sábado, março 20

9-2010: Primavera


Este ano a Primavera chegou enfouceda. Ainda ningém deu por ela.
Não fora a marca no calendário ainda amolecido pelo gemer da humidade adensada por este Inverno, a confirmar o dia da sua comparência, muitos terão pensado ter-se ela perdido do Norte, tal como a passarada de arribação que deve estar em decanso nalgum porto de abrigo à espera de melhores dias para dar continuidade ao ciclo migratório.
Para os que esperam ansiosamente pelo renovo dos campos e pela chegada das andorinhas, agentes de contágio do virus da alegria, tenham cautela: o cuco, parasita, usurpador do bem estar comum, também estará aí a rebentar por estes dias.

terça-feira, março 16

8-2010: Frandesca


É verdade, o trabalho mata
Mata a fome, mata o tédio
Mata. Dá saúde e mata
Mas trabalhar, que remédio

Sorte a de quem trabalha
A de quem a horas come
Sorte é ter uma navalha
E com ela matar a fome

Na casa onde tudo ralha
Por não ter que manducar
Sempre que o trabalho falha


Quando se a fome quer matar
Para que serve uma navalha
Se não há pão que anavalhar

Toulões, Setembro de 2009


quarta-feira, março 3

7-2010: EVÃO4

Parece que ainda ontem andava à voltas com o quebra cabeças do blogger, a fim de dar vida a esta arca e a por a navegar no espaço internáutico, eis senão quando, por entre altos e baixos, dei por 4 anos passados.

A todos os que por cá vão passando, conterrâneos ou forasteiros, comentando ou não, deixo um grande abraço de amizade.

terça-feira, fevereiro 23

6-2010: Entrudo 2010 - Toulões (crónica)


Fazendo fé na profecia de Nossa Senhora das Candeias, antevisão meteorológica para o período que se segue ao dia 2 de Fevereiro, já se previa que o Inverno iria ser rigoroso nestes dias mais próximos.
Este provável desconforto, sem a presença dos primeiros raios de Sol primaveris, que nos últimos anos, por esta altura, já dão tempero aos dias ainda aziagos de tamanha invernia, não arrefeceu as expectativas criadas em torno do sucesso do Entrudo do ano passado.
Os muitos foliões que aderiram à iniciativa, assim como a população em geral, que a gosto seguiu aderrabo do cortejo, quase tão concorrido como a procissão da festa de Santo António, nunca mostraram a parte fraca. Convenhamos que o almoço agendado para este dia, resultante do ofertório das Janeiras, bem servido e melhor regado, deu metcha basta para enfrentar a friagem que rebota da espanhola Serra da Gata, "um parapeito onde esbarram os ventos húmidos do Atlântico", denominados por "nuestros hermanos extremeños" de "aires de Portugal". (Ainda me hei-de inteirar de qual é o ditado, em espanhol, equivalente ao nosso "de Espanha, nem bom vento nem bom casamento")
Tal como no ano passado, o carnaval dos Toulões, sempre longe da sátira política e social (aqui prevalece o terra-a-terra da diversão pela diversão), foi o mais trapalhão possível, tendo havido trapalhadas para todos os gostos.
Desde a Vaca-galhana, que não podia faltar, este ano exibindo um disfarce bem americanizado, modernizando-se e dando mostras de adaptação aos tempos que correm, até às bruxas que, antigamente, ao bater da meia noite povoavam os terreiros e exerciam a sua magia maléfica libertando a diabólica, que fazia das suas por esses compos fora, e açulando a má-hora a dar caça aos noctívagos mais incautos, todos, com disfarces urdidos de maior ou menor sofisticação, se equivaleram na hora de se expandir com alegres brincadeiras.
Os mais novos, nesta onda de colagem ao Carnaval importado, não deixaram créditos por mãos alheias.
Entre os mais velhos, um grupo vestido a rigor trouxe à memória o tempo das ceifas, o tempo em que a alegria no trabalho atenuava a dureza castigadora imposta pela canícula. Nem sequer faltou uma espontânea representação do "estender da merenda" ou do "fazer uma bola" para retemperar as forças consumidas pela árdua tarefa, não de ceifar, mas de ter percorrido as ruas do povo numa caminhada de mais de hora e meia.

E não fora ali ainda dada por finda a jorna.
À noite, estes mesmos ceifadores, no caso mais as mulheres, reeditaram o balho à moda antiga, aprofilando-se com trajes de gala, à época usados ao Domingo ou em ocasiões festivas, peças de uma indumentária pacientemente confeccionadas. Notou-se nelas o orgulho de mostrar o "feito por nós", autênticas obras de arte dos lavores, revelando pormenores de grande genuinidade e tão perfeitos que bem mereciam ser apreciados fora de Toulões. Desde os xailes bordados com ponto de Castelo Branco, às simples algibeiras de cinta rameadas a ponto cruz, às saias, aos corpetes e aos mandis, tudo enfeitado com nastro de várias cores, numa harmonia há mais de 50 anos guardada no baú que, sabe-se lá, estará de novo na moda num futuro menos longínquo do que se pensa.

