terça-feira, dezembro 11

Memórias curtas 14 - Madeiro do Natal - TOULÕES 2012


Foto (composta) roubada do f de António Marcelo

A custo, a tradição de o Madeiro do Natal ser colocado a cada dia 8 de Dezembro no adro da matriz de Toulões ainda se vai mantendo, graças à carolice e à vontade de quem conserva alguma força para ajudar a aguentá-la viva.
Defraudando também as expectativas de alguns gaudiantes “ambientalistas” detractores da genuinidade das tradições, que atropelam com leis cegas o simbolismo desta manifestação cultural (apenas vêem na queima do Madeiro do Natal uma fonte de poluição a libertar, em algumas horas, o carbono armazenado por uma azinheira durante um século), o acolhedor calor do Madeiro irá continuar a aquecer a nossa consoada.
Este ano ainda se cá arranjaram dois rapazes das sortes para representar a tesura desta comunidade envelhecida, a fazer pela vida na extrema oriental da Raia “Esquecida”.
Coube ao filho do Tó General e ao do Paulinho Torres, a incumbência da agilizar logísticas para, apesar de com um dia de atraso, o fazerem chegar inteiro e sem mazelas ao lugar onde na noite de Natal será “apichado” para consolo da população.

Mas se hoje por força das circunstâncias demográficas assim acontece, tempos houve em que os candidatos a mancebos eram tantos que no dia 7, depois da ceia, ao primeiro toque do búzio a marcar a hora de mobilizar, se formavam pelotões como que a querer antecipar a tão ansiada ida à tropa. Em marcha apressada até ao local da contenda, sempre na expectativa de que o azinheiro, previamente escolhido, desse pouca luta, evitando o tardar do seu derrube e antecipando o cerco ao petisco retemperador.
O arranque, a esgalha e o transporte do Madeiro, tendo acompanhado a evolução dos tempos, faz-se agora com recurso a maquinaria moderna (escavadoras, motosserras, tractores). Antigamente essas tarefas eram feitas com trabalho braçal a poder de enxadão de cabo atarracado, de “malho” com o fio bem aguçado e do garrafão quase sempre tresmalhado (este ainda hoje se mantem) para aquecer e dar alento aos manobradores da ferramenta. O transporte até ao povo era feito num carro de vacas, seguindo-se um ritual quase litúrgico, repetido ano após ano.

Findava-se o ano de 1947 que, segundo dizem os velhos, terá sido o ano do maior Madeiro alguma vez descarregado no adro.
A referência a esta data foi dada pelo que resta de uma malta de Toulões, forçuda, naquele ano a folgar do rigor imposto na finda empreitada do canal (rede hídrica de regadio da campina de Idanha) onde entregara o corpo ao trabalho, e então se agarrava ao que houvesse. Neste dia, com a jorna dada à comunidade por força da tradição, todos os meios eram reunidos para ir fazer o serão ao azinhal do Monte Velho em redor de um robusto azinheiro, entroncado como um deus mitológico de Miguel Ângelo.
A noite era de lobos. Uma invernia tormentosa, persistente em ofuscar a luz emitida por uns candeeiros de mão que mal alumiavam fora dos limites da chaminé e em condicionar a agilidade aos contendores, era propícia ao amolecimento da terra, facilitando assim a tarefa do descalce. Só o tamanho das raízes escondidas, que ancoram a árvore à terra, poderia ditar a demora no tombar do madeiro.
Mas se esta chuva incessante, que ensopava a terra e os ossos, ajudava ao desenlace das raízes, ela perturbava grandemente a operação de remoção e transporte do madeiro. Na hora de carregar o descomunal tronco, já uma luz difusa por entre nuvens anunciava o dia, reuniu-se todo o contingente, ali vindo ao que desse e viesse, para empurrar, puxar, rebolar aquele peso morto para cima do carro, entretanto colocado no fundo da caldeira onde a árvore enraizara.
Dois carros, cada qual com sua junta, vieram para o efeito. Um para carregar o madeiro e o outro para levar a lenha que, vendida, iria render o bastante para organizar uma festa de arromba, com tocador contratado e tudo para animar o povo.
E se assim deveria ser feito assim se fez!
Com a força bruta de trinta almas resistentes à chuva e ao frio, o madeiro foi acamado sobre o tabuleiro do carro, atado consolidadamente com um “calabre” e encaixados os “fugueiros”. Jungidas as duas juntas de vacas, uma ao tiro e a outra à frente a puxar com a ajuda dum cambão, a primeira força feita pelos animais mal fez bulir o carro dentro da cova. Mais um incentivo e outra bulidela. Mais outro incentivo e nada, e nada, e não havia meios.
Foi então o tocar a rebate para reunir de novo a massa humana presente que, com toda a pujança proporcionada por um garrafão cheio, arrancara o madeiro. Cada qual no seu posto obedecendo ao comando sincronizado com o esticão dado pelas vacas, em dois ou três impulsos o carro saiu daquela cratera.
Consta que sobre o terreno empapado por entre os azinheiros do montado, dali até apanhar caminho firme onde uma só junta chegaria para puxar, o carro fora levado de cadeirinha por aquela rapaziada, carregado com o madeiro e até levaria o tocador se lá estivesse.

