sexta-feira, junho 23

18-2006: Defumemos o São João


Se por um lado o mês de Junho é o mês dos ninhos e da passarada; se é o mês do solstício que nos traz o estio que tempera as searas e as apura para terminarem decepadas sob um sol tórrido que até assa canas à sombra (como dizia jocosamente o velho Eusébio, genuíno alentejano de Alter do Chão, que durante uns anos foi adoptado pelas gentes desta terra, pondo nas palavras um segundo sentido - "até há sacanas à sombra"); ele é também o mês dos santos populares que, um pouco por todo o lado, põem meio mundo em reboliço, a cheirar a sardinha e a rosmaninho durante quinze dias.
Embora Toulões tenha como orago o popular Santo António, no qual o povo inteirinho deposita toda a sua devoção, que se manifestava (agora só de vez em quando) na celebração dos festejos realizados anualmente, em Agosto, é, no entanto, o São João que leva a palma, no que concerne o mobilizar de almas nesta quadra em que os dois santos rivais, Santo António e São Pedro, são timidamente lembrados.
Nas vésperas do São João, ao anoitecer, a cada porta se fazia uma fogueira. Dois ou três dias antes, começava a acumular-se rosmaninho junto ao local onde vão ser acesas as fogueiras e cada um fazia ao sua reserva.
No regresso dos trabalhos do campo havia sempre tempo para um desvio fugaz, do caminho, para ajeitar dois braçados de rosmanos e levá-los até casa. Não se podia começar a juntar com muita antecedência sob pena de quando se lhe fosse deitar o fogo já estivessem secos.
A fogueira quer o rosmaninho verde, para a fumegar intensamente.
Toda a santa gente, novos e velhos, salvava aquele pequeno braseiro fumegante, extravasando alegria pela noite dentro, pelo menos enquanto houver rosmanos para queimar e fazer fumo, que, nessa noite, enevoa toda a aldeia.
O fumo intenso por vezes provocava acidentes. Bastas vezes, havia faísca da grande, quando cabeças, vindas de lados opostos, chocavam em pleno salto.
- Recordo ainda um amigo que foi fazer exame da 4ª com um olho mais roxo que uma flor de rosmano.
A rapaziada procurava encontrar alento para dar continuação à festa e "correr a manilha", saltando, uma a uma, todas a fogueiras por onde passava, procurando impressionar as raparigas, exclamando frases que se repetiam ocasionalmente nesta quadra e patenteavam o estado de espírito de cada um:
"Em louvor do S. João defumemos o coração"
Os mais velhos; digo melhor: as mais velhas, já que os homens eram pouco dados a este incómodo, não sentindo, nem a pujança nem a motivação para saltar, aproveitam para tomar banhos de fumo e, assim, "atabafar" a sarna incomodativa que, na maior parte das vezes, não passava de comichão nervosa. Diz o povo que uns banhos ascéticos de fumo de rosmaninho, rejuvenescem a pele e aliviam a coceira.
"Em louvor do percevelho defumemos o pantelho"
As mulheres, mais supersticiosas, faziam a fogueira mesmo à porta de casa deitando-lhe erva do paraíso, para intensificar o efeito do defumadouro. As portas ficavam escancaradas e o fumo desta erva, com um forte aroma de incenso, misturado com o do rosmaninho, empurrava-se para dentro com um avental, uma manta ou com um pano desfraldado. As casas mais afastadas eram defumadas com uma tocha retirada da fogueira.
Defumar é perfumar. O intenso aroma a lavanda, exalado pelo fumo proveniente da queima, entra pelas casas para purificar o ambiente e expulsar os espíritos que por elas cirandam. No final, põe-se então um pouco de azeite, também ele defumado, no buraco de fechadura para impedir que os espíritos voltem a entrar.
"Em louvor do rosmano defumemos o catano"
Havia também quem aproveitasse, o que a tradição trazia à tona dos dias, para tirar conclusões científicas e acertar contas com o futuro. É que nisto da agricultura é sempre bom saber antecipadamente o que nos reserva o São Pedro.
O ti Sarinéu, sábio nas questões da previsão do tempo, era o senhor boletim meteorológico, segundo consta, muito mais fiável que o tão afamado manda chuva, Dr. Antímio de Azevedo.
Nunca se ouviu dizer a ninguém: "lá esta o Sarinéu a meter água".
Observava o comportamento dos animais, o voo dos pássaros, principalmente das andorinhas, se era alto ou rasteiro, observava o astro e outras coisas mais para saber se chovia nos dias imediatos.
No dia de S. João, tinha sempre a preocupação de ir verificar, à fogueira do adro, para que lado o vento levava o fumo. Com tantas fogueiras que havia na aldeia esta não era escolhida ao acaso. O adro é um largo que se situa na confluência de duas ruas orientadas de tal forma que parecem desenhadas sobre a rosa-dos-ventos com o norte apontado ao polo.
Esta observação, que lhe indicava a orientação do vento, mantinha-se nos cinco dias seguintes (até ao São Pedro), a fim de prognosticar o tempo para o ano inteiro. Durante esse período a orientação que predominasse era a que iria prevalecer para a maior parte do ano.
Assim, sendo a predominância dos lados da Serra da Morracha (Norte) indicava que seria um ano frio e seco. Se viesse dos Malhadis (Sul) teríamos um ano húmido e quente, mas se o vento viesse do lado dos Frades (Oeste) o ano seria, por certo, frio e húmido.
Para o vento que vinha de Leste não havia previsão, mas fazendo fé no adágio de que "de Espanha nem bom vento nem bom casamento" adivinhava-se borrasca da valente, "por supuesto".
A prova provada sentia-se, no inverno, quando a gélida aragem que soprava, oriunda da Sierra de Gata, até arrepiava os gorrões dos caminhos.
Mas voltando às fogueiras.
Como em quase tudo também neste caso existem rivalidades quanto à maior e melhor fogueira da aldeia. Se a cada porta existia uma fogueira também, nalguns casos, os vizinhos se agrupavam, e uniam esforços, para fazer uma fogueira comum. Eram geralmente três os locais onde tradicionalmente se faziam as mais concorridas. O Adro, o Terreiro das Baraças e o largo do Poço da Malhadinha.
A fogueira do Adro era da canalha da escola. Por ser perto da casa da professora, nessa tarde, depois das aulas, iam em bandos, para o campo arrancar rosmanos e lá vinha cada um com seu molhinho, para engrossar o monte que se iria queimar à porta da mestra. Esta razão deixava-a, de certa forma, fora de compita.
O despique era quase sempre entre o Terreiro das Baraças e o Poço da Malhadinha.
Num ano em que um dos rapazes, querendo agradar a noiva, juntou dois ou três amigos, roubaram, emprestada, a carroça ao velho Txintxanau e foram aos Dreitos carregá-la de rosmanos para queimar no largo do Poço da Malhadinha. Nesse ano fez-se lá uma fogueira descomunal que dificilmente alguém conseguiu saltar. As faúlhas indo cair dentro do poço que servia a população deu origem a um dito que se dizia aos garotos e que às vezes os deixava desconsertados.
"Foste tu que deitaste fogo ao poço e ateaste o rabo ao gato!?"
Para rematar, agora digo eu:
"Em louvor da tradição defumemos o São João" e já que vem a propósito defumemos também a nossa selecção!

