domingo, janeiro 21

3-2007: A tornada



No Vale da Gama, um coito gerido por um dos irmãos Manzarra, o Frederico (o velho Fudrico, como a ele se referem todos quantos o conheceram), morou e trabalhou, durante anos a fio, quase meio povo dos Toulões. Formando lá uma pequena comunidade, esta gente, apesar das dificuldades que lhes estremunhavam os sentidos, desde que não caíssem no torpor, tinham a sobrevivência garantida.
À semelhança de outros crios ali nascidos, veio ao mundo o Tónho Louro. As vizinhas que atenderam a mãe no parto, para dar vida própria ao rebento, confiaram no espírito de entreajuda, na experiência ganha de outros sucessos e na providência do destino, traçado pela natureza para este acto que enobrece a mulher.
Também ali lhe brotaram os primeiros dentes, agarrado a uma côdea de casqueiro e deu os primeiros passos "aqui caio, ali m’alevanto". Uns anos mais tarde, empenhado, foi à escola, a marcar passo com outros garotos do coito, na légua que serpenteava o montado entre Toulões e a casa que o viu nascer. A professora Vivina só lhes encontrava a falta naqueles dias de invernia, em que as grandes enchentes, com aquelas águas revoltas atormentadamente assustadoras, tornavam a Toula intransponível ou, então, quando, no tempo dos ninhos, o arrulhar das rolas chamava por eles como uma harmoniosa melodia de encantar.
Aos onze anos entrou de pastor. Com afinco foi dando conta do recado, tanto na guarda do rebanho como na defesa das pastagens, ficando célebre um episódio em que, sozinho, encorreu à pedrada dois pastorzecos das redondezas, que teimosamente queriam meter o gado em terrenos do Vale da Gama que ele defendia como sendo o seu território, bem demarcado, com limites à laia de um verdadeiro predador.
Esta passagem valeu-lhe o reconhecimento do patrão que ao fim de pouco tempo o promoveu a vaqueiro do gado da boa vida, dedicando-lhe mesmo uma sábia tirada: "a silva que forte há-de ficar, logo de pequena quer picar."
Ainda imberbe, o trabalho foi-lhe dando lições de maturidade. Como todos os jovens, ao atingir a idade em que a razão ainda vacila e a afirmação é dominada por um grosso, mas inseguro, "eu já sei", ia formando as suas próprias ideias sobre a vida, assumindo sempre estoicamente a responsabilidade pelos seus actos.
Em suma: ia-se tornando homem.
A sua dedicação valeu-lhe uma recompensa, mesmo antes de fazer dezassete anos. Teve a possibilidade de, pela primeira vez, cumprir o sonho que aos poucos vinha realizando em pequenas tarefas: lidar uma junta de bois como um ganhão de verdade.

Eram vésperas de Natal.
Recebeu ordem do ti João Carralo, moiral e homem de confiança da casa Manzarra, para carregar uma tora de lenha grossa e a levar à Idanha a casa dos patrões.
- Ó Tonho, levas essa lenha e na tornada trazes as comedias. E aprofila-te como é dado mê homa, se queres guardar a consideração q’o patrão tem pro ti!
Era verdadeiramente o primeiro trabalho em lhe era dada total autonomia. Apesar de alguma apreensão não denotou sinais de insegurança.
Os bois?, falava com eles e o caminho?, conhecia-o de cor pelas vezes que andou com os ganhões-de-ano na acarreja da cantaria, aquando da construção dos poços e das regadeiras da horta do Carrascal em que a pedra era toda arrancada, aparelhada e acarinhada, por uma afamada família de canteiros, os Mouras, no Barrocal, logo ali nos arrabaldes da vila.
Decorria um Inverno engadanhado. Para não se enregelarem como as talhadas de granito que formavam a carrada, acendiam-lhe o lume em cima e com a lenha que iam apanhando à beira do caminho, mantinham acesa a calorosa chama que os reconfortava.

