quinta-feira, novembro 23

31-2006:O TGV da Beira Baixa


Toulões é uma pequena aldeia que, tal como as suas congéneres da raia perdida, ficou irremediavelmente esquecida nos confins da interioridade, no limiar que une (ou que separa) as duas nações que, dormindo juntas no leito ibérico, quantas vezes acordam de costas voltadas.
"No limiar do iberismo pensam alguns".
Efectivamente, há quem já nos considere espanhóis, o que, em parte, é uma meia verdade.
Durante muitos anos, dizia-se a mangar, era bem mais fácil chegar a Madrid do que a Lisboa. Até à entrada de Portugal na CEE e antes da construção das IPs 2 e 6, (agora A23, por enquanto SCUT sem custos para o utilizador) demorava-se quase metade do tempo a fazer o percurso até Madrid (370 Km) do que até Lisboa (310 Km).
O bom entendimento com "los pueblos" fronteiriços dura há séculos. Apesar das históricas escaramuças entre os dois países que remontam ao início da portugalidade, este relacionamento manteve-se e cimentou-se ainda mais durante a guerra civil espanhola, quando muitos de "nuestros hermanos", fugindo a uma morte que ceifava o povo a eito, procuraram acolhimento do lado português.
O contrabando de géneros de um lado para o outro da fronteira, também permitiu um maior estreitamento entre as duas margens do Erges, num tempo em que o escudo batia facilmente a peseta no braço de ferro do câmbio, devido à fraca economia de além ribeira. A peseta, a rondar os 4 ou 5 tostões, proporcionava grandes vantagens na aquisição de produtos espanhóis, mas com a contrariedade de ficarem sempre sujeitos a ser apreendidos pela Guarda Fiscal.
Num ápice, a economia espanhola fortaleceu a peseta. Então, invertendo a tendência cambial, deixou de ser compensador ir a Espanha fazer compras, passando o comércio das nossas cidades fronteiriças a atrair os nossos vizinhos, apesar de continuarem a ser acerrimamente defensores daquilo que é deles.
Agora, com a livre circulação no espaço europeu, com a entrada em vigor da moeda única (nessa altura já a peseta valia 15 tostões) e com a crescente pujança da economia espanhola, vai-se naturalmente a Espanha abastecer de combustível, encomendar materiais de construção, mudar as lentes aos óculos e tanta coisa, com grande vantagem para a magra bolsa dos raianos.
Às vezes, deveras que bem nos apetecia ser espanhóis.
E ainda mais!
Com a implementação do TGV e a inicialmente prevista ligação por Cáceres, a entrar em Portugal aqui por perto, a distância até Madrid encurtar-se-ia significativamente.
Mas..., está decidido, está decidido. O TGV vai mesmo passar por Badajoz.
Segundo se diz por aí: "esta opção é a melhor para todos os lisboetas, enquanto que a entrada por Cáceres seria boa apenas para os portugueses".
Enfim, como as aleatórias decisões políticas dos governantes são mais dogmáticas que os postulados do Zé-Povinho, somos constantemente forçados a carregar com o nosso inconformismo.
Às vezes, em conversas sérias, brincando com o assunto, tivemos a imaginária esperança de que a passagem do TGV aqui por perto, seria uma mais valia para toda esta região.
Com algum privilégio, Toulões até teria um apeadeiro que serviria também o aeródromo de Termas de Monfortinho, a escassos quilómetros, que, desde a abertura da reserva de caça turística do Espírito Santo, aumentou de tal forma o tráfego aéreo que já se pensou em acrescentar a pista que iria, na sua reinauguração, receber o Airbus A380 no seu primeiro voo comercial (Ricardo Salgado como interessado e Sousa Cintra como utilizador já deram o seu aval).
Com esta obra a avançar em detrimento da da Ota, poupar-se-iam uns milhões que serviriam para melhorar a estrada que liga Toulões-Torre-Monfortinho e que há meia dúzia de anos tirou os já poucos habitantes do Carriçal de um soturno isolamento.
Esta estrada, com ligação a Espanha, ramificaria pelos concelhos vizinhos, sendo uma linha nevrálgica na estratégia para desenvolver toda a zona raiana.
Criavam-se incentivos não fictícios para uma nova agricultura biológica, já que é a actividade para a qual estamos naturalmente vocacionados.
Renovavam-se e ampliavam-se os canais de regadio da campina; retomava-se a produção de azeite mediante o renovo dos olivais, assim como o restauro dos lagares ou a construção de novos; adquiria-se maquinaria para encher os campos com grandes cearas (esquecendo os trangénicos) limpando o mato atreito a incêndios; curava-se e renovava-se o montado de sobro e azinho, tal como a criação de novos pólos veterinários para ajuda à exploração pecuária, nomeadamente o porco preto que tanto gosta de se alimentar, vagueando de azinheiro em azinheiro enchendo o corpinho de bolota e outros mais que fariam renascer aqui uma vida nova, um pouco à imagem do que se fez do lado espanhol com os subsídios da CEE.
Para aquisição de mercedes, jeeps e outros veículos de trabalho a custos bonificados, os interessados teriam, tão só, de comprovar a rentabilização do investimento feito com o incentivo de que beneficiaram, prova essa que serviria também para ganhar o direito a futuros incentivos.
Este sonho poria certamente Toulões e toda esta região, no mapa do desenvolvimento.
Estou já mesmo a imaginar as televisões a acotovelarem-se para entrevistar o Zé Torres, nosso digníssimo presidente da junta, sobre projectos futuros para a fixação de pessoas e a reabertura das escolas primárias para que incutam às crianças o orgulho de ter nascido aqui.
Voltaria o burburinho da canalha no recreio que em alegres cantigas de roda trauteava agora: "O TGV da Beira Baixa / Tem vinte e quatro janelas / Mais abaixo, mais … (vocês sabem o resto)".
A ser real este feito, a sua notícia relegaria para segundo plano uma grande reportagem jornalística sobre um acontecimento que fez aqui concentrar todas as atenções, mas que passados dois dias não passava de uma longínqua efeméride.
Essa notícia, no último dia de Novembro de 2002, (não sei se ainda há quem se lembre) foi precisamente sobre o Carriçal (Carcel como dizem os mais velhos).
Neste pequeno aglomerado pertencente à freguesia, a cerca de 5 Km, onde, com pompa e circunstância, se inaugurou a luz eléctrica que, tardiamente, veio trazer alguma qualidade de vida às gentes desta terra, que nem aldeia é, onde o passado está bem presente, mas em que para o presente, mesmo com a recente chegada da luz, não se vislumbram réstias de futuro.
Este acontecimento, raro nos dias que correm, foi celebrado com festa da rija pela numerosa comitiva de convidados da autarquia que se deslocaram a este lugar, longe de tudo, e pela população residente, para assistir ao "dar ó botão" no Carriçal.
"Afectível, afectível, só cá moram três pessoas, mas o tempo da zêtona ajunta cá mai gente…agora stamos cá… (pausa para pensar) …cinco!", respondia desoladamente a ti Moreira Felisbela, do cume dos seus 80 anos, ao jornalista da TSF João Morais (que merecia um prémio pela excelência da reportagem que aqui fez (Na penumbra) e pelo seu profissionalismo na arte que tem de reportar sobre assuntos da ruralidade).
O presidente da Câmara de Idanha-a-Nova, Álvaro Rocha, também inquirido a pronunciar-se sobre esta obra, começando naturalmente por refutar a possível ideia de eleitoralismo inerente ao evento e salientando que os três votos destas pessoas nem sequer fizeram a diferença para os seis que lhe deram a vitória (no mandato anterior), respondeu em tom de confidência:
- Sabe que, às vezes, com os desperdícios dos investimentos de obras maiores, fazem-se estes pequenos milagres!
Esta deixa leva-nos a perguntar: onde, depois de concluídas estas obras faraónicas, TGV / Ota, irão ser aplicados os desperdícios do esbanjamento?