quarta-feira, junho 14

17-2006: Os frascos

Antes: Seara de centeio no Monte Velho de Cima. Paisagem rara nos dias que correm.
Depois: Esta é a paisagem mais comun que podemos encontrar.
Um montado no Carrascal cheio de mato entre os azinheiros.
- Ó Zé, ó Tó, ó Zétó, ó merda cagalhão - bradava a ti Cascaroa, baralhada com os nomes dos três filhos.
Largando os afazeres em volta da masseira, na azáfama de ter de aprontar o pão para levar ao forno, assomou fugazmente ao postigo da porta de casa para chamar pelo mais novo, assim que sentiu a algazarra da canalha à saída da escola.
O Zetó bem ouvia a mãe, mas fazia-se dissimulado. Naquele instante, a prioridade era ir aliviar águas à rua de trás, juntamente com os amigos. Depois do palheiro do ti Flacisco, numa parte mais inclinada da rua, mijavam todos ao mesmo tempo para uma pocinha, espécie de regadeira em ponto pequeno, e quantos mais fossem melhor, para a fazer transvazar e verem a enchente correr pela rua abaixo, torcendo para que fosse ultrapassada a marca deixada na vez anterior. Só depois, o Zetó, à pressa, ia comer a bodinha que a mãe já lhe tinha preparada.
A boda era uma forma ardil de fazer comer os garotos mais renitentes à comida, pondo-lhe pedacinhos de pão com queijo ou chouriço prontinhos a comer, geralmente acompanhados de uma gemada fortificante, sempre com um pouco de vinho ou cerveja, de preferência preta, porque de pequeno é que se começa a ser homem.
"O vinho abre o peito e a cerveja alarga ss costelados".
A alguns garotos, nem com o Ceregomil que o Ti Felizardo trazia da Espanha, junto com alguns chocolates e "riboçados", alpergatas e talhos de fazenda de pana que contrabandeava por encomenda para ganhar a vida, fazia proveito o que teimosamente ingeriam.
Terminada a pequena merenda, lá ia o Zetó ajudar à horta enquanto os dois irmãos, o Tó, e o Zé, mais velhos, andavam por lá com as ovelhas que, por vezes, também ele guardava.
Mais de meia primavera já tinha passado. Com o mês de Junho chegavam os ninhos e, consequentemente, as romarias aos montados e aos olivais que todos conheciam tão bem como conheciam o caminho entre a casa e a escola.
Era a cisma pelos ninhos de rola. Palmilhava-se termo e mais termo, sempre de olhar virado ao céu como que a procurar ajuda divina, na esperança de encontrar aquele simples emaranhado de pauzinhos que os caracteriza, instavelmente apoiados numa forquilha de ramos ou numa pernada mais grossa. Depois era só subir à árvore, sozinho quando se podia, ou, então, com a ajuda dos companheiros, tendo sempre o cuidado de verificar se a rola estava no ninho não fosse ela rejeitá-lo.
"Ninho rejeitado ovo gorado e nem o cuco o quer dado".
A Granja, o Pradinho o Vale da Ribeira das Corujas, o Vale de Cardas do lado de Alcafozes e o Monte Velho de Baixo e Monte Velho de Cima, o São Macal, o Carrascal do lado de Salvaterra e tantos outros lugares que todos os anos se cobriam grandes searas que lhe serviam de repasto, eram sítios a que a natureza dera condições para as rolas nidificarem.
O Tozé, quase se podia dizer, conhecia todo os azinheiros e sobreiras do montado, como conhecia as casas nas ruas de Toulões.
"Bem! O mesmo não se pode dizer do ti Chicote que uma vez, a fugir à venatória, escondeu a espingarda dentro da toca de um azinheiro perdendo-lhe o sítio até ao dia em que foi abatido, sem dó nem piedade, avolumando o monte de lenha que seria vendido em leilão para pagar o vinho à rapaziada, no dia do arranque do madeiro do Natal. Aquilo é que foi pontaria. Ao fim de vinte e tal anos, no meio de tanto azinheiro escolher logo um com um cano que rebentou com duas correntes de motosserra.
(Já me ia esquecendo de referir que aqui dizemos azinheiro em vez de azinheira e sobreira em vez de sobreiro).
Isto foi apenas um aparte, para dizer que a ninho achado raramente se lhe perdia o sítio, mas acabava-se sempre por referenciar a árvore com uma pedra ao toro, mais a fazer a marcação de posse do que de localização. Os ninhos eram de quem os achava primeiro e a pedra era apenas uma testemunha.