Lá fez a viagem sem percalços.
Chegou, foi desaguar os bois e dar-lhes algum descanso e, descarregados os madeiros, sentou-se na coiceira do carro a merendar.
Após um breve descanso acondicionou as sacas de trigo e feijão pequeno, assim como dois potes de zinco, a transbordar de azeite, que formavam as comedias.
Na hora de regressar, foi de chapéu na mão, num hábito tradicional de respeito, despedir-se e desejar Boas Festas aos patrões e também receber as costumeiras broas do Natal.
Apesar de alguns laivos de severidade e alguma injustiça para com os seus trabalhadores, nesta altura festiva o velho Fudrico dava largas à sua generosidade: cem mil réis a cada uma das famílias, era um festim.
Ao receber a bolsa do dinheiro das mãos do patrão, este não se ficou sem lhe dar um imperativo conselho:
- Vais p’la estrada! A carga de água que aí vem é capaz de te levar c’o diabo! Ainda te atolas no caminho e não tens quem te acuda".
Este aviso, de quem conhecia as voltas do tempo, pereceu não o convencer. A serenidade com que fizera a viagem pela manhã e a sua convicção, auguravam-lhe confiança para a tornada.
Jungiu os bois à canga e engatou-os ao carro. Verificou o nó das cornais e, com a palma da mão, deu duas pancadas no chavelhão que engancha o tamoeiro para se certificar de que tudo estava conforme.
Fez-se ao longo caminho que o esperava e se estendia ao longo de umas seis horas bem medidas, cadenciadas a passo de boi. Desceu a íngreme barreira da Idanha, com os animais em esforço a ampararem o peso do carro, atulhado a passar o meio fugueiro. Com os canêlos já polidos a resvalarem na inclinação do macadame da estrada recém construída, austeramente aspergida de asfalto, os animais tinham alguma dificuldade em progredir. Por falta de estabilidade nas patas, procuravam apoio encostando a lombeira ao tiro do carro mantendo assim o equilíbrio.
O Tónho, vara ao ombro como os velhos ganhões, seguia devagar à frente da junta, cortando-lhe o ímpeto na procura de lhe travar o ritmo do passo, evitando que desalvorasse por ali abaixo.
Até chegar ao fundo da barreira e atravessar o rio, era uma angústia. O alívio só chegou pouco antes de entrar na pequena ponte com guarda corpos em granito, que galga o Ponsul, parecendo estar estrategicamente colocada para encanar os desgovernados para a entrada da capelinha da Senhora da Graça, que com a porta escancarada, parece estar de braços abertos para os receber.
Ultrapassada aquela quase abismal dificuldade o Tónho deslumbrava-se com a estrada nova. Nas zonas planas, apesar da marca ondulante deixada pelos rodados do carro, vergado pelo peso da carrada, o rolar suave e o passo certinho dos bois, dava a ideia aparente de que a junta puxava em poupança de esforço. Mal se sentia o chiar do carro, num som abafado pelo couro do toucinho que lubrificava a as zonas de atrito entre o ferro seco do eixo e o casquilho metálico da chumaceira, coroada pelo azinho das rodas de onde ramificavam os raios.
O velho Fudrico estava certo. Era muito melhor ir pela estrada.
Mas à passagem pelo leque da Senhora do Almurtão, o seu subconsciente, num incentivo à irreverência, parecia dizer que havia um senão: ir pela estrada até ao Vale da Gama era quase uma volta dobrada e, além disso, os canêlos dos bois agradecem mais a macieza da terra batida dos caminhos do que a rispidez do cascalho apenas agregado pelo alcatrão.
Tomando o peso às vantagens e desvantagens, não hesitou em contrariar a vontade do velho patrão e, rumando pelo caminho que conhecia como a palma das mãos, seguiu confiante.
O céu ficou brusco de repente, formando enormes castelos de nuvens que não tardaram a ruir. Atormentou-se um pouco quando a chuva começou a endurecer antes de chegar ao Aravil, temendo que a enchente lhe barrasse o caminho.
Mas chegou a tempo. O Torrado e o Morgado, já com a água quase pela barriga, ultrapassaram facilmente o obstáculo e lá foram para diante.
À passagem pela Herdade da Zebreira, já mesmo a chegar à ribeira da Toula, o caminho ligeiramente encovado estava completamente inundado. Não arriscou passar por aquela água barrenta que frequentemente esconde ratoeiras e deu de roda ao charco, atalhando com a junta por um alqueive.
Não andou dez metros. O carro enterrou-se até às chedas. Ele bem puxou a auxiliar os bois e bem lhes impulsionou a força bruta, aferroando-os na carne viva das massas, mas o esforço foi em vão. O tabuleiro do carro assentou no atoleiro e ali ficou estatelado, desmaiado, com a carga inteirinha das comedias a apararem toda a água que Deus mandava. A sua valentia esvanecia-se naquele lamaçal.
O Tónho não ignorava a sua consciência. Eram estas as ocasiões que marcavam a diferença entre os homens experientes e os rapazes. Arrependia-se por não ter dado ouvidos ao patrão e pensava nas possíveis represálias. A desobediência podia valer 15 dias de castigo ou até o despedimento, mas com alguma sorte ele nem se chegaria a inteirar.
A noite invadira a redondeza e a chuva continuava diluviana.
Não havia mais nada a fazer. Desengatou a canga, enleou o tamoeiro ao chavelhão e tocou os bois que, encangados, se meteram à água, vencendo aquela torrente de energia desenfreada e desapareceram na escuridão, seguindo, guiados pelo instinto que lhes ensinava o caminho da manjedoura.
O Tónho só soube que atravessaram a ribeira por lhes ouvir o chocalhar das campainhas já do outro lado.
Impossibilitado de prosseguir, só lhe restava uma solução: ir até ao único ponto de ligação entre as duas margens que havia em toda a redondeza que era a horta do Domingos da Preta, mas até lá ainda era uma valente trota.
A custo, lá chegou. Atravessou cautelosamente o pontão e deteve-se por um instante para escutar o infernal cantar das águas em sobressalto. Um arrepio assovinou-lhe a espinha ao lembrar-se do susto que apanhou, daquela vez que num descuido, o Carreirinhas ia sendo levado na enxurrada. A força e coragem foram a sorte dele, senão, talvez aparecesse no dia seguinte, hirto e já inchado, preso numa galhada de salgueiro ou nos braços arpoados de uma silveira.
Deixara de chover. Tentando orientar-se na escuridão, rodeou o vulto do cabeço dos Malhadis, retomou o caminho com passo mais apressado no encalço dos bois, mas o atraso era enorme.
Quando chegou ao arraial do Vale da Gama, altas horas, já o pai, que andava de alevanto, lhe tinha acautelado a junta e se preparava ir à sua procura.
Nem ceou. Comeu duas filhozes que a mãe acabara de fazer e foi-se deitar ao palheiro onde dormiam os rapazes.
No dia seguinte levantou-se cedo, como todos os dias, esquecendo-se por completo que era dia de Natal.
Enquanto todos se preparavam para ir aos Toulões beijar o menino Jesus, o Tónho Louro foi ter com o moiral para lhe dar explicações do sucedido e pedir uma segunda junta e um cambão, para ir desatolar o carro das comedias.
O ti João Carralo, por na sua juventude ter passado pelo mesmo, foi compreensivo, mas não deixando passar a ocasião, perguntou-lhe:
- Atão o patrão no te disse pra vires pla estrada?
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
acarreja; transporte contínuo em comboio
andar de alevanto: levantar-se de noite por razões que preocupam
aprofila-te; de aprofilar-se – arranjar-se, preparar-se, ter maneiras
aqui caio, ali m’alevanto; expressão que significa também passar por dificuldades
assovinar; espetar, picar
barreira; inclinação de terreno; caminho inclinado
broas; gratificação que complementava o salário em ocasiões especiais.
brusco; nublado
casqueiro; grande pão
chedas; partes laterais do carro de bois onde se fixa o eixo
crios; crias humanas, bebés
desaguar; dar de comer aos animais para os recompensar de uma tarefa
encorrer; escorraçar, afugentar
engadanhado; com dificuldade de movimentos nos dedos provocada pelo frio
coiceira; parte do carro que se situa atrás do animal
gorrão; pedra de seixo
tora; grande quantidade retirada de um todo
tornada; viagem de regresso