terça-feira, novembro 21

30-2006: Meio desafio aceite


Após alguns dias de ausência inesperada, estou de regresso a este convívio virtual.
Foi com alguma surpresa que me deparei com um desafio proposto, quase em simultâneo, por dois companheiros de lide:
O Joaquim (Por terras do rei Wamba) e o Jorge (O sino da aldeia).
Aceito com satisfação o desafio, mas apenas pela metade. Vou revelar as cinco manias, mas, no que toca a desafiar mais cinco é difícil, dado que durante este tempo de ausência gorou-se a oportunidade, visto que praticamente todos os que costumo visitar já foram desafiados.
Como dizia um famoso fadista do antigamente: "com letra minha e música do meu pai... ENTÃO AQUI VAI."
1 – Tenho a mania que não tenho mania nenhuma, mas algumas pessoas apontam-me as que se seguem:
2 – Que tenho a mania de dizer sempre que sou de onde sou, enquanto outros dizem que são da Beira, de Castelo Branco ou, vá lá, de Idanha-a-Nova.
Quando me ouvem dizer que sou "dos Toulões" percebem "estou longe" e consecutivamente vem logo a pergunta: "estás longe?" Eu respondo sempre da mesma maneira: "estou, mas é como se lá estivesse".
3 – Que tenho a mania de que não há melhor fruta que o diospiro e que os figos inverniços eram melhores se viessem antes dos temporões.
4 – Que tenho a mania dos sapatos de camurça porque não é preciso dar-lhes graxa. (aqui digo-lhes que: brilho?, só quanto baste)
5 – Que tomar café sem açúcar é tomar uma atitude drástica.
UM ABRAÇO A TODOS!

segunda-feira, outubro 30

29-2006: A frágua

Pormenor de um "cancelão" construído no final dos anos 50.
Todas as peças foram trabalhadas manualmente e a assemblagem foi feita através de rebitagem. Este trabalho, que hoje nos parece tosco, era, à época, considerado de qualidade superior .

Engenho de furar manual com sistema de engrenagem para 2 velocidades. Era uma ferramenta essencial para a execução de serralharias (tipo foto acima). Esta reliquia, que pertenceu ao ti Zé Heleno, está a embelezar o jardim da habitação de um seu familiar.


