terça-feira, maio 11

13-2010: FÁTIMA de VEGAVIANA

Raros são os raianos com raízes nesta região da Raia Perdida, tanto os residentes como os que vivendo fora, vindos aqui no Verão ou nos períodos festivos para matar saudades da família e dos amigos, que fruto do bom relacionamento transfronteiriço não dêem de quando em vez um saltinho até Espanha. Nem que mais não seja para mudar de ares, para satisfazer apetites com "una copa" ou aproveitar para abastecer o carro de combustível. O ganho na diferença de preço permite fazer quase à borla o trivial percurso com entrada pelas Termas de Monfortinho, Cilleros (local de abastecimento, que com menos 20 cts/litro já arrumou com as bombas das Termas), Moraleja, (às vezes até à histórica Cória e voltar), Zarza-la-Mayor (paragem para "una caña" no bar da "pista" e uma visita ás lojas de Pedro Gazapo ou de Antonio Pantrigo) e regressar a Portugal por Salvaterra do Extremo, tirando partido da recém-inaugurada e não menos polémica "ponte" sobre o rio Erges, construída para encurtar distâncias entre salvaterrenhos e zarzenhos.
Ora este trajecto, fechado em Toulões, constitui o perímetro de uma área bem no centro da qual se situa el pueblo de Vegaviana, um pequeno aglomerado populacional construído de raiz (inaugurado em 1955) como meio de albergar e fixar um grupo de colonos oriundos de povos das redondezas (incluindo um tal Aleixo Vaz Carreiro, de Idanha-a-Nova). Num tempo em que não existia "el paro", mas em que conseguir trabalho era tarefa árdua, decidiram abraçar um projecto governamental de desenvolvimento agrícola da zona de regadio do vale do rio Arrago, proporcionado pela construção da barragem de Borbollón.
Com projecto da autoria do arquitecto D. José Luis Fernández del Amo, esta pérola da arquitectura rural, formando um casario de edifícios brancos, harmoniosamente dispostos numa clareira de montado de azinho e sobro, é considerada a nona mais importante obra arquitectónica levada a cabo em toda a Espanha durante o Sec. XX, mas que só desde 22 de Junho de 2009, por "resolución de la Consejería de Cultura y Turismo", foi declarado BIC (Bien de Interés Cultural) na categoria de "conjunto histórico".
Talvez por não possuir o comércio a que os portugueses se acostumaram, nem nunca ter sido destino de café contrabandeado nesta zona de fronteira (de todas as histórias de contrabandistas contadas em Toulões, com tantas terras nomeadas, nunca Vegaviana ouvi referida) e de não usufruir da divulgação que merece, a localidade ficou excluída do habitual roteiro de visitas por terras da "raya extremeña".
Mas, para os portugueses que eventualmente venham a descobrir esta aldeia, tal como eu a descobri casualmente, (apesar de em duas ou três ocasiões, no início da década de 80, ter estado em visita a familiares que trabalhavam numa "finca" dos arrabaldes na apanha do tomate e do pepino de conserva) o principal atractivo nem será unicamente o conjunto arquitectural que lhe dá forma.
Deve ser realçada uma escultura dedicada aos colonos fundadores desta comunidade, colocada em lugar de destaque na praça principal, de fronte do edifício do Ayuntamento e da igreja de «Nuestra Señora del Rosario de Fátima», monumento cujo frontespício ostenta um gigantesco painel em azulejo representando a aparição da Virgem aos pastorinhos na Cova da Iria.

Aliás, esta crónica veio a lume dada a analogia entre as celebrações religiosas do 13 de Maio que decorrem por estes dias no Santuário de Fátima e os festejos levados a cabo em Vegaviana, precisamente com a intenção de evidenciar a particularidade colhida em Portugal pelos habitantes deste recôndito lugar, ao terem adoptado como sua patrona a Santa com maior representação ente nós.