terça-feira, janeiro 16

2-2007: Em banho-maria

O post de hoje é uma alternativa ao que, por falta de tempo e também alguma preguiça, confesso, me impediu de o dar por terminado.
Como dizia a ti Grencha, uma velhinha que foi forneira até ao fim dos seus dias, quando alguém reclamava pelo atraso na saída da fornada:"O qu'é que q'rendas? Sou sozinha. No posso andar à lenha na serra e estar a meter o pão ao forno".
Pela mesma senda andava um amola tesouras que por aqui vinha. Assobiava naquela "flauta de pã" em plástico e apregoava "pregar" gatos em pratos de porcelana partidos, reparar guarda-chuvas e também capar leitões. Quando o trabalho apertava, não se podendo dividir nas diversas tarefas, clamava:" Calma lá! Enquanto se capa não se assobia".
Assim sendo, para não defraudar os amigos que aqui vem na espectativa de encontrar um estória nova, deixo-lhes esta foto como prova de que o cozinhado está a andar.
Um abraço e até breve!

domingo, janeiro 7

1-2007: O Ano entrou frio

A geada por aqui tem várias desigações:
ruça, códão, carambina ...

Em primeiro lugar desejo um Bom Ano a todos!

De regresso a este cantinho do convívio virtual, não resisto a mostrar duas imagens de um tempo triste que marcou o período entre o Natal e o Ano Novo, salvo pelo calor da família.
Os primeiros dias do ano foram amenos, mas as noites geladas. Pela manhã os campos apresentavam-se assim, cobertos com uma capa branca. Tamanha geada já há anos assim não via por aqui.
Como diz o ditado: calças brancas em janeiro é sinal de pouco dinheiro.
Vale isto para dizer que a malta, sem agasalho adequado, armados em heróis, de peito aberto a enfrentar este frio que, ao mínimo descuido, leva qualquer um a ficar de molho.
Foi o meu caso. Apanhei uma mormeira tão valente que me deixou atafonado por uns dias.
E quando uma pessoa vem à rua limpar do catarral, ainda gozam.
- Tchegas aqui, apanhas logo tudo o que vês e odepoi queixas-te. Atão tu no sabes qu' im apanhando c'uma ruça destas, um homa já se vai abaxo?
Mas quem por aqui vive e sofre na pele a dureza desta intempérie, trazida pelos ventos que perpassam a Serra da Estrela e a da Gata (espanhola), sobretudo durante a apanha da azeitona, a este frio reconhece-se-lhe enorme utilidade em muita coisa: retempera as carnes do fumeiro, amacia e estabiliza o vinho na adega e, quando a geada entra na camada superficial da terra, é um excelente pesticida para dizimar a bicharada que ataca as culturas.
Também há quem diga que o frio intenso proporciona o aconchego dos corações.

quinta-feira, dezembro 14

33-2006: BOAS FESTAS



O dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, é, por tradição na zona raiana, o dia em que os jovens, que esse ano vão às sortes, arrancam o MADEIRO do NATAL.
Em Toulões a azinheira mais grossa que houver no montado, graciosamente cedida pelo proprietário, é arrancada pelo pé .
O madeiro é depois enfeitado à entrada da aldeia, transportado pelas ruas para ser mostrado à população, e descarregado no adro da igreja, onde será "apichado" na noite de consoada para aquecer a alma a quem dele se acercar e onde ficará a arder até ao Ano Novo.
Com a proibição do arranque de azinheiras por motivos ambientais (apenas é permitido o seu abate indiscriminado para abrir clareiras no montado a fim de fomentar a construção de aldeamentos de luxo como forma de fixar as populações ao meio rural) este ano o MADEIRO do NATAL foi pobre.
Em compensação, os jovens de Toulões construíram uma enorme árvore de Natal (conforme mostra o postal) amiga do ambiente e da qual foi feita uma réplica em menor escala que pode ser visitada no Terreiro do Paço em Lisboa.
Estarei de volta depois do Ano Novo
Até lá, um abraço a todos e votos de BOAS FESTAS.

