domingo, junho 5
MEMÓRIAS CURTAS 2 - Circo eleitoral (parte 1/2)
Circo eleitoral - (parte 1)Actualmente, as campanhas eleitorais que massacram a paciência ao mais que alheado cidadão eleitor, descrente com a política lesa-pátria da "troika" que há anos, em alternância, nos governa e se vai governando, não são o período de esclarecimento nem de apelo à reflexão para, sem dúvidas, podermos escolher a cor da mortalha para o voto a colocar na urna.
Em campanha fala-se de tudo menos do essencial. Argumenta-se contra as birras e arrufos dos adversários políticos com arrufos e birras à medida, uma vez que o programa de governo que se discute, proposto por cada partido, é um manual boas maneiras.
A ideologia politico/partidária é posta à margem da campanha. Como chamariz servem os nomes dos cabeças de cartaz, que chegam aos comícios para mostrar a sua habilidades circenses. Já não se apela ao voto, a favor ou contra, o partido A, B ou C, para referir apenas estes a que as sondagens dão maior cotação, baseadas na opinião dos inquiridos acerca do sex-appeal dos oradores com voz de bagaço ou da cor da sua gravata. Apela-se, isso sim, a favor ou contra o voto no malabarista, no trapezista, ventríloquo, ou artista dos cãezinhos amestrados. Ou seja, os comícios são num espectáculo de saltimbancos em que os intervenientes culminam numa ronda, de chapéu na mão, a pedir o voto à populaça chamada a assistir e a ovacionar de bandeirinha em punho.
Mas vá lá, valha-nos santa Bárbara; acabou a campanha, acabou a trovoada.
quarta-feira, junho 1
sábado, maio 14
MEMÓRIAS CURTAS 1 - A promessa
Igreja de S. Domingos (Largo de S. Domingos- Lisboa)A promessa
O Francisco da Cruz, dito Xico "Bombarral" - que a alma lhe esteja em descanso - foi militar de carreira. Embarcou para Moçambique em 1954 para reforçar o contingente das designadas tropas de guarnição normal, tendo-se fixado em Lourenço Marques, onde casou e acabou por formar nova família. Só veio à Metrópole em 1966 para um curto período de férias, por alturas da Páscoa, passados dois anos de a Guerra de África, que em 1961 rebentara em Angola, ter alastrado a Moçambique. Foram dois anos destacado em "defesa da Pátria", repartindo-se entre esporádicas visitas à família em Lourenço Marques e o serviço na "fornalha" de Tete.
Ao voltar para Moçambique – A missão obriga-me! – deixou a mãe, ti Isabel "Isidra", mais descorçoada e de espirito mais vazio que quando abalou pela primeira vez para o Cabo dos Infernos. Agora, já com meia vida a carregar o luto pelo marido, falecido quando o Xico era ainda moço imberbe, (de doença provocada pelo gás respirado nas trincheiras da Flandres durante a guerra de 14/18), temia pelo filho, sujeito a ficar por lá ou a ser acometido pela moléstia que dilacerou as vísceras ao pai.
Num ambiente quase fúnebre, entre choros carpidos e abraços de despedida da família, soltou-se o optimismo das promessas: quando regressasse de vez, ofereceria aos paroquianos dos Toulões uma imagem esculpida de N. Sª da Imaculada Conceição e a mãe, embalada pela mesma onda de esperança, prometera a N. Sª Fátima entregar-lhe em mão uma parte do seu suor.
O momento do regresso, tão ansiosamente aguardado, veio finalmente em Janeiro de 1968.
Foi um alívio. Ela que desde sempre, todas as noites, ao deitar-se, pedia a Deus e a Fátima que lhe livrassem os filhos dos maus topes, manifestava a sua fé numa longa reza surdinada. Não tanto pelo António e pelo José, mais velhos, nem pela mais nova, a Ana, todos de vida ajeitada, mas mais por este pobre cujo destino quis que seguisse a vida da tropa e andava agora na guerra.
A oração era a sua almofada para um sono de justo: um descanso para as preocupações, persistentes em atentar-lhe a tranquilidade da consciência.
Ter reavido o filho, são e salvo, impunha o cumprimento da promessa feita de ir a Fátima.
Entrou Maio. Arranjou-se com o cunhado e com a mulher, o João "Bombarral" e a Cristina "Ruça", e com mais dois peregrinos fretaram o "carro de alugo", para viajar até ao lugar sagrado.
Na véspera das celebrações, ainda a alva por entre umas farropas de neblina assomava por detrás do azinhal do Monte Velho, lá saiu a carrada acondicionada no robusto "Chevrolet" do ti Fontes, com o tempo contado para chegar à Cova da Iria antes de principiar a procissão das velas.
A viagem parecera interminável, mas chegaram com folga bastante para se livrarem dos maiores apertos. A multidão afluente àquele fervilhante lugar de culto custou a caber na imaginação da ti Isabel; em quantas romarias da Senhora do Almortão se juntaria tamanho gentio.