Diz Florián Caro Cerro no seu livro "Vegaviana", com publicação integrada nas comemorações do cinquentenário da aldeia, em 2005, e do qual saiu alguma da informação aqui exposta, que a razão de tanta fé em Fátima (quando a Espanha religiosa se entrega em devoção à vigem del Rocio, ou aqui por perto à Virgem de Sequeros ou à Virgem de la Veja), se deve à proximidade com a povoação de Temas de Monfortinho.
Eu até diria, e especulando um pouco com a história de Toulões e seus arredores, que esta tomada de decisão teve a influência de João Castelhano, um pastor, pregador de circunstância, que naquela época induziu ao logro muitas almas, por estas terras e além fronteira, ao inventar aparições de Nossa Senhora sobre tudo quanto era carrasqueiro, acabando preso sem honra nem glória.
As suas aventuras, com tempo, jeito e paciência, ainda poderão vir aqui parar.
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quinta-feira, abril 29

12-2010: Sra. do Almortão, post-romaria

A devoção a nossa Senhora do Almurtão, por estas terras raianas, está patente em todos os lugares do concelho de Idanha. A cada pé-de-passada, a ver pela abundante iconografia, pelas loas que Lhe são cantadas com dedicácia ou pelas orações a Ela dirigidas, que tantas vezes arredondam em promessa, encontramos sinais que não deixam dúvidas acerca da fé Nela depositada pelas gentes daqui.
Embalada por esta fé, a Paulinha propôs-se receber o João como marido na presença da “nossa Santa”, tendo a celebrar esta união sacramental o Sr Padre Adelino, conceituada figura da cultura idanhense, fazendo questão, numa pequena homilia, em realçar o esforço, tando dos noivos como dos convidados, de terem vindo propositadamente de Castelo Branco (ida e volta 80 Km) assistir a esta singela cerimónia, no recato da capela, sem a agitação da romaria.
Tomando conhecimento de que muitos dos convidados presentes eram oriundos dos Toulões elogiou as suas gentes referindo: “ainda na Segunda-feira, um grupinho de Toulões cantou desalmadamente, ali no alpendre à porta da capela, a manifestar a sua fé em Senhora do Almotão”.

Felicidades ao novo casalinho!!!

sábado, abril 17

11-2010: Senhora do ALMOTÃO


Painel de azulejo a embelezar a padieira de uma porta no lugar de Torre (Monfortinho)

Tal como aqui por Toulões nunca será desfeita a dúvida de saber se a nossa serra é da Morracha ou da Murracha, também em toda a zona raiana se discute qual a forma correcta de grafar o nome da protectora de toda a campanha idanhense: Senhora do Almortão ou do Almurtão?
Apesar do nome da santa, segundo a lenda, estar ligado à toponímia do sítio da sua aparição, Água da Murta, o povo raiano tende em dizer Almortão, em vez de, como seria mais natural, Almurtão.
Para além destas duas formas, existe também muito boa gente que pronuncia: ALMOTÃO. Pensava eu que esta forma de chamar Nossa Senhora, quase nomeada, se devia ao facto de, por uma questão de facilidade de articulação, o povo comer letras às palavras ou então de, por no percurso entre o ouvido e a boca, costumar transformar alhos em bugalhos, mas não.
Segundo referido na obra do Dr. Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, 3º vol., o autor explica assim a razão da adopção desta forma de designação:

Na 1ª edição eu escrevi Senhora ao Almurtão. Ouvindo o meu saudoso mestre e amigo Dr. José Leite de Vasconcelos, este respondeu-me: «Quando faltam formas antigas de um nome geográfico, de certo não é fácil dar explicações dele.
No nosso caso, Almotão, regulando-nos pela forma actual, poderia explicar-se por al-motão, sendo motão aumentativo de mota, e al o artigo arábico que se junta às vezes a nomes não arábicos. A significação seria, pois «a mota grande».
Mas digo isto com todas as reservas. «25-III-1928».
Adopto, por isso, agora a forma popular Senhora do Almotão.
Mota designa: arrimo, apoio, defesa.
E pronto.
Segunda feira, dia 19, cumpre-se mais uma vez a tradição de rumar até Água da Murta para venerar a padroeira e estender a merenda à sombra de um azinheiro.
Eu, que não vou poder lá estar (por uma questão logística só lá estarei dia 24, mas a merenda é depois em Castelo Branco), deixo aqui a minha quadra de alvíssaras:
Senhora do Almotão
Quém Vos deu o Vosso nome
Foi o povo da Idanha
Que p'ra Vos dar passou fome

sábado, março 20

9-2010: Primavera


Este ano a Primavera chegou enfouceda. Ainda ningém deu por ela.
Não fora a marca no calendário ainda amolecido pelo gemer da humidade adensada por este Inverno, a confirmar o dia da sua comparência, muitos terão pensado ter-se ela perdido do Norte, tal como a passarada de arribação que deve estar em decanso nalgum porto de abrigo à espera de melhores dias para dar continuidade ao ciclo migratório.
Para os que esperam ansiosamente pelo renovo dos campos e pela chegada das andorinhas, agentes de contágio do virus da alegria, tenham cautela: o cuco, parasita, usurpador do bem estar comum, também estará aí a rebentar por estes dias.