quinta-feira, dezembro 7

32-2006:Tchupistas


Se há notícias sérias, notícias pertinentes, daquelas com fundamento razoável e com as quais rejubilamos, como é o caso da que foi objecto do post anterior sobre o Carriçal, outras há para as quais não se encontra uma explicação lógica que nos permita pensar se valeu a pena serem divulgadas, mesmo que uma chusma de idóneos jornalistas se tenha perfilado para recolher, em primeira mão, a última exclusividade, que fica fora de moda logo que cai o pano do espectáculo mediático.
Em Novembro de 1996, (já lá vão dez anos e parece que foi ontem) uma insólita notícia pôs esta anónima aldeia de gente, tão humilde quão desprotegida, na capa de quase todos os jornais e até teve honras de abertura num dos telejornais da noite.
Nascida sabe-se lá por que artes do diacho, chegou escorreita e sem pecado aos jornais regionais Gazeta do Interior e Povo da Beira, passou pelo JN e, por obra e graça da maleita do "voyeurisme", chegou às televisões já de tal forma empolada que os ecos da sua invulgar existência se repercutiram até aos espanhóis El Mundo e Cambio16, chegando também, pasme-se, até aqui.
Então foi mais ou menos assim:
O Monte Fidalgo é um antigo coito, quase roubado à herdade da Zebreira, encantinhado entre a ribeira da Toulica junto à ermida de São Domingos, os Malhadis e o Vale de Cardas, onde a flor de tabaco Virgínia ainda vai dando algum ar garrido à faina agrícola que, segundo dizem, para rodar a terra respeitando a alternância de culturas (ou talvez pelas agressivas campanhas anti-tabágicas), está a dar as últimas fumaças, preparando-se já a sua substituição pela doce amargura da cana sacarina, com vista à produção de bio-combustível à base de álcool.
O povo, que por aqui vai sobrevivendo das magras oportunidades que esporadicamente vão surgindo, queixando-se de que isto vai de mal a pior, já diz: "É de vício em vício! Larga-se o tabaco e encarrilha-se na copaneira!".
Este terreno de cultura diversificada em que abunda o azinho e o sobro que, apesar da folha pintalgada que denuncia a doença do sobreiro assim como sintomas da seca que nos tem assolado, continua a oferecer de nove em nove anos, quase de mão beijada, umas valentes arrobas de cortiça que mal vão dando para as quebras.
Um enorme olival, em tempos bem tratado, produzia um azeite de primeiríssima qualidade. Hoje, à semelhança do que acontece nos grandes olivais da região, a azeitona fica na oliveira para matar o bicho à passarada.
Visto que a jeira nem chega prá peneira, deixou de ser rentável a sua colheita.
Os olivais fazem agora o deleite dos caçadores de tordos que aqui chegam de todo o país durante a época venatória e vão dando alguma animação a esta zona. Alguns, vindo mais pelo convívio, nem chegam a enxergar os tordos, mas que vão de cá atordoados com as nossas delícias gastronómicas, lá isso vão.
E é aqui que começa a história!
Naquela altura, as pastagens por entre este arvoredo enchiam a barriga a um enorme rebanho que, até então, dava origem a um divinal queijo amarelo da Beira Baixa.
Esse bem cuidado rebanho, sem explicação plausível, começou subitamente a ficar desfalcado.
Um dia faltavam duas ovelhas, passados oito dias faltavam outras duas, na semana seguinte faltavam mais três e assim por diante durante algum tempo. Vinte e tal ovelhas levaram sumiço, tendo sido encontradas mortas apenas nove, todas elas com um profundo buraco na garganta, sem vestígios de mais nada.
Na procura de uma razão que explicasse este facto, chegou-se a uma hipotética conclusão alvitrada pelo ti Zé Pequeno e corroborada por algumas autoridades locais na área agropecuária: "um lobo velho, só com um dente (o outro partira-o por qualquer motivo), atacava os pachorrentos ovinos".
Dado o alerta montou-se uma vigília, mas sem resultados.
Para a televisão, este misterioso fenómeno era, taxativamente, obra de um chupacabras, relacionando esta notícia com as recentemente chegadas de alguns países sul-americanos, dando conta de acontecimentos semelhantes, em que relatos de testemunhas diziam tratar-se de um morcego gigante que atacava as rezes para lhes sugar o sangue, cuja descrição era feita por Jorge Martin da revista UFO, em Outubro de 1996, escrevendo desta maneira:
("Criatura que tem a forma de animal, um par de asas, é muito selvagem, mede cerca de 1,15 m e é horrível", segundo um observador na periferia de Guayaquil, Equador, a 270 Km de Quito. O facto ocorreu em junho de 1996. Esse "Chupacabras" equatoriano tinha semelhanças com o que também apareceu em Porto Rico e México).
Estava oficializado: o chupacabras fizera sangue em Toulões.
A notícia, tal como foi dada a conhecer, passou aos olhos da generalidade portugueses com áureas de fenómeno sobrenatural, e o mistério que encerrava causou alguma perplexidade junto da população. Não era todos os dias que em Portugal se testemunhavam acontecimentos desta natureza.
As imagens dos animais e as entrevistas feitas no local, ao ti Zé Pequeno, o zeloso pastor e ao ti Domingos Gago, o feitor, deram-lhe credibilidade pela forma convicta com que descreveram o sucedido com as ovelhas.
Também numa primeira reacção, os toulonenses, principalmente as pessoas mais velhas que, tal como a generalidade do nosso povo é propenso a crenças e superstições, mal a notícia, pulando as cancelas do bardo, se difundiu no éter, fizeram logo o seu vaticínio, relembrando antigas histórias de bruxas que se contavam nos serões de Inverno sentados ao lume. Via-se, pelos indícios, que a evidência era óbvia: "aquilo é obra da diabólica que por onde passa, dá conta de tudo".
Para os mais sépticos, habituados a lidar diariamente com o gado e com os protagonistas deste enredo, a notícia possuía contornos de veracidade duvidosa e muitos lhe torciam o nariz, de tal forma que durante algumas semanas o fenómeno do chupacabras se tornou anedótico e sem importância, tendo apenas dado origem a mais um episódio, no mínimo, caricato.
A palavra chupacabras, que, entre galhofadas, andava alto e bom som nas bocas do povo, veio desenterrar o fantasma do Tchupa-a-tchiba. A velha alcunha que o ti Martinho ganhara quando era garoto pelo hábito de ordenhar a cabrinha bragada directamente para dentro da boca, mas que os anos deitaram no esquecimento e da qual já ninguém se lembrava.
Nesse tempo o Tchupa-a-tchiba rivalizava no nome com a do Mama-na-burra deixando-os ambos a rabiar que nem uma bicha-tanaza. E quanto mais rabiavam mais lho chamavam.
As nomeadas, oportunistas, apareciam sem serem esperadas, sempre que a ocasião era propícia e geralmente assentavam que nem uma luva, dado o conhecimento que o "padrinho" tinha do "afilhado". (ver aqui uma teoria sobre as alcunhas).
O ti Martinho, já à unha com o peso da idade, agarrado ao cajado de quando ainda era pastor e que agora lhe amparava as cruzes rangentes por via do caruncho, não estava pelos ajustes. Para ele, que ainda não se tinha inteirado das balelas, esta palavra envenenava-lhe o sentido. Confundindo Tchupa-cabra com Tchupa-a-chiba, sentindo-se alvo de chacota, ficava fora de si disparando pragas em todas as direcções .
- Catanos ma tchapem s’eu no esborraçar os miolos a um! - e alçava o cajado com a intenção de arrear no que estivesse mais perto.
Esta história, um mero assunto familiar a ser resolvido entre paredes, que tanta celeuma levantou, permaneceu durante alguns anos num segredo sacramental, até que um dia, zangando-se os compadres, e quando já todos a julgavam definitivamente sepultada, eis que ressuscitou e, trazendo à luz do dia toda a verdade, revelou toda a sabedoria contida no velho adágio.
Nunca constou que a televisão alguma vez tivesse feito mais qualquer referência a este assunto.
É que tirar esta região do anonimato, promovendo aquilo que tem de bom e que vale a pena ser dado a conhecer, não dá audiências, mas propagandear especulações e "aldravadas", valendo-se da boa fé e da ingenuidade desta gente tão vulnerável, transformando assuntos de família em "fait divers" é o que está a dar.
Era de bom tom que, intercalando com big brothers, futebóis e brasileiradas, as televisões que vão sendo, a par da mulher do pão e do homem do peixe que aqui vêm vender, os únicos elementos exteriores que por aqui, quebram a rotina, passassem também a transmitir programas apelativos para auxiliar na batalha contra o analfabetismo e a iliteracia, em prol da nossa cultura e da nossa identidade.