5-2010: A nova Vaca-galhana



A Vaca-galhana não podia faltar ao Entrudo dos Toulões. Para mais, este ano, entusiasmada com a internacionalização trazida pela oportunidade de se ter tornado a imagem de marca da equipa americana Basket da NBA dos Chicago Bulls, saiu à rua com um estilo muito yankee, muito espampanante, a fugir ao padrão tradicional a que os toulonenses não estavam avesados.

quarta-feira, fevereiro 17

4-2010: Entrudo 2010 - Toulões

Uma azelhice de carácter tecnológico obrigou-me a atrasar a publicação deste post, mas mesmo assim não quero deixar de vos dar parte do que aconteceu nas ruas de Toulões no passado Domingo Gordo.

À falta de Sol, (diz-se que quando nasce é para todos, mas neste momento só tem olhos para a governanta das trevas, a Lua, fascinado pela sua face oculta), que deixou o dia enfoucedo, com 2 graus de temperatura e a ameaçar chuva, pouco convidativo a diversões fora de portas, não demoveu os foliões de sairem de casa e o substituirem, banhando as ruas dos Toulões com réstias de alegria e boa disposição.

domingo, janeiro 31

3-2010. As Janeiras (2)

O "cantar das janeiras" em Toulões, nos últimos anos trazido prá rua por um empenhado e animado grupo de conterrâneos, de modo a confraternizar e fazer a festa, dando um safanão na letargia que teima em se querer instalar no quotidiano das aldeias raianas, é visto como uma forma deste povo, cujo futuro se considera ultrapassado, viver o presente com um novo vigor.
Apesar do entusiasmo patente no semblante dos mais velhos, que usufruem sofregamente destes pedaços de memória viva, consta não terem sido as janeiras um costume muito enraizado no tradicionalismo Toulonense, contrariamente ao que acontecia noutras terras do concelho. Pelo menos, do que se conta do tempo em ainda havia gente que se visse nas aldeias, não há alembrança de alguma vez se ter assistido ao evento da forma organizada como agora se proporciona, embora os procedimentos, um pouco mais encenados, sejam aparentemente os mesmos.
Em tempos idos as janeiras eram cantadas por um restrito número de grupos, compostos por duas ou três pessoas membros de famílias necessitadas, à porta das casas mais remediadas.
Este costume tinha aqui muito pouca expressão e foi tendencialmente desaparecendo, um pouco absorvido pelo de "pedir os tchouriços" na Segunda-Feira-Gorda (é que, enquanto se cantavam as janeiras, já esta tradição maior assomava ao postigo da entrada do mês de Fevereiro) era encarado por muita gente como um disfarçado acto de mendicidade e, só por essa razão, correspondido caritativamente graças à religiosidade que emparelha o seu lado solidário.
Apesar da boa vontade, poucos chouriços se davam às janeiras. Davam-se, isso sim, enchidos menos nobres como eram os batateiros, as farinheiras ou as morcelas, que duas ou três semanas depois da matança já tinham ajudado a lamber os dedos.
Levassem as janeiras uns butchanos ou umas mouras, já era um "viva o velho". É que os chouriços, esses, alguns feitos a preceito pelas moças namoradeiras e de reserva a uma ponta da vara do fumeiro para serem dados a um rapaz do partido, que nas vésperas de Entrudo lhe viesse cantar à porta:

Deus abençoe esta casa
Onde à noite nasce a Lua
Quando a dona vem à porta
Alumia toda a rua

Hoje já não é bem assim.

Canta-se, mas já não se dão chouriços, nem morcelas, nem nada que ao porco tenha pertencido porque já poucos matam.

Os convivas, recebidos à porta ou convidados a entrar, são agora mimoseados com doces, caseiros ou não, bebidas finas e vão-se embora a arruler.
Às janeiras, cantadas depois do sol-por durante o mês de Janeiro até se dar a volta à aldeia, dá-se dinheiro, dinheiro esse que é depois aplicado a favor da comunidade numa grande almoçarada, realizada Domingo Gordo, no "salão", para quem quiser aparecer.

sábado, janeiro 23

2-2010: As Janeiras (1)

Transcrição do artigo publicado no Diário de Notícias, na sua edição nº 1 de 1865, no Domingo, dia 1 de Janeiro."

O mez de Janeiro que os romanos chamavam de Januarius tomou o seu nome de Jano, divindade pagã que presidia aos caminhos e a quem atribuíam a virtude de adivinhar o futuro. Tem este mez 31 dias. No seu primeiro dia é ainda uso em várias terras das nossas províncias, aonde os costumes são mais puros, e as tradições mais duradouras, oferecerem-se alguns mimos e presentes, a que se dá o nome de janeiros. É opinião de graves auctores, que este costume o herdamos nós dos romanos, entre os quaes elle foi introduzido por Tacio, contemporâneo de Rómulo. Tomou Tácio por bom agouro certos ramos cortados no bosque da deusa Strenia, os quaes lhe foram a elle offerecidos no primeiro dia do anno, e esse acaso tornou-se em moda, ficando a final, costume. Dar Strena, ou Trena era o mesmo que desejar felicidades multiplicadas às pessoas a quem se oferecia um cante virtuoso e poético, passou de edade a edade a ponto de ainda, passados já vinte e seis seculos, estar arreigado no seio do povo. Também usa a gente pobre pedir as janeiras, e para isso se ajuntam ranchos de moços e moças d’aldeia, que n’uma plangente toada, cantam em coro o seu requerimento que n’algumas terras começa assim:
« Este dia de Janeiro
« É de grande merecimento
« Por ser o dia primeiro
« Em que Deus passou tormento,
« Vinde dar as janeirinhas
« Etc.»