Em tempos, quando uma intensa actividade agrícola enchia os celeiros do país, mas só dava pão a meio alqueire de gente, com a chegada do São Miguel e o início das sementeiras, o ferreiro não tinha mãos a medir.
O trabalho redobrava. Reparar os arados, em que aguçar rêlhas, substituir aivecas, arranjar os dentes das grades e compor outras ferragens, eram tarefas urgentes, a realizar antes que passasse a maré trazida pelas primeiras chuvas do Outono que punham a jeito a terra para ser esventrada e da qual se tirava um ano inteiro de sustento para família.
Depois, era mais o tempo que passava no tronco a ferrar as vacas de tiro do que na frágua, onde a feitura das ferraduras e dos canêlos havia sido prévia, sabendo, por experiência, da avalanche que chegava nesta época, em que o esforço dos animais e o consequente desgaste das protecções dos cascos era acrescido.
A valentia e a disponibilidade do ti Zé Guardado Campos para o trabalho, era por todos reconhecida. O ti Zé Ferreiro, como lhe chamavam, quando se punha a malhar o metal sobre aquela bigorna de aço, cujo timbre competia com o do sino da igreja quando tocava a rebate, numa chamada do povo da aldeia a reunir para acudir a uma desgraça, em que nos dias da aragem de leste levava o som da emergência a salvar o Cabeço dos Frades, fazendo-se ouvir em clarinho no arraial da Pingona.
Com a sua hercúlea envergadura e o seu basto bigode, quando calhava a cravar ferraduras, impunha o respeito a qualquer cavalgadura.
Temendo alguma reacção intempestiva do ferreiro, "as bestas nem buliam as orelhas!" - como contava o ti Mné Correia.
Cada vez que o ti Zé Ferreiro moldava o ferro amolecido na incandescência da forja, avivada pelo sopro de um velho fole que ia aguentando o fôlego graças ao amaciar das rugas pela bola de sebo enfarruscada, religiosamente embrulhada num farrapo de saca e guardada numa buraca da parede, o povo evitava passar-lhe à porta, escudando-se da estridência das pancadas, capazes de perfurar os tímpanos aos mais incautos.
Os dele já há muito deixaram de reagir ao estímulo das vibrações sonoras. Quando a frágua zunia, por toda a aldeia se sentia a cadência do seu malhar que ensurdecia o martelo e a bigorna.
Pensa-se que terá nascido daqui a expressão bastamente usada em Toulões - "Estar com os ouvidos na casa do ti Zé Ferreiro" - que me parece ser exclusiva desta terra (e corrijam-me se estiver errado).
Usa-se para chamar a atenção a alguém que não ouve porque está distraído, com o sentido na lua, ou alguém a fazer ouvidos de mercador porque, pura e simplesmente, para os dissimulados, qualquer chamamento não passa de um imperceptível ruído de fundo.
Hoje a expressão continua a utilizar-se amiúde, mas, com a usura provocada pelo passar do tempo, foi perdendo o "ti Zé" e o "Ferreiro" passou de próprio a comum, resultando no que hoje se diz:"estar com os ouvidos na casa do ferreiro!?"
Mas as histórias já muito antigas deste homem, do qual dificilmente se compreendia como é que, com aquele corpanzil de arrasa montanhas e com umas mãos tão grossas e calejadas, dava ao mundo peças tão habilmente forjadas, eram saudosamente relembradas, quer pelo ti Canilhas, quer pelo Ti Zé Heleno que, com jeito, lhe herdaram a arte.
Embora ambos lá tivessem o seu géniosito, que por vezes originava discussões de índole profissional, havia um ponto com o qual comungavam:
A paciência com que aturavam os garotos tardes inteiras, quando estes andavam ao desafio para ver qual deles lhes ganharia as graças e a honra de poder dar ao fole. Era uma brincadeira que ajudava a granjear confiança e que de vez em quando resultava nuns favores.
Havia sempre uma vez para, numa aberta, pedir o caldeamento de um arame de reforço de caldeiro velho, retirado para fazer as argolas que guiavam em alegres correrias ao desafio pelas ruas do povo.
Cada qual tinha o seu dom.
O ti Canilhas era exímio aguçador de ferramenta. A têmpera que lhe dava, sempre no ponto, acrescentava todavia um pouco mais de vida aos enxadões, malhos e picaretas que lhe passavam pelas mãos.
Era também um excelente ferrador. Para além do cravar das ferragens nas patas dos animais, tinha sempre grande preocupação com o aparar dos cascos e com as doenças que poderiam estar latentes. Quantas vezes uma raspadela e uma leve desinfecção com creolina era um preventivo para a evitar a coxeira que inferiorizava o animal.
O ti Zé Heleno, esse, dedicava-se mais àquele trabalho de ferreiro que hoje se designa por serralharia civil.
Eram afamados nas redondezas os engenhos e noras com os respectivos alcatruzes, portões, gradeamentos para varandas, e outros trabalhos similares que saíam da sua lavra.
Tinha também um jeito especial para colocar aros de bandagem nas rodas dos carros de vacas.
Mas a sua actividade não se resumia a trabalhos de ferro.
Era requisitado por muita gente de fora como especialista em fazer sangrias no vivo doente. Através de um ponto de incisão localizado de acordo com o sintoma (e aqui contava a experiência), de onde escoava o sangue maligno debelando a maleita, sendo depois naturalmente renovado.
Em bestas com augamento, era lancetado o pescoço lateralmente junto à cabeça, deixando escorrer o sangue na quantidade razoável.
Em animais com sintomas de doidice, principalmente bezerras, a incisão era no rabo ou nas patas dianteiras em que as feridas eram desinfectadas com aguardente e ligadas com um pano até sararem. Em último recurso, caso o animal não melhorasse, fazia-lhe uma verga de fogo entre os cornos, na zona dos miolos, que consistia em marcar com um ferro em brasa uma pequena circunferência (um O). Nos dias imediatos, as ventas eram-lhe borrifadas com vinagre para a obrigar a espirrar e assim soltar alguma viscosidade que se tivesse alojado no cérebro.

Mas o ti Zé Heleno não curava só os aleméis.
Curou um cobrão já adiantado à ti Teresa Rita, coitada, já com o bicho alastrado pelo corpo, quase a juntar a cabeça com o rabo. A velhota, a quem uma benzelhoa já tinha tentado curar a moléstia com rezas e defumadouros, lá vinha agora, dia sim dia não, toda encorcovada com a bolsinha do "tremez" que depejava em cima da bigorna. O ti Zé, com uma pazinha de ferro que parecia uma rapa de masseira, em brasa, colocava-a sobre a manchinha do cereal que queimava de forma a libertar um óleo com o qual lhe untava a zona afectada. Um fumo espesso e um cheiro intenso a queimado invadiam as imediações como que a assinalar o sucesso da intervenção.

E uma vez também, um arrepiante berro de dor, libertado numa voz de criança, logo seguido de um intenso odor a carne queimada, escaparam da forja. O João Pesaduras que lá ia mandar aguçar uma picareta do pai, reagiu instintivamente, correndo os poucos metros que faltavam com o coração nas mãos, a pensar que algum amigo fizera como Txulas. Na semana anterior queimara uma mão ao apanhar, uma das ferraduras ainda em brasa, que o ti Zé aventava para do chão da forja, onde arrefeciam lentamente, recobertas pela terra enegrecida pelo coque e pela jorra que sobrava do material em fusão.
Felizmente enganara-se.
O grito de desespero soltara-o um garoto de fora, que o pai ali trouxera na esperança de lhe curar um nascido, depositando toda fé na promessa feita à Senhora do Almortão e na sabedoria do ti Zé Heleno, afamado por queimar, com uma ponta de fogo, a moléstia pela raiz a este tumor gangrenoso que dizia ser um cabrunco.
Enquanto o rapaz gemia, ainda com a maçã do rosto marcada, o Pesaduras, que já conhecia os cantos à casa, apressou-se a abondar a almotria do azeite para o preparado. Uma mistura com pó de cal morta para untar a zona ferrada, era aplicada em cataplasma e renovada diariamente para atenuar a dor e facilitar a cicatrização da queimadura.
Terminado o serviço, o ti Zé Heleno, enquanto arrumava a ferramenta, exibe a enorme tenaz com que manipulava as peças enrubecidas no braseiro da forja.
- Se fô p’ciso tamém arranco dentes! No éi o´João? - disse ele a lembrar uma vez em que pregou um susto ao rapazito, ameaçando, na brincadeira, meter-lhe o tira dentes, como lhe chamava, pela boca dentro.
O João, a observar as caretas que o garoto fazia e a pensar na dor que estaria a suportar, nem respondeu. Estava, naquele momento, com os ouvidos na casa do ferreiro.