Uma das vezes em que o marido da senhora professora, ficou a tomar conta da escola enquanto ela teve de faltar, conhecendo a predilecção do Tozé por rolas, pediu-lhe que lhe arranjasse um casalinho, de preferência já a comer.
A comer era difícil, porque isso de tirar "borrachos-rolos" do ninho para criar, tem lá os seus quês. Tem de ser antes que voem. É preciso andar ali perto de um mês, duas vezes por dia, a encher-lhes o papo, grão a grão, sempre com o cuidado de não lhes partir o frágil bico, até se tornarem autónomas.
"Rolinha de colher partida passa fome toda a vida"
Quem não tinha trigo arranjava-o no rebusco da espiga ou na moagem do ti Chico Raxenol ou do ti Capinha, ganho a troco de uns recados.
Às vezes, a pretexto de uma visita ao moleiro, lá se metiam sorrateiramente duas "mancheias" ao bolso, tiradas da tulha que alimentava um sem-fim que elevava o trigo para uma tremonha de onde, por trepidação e gravidade, caía para o centro da mó.
Ninguém lhe encontrava a falta e as rolinhas agradeciam.
E dar-lhes de beber? Era um acto de ternura!
Depois de lhes encher o papo, metia-mos água na boca, punham-se a beber nos nossos lábios e ficavam a arrolar de satisfação.
O Tozé, sempre pronto a ajudar fosse quem fosse, acedeu ao pedido. Quando saiu ao recreio da manhã, foi, como habitualmente, com os colegas atrás do palheiro do ti Flacisco dar uma ajuda para aumentar o caudal da enchente rua abaixo e, pela surra, moscou-se, rumando às oliveiras do Pradinho para tirar os rolos que tinha encontrado uns dias antes e que já deviam estar capazes.
Entrando olival adentro, como que guiado pelo instinto de orientação dos pombos-correios, o Tozé vai direitinho à oliveira que tinha então marcado. Lá estava ainda o gorrão, de sentinela, a fazer fé de propriedade ao toro da velha oliveira carrasquenha.
Foi-se aproximando, cuidadosamente, para não atormentar a ninhada. Chegado debaixo da árvore logo se apercebeu que o ninho estava vazio. Rolos nem vê-los. Analisando-o, os vestígios indiciavam o abandono prematuro.
Pela quantidade de excrementos e pela consistência dos mesmos, deviam ter deixado o ninho nessa manhã ou no final da tarde do dia anterior.
Fora obra de gato-montês? Vestígios de sangue não havia. Teria sido a cobra?
Ficou desacorçoado. Tinha de encontrar outro ninho para justificar a falta à escola naquela tarde e arranjar uma atenuante para aliviar o castigo do qual, ele sabia, não se podia livrar.
"Mas que se lixasse. Mais vale um gosto que duas verdiçadas"
O Tozé, na impossibilidade de encontrar outro ninho que servisse para justificar a falta, voltou para casa e foi pedir emprestado, ao Barralito, um casal que ambos tinham tirado duas ou três semanas antes. Até finais do verão ainda ia a tempo de restituir o empréstimo.
No Domingo, já à tardinha, lá foi ele, meio amedrontado, entregar a encomenda ao senhor Zé que o recebeu muito bem e até lhe agradeceu. No entanto não se livrou do segundo ralhete da professora por ter faltado à escola. O primeiro tinha sido logo de manhã à saída da missa, onde tinha ido com a mãe e que lhe valeu um bom castigo.
Regar dois leirões de couves à poça e uma leira de feijões e outra de tomates de caldeiro ao rego.
No dia seguinte, como habitualmente, assim que a professora apareceu ao cimo da rua, foi o passa-a-palavra, pararam as correrias e foi o toca a reunir à porta da escola, bem encostadinhos à parede, alinhados numa fila, dois a dois, esperando pela chegada da senhora.
Abriu-se a porta, entraram todos e, como todas as segundas-feiras, a primeira pergunta foi:
- Quem é que ontem faltou à missa?
Silêncio absoluto.
A professora varre a sala para um lado com o olhar e, no movimento inverso, fixa-se na direcção do Barralito.
- Não vi o menino na igreja! Não foste à missa?
- Nada não!
- Nada não…, não! Nada não minha senhora.
- Nada não nha senhora!
- Explique-me lá porque razão, ontem o menino não foi à missa.
- A minha mãe pediu-me para ir com o gado
- Ainda por cima és mentiroso.
- Eu vi lá a tua mãe e ela disse-me que não sabia de ti.
Baixou a cabeça em sinal de anuimento, sem que a professora pedisse, levantou-se, e dirigiu-se para junto do quadro, local de todas as tormentas.
As vinte reguadas, condenação para o crime de falta à eucaristia, não foram poupadas.
O Tozé sentiu a primeira reguada na mão do Barralito como se lhe tivesse entrado pelo peito, já que ele faltara à missa para o poder ajudar a arranjar o casalinho de rolas.
Sentiu no goto atravessar-se-lhe o embaraço de não poder repor justiça, mas, num impulso de coragem, levantou-se da carteira tropeçando na sacola dos livros, e interpôs-se entre a professora e o seu grande e verdadeiro amigo do peito, o frasco, como se tratavam mutuamente, tal como se tratavam (e ainda tratam) os quintos para o resto da vida, depois de passarem à peluda.
- Essas reguadas são pra mim nha senhora. Por minha causa é que ele não foi à missa!

INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
Arrolar;
1] O mesmo que arrulhar 2] Hábito antigo de arrotar de satisfação depois de uma boa refeição
Cano; pernada oca de uma árvore
Dissimulado; teimoso, fingir que não ouve
Frasco; tratamento fraterno entre amigos
Gorrão;pedra de seixo
Quinto; tratam-se por quintos os rapazes/homens nascidos no mesmo ano e que vão juntos à inspecção e à tropa.
Verdiçadas; Pancadas com verdiceiro (verdasca), verdascada

sexta-feira, maio 26

16-2006: O Terreiro das Baraças


O terreiro das Baraças, no coração da Malhadinha, sempre foi dos lugares mais movimentados da aldeia. O mundo girava ali naquele largo.
Aos domingos, tirando a porta da Igreja na hora da missa e a porta do Salão às horas de baile, era lá que se juntava a povoléia para brincar, confraternizar e também discutir, mas só em pequenos grupos que o regedor andava vigilante.
Era lá que os homens tiravam teimas, no jogo da barra ou da malha.
Era lá que batiam a cavaquinha, no parapeito de uma qualquer janela, sempre acompanhados por uma assistência atenta e entendida, que conjecturava e ia fazendo os seus vaticínios.
Era lá que jogavam a raioula, que a taberna do ti Cavalinho e mais tarde a do ti Fontes eram logo ali ao lado.
Era lá que as raparigas jogavam ao mata e outros jogos da Quaresma e que os rapazes jogavam à sovela ou ao porro. Este tinha de ser um pouco mais afastado não fosse o diabo tecê-las, ao atirarem a pedrada ao alvo (porro), acertar onde menos se esperava.
Também era lá que, em noites de lua cheia, se fazia o baile das bruxas e se reunia a diabólica, antes de desabelhar pelas ruas em grande algazarra e desaparecer pelos campos absorvida pelas sombras que se escondem da lua. Na manhã seguinte constatavam-se as marcas da sua passagem em tudo quanto era "espinhos, espetos, cardos e carapetos".
E isto, podem crer que era verdade, porque testemunhos não faltavam.
O tempo foi passando, o tempo foi mudando, mas o largo foi continuando o mesmo.
Nas longas e quentes noites de verão funcionava ali o tribunal.
Ao serão, as mulheres sentadas num baturel, davam largas à sua veia justiceira, inquirindo, julgando e condenando, sempre à revelia, a vida alheia.
Nesse mesmo baturel sentava-se, aos domingos à tarde, quando a sombra já refrescava, o ti J’quim do Ribeirinho com o seu caixote de laranjas d’imbigo, mais doces que mel de abelha marçanica, colhidas nas laranjeiras lá da horta e vendidas a 6, 10 tostões. Quem aceitasse levar a dúzia era brindado com um cartuchinho de tremoços. "Não pensem já que foi aqui que as grandes multinacionais - tipo mequedonaldes - vieram buscar a ideia dos brindes promocionais. Nessa altura, já a farinha predilecta de muita canalha, trazia um soldadinho de colecção dentro da caixa".
O negócio sempre rendia o esforço de ter passado um verão a regar laranjeiras.
O ti J’quim era homem dado a grandes conversas. Falava, falava, falava. Por vezes perdia-se e perdia, tentando ser demasiado persuasivo na sua venda.
Já todos conheciam as suas histórias, principalmente aquelas em que fazia descrições pormenorizadas da cidade de Lisboa.
Ele, que nunca tinha ido à capital, conhecia-a apenas da cartografia militar, e pouco mais, mas falava dos monumentos, das ruas, dos bairros populares, como se lá tivesse sido carteiro toda a vida.
Não sabia uma letra, mas em contas ninguém lhe passava a peneira.
E memória? Prodigiosa. Qualquer coisa que lhe entrasse no sentido e que nela pusesse fé, era certo que ficava cativa naquela mioleira que, como ele dizia:
- A terra há-de mos comer, mexidos com ovos de pita choca.
Para verem a memória do homem dou-lhes um exemplo.
O correio (cartas e encomendas), era a ti Alfaiata que o ia buscar à Zebreira, fazendo diariamente a viagem de ida e volta a cavalo na sua burranca, sendo depois distribuído à porta da taberna do ti João Bata, que nessa altura tinha o depósito dos despachos dos CTT e também o telefone público. Estes serviços, mantendo os mesmos moldes, passaram, mais tarde, a funcionar na taberna do ti Fontes, mesmo ao pé do Terreiro das Baraças. Nesta altura já a ti Alfaiata tinha passado o lugar ao "homem do correio" que fazia o percurso ao contrário: vinha da Zebreira trazer a correspondência a Toulões e voltava.
A distribuição era feita ali mesmo. Todos os dias, mais ou menos à mesma hora, lá estava um magote de gente pronta para responder à chamada.
O ti J’quim raramente faltava à leitura do correio. Àquela hora arranjava sempre um tempo para fazer uma bola e ir ouvir nomear os destinatários das cartas que chegavam.
É aqui que ele puxa pela memória.
Quando via alguém que fazia vida no campo e passava muito tempo sem vir a casa, cujo nome fora mencionado, tratava logo de avisar:
- Vai lá à Conceição Donija (Dionísio) que tens lá carta! – mencionando sempre o dia em que a dita "fora lida" pela primeira vez, mesmo que já tivesse passado um mês ou dois. E o carimbo dos correios, descontando os dois ou três dias em que a carta andava em circulação, não enganava.