terça-feira, março 16

8-2010: Frandesca


É verdade, o trabalho mata
Mata a fome, mata o tédio
Mata. Dá saúde e mata
Mas trabalhar, que remédio

Sorte a de quem trabalha
A de quem a horas come
Sorte é ter uma navalha
E com ela matar a fome

Na casa onde tudo ralha
Por não ter que manducar
Sempre que o trabalho falha


Quando se a fome quer matar
Para que serve uma navalha
Se não há pão que anavalhar

Toulões, Setembro de 2009


quarta-feira, março 3

7-2010: EVÃO4

Parece que ainda ontem andava à voltas com o quebra cabeças do blogger, a fim de dar vida a esta arca e a por a navegar no espaço internáutico, eis senão quando, por entre altos e baixos, dei por 4 anos passados.

A todos os que por cá vão passando, conterrâneos ou forasteiros, comentando ou não, deixo um grande abraço de amizade.

terça-feira, fevereiro 23

6-2010: Entrudo 2010 - Toulões (crónica)


Fazendo fé na profecia de Nossa Senhora das Candeias, antevisão meteorológica para o período que se segue ao dia 2 de Fevereiro, já se previa que o Inverno iria ser rigoroso nestes dias mais próximos.
Este provável desconforto, sem a presença dos primeiros raios de Sol primaveris, que nos últimos anos, por esta altura, já dão tempero aos dias ainda aziagos de tamanha invernia, não arrefeceu as expectativas criadas em torno do sucesso do Entrudo do ano passado.
Os muitos foliões que aderiram à iniciativa, assim como a população em geral, que a gosto seguiu aderrabo do cortejo, quase tão concorrido como a procissão da festa de Santo António, nunca mostraram a parte fraca. Convenhamos que o almoço agendado para este dia, resultante do ofertório das Janeiras, bem servido e melhor regado, deu metcha basta para enfrentar a friagem que rebota da espanhola Serra da Gata, "um parapeito onde esbarram os ventos húmidos do Atlântico", denominados por "nuestros hermanos extremeños" de "aires de Portugal". (Ainda me hei-de inteirar de qual é o ditado, em espanhol, equivalente ao nosso "de Espanha, nem bom vento nem bom casamento")
Tal como no ano passado, o carnaval dos Toulões, sempre longe da sátira política e social (aqui prevalece o terra-a-terra da diversão pela diversão), foi o mais trapalhão possível, tendo havido trapalhadas para todos os gostos.
Desde a Vaca-galhana, que não podia faltar, este ano exibindo um disfarce bem americanizado, modernizando-se e dando mostras de adaptação aos tempos que correm, até às bruxas que, antigamente, ao bater da meia noite povoavam os terreiros e exerciam a sua magia maléfica libertando a diabólica, que fazia das suas por esses compos fora, e açulando a má-hora a dar caça aos noctívagos mais incautos, todos, com disfarces urdidos de maior ou menor sofisticação, se equivaleram na hora de se expandir com alegres brincadeiras.
Os mais novos, nesta onda de colagem ao Carnaval importado, não deixaram créditos por mãos alheias.
Entre os mais velhos, um grupo vestido a rigor trouxe à memória o tempo das ceifas, o tempo em que a alegria no trabalho atenuava a dureza castigadora imposta pela canícula. Nem sequer faltou uma espontânea representação do "estender da merenda" ou do "fazer uma bola" para retemperar as forças consumidas pela árdua tarefa, não de ceifar, mas de ter percorrido as ruas do povo numa caminhada de mais de hora e meia.

E não fora ali ainda dada por finda a jorna.
À noite, estes mesmos ceifadores, no caso mais as mulheres, reeditaram o balho à moda antiga, aprofilando-se com trajes de gala, à época usados ao Domingo ou em ocasiões festivas, peças de uma indumentária pacientemente confeccionadas. Notou-se nelas o orgulho de mostrar o "feito por nós", autênticas obras de arte dos lavores, revelando pormenores de grande genuinidade e tão perfeitos que bem mereciam ser apreciados fora de Toulões. Desde os xailes bordados com ponto de Castelo Branco, às simples algibeiras de cinta rameadas a ponto cruz, às saias, aos corpetes e aos mandis, tudo enfeitado com nastro de várias cores, numa harmonia há mais de 50 anos guardada no baú que, sabe-se lá, estará de novo na moda num futuro menos longínquo do que se pensa.