quinta-feira, novembro 23

31-2006:O TGV da Beira Baixa


Toulões é uma pequena aldeia que, tal como as suas congéneres da raia perdida, ficou irremediavelmente esquecida nos confins da interioridade, no limiar que une (ou que separa) as duas nações que, dormindo juntas no leito ibérico, quantas vezes acordam de costas voltadas.
"No limiar do iberismo pensam alguns".
Efectivamente, há quem já nos considere espanhóis, o que, em parte, é uma meia verdade.
Durante muitos anos, dizia-se a mangar, era bem mais fácil chegar a Madrid do que a Lisboa. Até à entrada de Portugal na CEE e antes da construção das IPs 2 e 6, (agora A23, por enquanto SCUT sem custos para o utilizador) demorava-se quase metade do tempo a fazer o percurso até Madrid (370 Km) do que até Lisboa (310 Km).
O bom entendimento com "los pueblos" fronteiriços dura há séculos. Apesar das históricas escaramuças entre os dois países que remontam ao início da portugalidade, este relacionamento manteve-se e cimentou-se ainda mais durante a guerra civil espanhola, quando muitos de "nuestros hermanos", fugindo a uma morte que ceifava o povo a eito, procuraram acolhimento do lado português.
O contrabando de géneros de um lado para o outro da fronteira, também permitiu um maior estreitamento entre as duas margens do Erges, num tempo em que o escudo batia facilmente a peseta no braço de ferro do câmbio, devido à fraca economia de além ribeira. A peseta, a rondar os 4 ou 5 tostões, proporcionava grandes vantagens na aquisição de produtos espanhóis, mas com a contrariedade de ficarem sempre sujeitos a ser apreendidos pela Guarda Fiscal.
Num ápice, a economia espanhola fortaleceu a peseta. Então, invertendo a tendência cambial, deixou de ser compensador ir a Espanha fazer compras, passando o comércio das nossas cidades fronteiriças a atrair os nossos vizinhos, apesar de continuarem a ser acerrimamente defensores daquilo que é deles.
Agora, com a livre circulação no espaço europeu, com a entrada em vigor da moeda única (nessa altura já a peseta valia 15 tostões) e com a crescente pujança da economia espanhola, vai-se naturalmente a Espanha abastecer de combustível, encomendar materiais de construção, mudar as lentes aos óculos e tanta coisa, com grande vantagem para a magra bolsa dos raianos.
Às vezes, deveras que bem nos apetecia ser espanhóis.
E ainda mais!
Com a implementação do TGV e a inicialmente prevista ligação por Cáceres, a entrar em Portugal aqui por perto, a distância até Madrid encurtar-se-ia significativamente.
Mas..., está decidido, está decidido. O TGV vai mesmo passar por Badajoz.
Segundo se diz por aí: "esta opção é a melhor para todos os lisboetas, enquanto que a entrada por Cáceres seria boa apenas para os portugueses".
Enfim, como as aleatórias decisões políticas dos governantes são mais dogmáticas que os postulados do Zé-Povinho, somos constantemente forçados a carregar com o nosso inconformismo.
Às vezes, em conversas sérias, brincando com o assunto, tivemos a imaginária esperança de que a passagem do TGV aqui por perto, seria uma mais valia para toda esta região.
Com algum privilégio, Toulões até teria um apeadeiro que serviria também o aeródromo de Termas de Monfortinho, a escassos quilómetros, que, desde a abertura da reserva de caça turística do Espírito Santo, aumentou de tal forma o tráfego aéreo que já se pensou em acrescentar a pista que iria, na sua reinauguração, receber o Airbus A380 no seu primeiro voo comercial (Ricardo Salgado como interessado e Sousa Cintra como utilizador já deram o seu aval).
Com esta obra a avançar em detrimento da da Ota, poupar-se-iam uns milhões que serviriam para melhorar a estrada que liga Toulões-Torre-Monfortinho e que há meia dúzia de anos tirou os já poucos habitantes do Carriçal de um soturno isolamento.
Esta estrada, com ligação a Espanha, ramificaria pelos concelhos vizinhos, sendo uma linha nevrálgica na estratégia para desenvolver toda a zona raiana.
Criavam-se incentivos não fictícios para uma nova agricultura biológica, já que é a actividade para a qual estamos naturalmente vocacionados.
Renovavam-se e ampliavam-se os canais de regadio da campina; retomava-se a produção de azeite mediante o renovo dos olivais, assim como o restauro dos lagares ou a construção de novos; adquiria-se maquinaria para encher os campos com grandes cearas (esquecendo os trangénicos) limpando o mato atreito a incêndios; curava-se e renovava-se o montado de sobro e azinho, tal como a criação de novos pólos veterinários para ajuda à exploração pecuária, nomeadamente o porco preto que tanto gosta de se alimentar, vagueando de azinheiro em azinheiro enchendo o corpinho de bolota e outros mais que fariam renascer aqui uma vida nova, um pouco à imagem do que se fez do lado espanhol com os subsídios da CEE.
Para aquisição de mercedes, jeeps e outros veículos de trabalho a custos bonificados, os interessados teriam, tão só, de comprovar a rentabilização do investimento feito com o incentivo de que beneficiaram, prova essa que serviria também para ganhar o direito a futuros incentivos.
Este sonho poria certamente Toulões e toda esta região, no mapa do desenvolvimento.
Estou já mesmo a imaginar as televisões a acotovelarem-se para entrevistar o Zé Torres, nosso digníssimo presidente da junta, sobre projectos futuros para a fixação de pessoas e a reabertura das escolas primárias para que incutam às crianças o orgulho de ter nascido aqui.
Voltaria o burburinho da canalha no recreio que em alegres cantigas de roda trauteava agora: "O TGV da Beira Baixa / Tem vinte e quatro janelas / Mais abaixo, mais … (vocês sabem o resto)".
A ser real este feito, a sua notícia relegaria para segundo plano uma grande reportagem jornalística sobre um acontecimento que fez aqui concentrar todas as atenções, mas que passados dois dias não passava de uma longínqua efeméride.
Essa notícia, no último dia de Novembro de 2002, (não sei se ainda há quem se lembre) foi precisamente sobre o Carriçal (Carcel como dizem os mais velhos).
Neste pequeno aglomerado pertencente à freguesia, a cerca de 5 Km, onde, com pompa e circunstância, se inaugurou a luz eléctrica que, tardiamente, veio trazer alguma qualidade de vida às gentes desta terra, que nem aldeia é, onde o passado está bem presente, mas em que para o presente, mesmo com a recente chegada da luz, não se vislumbram réstias de futuro.
Este acontecimento, raro nos dias que correm, foi celebrado com festa da rija pela numerosa comitiva de convidados da autarquia que se deslocaram a este lugar, longe de tudo, e pela população residente, para assistir ao "dar ó botão" no Carriçal.
"Afectível, afectível, só cá moram três pessoas, mas o tempo da zêtona ajunta cá mai gente…agora stamos cá… (pausa para pensar) …cinco!", respondia desoladamente a ti Moreira Felisbela, do cume dos seus 80 anos, ao jornalista da TSF João Morais (que merecia um prémio pela excelência da reportagem que aqui fez (Na penumbra) e pelo seu profissionalismo na arte que tem de reportar sobre assuntos da ruralidade).
O presidente da Câmara de Idanha-a-Nova, Álvaro Rocha, também inquirido a pronunciar-se sobre esta obra, começando naturalmente por refutar a possível ideia de eleitoralismo inerente ao evento e salientando que os três votos destas pessoas nem sequer fizeram a diferença para os seis que lhe deram a vitória (no mandato anterior), respondeu em tom de confidência:
- Sabe que, às vezes, com os desperdícios dos investimentos de obras maiores, fazem-se estes pequenos milagres!
Esta deixa leva-nos a perguntar: onde, depois de concluídas estas obras faraónicas, TGV / Ota, irão ser aplicados os desperdícios do esbanjamento?