No terreiro das Baraças havia por vezes outras teimas, não que fizessem girar o mundo, mas às vazes faziam chispas.
Era digna de ser presenciada, quando aparecia o ti Zé Pintalgado e se pegava com o ti J’quim, ambos a discutir fosse que assunto fosse, a discussão resultante.
Uma luta de teimosos, cada um a querer dar mostras de maior sabedoria que o outro.
O ti Zé Pintalgado trazia sempre no bolso umas folhas de jornal que guardava religiosamente dobradas e embrulhadas. Exibia-as em algumas ocasiões, já com algumas letras sumidas, para mostrar notícias, aí com 5 ou 10 anos, que dissipavam dúvidas quanto a veracidade de algumas das suas tiradas.
Por vezes já era motivo de chacota e afinava quando o ti J’quim o picava:
- Atão e o Sr. Padre da Mata-Mourisca tamém dá leite, no é? – fazendo alusão a uma notícia sobre distribuição de leite em pó por parte do pároco que era referida numa das folhas do maço que mais parecia um velho pasquim.
Mas ele, sempre resposta pronta na ponta da língua, não se ficava e rematava de seguida:
- Atão tu que sabes tanto, mê paspalhão, responde-me lá a esta: Quantos quilos de serradura tenho de dar a comer o mê burro para cagar duas tábuas de solho em pau de pinho?
Mas, brincadeira à parte, o ti Zé Pintalgado era mesmo dono de grande sapiência.
Citava com frequência os prognósticos proféticos do Bandarra, uma espécie de Nostradamus à portuguesa, para enquadrar uma determinada situação.
- Já o Bandarra dizia…- e deitava p’rali um corgalho de versos, num arcaico que mal se percebia.
Falava da memória da água, e exemplificava o fenómeno com o funil com que o ti Cavalinho trasfegava o vinho, previamente baptizado, do pipo para o garrafão. E a coisa era mesmo verdade, porque o jornal fazia prova.
Sabia fazer contas com "cobrados", conhecia a história de Portugal de fio a pavio, falava das civilizações grega e romana e por aí fora.
Homem já entrado na idade, grande conversador e grande pedagogo, tinha sempre uma regra para ensinar aos mais novos, mas também gostava de lhes pregar umas rasteiras. Não eram raras as vezes em que punha à prova a sabedoria dos cachopos que vinham passar as férias escolares.
- Atão parente, em que ano andas? Sabes em que dinastia D. Pedro III foi rei de Portugal?
Nem esperava pela resposta e avançava logo com o sacramental problema do pombal das cem pombas e do gavião (lembram-se?), atrapalhando o raciocínio ao sortudo a quem tivesse calhado a rifa.
A dada altura é que foram elas.
Numas férias grandes, apareceu por ali um rapaz a cavalo numa montada que não precisava de esporadas nem de puxões de rédeas para se empinar nas patas traseiras e abrir, campo fora, desenfreada. Aquela Kawasaki 125 cross, que parecia um potro ainda por amansar, deixava tudo abismado. Com dois pinchos para lá e dois para cá ia à Granja e voltava.
Aquilo é que era uma novidade das valentes.
Era o filho do Ferreta, vaqueiro na Granja. Alguns ainda se lembravam dele em garoto, quando estudava no seminário. Sempre que cá vinha, ajudava o senhor padre António na missa, mas depois, tendo ido estudar para Coimbra, chegava à Granja de fugida para visitar os pais e nem vinha aos Toulões.
O bom do ti Zé, uma vez que o apanhou a jeito, tratou logo de lhe fazer o teste. O rapaz conseguiu inverter posições e, como grande malabarista da matemática que era, passou ele a questionar. Ao conseguir provar diante dos seus olhos, que 1 era igual a 2 e, depois, que 2+2 era igual a 5, deixou o ti Zé descomposto.
- Este sabe mai qu’ a justiça velha!
Recompondo-se, sacou da cartola o trunfo que guardava sempre que se via enrascado. O problema das laranjas que ainda ninguém lhe tinha resolvido. Nem ele o sabia resolver. Sabia apenas o resultado, mas revelá-lo..., tá quieto.
Ditou o problema sem grandes explicações.
O Zécá só pediu para recapitular:
- Ora vejamos: três guardas, metade das laranjas mais metade de uma sem partir nenhuma a cada um e ficou com zero laranjas.
- Quantas colheu?
Pede-lhe a "BIC cristal escrita normal" que guardava no bolso da véstia e, num papel com que o ti J’quim encartuchava os tremoços, faz meia dúzia de rabiscos, põe o problema em equação e apresenta a solução.
- Veja lá se está certo senhor Zé.
Olhando para o papel, pensa lá para com ele:
- Este gajo sabe tralha basta. Atão no é que atinou logo à primeira.
Rendido à inteligência do rapaz, lança um elogio em tom de desabafo:
- Já vi que sabes mai qu’ o Bandarra.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
baraças; 1] neste caso, o nome é alusivo à alcunha de uma família que habitava o largo(terreiro por não ser calcetado) e que lhe deu o nome. 2] cordeis
burranca; burra nova
corgalho; atado de coisas
desabelhar; retirar-se rapidamente, pôr-se a andar, desaparecer
fazer uma bola; fazer uma pausa no trabalho para fumar um cigarro ou beber água
laranjas d'imbigo; Laranjas de umbigo, laranjas da baía
leitura do correio; anunciar os nomes das pessoas a quem se detinava a correspondência
parente; Tratamento amistoso dado pelos mais velhos aos mais novos
paspalhão; palerma
passar a peneira; enganar, ludibriar
pincho; salto, pulo
povoléia; populaça