INTÉRPRETE PARA FORASREIROS

abondar; passar, fazer alcançar, dar
aleméis; plural de alemel – animal
augamento; doença que aparecia nas bestas manifestando-se por cansaço e apatia quando estas, passando por um local onde habitualmente se lhe dava algo de comer, não se lhe matava esse desejo. Uma mão-cheia de ração ou duas ou três passas de figo serviam para desaugar o animal (dizia-se que também acontecia nas crianças).
cabrunco; carbúnculo (ver aqui)
canêlos; ferros com função de ferradura que se aplicavam nas patas das vacas de trabalho.
cobrão; doença cutânea (ver aqui)
dissimulados; teimosos, fingidos
frágua; forja, oficina de ferreiro
malho; machado
manchinha; pequena mão-cheia, pequena quantidade
nascido; tumor
o vivo; os animais em geral

terça-feira, outubro 17

28-2006: O rei dos matrecos



A televisão faz milagres.
As campanhas publicitárias que nos invadem o quotidiano, entrando-nos, inclusive, todos dias casa adentro sob a forma de tentação, em que tudo nos é apresentado como que a moldar-nos a opinião e a vontade e a forçar-nos a ter um conceito das coisas adequado às pretensões de quem quer vender, de que só nos apercebemos quando já a ilusão nos apanhou desprevenidos.
Neste campo, é de realçar (negativamente do meu ponto de vista de consumidor) a acção dos psicólogos e sociólogos ao serviço do marketing e da publicidade que nos apresentam essas coisas de forma irresistível e quase incontornável.
Isto a propósito da campanha curso que, mercê do spot colocado no pequeno ecrã, parece ter ressuscitado o mais que morto e enterrado jogo dos matraquilhos, desde há anos engolido pelas máquinas de jogos electrónicos que dão cabo da vista e dos nervos à rapaziada mais nova, tornando-a egoísta, fomentando o seu isolamento e a consequente perda do gosto pelo convívio.
Este anúncio trouxe-me á memória os tempos em que com um grupo de amigos fazíamos grandes jogatanas à "roda bota fora", chegando ao ponto de apanhar autênticos suadouros de cavalos de arado.
O jogo dos matraquilhos era um jogo salutar
Jogava-se, ganhava-se, perdia-se, estava sempre tudo bem, porque nisto do ganhar e do perder a diferença estava apenas na cara com que se ficava. E não havia renhonós.
Mas o gosto por este jogo já vinha de trás.
Quando, ainda garotecos, dávamos rodioscas e mais rodioscas para conseguir a milagrosa moeda de 10 tostões que inevitavelmente ia parar ao moedeiro da mesa dos "bonecos" do ti J’quim da Fonte, quando ainda tinha a taberna nos baixos da casa do Tónho Maria e que fazia jorrar uma enchente de abifas de madeira.
Ainda mal chegávamos aos varões. Jogávamos empoleirados em cima de grades de pirolitos para conseguir uma melhor panorâmica do relvado.
Era o nosso promontório.
Os anos foram passando e, em todos, o gosto foi sempre acompanhando, mas havia um elemento que se destacava. O Bombarralito tinha o jogo nas veias.
O tempo passado agarrado aos varões deu-lhe uma habilidade e uma rapidez de movimentos permitindo-lhe fazer fintas que trocavam os olhos aos adversários e causavam espanto na assistência como se de um espectáculo de ilusionismo se tratasse.
Mas fazia outras fintas.
Quando cumprimentava os mais velhos, homens de labuta com quem partilhava a convivência em conversas sobre experiências da vida do dia a dia.
No firme aperto de mão cada um tinha o seu sentir. Sentia-lhes o trabalho reflectido naquela aspereza provocada pelo adoçar da ferramenta e depois sentia-lhes o sentir de quando lhes ouvia da própria boca o inesperado elogio, olhando-lhe para a palma da mão e mostrando-a aos amigos, como fez e disse uma vez o ti "Fanecas":
- Este é que é um estudante com deve ser. Ponde os olhos nestas mãs de cavador!
Mas logo ali se lhe esbarrondava a admiração e se lhe soltava o sorriso, ao saber que aquelas irrisórias calosidades, comparadas com as suas, eram ganhas com o passar do tempo, agarrado às "mãzeiras" dos bonecos.
Quando havia jogos renhidos, a salinha do café novo era um vulcão em erupção. Uma algazarra tremenda que punha tudo em reboliço.
À sala ao lado chegava o desassossego da matraquilhada desconcentrando o ti Valentim e o ti França. Dois esgrimistas em duelo que, sentados frente a frente, defendiam cada qual a sua dama num jogo sem subterfúgios. Ali não havia mandingas.
Nada a esconder, o jogo estava à vista de todos. Inclusive dos mirones que rodeavam os jogadores com um olho nas damas e o outro na mesa do lado, sobre a qual a sueca gerava uma disputa vasa a vasa. Despi-la sim, mas ninguém queria apanhar a chita.
Incomodados, ou um ou o outro, o que estava no momento a perder, gritava a pedir silêncio. E era geralmente à vez.
Quando era o ti Valentim, dizia ele, com a calma que o caracterizava, como se estivesse a falar para si próprio:
- Estes gajos pá, não têm respeito nenhum pá, p’cisavam todos era de um boa mão de ensino pá!
Quando era o ti França, mais ríspido, berrava repetidamente sempre a mesma coisa:
- Pouco barulho, cambada de matchos couceiros. Em vez de estarem aí agarrados aos varões agarrem-se aos varais para ver se amansam.
E às vezes amansavam.
As férias escolares não eram só divertimento.
Para além de ajudar a família nos trabalhos do campo e cooperar com alguns amigos, sempre graciosamente, a malta arranjava uns trabalhinhos para ganhar um cobres que davam um jeitão nas idas às festas das redondezes e para uns gastos extra.
Bem-bonda o esforço que os pais faziam para os trazer a estudar, ainda ter que lhes andar a pedinchar para isto ou para aquilo. Alem do mais, com estes trabalhos fintava-se o ócio evitando a queda na monotonia da espreguiçadeira e, em simultâneo, a fama de parasita com que alguns estudantes eram rotulados.
Esta pelo menos, a ele, passava-lhe ao lado.
O trabalho que mais gostava de fazer era ir à areia ao Aravil.
É verdade que ás vezes era duro, mas dava-lhe gozo porque trabalhava bem o físico. Balançar pasadas de areia do leito do ribeiro cá para fora. Primeiro para um "banco" e depois para a margem e só à terceira é que era carregada para o reboque. Custava.
Mas no final vinha a compensação. A viagem de regresso era meia hora de sesta deitados em cima daquele confortável colchão areia.
Mas houve uma vez em que a coisa piou fino.
Um trabalho habitualmente simples tornou-se num inferno. Um dia inteirinho a amassar barro para fazer "adobres" com uma enxada de cabo rugoso e cheio de escadinas. A coisa mais leve deste trabalho era a palha que se lhe misturava para dar consistência.
Para quem tinha mãos de estudante, como dizia o ti João Páscoa, ao fim de pouco tempo era como pegar num ferro em brasa. No fim do dia tinha as mãos numa lástima.
Nessa noite não houve rei dos matrecos.
As mãozeiras escaldavam-lhe os calos ainda dormentes fazendo-o perder todo o seu fulgor.
Mas o esforço valeu a nota de quinhentos que lhe permitiria ir com os amigos à Zarza fazer a festa do São "Bertlameu".
Davam para pagar a entrada no baile da pista, tomar umas cubatas, comprar um saquinho de terrum para adoçar a boca aos velhotes e ainda sobrava para, já madrugada alta, tomar um cacau quente com um churro antes de iniciar o caminho de regresso, a pé até Salvaterra.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
Bota; deita
bem-bonda; já não basta, já não bastava
cubata; gíria espanhola que significa "cuba-libre"