terça-feira, novembro 21

30-2006: Meio desafio aceite


Após alguns dias de ausência inesperada, estou de regresso a este convívio virtual.
Foi com alguma surpresa que me deparei com um desafio proposto, quase em simultâneo, por dois companheiros de lide:
O Joaquim (Por terras do rei Wamba) e o Jorge (O sino da aldeia).
Aceito com satisfação o desafio, mas apenas pela metade. Vou revelar as cinco manias, mas, no que toca a desafiar mais cinco é difícil, dado que durante este tempo de ausência gorou-se a oportunidade, visto que praticamente todos os que costumo visitar já foram desafiados.
Como dizia um famoso fadista do antigamente: "com letra minha e música do meu pai... ENTÃO AQUI VAI."
1 – Tenho a mania que não tenho mania nenhuma, mas algumas pessoas apontam-me as que se seguem:
2 – Que tenho a mania de dizer sempre que sou de onde sou, enquanto outros dizem que são da Beira, de Castelo Branco ou, vá lá, de Idanha-a-Nova.
Quando me ouvem dizer que sou "dos Toulões" percebem "estou longe" e consecutivamente vem logo a pergunta: "estás longe?" Eu respondo sempre da mesma maneira: "estou, mas é como se lá estivesse".
3 – Que tenho a mania de que não há melhor fruta que o diospiro e que os figos inverniços eram melhores se viessem antes dos temporões.
4 – Que tenho a mania dos sapatos de camurça porque não é preciso dar-lhes graxa. (aqui digo-lhes que: brilho?, só quanto baste)
5 – Que tomar café sem açúcar é tomar uma atitude drástica.
UM ABRAÇO A TODOS!

segunda-feira, outubro 30

29-2006: A frágua

Pormenor de um "cancelão" construído no final dos anos 50.
Todas as peças foram trabalhadas manualmente e a assemblagem foi feita através de rebitagem. Este trabalho, que hoje nos parece tosco, era, à época, considerado de qualidade superior .

Engenho de furar manual com sistema de engrenagem para 2 velocidades. Era uma ferramenta essencial para a execução de serralharias (tipo foto acima). Esta reliquia, que pertenceu ao ti Zé Heleno, está a embelezar o jardim da habitação de um seu familiar.


Em tempos, quando uma intensa actividade agrícola enchia os celeiros do país, mas só dava pão a meio alqueire de gente, com a chegada do São Miguel e o início das sementeiras, o ferreiro não tinha mãos a medir.
O trabalho redobrava. Reparar os arados, em que aguçar rêlhas, substituir aivecas, arranjar os dentes das grades e compor outras ferragens, eram tarefas urgentes, a realizar antes que passasse a maré trazida pelas primeiras chuvas do Outono que punham a jeito a terra para ser esventrada e da qual se tirava um ano inteiro de sustento para família.
Depois, era mais o tempo que passava no tronco a ferrar as vacas de tiro do que na frágua, onde a feitura das ferraduras e dos canêlos havia sido prévia, sabendo, por experiência, da avalanche que chegava nesta época, em que o esforço dos animais e o consequente desgaste das protecções dos cascos era acrescido.
A valentia e a disponibilidade do ti Zé Guardado Campos para o trabalho, era por todos reconhecida. O ti Zé Ferreiro, como lhe chamavam, quando se punha a malhar o metal sobre aquela bigorna de aço, cujo timbre competia com o do sino da igreja quando tocava a rebate, numa chamada do povo da aldeia a reunir para acudir a uma desgraça, em que nos dias da aragem de leste levava o som da emergência a salvar o Cabeço dos Frades, fazendo-se ouvir em clarinho no arraial da Pingona.
Com a sua hercúlea envergadura e o seu basto bigode, quando calhava a cravar ferraduras, impunha o respeito a qualquer cavalgadura.
Temendo alguma reacção intempestiva do ferreiro, "as bestas nem buliam as orelhas!" - como contava o ti Mné Correia.
Cada vez que o ti Zé Ferreiro moldava o ferro amolecido na incandescência da forja, avivada pelo sopro de um velho fole que ia aguentando o fôlego graças ao amaciar das rugas pela bola de sebo enfarruscada, religiosamente embrulhada num farrapo de saca e guardada numa buraca da parede, o povo evitava passar-lhe à porta, escudando-se da estridência das pancadas, capazes de perfurar os tímpanos aos mais incautos.
Os dele já há muito deixaram de reagir ao estímulo das vibrações sonoras. Quando a frágua zunia, por toda a aldeia se sentia a cadência do seu malhar que ensurdecia o martelo e a bigorna.
Pensa-se que terá nascido daqui a expressão bastamente usada em Toulões - "Estar com os ouvidos na casa do ti Zé Ferreiro" - que me parece ser exclusiva desta terra (e corrijam-me se estiver errado).
Usa-se para chamar a atenção a alguém que não ouve porque está distraído, com o sentido na lua, ou alguém a fazer ouvidos de mercador porque, pura e simplesmente, para os dissimulados, qualquer chamamento não passa de um imperceptível ruído de fundo.
Hoje a expressão continua a utilizar-se amiúde, mas, com a usura provocada pelo passar do tempo, foi perdendo o "ti Zé" e o "Ferreiro" passou de próprio a comum, resultando no que hoje se diz:"estar com os ouvidos na casa do ferreiro!?"
Mas as histórias já muito antigas deste homem, do qual dificilmente se compreendia como é que, com aquele corpanzil de arrasa montanhas e com umas mãos tão grossas e calejadas, dava ao mundo peças tão habilmente forjadas, eram saudosamente relembradas, quer pelo ti Canilhas, quer pelo Ti Zé Heleno que, com jeito, lhe herdaram a arte.
Embora ambos lá tivessem o seu géniosito, que por vezes originava discussões de índole profissional, havia um ponto com o qual comungavam:
A paciência com que aturavam os garotos tardes inteiras, quando estes andavam ao desafio para ver qual deles lhes ganharia as graças e a honra de poder dar ao fole. Era uma brincadeira que ajudava a granjear confiança e que de vez em quando resultava nuns favores.
Havia sempre uma vez para, numa aberta, pedir o caldeamento de um arame de reforço de caldeiro velho, retirado para fazer as argolas que guiavam em alegres correrias ao desafio pelas ruas do povo.
Cada qual tinha o seu dom.
O ti Canilhas era exímio aguçador de ferramenta. A têmpera que lhe dava, sempre no ponto, acrescentava todavia um pouco mais de vida aos enxadões, malhos e picaretas que lhe passavam pelas mãos.
Era também um excelente ferrador. Para além do cravar das ferragens nas patas dos animais, tinha sempre grande preocupação com o aparar dos cascos e com as doenças que poderiam estar latentes. Quantas vezes uma raspadela e uma leve desinfecção com creolina era um preventivo para a evitar a coxeira que inferiorizava o animal.
O ti Zé Heleno, esse, dedicava-se mais àquele trabalho de ferreiro que hoje se designa por serralharia civil.
Eram afamados nas redondezas os engenhos e noras com os respectivos alcatruzes, portões, gradeamentos para varandas, e outros trabalhos similares que saíam da sua lavra.
Tinha também um jeito especial para colocar aros de bandagem nas rodas dos carros de vacas.
Mas a sua actividade não se resumia a trabalhos de ferro.
Era requisitado por muita gente de fora como especialista em fazer sangrias no vivo doente. Através de um ponto de incisão localizado de acordo com o sintoma (e aqui contava a experiência), de onde escoava o sangue maligno debelando a maleita, sendo depois naturalmente renovado.
Em bestas com augamento, era lancetado o pescoço lateralmente junto à cabeça, deixando escorrer o sangue na quantidade razoável.
Em animais com sintomas de doidice, principalmente bezerras, a incisão era no rabo ou nas patas dianteiras em que as feridas eram desinfectadas com aguardente e ligadas com um pano até sararem. Em último recurso, caso o animal não melhorasse, fazia-lhe uma verga de fogo entre os cornos, na zona dos miolos, que consistia em marcar com um ferro em brasa uma pequena circunferência (um O). Nos dias imediatos, as ventas eram-lhe borrifadas com vinagre para a obrigar a espirrar e assim soltar alguma viscosidade que se tivesse alojado no cérebro.