O ti Fontes, avisado por experiências anteriores, alertou: - No meio desse adjunto, acuaitelai as carteiras!
A reacção instintiva provocada por aquelas palavras, levou o ti João "Bombarral a levar a mão ao peito e sentir-lhe o enchumaço no bolso de dentro da véstia. Ela, pelo sim, pelo não, passou também a mão pela anca direita para se certificar se a algibeira aonde guardava o dinheiro da promessa, presa à cintura e pendurada entre a saia e o saiote, ainda estava no sítio.
Após uma volta atribulada pelo recinto do Santuário, abeirando-se com dificuldade do vulto da azinheira grande, contrastante com a ténue iluminação ambiente e da Capelinha das Aparições, epicentro do movimento conturbado de uma enorme massa humana, integraram-se na procissão nocturna com milhares de bruxuleantes pontos de luz em movimento, a compor um quadro vivo representando a devoção à Virgem.
Foi uma noite de vigília forçada, ao relento, com uma manta singela, mal dormida, mas descansada quanto baste. Com fé suplantam-se todos os sacrifícios. A manhã, fresca, acordou renovada e até o astro, resplandecente, fazia jus ao mistério da Aparição.
Durante a espera pelo momento ecuménico proporcionado por um cardeal estrangeiro, sempre as contas do terço a passarem-lhe a compasso pelos dedos, foi então tempo de ir à casa das oferendas libertar a alma. Parte das poupanças, religiosamente guardadas, recurso para atalhar a lavoura de uma doença ruim, serviam nesta ocasião para agradecer à Virgem a protecção providenciada ao seu Xico. Enfia a mão pela abertura lateral da saia e puxa para fora a algibeira de saragoça preta, rameada com bordados garridos, onde guardava cinco notas. Veio, primeiro, o lenço de mão. Procurou de novo, vira, volta, revolta, mas o dinheiro … viste-o!
Confirmado o sumiço das notas, roubadas ou perdidas, sem entender como tal infortúnio poderia ter sucedido, deixou-se cair num choro convulsivo e com o lenço numa mão e o rosário na outra, esconde a cara entre ambas num acto meio de desespero, meio de vergonha, por faltar à palavra prometida a Nossa Senhora.
A Cristina "Ruça" e o "homa", que havia um bom punhado de anos tinham promessa, nunca conseguindo usufruir da alegria de a poder cumprir, por Nossa Senhora nunca lhes ter concedido a graça da fecundação, ampararam a companheira de peregrinagem.
Mal conformada, passou todo o tempo, do início da homilia até ao adeus à Santa, no automóvel que a levaria de regresso a Toulões, firmemente agarrada ao rosário, a rogar pelo fim do pesadelo. Em toda a viagem, desalmada, pesarosa, não se lhe ouviu palavra.
Reconstituía mentalmente todos os momentos passados no vislumbre de um ponto de displicente distracção. Fixou as duas vezes em que puxou do lenço: para limpar o rosto arrasado num pranto de lágrimas à solta e se recompor da emoção de, à distância de um beijo, estar perante o corpo presente da Imagem de Fátima e, mais tarde, aquando do aceno de despedida que Lhe dirigiu no final da procissão. Em qualquer destas alturas o dinheiro se poderia ter esgueirado por entre as farpelas das suas vestes festivas.
Chegaram a casa já à noite. Deitou-se mas não dormiu sem antes se justificar à Virgem, rogando-Lhe que não a julgasse por esta falta, na certeza de que Santo António, advogado para as coisas perdidas, não lhe iria frustrar o desígnio e se encarregaria de a ajudar repará-la.
MEMÓRIAS CURTAS
A invernia assolou a condição deste arcaz, mas o arquivo de memórias manteve-se intacto, necessitando apenas de algum restauro, trabalho a ser feito com paciência.
As estórias de Entre Toula e Morracha que aquei publicarei, serão todas MEMÓRIAS CURTAS.
Um abraço a todos os que por aqui se perdem de vez em quando.
quinta-feira, dezembro 16
18-2010: POSTAL DE NATAL
Queria deixar aqui um mensagem de Natal, tão doce como as filhozes, os bronhuelos ou as fatias paridas que nesta quadra vão à nossa mesa. Mas como o país, num período em que o consumismo não distingue racionamento de açambarcamento, vive por estes dias num déficite de açúcar, deixo este poema de António Gedeão para adoçar o espírito natalício:
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes dar-mos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos, entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido!
Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico,
de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! -
o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho na noite incerta para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha salta da cama, corre à cozinha mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza da matutina luz aguarda-o a surpresa do Menino Jesus.
Jesus, doce Jesus, o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho do Pedrinho uma metralhadora.
Que alegria reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá fingiam que caíam crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal, dia de Amor, de Paz, de Felicidade, de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
quinta-feira, outubro 14
17-2010: Dia Mundial da Mulher Rural
Sou mulher pequena
Sou como o granito
Bem rija e morena