esbarrondava; de esbarrondar - desmoronar, ruir, demolir
escadinas; pequenas farpas da madeira
mandinga; batota, truque de magia
mão de ensino; correctivo, lição de moral
renhonós; hesitações, meias medidas, queixumes
rodioscas; voltas sobre si mesmo
terrum; do espanhol "turrón"

quarta-feira, outubro 11

27-2006: Uma experiência de vida

O canal 2 da RTP passa no dia 15 de Outubro (domingo) às 11:15h, no programa "CONSEGUIR" uma entrevista com António Brás.
Hoje publico esta entrada para prestar homenagem ao Brás, um amigo de longa data que um dia, lá na estupidez onde a vida dá a volta, perdeu irremediavelmente a visão.
Com base na sua experiência vivida desde então, escreveu um livro (capa acima) com a intenção de ajudar pessoas nas mesmas condições e para lhes dizer também que, afinal, o negro é apenas a mistura de todas as cores.

Excerto da nota do editor
O livro oferece informações e respostas a muitas das dificuldades e dúvidas que quotidianamente se colocam aos que são forçados a viver com limitações de visão, organizado em três partes fundamentais: o processo clínico, as ajudas técnicas (o uso do computador) e as reflexões e contactos.
Destinatários desta obra são também os "normovisuais" que tendo um familiar ou amigo portador desse tipo de problema, queiram ajuda-lo, ou dedicando-se pessoalmente à sua leitura, uma vez que ninguém se pode considerar imune a um problema de visão uma qualquer patologia, acidente de viação ou de trabalho podem transformar, a todo o momento, a nossa vida e a "visão" que dela temos."
UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA
UM LIVRO DIFERENTE
Excerto do livro
Aos meus amigos.
Verdadeiros "soldados" da solidariedade. As vossas "piadas", a vossa "companhia" a vossa verdadeira amizade, foram tónicos que "bebia" sofregamente.
Quanta energia. Que enorme "corrente". Quantas "promessas". Amigos assim poucos há.
O meu reconhecimento e gratidão! Jamais vos esquecerei. Uns mais que outros, mas sempre com carinho.
António Brás

