar arreigado no seio do povo. Também usa a gente pobre pedir as janeiras, e para isso se ajuntam ranchos de moços e moças d’aldeia, que n’uma plangente toada, cantam em coro o seu requerimento que n’algumas terras começa assim:
« Este dia de Janeiro
« É de grande merecimento
« Por ser o dia primeiro
« Em que Deus passou tormento,
« Vinde dar as janeirinhas
« Etc.»

quinta-feira, janeiro 21

1-2010: Regresso


Tinha-me proposto publicar este post no início do ano, mas como compromissos e prioridades são coisas que as vezes se tornam incompatíveis, teve de ser adiado. Mesmo assim deixo aqui algumas fotos do madeiro do Natal deste ano, para adoçar a curiosidade de alguns dos visitantes da Arca, alguns vindos de bem longe, que por aqui passam em demanda de imagens da nossa terra.
Este ano coube ao neto do ti Paiva, o Cristiano, único habilitado a ir às sortes em 2010, a árdua tarefa de o arrancar e trazer até ao adro. Para que conste, e porque a Brigada do Ambiente parece andar alerta, este excelente exemplar de azinheiro estava seco e foi arrancado com a devida licença.
Neste meu regresso quero saudar todos os que por cá foram passando durante esta minha prolongada ausência, especialmente aos que deixaram o seu comentário.
Neste sentido, sem esquecer os restantes, quero deixar uma palavra à Sra Joaquina Celestino, eu que de início pesava tratar-se uma anónima, não propriamente para lhe agradecer a gentileza dos seus comentários, mas para a felicitar pelo seu contributo para o Jornal Raiano (ou estarei enganado?).

Um abraço a todos e fazendo minhas as palavras da MPS: "já se passaram todas as datas adequadas mas, mesmo assim, não deixo de desejar a todos um Feliz Ano 2010".

quinta-feira, julho 16

13-2009: Metamorfose

Casulo inicial - 1ª fase

Casulo com abertura provisória - 2ª fase

Metamorfose consumada - 3ª fase

Na pungente pacatez que lancina na quietude das aldeias Raianas, a fazer crer que uma ruralidade dorida, a gravitar suspensa nos ponteiros do tempo, está à espera de melhores dias, eis que, inesperadamente, contrariando a opinião de quem suscita a dificuldade em algo de novo acontecer por aqui, surge uma fulgurante mudança metamórfica.
Originada pela intempérie que fustigou Toulões e toda a região de Idanha-a-Nova numa noite invernosa de há dois anos, estas três fotos atestam as transformações sofridas pela porta da casa, arrancada pelas marcegas, casulo onde viveram uma vida inteira a tia Adosinda e o ti Mné Régio; porta em cuja soleira o valor da honestidade e a honradez foram certa vez elevadas ao seu máximo grau. Uma história que talvez um dia ainda aqui há-de vir a ser contada.
Esta porta, abertura única de ligação da habitação com o mundo, característica tradicional do tipo de construção em algumas zonas do interior beirão, com a funcionalidade de, durante o estio, defender os seus ocupantes das agressivas temperaturas que assolam esta região, tornando-as mais escuras e, consequentemente, mais frescas.
A falta de luminosidade no interior destas casas foi também fonte inspiradora para o velho Eusébio, um alentejano de Alter do Chão que durante alguns anos fez vida como lenhador e corticeiro cá em Toulões, fazendo, nas horas vagas, de poeta e filósofo na taberna.
Estranhando o contraste entre a bracura do reboco afagado das casas do seu Alentejo e o xisto à vista das Beirãs, comparava as nossas casas, sombrias, com a mulher na sua essência, mais ou menos nestes termos:
"Estas casas sem janelas são como as mulheres: todas escuras por dentro. Entrando nelas, deixamos de enxergar, perdemo-nos nos seus meandros e tarda-se em conseguir tornar a ver a claridade do dia."


quinta-feira, julho 2

12-2009: Ao chegar a Velho


Em tchegando a velho,
Um homa é uma merda
Já nem lhe vale quem o herda
Perde o vigor, perde a posse
Mal mija, dá-lhe a tosse
Encarrapatam-se-lhe as orelhas
Mal vê po’trás das sobrancelhas
A um homa mirram-se-lhe os parentes
Ós poucos caem-lhe os dentes
Já nem tchega c’o escarro à pilheira
Malhar: nem na eira, nem na feira

Em tchegando a velho,
Um homa fica ca alma vazia
À falta de alma, sobra sabedoria
Mas, no sendo mais senhor do seu nariz,
Já ninguém faz caso do que ele diz.
(... palavras dos velhos. Eu só as alinhei.)