quarta-feira, maio 17

15-2006: Água na boca


"Isto é que é lousa!"
Em Toulões, esta expressão, acompanhada de um "humm" de satisfação e de uma lambidela de dedos, qualifica os melões, ou outra fruta da boa, desde que se trate de "cousa lousa", ou seja: coisa fina, apetitosa, saborosa, suculenta.
Para os apreciadores de bom queijo a expressão tem exactamente o mesmo valor. Significa que o produto é realmente de excelente qualidade.
Se alguém te disser - Não queiras que não presta! - aceita porque de certeza que é bom.
Por aqui o queijo sempre foi afamado. A sabedoria da feitura artesanal do queijo foi, e ainda é, empírica e vem de pais para filhos, embora hoje já não haja filhos para serem pastores nem para serem queijeiros.
Tanto nas queijeiras (locais onde se faz queijo) dos grandes coitos, onde o pastor trabalhava à soldada, como em sua casa, em que era o dono do seu rebanho, o trabalho era de uma dureza castigadora. Não sendo um trabalho pesado, implicava, no entanto, muitas horas de dedicação. Não havia domingos nem dias santos, porque, ao fim de semana, o rebanho também tinha de se alimentar e o leite não podia ser conservado.
E se o povo é categórico em dizer que "Vida de pastor e vida de cão são vidas de mandrião" ou "ao pastor e ao seu cão, Deus deu vida de calão", engana-se redondamente.
O rebanho não dá tréguas.
Mudar os bardos com cancelas pesadíssimas, todos os dias ou dia sim dia não, tosquiar, tratar das crias e sobretudo ordenhar.
A durereza desta última tarefa vê-se nos calos formados nos nós dos polegares como consequência da quantidade de ubres que muge duas vezes por dia. Uma ao raiar da aurora e a outra ao entardecer.
Neto e filho de pastores, ao ti Antónho dos Crostos, nasceram-lhe os dentes a andar aderrabo das ovelhas. Lembro-me de o ver, enrolar o cigarro com aquelas pontas dedos impregnados de nicotina, por força dos muitos anos a tirar o tabaco da onça Kentuky que guardava numa pataca de cabedal e a compo-lo na mortalha, dos quais sobressaiam aquelas bugalhas parasitas agarradas aos mata pulgas.
Para ter mesmo boa qualidade, o queijo necessita dos seguintes ingredientes:
- Leite de cabra ou ovelha que se apascente em pastagens macias (nem erva não muito viçosa nem pasto muito seco) dizem os especialistas modernos que confére melhores qualidades organoléticas ao queijo.
- Flor de Cardo de boa qualidade. Recolhida na altura certa e seca durante alguns dias. Põe-se a dose correcta de cardo num almofariz de madeira, junta-se água morna e pisa-se. Deixa-se a mistura macerar durante cerca de meia hora. Côa-se para o leite que já está na celha, junto ao lar, para adquirir a temperatura ideal a fim de que a coalhada adquira a consistência ao ponto.
Substituindo o cardo por um coagulante de origem animal (um pedacinho específico de estômago que é retirado quando se mata um cordeiro de leite) e uma cura rigorosa, teremos o famoso queijo queimoso, muito apreciado por quem gosta do queijo a apeguilhar.
- Muita limpeza nos utensílios, desde a ordenha até à cura (picheiro, cilho, acinchos, francela ou parreirão e local onde o queijo se vai tornar delicia).
- Se os pastores guardam os rebanhos são as sua mulheres que fazem o queijo. Como elemento principal, é necessário ter mão de queijeira (ou roupeira como se diz nalguns lados). Dizem os entendidos que a mão tem que estar fria na hora de calcar a coalhada. Mas eu tenho por mim que o melhor queijo desta região é feito com o coração.
- O sal tem de ser do lavado (não vale sal da salgadeira) e a palha centeia onde o queijo irá estagiar deverá ser mudada de vez em quando.
- Agora é só esperar aí uns quatro mesitos e verão o que é lousa.
Nos dias de hoje a descrição feita anteriormente já raramente acontece desta forma. Os pastores não são tão sacrificados. A maior parte vai dormir a casa todos os dias e aos fins-de-semana distribuem rações aos animais.
O processo de ordenha já é mecanizado, deixando ao pastor moderno tempo para usufruir mais da vida.
Os produtores de queijo, nomeadamente a Coperativa de Produtores de Idanha-a-Nova, têm agora todas as condições de higiéne e controle de qualidade (produtos devida e comprovadamente certificados) que proporcionam toda a confiança ao consumidor no produto que chega ao mercado.
Mas que me perdoem os que teimam em acabar com os produtos regionais de origem artesanal, impondo novas regras.
Eu continuo a gostar mais do queijo da terra, mesmo sabendo que de vez em quando lá há uma caganita que vai parar dentro do picheiro, mas que é retirada imediatamente.
Bem. Agora que o gado já está no rodeio, deixem-me ir descansar um pouco, mas antes quero dar-vos um pequeno conselho:
Não esquecer que o queijo provoca esquecimento.
Moderação!
INTÈRPRETE PARA FORASTEIROS
Acincho; Molde feito com uma tira de lata perfurada e um gancho que serve para regular o diâmetro de acordo com a quantidade de coalhada ou o tamanho pretendido para o queijo. A perfuração serve para fazer a drenagem do soro
Apeguilhar;Ter um sabor muito intenso (mais no queijo picante) que origina um consumo mais moderado. Antigamente fazian-se refeições só de pão e queijo. Sendo o queijo o conduto dizia-se que: "quanto mais apeguilha mais se poupa"
Andar aderrabo; Andar atrás de, perseguir
Calão: preguiçoso, mandrião
Cilho; Recipiente de barro (pequena celha) onde o leite, depois de coado, era colocado, adicionando-lhe o cardo, junto ao lume a uma distância que permita manter o leite a uma temperatura amena e constante (cerca de 30 ºC) enquanto o leito é coalhado.
Francela; Pequena bancada de madeira onde se coloca o acincho e se faz o queijo, com um ligeiro declive para escoamento do soro que corre para dentro de um recipiente.
Parreirão; O mesmo que a francela mas com capacidade para comportar 10, 12 ou até 15 queijos de uma só vez.
Queimoso; Picante
Soldada;Vencimento mensal que era composto por dinheiro e géneros.