Chegado ao povo, acompanhado em cortejo até ao adro da igreja, aí foi descarregado e colocado. Talvez sem a leveza das figuras postas pelas moças no presépio mas, certamente, com a mesma devoção ao Menino Jesus.

quarta-feira, novembro 28

Memórias Curtas 13 - OE 2013

Paradoxalmente, este Orçamento de Estado 2013, votado e aprovado ontem, foi discutido e votado na generalidade a 31 de Outubro, dia mundial da poupança e em simultâneo do americanizado dia das bruxas (dia do esbanjamento), seguindo-se a este o dia de todos os santos e o dia de finados.
É de letra que qualquer orçamento se resume a um conjunto de valores parcelares a grande parte errados, mas cujo somatório resulta num valor total aproximado ao pretendido.
Mas há orçamentos e orçamentos.
Superstições à parte, alguns erram sempre nas mesmas parcelas.
Fatalidades!

sexta-feira, novembro 16

Memórias curtas 12: ...



Hoje um tempo de eleição passou fugaz pela minha rua. Fugaz mas rude. Num pronto mudou de cara como quem muda de máscara nos bastidores de uma peça trágica e com voz de trovão fustigou o que encontrou pelo caminho.
À sua passagem, a calçada ficou pejada de austeridade.

terça-feira, novembro 13

Memórias curtas 11 - Responde o tempo que passa



Responde o tempo que passa

Pergunto ao tempo de outrora
P’la força do meu egrégio povo
Tanto trabalho que o devora
Há um Estado que o explora
Para bem dum Estado Novo
 
Pergunto ao tempo que passa
Pelos cravos da democracia
Caça-se o voto com negaça
E o povo rende-se na praça
Às ilusões da burguesia
 
Pergunto ao tempo há-de vir
Pelas cores da minha bandeira
Há meia haste para brandir
Fala-me de um Hino a falir
E dum idioma sem fronteira

Pergunto ao tempo da razão
Pela verdade na justiça
Quanto valerá a rectidão
Se a mentira lavra a tostão
Emparelhada com a cobiça

Pergunto ao tempo perdido
Pela gente do meu do meu país
Fala-me de um povo esquecido
De um povo sem apelido
Filho duma árvore sem raiz

Pergunto ao tempo caduco
E de Portugal, que se espera?
Fala-me dum Estado eunuco
Dum povo a cantar de cuco
A anuciar nova Primavera

Toulões, Outubro de 2012

sábado, outubro 13

DITOS & DITADOS




Não há companhia mais prestável que a de uma boa navalha.
Com uma navalha se descasca a fruta, se fazem rocas e colheres, se casa o pão com o conduto e com uma navalha se amedronta o medo.
Sim, que o medo foge de uma navalha como o Diabo da Cruz.

terça-feira, outubro 2

DITOS & DITADOS

(Clicar na imagem para aumentar)

- ALTO E PÁRA O BALHO! Quem é que apalpou a minha filha?
- FOI O TOCADOR.
- Atão siga a dança, qu' ele é homa de confiança.