Mas o ti Zé Heleno não curava só os aleméis.
Curou um cobrão já adiantado à ti Teresa Rita, coitada, já com o bicho alastrado pelo corpo, quase a juntar a cabeça com o rabo. A velhota, a quem uma benzelhoa já tinha tentado curar a moléstia com rezas e defumadouros, lá vinha agora, dia sim dia não, toda encorcovada com a bolsinha do "tremez" que depejava em cima da bigorna. O ti Zé, com uma pazinha de ferro que parecia uma rapa de masseira, em brasa, colocava-a sobre a manchinha do cereal que queimava de forma a libertar um óleo com o qual lhe untava a zona afectada. Um fumo espesso e um cheiro intenso a queimado invadiam as imediações como que a assinalar o sucesso da intervenção.

E uma vez também, um arrepiante berro de dor, libertado numa voz de criança, logo seguido de um intenso odor a carne queimada, escaparam da forja. O João Pesaduras que lá ia mandar aguçar uma picareta do pai, reagiu instintivamente, correndo os poucos metros que faltavam com o coração nas mãos, a pensar que algum amigo fizera como Txulas. Na semana anterior queimara uma mão ao apanhar, uma das ferraduras ainda em brasa, que o ti Zé aventava para do chão da forja, onde arrefeciam lentamente, recobertas pela terra enegrecida pelo coque e pela jorra que sobrava do material em fusão.
Felizmente enganara-se.
O grito de desespero soltara-o um garoto de fora, que o pai ali trouxera na esperança de lhe curar um nascido, depositando toda fé na promessa feita à Senhora do Almortão e na sabedoria do ti Zé Heleno, afamado por queimar, com uma ponta de fogo, a moléstia pela raiz a este tumor gangrenoso que dizia ser um cabrunco.
Enquanto o rapaz gemia, ainda com a maçã do rosto marcada, o Pesaduras, que já conhecia os cantos à casa, apressou-se a abondar a almotria do azeite para o preparado. Uma mistura com pó de cal morta para untar a zona ferrada, era aplicada em cataplasma e renovada diariamente para atenuar a dor e facilitar a cicatrização da queimadura.
Terminado o serviço, o ti Zé Heleno, enquanto arrumava a ferramenta, exibe a enorme tenaz com que manipulava as peças enrubecidas no braseiro da forja.
- Se fô p’ciso tamém arranco dentes! No éi o´João? - disse ele a lembrar uma vez em que pregou um susto ao rapazito, ameaçando, na brincadeira, meter-lhe o tira dentes, como lhe chamava, pela boca dentro.
O João, a observar as caretas que o garoto fazia e a pensar na dor que estaria a suportar, nem respondeu. Estava, naquele momento, com os ouvidos na casa do ferreiro.

INTÉRPRETE PARA FORASREIROS

abondar; passar, fazer alcançar, dar
aleméis; plural de alemel – animal
augamento; doença que aparecia nas bestas manifestando-se por cansaço e apatia quando estas, passando por um local onde habitualmente se lhe dava algo de comer, não se lhe matava esse desejo. Uma mão-cheia de ração ou duas ou três passas de figo serviam para desaugar o animal (dizia-se que também acontecia nas crianças).
cabrunco; carbúnculo (ver aqui)
canêlos; ferros com função de ferradura que se aplicavam nas patas das vacas de trabalho.
cobrão; doença cutânea (ver aqui)
dissimulados; teimosos, fingidos
frágua; forja, oficina de ferreiro
malho; machado
manchinha; pequena mão-cheia, pequena quantidade
nascido; tumor
o vivo; os animais em geral