Façam o favor de não perder.
É na 2 domingo 15 às 11:15


sábado, setembro 30

26-2006: No rescaldo da festa I V

Festa de 1986 com a actuação do rancho de Toulões, orientado pelo ti Pedro "Castanho" que, com a colaboração de algumas pessoas, o conseguiu manter vivo durante cerca de dois anos.
Com esta quarta e derradeira entrada, termina o rescaldo da festa de verão que incidiu essencialmente sobre as suas particularidades pagãs, já que a parte religiosa era, e continua a ser, semelhante a tantas outras.
Talvez a merecer algum destaque e que, neste aspecto, tornava Toulões diferente das demais aldeias (pelo menos da grande maioria), era o leilão dos "banzos" dos andores e das bandeiras com que se fazia a procissão e cuja receita revertia para ajudar à realização da festa.
Com frequência havia acesos despiques entre os licitadores que, tentando a todo o custo cumprir uma promessa, pagavam o que fosse necessário para manifestar a sua fé e ser parte activa na procissão que percorre as ruas do povo.
Mesmo pagando, as bandeiras e os andores não davam para as encomendas.
"Mudam-se os tempos mudam-se as vontades".
Este costume, certamente por défice de devoção, entrou em desuso em meados da década de 80 e desde então, mesmo sem leilão, com alguma dificuldade se arranjam voluntários que queiram preencher as vagas em aberto e participar na procissão, transportando seja que imagem for.
Bom, mas vamos ao arraial.
Noutros tempos não havia conjuntos musicais.
Os arraiais eram abrilhantados pela aparelhagem e por tocadores de acordeão, os "cordionistas".
O homem da aparelhagem foi durante anos o senhor Silva de Tinalhas.
Já era considerado um homem da terra pela simpatia e pela seriedade com que lidava com todos, assim como pelo empenho que punha no seu profissionalismo.
Chegava com sua camioneta, ia cumprimentar os festeiros e com os dois altifalantes amarrados no tejadilho, que mais pareciam clarins a anunciar a boa nova, em dose dupla, ia dar a volta pelas ruas para avisar da sua chegada.
Era um primeiro exalar de cheiro a festa.
Toda a canalha, numa agitação provocada pelo nervosismo da impaciência, ia aderrabo daquela charanga ambulante. Os festeiros, também a acompanhar, lá iam para uma última ronda relembrar aos retardatários da quase obrigatoriedade de pagar para a festa, contribuindo na ajuda à sua realização.
E dos esquecidos, ou que se faziam, não rezava a "listra" dos beneméritos, da qual, era quase certo, a menos que houvesse voluntários, de entre os poucos inconstantes, três eram nomeados festeiros para o ano seguinte.
E desonra lhes cairia sobre o nome se se negassem!
Entrementes, o adro era enfeitado com arcos floridos, com serpentinas e com "fitas" que as raparigas briosa e dedicadamente faziam com tiras de papel de todas as cores coladas numa guita. Fazendo lembrar as velhinhas dobadouras do linho, iam sendo enroladas em volta de uma cesta para evitar emaranhos e seguidamente suspensas de um lado para o outro da rua, unindo as casas pelos beirados, como que a querer remendar a ralação entre as famílias, por vezes desavindas.
A festa também apelava à união.
"Estendiam-se as luzes". Gambiarras com dezenas de lâmpadas, cruzavam-se com os restantes enfeites, mas só produzindo o seu efeito depois de cair a noite.
Era como se o céu estrelado estivesse mesmo ali ao alcance da nossa mão.
Nesse tempo ainda a iluminação eléctrica, que desconfiadamente embisgava o olho à tecnologia luminotécnica, e se via negra para rasgar a escuridão, não tinha chegado a Toulões.
As ruas eram alumiadas apenas nas noites de luar.
A luz que brilhava no arraial, era produzida por um gerador que ficava até de madrugada, de castigo, a gemer atrás da igreja.
Ideias iluminadas de galfarrotes.
Uma vez o Zé Fô, que tinha a fama de um malino e a curiosidade de um engenhoso, abrigado pelo lusco-fusco que o escondia do frenesim do adro, lembrou-se de verter águas sobre o escape do motor-gerador, para ver o efeito da lufada de vapor que aquilo fazia.
Apanhado à falsa-fé por um encosto do colega do lado, um movimento mais desajeitado obrigou-o a direccionar o jorro sobre o cachimbo da vela de ignição. Para além do esticão que apanhou na "betchola", abafou o pavio, deixando o arraial às escuras e os dançarinos a inventariar as constelações.
Para quem namoriscava pela surra era a oportunidade para fazer brilhar a sua estrela.
O burburinho do costume.
O que é que foi, o que é que não foi?
O desinquieto do Zé, que era d’ orêlo, desabelhou logo dali para fora com os amigos, deixando a responsabilidade ao abandono. É que ser apanhado pela patrulha dava, no momento, sete e quinhentos de coima por ter urinado na via pública e ao chegar a casa ainda ganhava uma valente orelhada do pai para recuperar o prejuízo.
Aqui a autoridade era imposta, era mantida e, sobretudo, era respeitada.
Pouco depois foi o regresso à normalidade.
Siga a dança qu’o tocador é homa (homem) de confiança!
O tocador era quase sempre o do ano anterior. O Sr. Alziro da Orca ou um do Salgueiro do Campo, cujo nome, perdoem-me, se me varreu da memória (um homem também não se pode alembrar de tudo).
Ambos eram bons. Fosse qual deles fosse, sacava do repertório de êxitos da Eugénia Lima, do Filipe de Brito ou outros bem populares que guardavam no ouvido e que, com uma destreza estonteante, lhe saíam pelas pontas dedos, punham uma multidão a contribuir para prosperidade dos filhos dos "Sapateiros" cá da terra.
Quando o tocador descansava, entravava a aparelhagem. Para além de outras sanfonadas, dançava-se ao som dos discos da Maria Albertina ou do António Mafra, que naquela altura punha meio Portugal à espera do "carteiro da 9 para as 10".
Enquanto um povo esperava, outro desesperava.
No arraial, só música nacional. Esporadicamente se ouviam estrangeiradas.
Música inconveniente, para o status vigente, ouvia-se recatadamente lá por Lisboa por mancebos que gostavam dos Beatles e dos Rolling Stones e que, tal como o rapaz americano de canção da Joane Baez, viviam descontentes com o nosso Vietnam.
Aqui, apenas o Josélito, "El ruiseñor"(rouxinol) da voz de ouro, tinha cabimento. Importado de aqui ao lado e bem aceite por via da empatia transfronteiriça, começava a comover multidões com aquela voz de menino que era, enaltecendo a beleza natural "da Campanera":
"Porque te han pintao las ojeras, flor del lírio real?"
A dada altura, instruído por um dos festeiros lá vinha o sempre prestável Tónho "Santoantónho", com o regador de lata apagar a poeira do terreiro. Interrompendo a dança, de propósito ou não, regava de caminho a planta dos pés dos bailarinos.
Era o momento para respirar fundo e ganhar novo fôlego porque este era também o sinal de que o balho ia atingir o seu auge.
Se para o nosso povo não havia festa sem foguetes, para os Toulonenses também não havia festa sem fandango.
A pedido, o tocador lá ensaiava os primeiros acordes, que depois de encarrilar era coisa para durar "até vir a abó da missa".
Toda a gente o balhava até à exaustão e às vezes mais que uma vez durante a noite. A alameda de pares em que se entrava e saía sem interromper a cadência, por vezes extravazava para além dos limites do recinto.
A circunferência de cadeiras em que descansavam as mulheres mais velhas que vinham acompanhar as filhas e algumas quadrilheiras que rodeavam o adro, era obrigada a abrir alas e dar espaço aos foliões numa alegria contagiante.
Muitos faziam gala em mostrar as suas aptidões de fandangueiro, demonstrando que a coisa era levada a sério.
O fandango tornou-se aqui tradição e ai do tocador que não o soubesse tocar. Era esfandangado sem dó nem piedade.
Estranha-se que uma dança originária de uma região ainda distante como é o Ribatejo, tivesse sido adoptada pelas gentes de Toulões com tão grande entusiasmo.
A razão, sem certeza absoluta, deve-se, num tempo em que o trabalho por aqui não chegava para todos, às campanhas da monda e da ceifa que alguns faziam por terras de gaibéus e de campinos, onde já estava enraizada e já era considerada dos grandes elementos do folclore e da cultura popular do nosso país.
Terminados os festejos era tempo de regressar ao trabalho e retomar o ritmo habitual.
Todo o aparato do arraial fora desmontado. Apenas as fitas colocadas pelas raparigas, ainda ali permaneciam quase até à autodestruição, como que querer perpetuar a festa, evitando a sua queda no precipício do esquecimento.
As guitas, agora despidas dos enfeites, eram agora ponto de encontro das andorinhas que, com a chegada do Outono, ali se reagrupavam e ganhavam alento para continuar o ciclo migratório, levando consigo definitivamente a alegria da festa que era trazida de volta no início de cada Primavera.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
aderrabo (ir ou andar a); perseguir, andar atrás de
balho – balhava; baile - bailava
betchola; pilinha
orêlo (ser de ou ter); ser expedito, perspicaz, manhoso, desenrascado
embisgava; de embisgar – piscar olho ou franzir o sobrolho
esfandangado; de esfandangar – despedaçar, esfarrapar, destruir
à falsa-fé; à traição, ser enganado, premeditadamente
galfarrote; rapaz buliçoso
malino; velhaco, mal intencionado, malicioso
quadrilheiras; alcoviteiras
sanfonadas; de sanfona – harmónio, concertina