quarta-feira, maio 10

14-2006: O pagador de promessas


O Pito-Calçudo dizia ao seu companheiro Zezinho, à saída da escola:
- Se me deixares brincar com o teu carrinho de cana, prometo que te ensino um ninho de Tropa-gato, com passarinhos já vestidos e tudo!
- Olha q’o prometido é devido!
- avisava o Zezinho.
Com alguma desconfiança, emprestou-lhe a cana que encaixava no eixo que unia as duas rodas de madeira. Até tinha um volante feito com a rodela de cortiça que servira de tampão à gateira da porta da casa.
Pito-Calçudo cumpriu a promessa. Foram espreitar à buraca que servira para encastrar o andaime na parede de pedra do palheiro do ti Proposta, onde o casal de Chapins-azuis todos os anos escondia o ninho. Ambos, ansiosos por poderem acariciar a penugem macia dos passarinhos e verem aqueles pedacinhos de vida abrirem o bico a pedir comida, ficaram desacorçoados.
Os passarinhos já tinham abandonado o ninho. A promessa saíra gorada.
- Tu já sabias! Enganaste-me!
- Não, não t’enganei!
Levando o Zezinho, a ver um ninho de Pintassilgo numa maçãzeira ali ao lado, não faltou à palavra e cumpriu a promessa, ganhando a confiança do companheiro de escola.
Para o Pito-Calçudo, palavra de promessa era palavra sagrada e para ser cumprida. Aprendeu-o com o pai que cultivava a honra da palavra desde garoto.
Cresceu e fez-se homem. A fé acompanhou-o sempre e era essa fé que servia de moeda de troca para negociar com a santa da sua devoção - Nossa Senhora das Cabeças.
O Pito-calçudo, já galo capão, prometera à Santa, que se não o deixasse ficar mal nas sortes pegaria no Guião, na primeira procissão que se realizasse em sua honra, depois de passar à inspecção militar e daria a volta ao povo mostrando o caminho a quem seguisse na procissão.
- E assim foi!
Por ocasião das celebrações religiosas multiplicam-se as promessas. Muitos prometem e tem que cumprir. Caso contrário, todos os pecados do mundo desabam sobre a alma do faltoso.
Custasse o que custasse, teria de ser ele a arrematar no leilão à porta da igreja, por dever, esse direito. A promessa valia principalmente por não passar pela desonra do mancebo que, não sendo apurado nas sortes, era considerado um inútil. Conseguir tal façanha, fazia do moço, aos olhos dos outros, um homem emancipado, capaz de, sozinho, fazer face às agruras da vida. Por esta razão o Guião da procissão era o mais disputado entre os valentes, mas nenhum homem se propunha transporta-lo se não tivesse a certeza de o conseguir fazer, sob pena de ser zurrado quando viesse o Entrudo.
Fazer o percurso pelas ruas da povoação, segurando a pulso aquele mastro com uma vela desfraldada, onde jaze, pintado, o Sagrado Coração de Jesus, não é obra para qualquer um. Tentando vencer, para além do peso próprio, as acções do vento, que sempre teima em fazer vacilar o portador como casca de noz em mar revolto.
E como se não bastassem os enfeites no adro da igreja e nas imediações, que atrapalham um pouco, eis que chegou o progresso. A electricidade e o telefone, com todo o emaranhado de fios e cabos que zigzagueiam sobre as nossas cabeças, criaram novas barreiras, obrigando a baixar a guarda para poder passar-lhes por baixo. E não eram raras as vezes em que cheirava a chamusco.
A uma dada altura, veio uma rabanada de vento, desequilibrando o Galo-capão, quando este se preparava para passar por baixo de mais um obstáculo. Para não estchabaçar meia duzia de telhas do beirado do lagar do ti Dominguinhos, deixou ir o Guião contra a parede do quintal do Tónho Maria, do outro lado da rua. Não o aguentando, este escavacou-se na crista do muro, caindo a bandeira para o lado de dentro.
Mas promessa é promessa. Como estas situações mandam sempre desenrascar, enquanto a malta saltou o quintal para recuperar aquele pedaço de tecido que apesar de pintado se mantinha imaculado, ele que não era nenhum atadinho, foi num pronto ali à primeira horta do Ribeirinho, desengatou a vara do caibro da burra de tirar água.
Enquanto o foguetório começava a acelerar, assinalando o regresso da procissão à igreja, compôs a bandeira do Guião na ponta da vara e proceseguiu como se nada tivesse acontecido.
Pito-capão passou na dura prova.
Foi mais uma promessa cumprida e aquele expediente de remediar tão habilmente uma situação embaraçosa, valeu-lhe também a admiração do pai da sua mais que tudo, que já havia apalavrado num dos bailes de partido. A prova veio à hora da ceia, quando este lhe concedeu o sim ao pedido da mão da filha. Nessa noite, foram juntos ao arraial, caminhando lado a lado, oficialmente autorizados.
Fazendo emergir aspectos valorativos, muitas promessas são cumpridas com ofertas valiosas, acompanhadas de juras de amor.
Mas a vida é feita de muitas voltas e volta não volta prega-nos uma partida. Por vezes não há promessa que nos valha.
Galo-capão, já daqueles bem duros de roer, com família constituída, viu um dia um filho ficar sem tino, ao cair de cabeça, quando brincava num galho de uma oliveira.
Prometeu uma vaca à sua santa, depositando nela toda a fé na cura do menino. Com a mulher, enfeitou os cornos à Marrafa, com flores variadas e levou-a a dar uma volta à igreja para mostrar à santa o que estava a prometer. As flores resplandeciam na cabeça do animal, mas delas sobressaía a mais nobre de todas: a rosa de albardeira – (Paeonia-lusitanica-Miller). Uma flor vermelha, com uma corola muito semelhante à da tulipa e com um tufo de estames a imitar um sol, apanhava-se nos montados para ocasiões especiais. Hoje parece estar extinta (pelo menos por aqui) talvez porque o seu simbolismo de fertilidade e abundância, desapareceu com "suão" que irrompeu por esta região trazendo o deserto e a desolação.
A Senhora das Cabeças nunca lhe quis cobrar a promessa. O garoto, fora mesmo despedido dos médicos e dos benzilhões.
Apesar de todas as contrariedades, a sua fé nunca esmoreceu, mantendo acesa a chama da esperança.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
bailes de partido; bailes organizados em casas particulares em que só entravam os convidados
benzilhões; videntes, curandeiros
estchabaçar; partir em cacos
sortes; Inspecção militar
Tropa-gato; Chapim (passarinho)
zurrado; sujeito a zurra, envergonhado por um grupo de pessoas