sábado, junho 6

11-2009: A caminho da EUROPA

Caminho de SEGURA (fronteira com a Europa)
Não pensava publicar este texto no dia de hoje, devido ao respeito pela reflexão que a lei obriga a guardar em véspera do acto eleitoral, não fosse ele, à ultima da hora, influenciar alguém a não ir votar. Mas como isto de eleições já não é o que era e o respeito pelos valores da cidadania parece ter ido a banhos, houve quem antecipasse os resultados enquanto eu gatafunhava estas linhas. Assim, realizadas as eleições, e depois de anunciada a vitória em toda a linha do seu vencedor, José Eduardo Bettencourt, estas parece terem ficado resolvidas.
Assim sendo, olhem, ...lá vai disto:
Alguém disse uma vez: "Desde a invenção da imprensa, esta tem servido a reis, eclesiásticos e governantes para controlar e manipular a opinião pública".
Acompanhando a evolução da imprensa através dos tempos desde a original máquina de Gutemberg, famosa por ter dado ao prelo a primeira edição impressa do famigerado jornal da caserna, revolucionando a forma de transmitir as notícias ao conferir-lhe o cunho da credibilidade (o que vem escrito em jornal não tem discussão), a história revela-nos esta verdade como insofismável. Hoje, graças ao avanço tecnológico que desenvolveu os meios de comunicação, fontes de polémica e lutas intestinas pelo seu controlo, o mesmo se verifica relativamente à televisão, a caixinha mágica que nos entra casa adentro e que dizem ter mudado o mundo.
Então, em tempo de eleições…ui,ui. Alegando o bem-estar do povo, é um "vê se te avias antes que eleitor te descubra a careca".
Com mais uma campanha eleitoral, cada partido pôs na rua a máquina de propaganda eleitoral, atido à influência exercida pela televisão junto dos potenciais eleitores. Para os elucidar sobre as vantagens de uma Europa Unida, a sobriedade e o bom senso deram lugar ao folclore. Aqui a palavra é coisa vã e todos os partidos fazem questão de usar a cantiga do cigano, tanto para embarrilar adversários políticos como para fazer chegar a sua mensagem a um eleitorado que, à força de tanta oratória caída à rua, já acredita mais no que dizem as pedras da caçada.
Em abono da verdade, são os pequenos partidos que, bombos da festa ou não, e nem sequer se podendo dizer que vão a votos para ajudar ao colorido das campanhas, não recaindo sobre estes a auréola redentora proporcionada pelos holofotes da televisão, pretendem ser esclarecedores e tentam fomentar o combate à abstenção. Contudo, sente-se-lhes no discurso, mais ou menos moderado, o pensamento nas legislativas que se aproximam e o tilintar dos 12 ou 13 euritos que vale cada cruzinha à frente da sua sigla .
Quanto aos partidos ditos maiores, circunstancialmente dizem o que convém, falam do acessório e omitem o principal. O debate para discutir a Europa, incentivando o apelo ao voto, parece mais ir mais no sentido de convencer aos abstencionistas a se manterem fiéis aos seus princípios, fica para depois de conhecidos os resultados eleitorais. Com mais ou menos votos, a ocupação dos 20 e picos lugares que cabem a Portugal no Parlamento Europeu pouco importa, já que esses, mais lugar, menos lugar, estão antecipadamente garantidos e com
salário de deputado Europeu melhorado.
Quanto aos discursos, que pretensamente se querem esclarecedores, alguns até os podemos considerar sem qualificação já que, pela maneira como os oradores, candidatos, atropelavam as palavras, não houve a possibilidade de dar credito à sua voz.
Veja-se o caso do secretário geral do PS (ou seria o nosso Primeiro - é que ainda não consegui entender esta destrinça de cargos) que, demonstrando um estreitamento cada vez maior entre os dois povos da península, se deslocou propositadamente a Valência para, com o seu homólogo espanhol, abrir em simultâneo a campanha eleitoral das Europeias nos dois países irmãos (em simultâneo é como quem diz: primeiro em Espanha e sete horas depois em Portugal).
Não fora a televisão, tanto espanhóis como portugueses não teriam tido a grata oportunidade de apreciar a eloquência de José Socrates a discursar num escorreito castelhano, espernicado numa pronúncia quase tão boa como a do ti Zé Domingos, daquela vez quando, em tempos de contrabando, entrou na igreja de Portage para negociar a carga do café com o padre da paróquia.
-
Cónho senhor cura, osté tiem que me pagar mais um catchito.
- Habla de espacio, José, que no te entiendo.
- Que inveja tengo dos crios espanholes que, com 4 o 5 anhitos, todos sabem hablar melhor que ió
– pensava o ti Zé em voz alta para o padre ouvir.
Depois de esmiuçado o discurso, concluiu-se que todos os espanhóis conseguiram perfeitamente entender a última frase: "Viva España, viva a Europa".
Para retribuir a generosidade a Sócrates, José Zapatero (não sei se o nome lhe assenta em redundância combinada com el sombrero de charro do Zapata, ou se alguma adjectivação a qualificá-lo como mau tocador de rabecão) veio abrir a campanha europeia no comício de Coimbra. Zapatero, num português tão límpido como as águas que flúem entre as margens do Mondego, e que até terão levado mais um pouco de desalento aos pescadores da Figueira da Foz, conseguiu esclarecer toda a gente do que é o ideal europeu e as vantagens de ser participativo na vida eleitoral Europeia. Com a sua característica bem espanhola de arrebatar simpatias, conquistou a dos portugueses, reforçando-lhes a opinião de que a Europa é para ser discutida pelos europeus e não pelos portugueses.
Para rematar este discurso, especialmente dirigido a "noestros hermanos", termina com dois emocionados vivas: "bibá pòrtugal, BIBÁ ESPAÑA!!!"

domingo, maio 24

10-2009: Lenga-lenga à porta

Para não ouvir " depois da casa arrombada trancas à porta... " escuso-me a aidentificar este local
(tal como aconteceu a uma enorme pia em "cantaria" na vinha do Ti Dominguinhos)
(outros exemplos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui... emuitos mais)


Miscelânea de lenga-lengas



Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta

Truz, truz, truz,
Nem chus, nem bus
Truz, truz, truz,
- Oh da casa!
Truz, truz, truz,
Pode-se entrar patroa?
Trago-lhe duas notícias
Quer a má ou quer a boa?
Truz, truz, truz,
- Quem vem lá?
- Gente viva, que morta não se quer cá!
- Onde é que estás?
-Na cadeirinha
- O que estás a fazer?
- Renda sem linha
Tiroliroliro
À porta assentada
Todos a dormir
Só eu acordada
Tiroliroliro
À porta assentada
Estou a fazer renda
Com uma linha apagada