sexta-feira, setembro 29

25-2006: No rescaldo da festa I I I

Fogo preso no Largo do Poço da Malhadinha (1980).
(comparar com a foto do post anterior que contém o endereço da Arca)
O vento da desertificação, que há anos assola esta região levando para outras paragens os filhos por aqui nascidos e por aqui criados, sabe-se lá com que dificuldades, foi para muitos o vento da mudança. Esse mesmo vento devolveu agora às origens alguns menos resistentes ao sopro de saudade, para aqui passarem o resto dos seus dias, usufruindo de algum bem-estar que conseguiram, subindo a pulso a corda da vida.
São estes "novos" residentes que agora vão dando algum safanão no marasmo, evitando o adormecimento completo da rotina.
Hoje, depois de alguma observação aqui e ali pelo ambiente festivo, verificamos que na organização das festas de aldeia há menos improviso.
As coisas já são tratadas com regra, havendo manifesta preocupação com os requisitos mínimos de salubridade e segurança, com os aspectos legais do evento e, quase se pode dizer, existe um protocolo conduzido por profissionais do espectáculo que, apesar de haver cada vez menos gente nas aldeias, mantêm o negócio em crescendo. As animações já são feitas com recurso aos mesmos equipamentos tecnologicamente sofisticados que nas cidades.
Ele é o conjunto psicadélico para o baile com luzes strob e sons do outro mundo.
Ele é o "cantor" que parece que canta mas não canta porque o playback milagrosamente lhe alivia a forte rouquidão que escondia antes de se iniciar o espectáculo.
Ele é o homem dos sete instrumentos que antigamente, qual bobo, se desunhava para esfarrunchar uma moda qualquer em que hoje, sóbrio, consegue, com um só instrumento, produzir música equivalente a uma orquestra sinfónica.
Ele é tanta coisa.
Enfim!, tudo mudou.
Mesmo o fogo mudou. O fogo preso vem agora com ignição electrónica e comandado à distância, fazendo jus aos magníficos espectáculos da Expo 98, que, em comparação, quase nos levam a crer que tudo não passava de uma fraude.
Diz o ditado que "não há fumo sem fogo". A verdade é que sem fogo também não há festa. Pelo menos não havia, porque este ano os mais velhos ficaram completamente desacorçoados.
Habituados a apreciar os espectáculos pirotécnicos, estranharam a falta de foguetório por não se terem inteirado das leis que vieram restringir o seu lançamento como medida de prevenção para os incêndios florestais.
As leis fazem-se e são para cumprir, mas quantas vezes nos apetece infringi-las de tão patéticas que parecem.
Qualquer foco de incêndio com origem no lançamento de foguetes não é tão perigoso como o querem fazer crer. É verdade que o risco existe, mas com tanta gente por perto, e de sobreaviso, rapidamente se retesam as rédeas à ala impedindo-a de desalvorar a galope.
Bem perigosos, esses sim, eram o balões de mecha que, lançados ao Deus dará, pairando efemeramente no ar, por vezes caiam, ainda incandescentes, em locais aonde não se podia acudir atempadamente.
Agora foguetes?
E se havia descargas!
Elas faziam o regalo dos garotos que palmilhavam aqueles campos, todos relampantes, a apanhar as canas como numa rebatina e por fim, pouco preocupados com o maltrato da jaja nova estreada nesse dia, regressavam pelos caminhos ao rebusco das últimas amoras silvestres que aromatizavam o verão.
Era pelo lançar do fogo, cujo troar ecoava decidido pelos céus das redondezas que, como que um convite, se anunciava a festa às povoações vizinhas.Pelo tempo que durava a descarga media-se a prosperidade das gentes das aldeias que tinham orgulho na sua festa.
Por vezes até havia excessos.
Era festeiro o ti F'cisco N. para quem a fartura era sempre proporcional à sua envergadura, tanto fisica como moral. Aquele homazarrão estava sempre disponível para ajudar fosse quem fosse e era de uma rectidão linear. Com ele tudo tinha de ser como é dado.
Nesse ano encomendou-se uma fortuna em foguetes que excedeu largamente o padrão habitual.
Para o ti F’cisco, grande devoto de Santo António, a despedida do santo no final da procissão tinha de ser digna e ficar na memória de todos.
Logo ao romper da manhã, como de costume, era deitada a alvorada que acordava este mundo e o outro com as estridências daquela salva contínua.
Perdendo a noção a tamanha quantidade de foguetes, ao ouvir um tão prolongado estralejar, pensando trata-se de um descontrolo dos fogueteiros, foi-se a eles como gato ao bofe pedir contas pelo esbanjamento.
Sai de casa à pressa atrapalhando a mulher que, àquela hora, já compunha a colcha de seda na janela fazendo contrastar o vermelho sanguinho com a parede branca acabada de calear, embelezando e enobrecendo aquele lar a fim de receber condignamente a procissão que lhe passaria à porta.
Danado com os homens do fogo, por entre descomposturas e impropérios, ele que até não era de faltas de respeito, no meio do descontrolo sai-se ele com esta blasfémia que deixou toda a gente embasbacada:
- Agora gastandas (gastais) os foguetes todos duma vez e logo, ao recolher da p'cissão, dêtéis (deitais) merda ó santo!?
Mas foi apenas fogo de artificio!
Neste quadro de mudança, a única coisa que se vai mantendo inalterável é a carolice e o voluntarismo dos festeiros que se esforçam em não deixar morrer as tradições da sua terra, de forma a que a festa se vá fazendo ano a ano.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
ala; chama
desacorçoados; desiludidos, tristes
esfarrunchar; tocar um instrumento ou fazer qualquer coisa para a qual não se tem aptidão
homazarrão; homem corpolento, homem com muita força
jaja; roupa de criança
rebatina; apanhar caisas do chão ao desafio
relampantes; alegres
retesam; de retesar - tornar tenso, esticar

quarta-feira, setembro 13

24-2006: No rescaldo da festa I I

Largo do Adro

Largo do Poço da Malhadinha
Ainda no rescaldo da festa, e desanuviando a neblina que nos turva a memória, ficam a descoberto outras histórias que marcaram muitos de nós.
Desde há pouco mais de meia dúzia de anos que as festas de Toulões se realizam na Terra da Cadela.
Aproveitando um ringue construído uns anos antes para suprir a carência de infra-estruturas desportivas para a juventude, (a destempo, já que quando havia rapaziada para jogar à bola, em qualquer parcela de lameira por amanhar se improvisava um campo de futebol e agora, que a aldeia está despovoada, fez-se um ringue para estar às moscas durante o ano, servindo apenas alguns dias durante o verão aos netos cá da terra que ainda vêm vindo visitar os avós), a autarquia, bem ou mal, associou ao ringue umas instalações para a realização das festas.
Essas instalações foram apetrechadas com todas as comodidades - palco com camarins para os artistas, casa para "comes e bebes" com resguardo para grelhador, balcão com telheiro e nem a "cantareira" para as prendas da quermesse ficou esquecida. Enfim, tentou-se dar mais utilidade àquele espaço e dignificar o trabalho de quem graciosamente se disponibiliza para fazer com que a tradição não desfaleça.
É certo que – e é caso para dizê-lo – "só serve uma vez por festa!". Mas esta iniciativa permitiu retirar a parte pagã das festividades do adro da igreja já que por ser um espaço bastante acanhado, em que, naqueles três dias, em termos de circulação de veículos, a povoação ficava partida ao meio, separando a Malhadinha do Cimo do Povo.
Como a mudança traz sempre resistência, a quebra deste hábito muito antigo chegara a gerar algumas guerras fratricidas.
Por mais de uma vez, festeiros com maior espírito de iniciativa, tentaram levar a festa para espaços mais amplos como eram o Largo do Poço da Malhadinha (chegou mesmo a esquiçar-se um plano que previa a construção do palco sobre o poço público que dá o nome ao largo, em vez de utilizar, como habitualmente, os reboques dos tractores) ou o Terreiro das Baraças, que apenas perdia por ser ligeiramente mais inclinado, mas, opiniões divididas, falta de consenso, as vozes discordantes levaram sempre a melhor.
Era a tal história: "Todos concordavam em mudar a festa de sítio desde que fosse para a porta do vizinho" por isso, lá continuou anos sucessivos encafuada na exiguidade do adro.
A solução encontrada de mudar a festa para fora do casario, foi de se lhe tirar o chapéu, mas, mesmo assim, os mais antigos e mais apegados a valores religiosos, não viram com bons olhos a nova localização.
É que o nome "Terra da Cadela", que por si só já era um valor, não podia ser evocado em vão em memória dos entes queridos dos Toulonenses que lá repousam.
Para todos os homens que, ao passar à porta do cemitério, repetiam o gesto que aprenderam desde criança, de descobrir a cabeça e se benzer em sinal de respeito pelos que já se foram, tirar o chapéu à decisão tomada era apenas para considerar a festa, naquele local, um fúnebre acontecimento.
O mesmo para as mulheres que, por uma razão comum carregavam o luto toda uma vida, se persignavam ao passar, baixando a cabeça e evitando olhar através das grades impedidas por uma consciência providencial, seria uma triste alegria.
Mas como diz o povo:
"Meu amigo, a cevada não é trigo e com o devido respeito, fez-se?... está feito e o que se fez tem jeito" portanto...
A vida continua e a tradição também!