sábado, maio 6

13-2006: Dia 7 de Maio (À minha Mãe)

Vista da Serra da Morracha
TOULÕES
Retrato da terra-mãe
Deste miradouro verdejante, varanda florida e enfeitada
Refrescada pela água milagrosa desta serra, fonte santificada
Avisto a alva candura das tuas casas caiadas, casebres velhos
Avisto a singela harmonia dos teus telhados, pontos vermelhos
Glóbulos do teu sangue que me corre nas veias
Germe da semente que me deu vida, vida que tu semeias
Em extensas e ondulantes searas em que descanso a vista
Que irão dormir no Vale das Eiras, feitas molhos de preguiça
Avisto o Peso, o Monte Velho, o talefe dos Malhadis
E o cabeço dos Frades, de pé, olhando p’ra ti de mãos nos quadris.
Avisto uma bandeja de prata que é a barragem da Pingona
E que foi afolar do casamento entre o Pradinho e a Archelona
Avisto a estrada nova, que se curva e recurva, contorcendo-se de dor
Tal como uma cobra largando a samarra sob um sol abrasador
Avisto a Fonte de Baixo, a Fonte de Cima, o poço da Malhadinha
Avisto a ribeira da Toula que dizem ser tua madrinha
Avisto o Ribeiro de Malhão, o Ribeiro de Cunha, o Ribeirinho
O Ribeiro do Raposo e outros por onde os melros fazem ninho
Avisto o Vale das Vacas, o Vale de Junco e as Lameiras
Avisto montados, olivais, sinto o cheiro das laranjeiras
Sinto o cheiro do rosmaninho, emproado, a cortejar as abelhas
Oiço o chilrear dos passarinhos, desafiando os chocalhos das ovelhas
À sombra destes pinheiros que se vergam para te beijar a testa
E te limpam o rosto, com vassouros feitos de trovisco ou de giesta
Avisto este bucólico cenário, que a natureza, a custo, ainda mantem
Deste miradouro verdejante, virado p’ro mundo, avisto a minha mãe.

quinta-feira, abril 27

12-2006: Sra do Almortão (Poema Romeno)

A nomeada da Senhora do Almortão chegou às campinas da Roménia.

Eugene Galateanu (Poeta Romeno) deixou-nos uma estranha impressão (surrealista?) do local em que, provavelmente, tem lugar o maior acontecimento religioso da zona raiana.
Senhora do Almortão
Nas grandes cidades solitárias
Nas grandes cidades desertas comigo só na vida
Betão, aço e vidro eu desejo, Horus Deus menor
Eu, o herdeiro
Com o desaparecimento de um animal
Único amigo no caminho
Eu fui a guardiã dos mortos
Senhora do Almortão
Arranco-me do pesadelo
Desejava banir este coração de queixumes
Desejava partir deste cemitério
Esta capela na qual eu não quero entrar
Esta capela em ruinas
Este suave perfume de cadáver
Colunas caídas, do tecto avistamos o abismo
Esta capela onde eu não posso entrar
Esta capela onde não me posso esquecer, o meu estômago revolta-se de espanto
Esta capela onde me decomponho lentamente
Sobre o catafalco.

Este poema foi retirado ao Idanhense, pouco tempo antes de ele se ter mudado para aqui. Desencantou-o e o postou-o em Abril do ano passado, também por alturas da Sra do Almortão.
Como este vizinho já não pode ser visitado na morada antiga, pela curiosidade, aqui fica o poema no original.
Senhora do Almortao
În marile oraşe solitare
În marile oraşe pustii, cu mine singurul în viaţă
Beton oţel şi sticlă şi doar eu, Horus, zeu minor
Eu moştenitorul,
Cu disperarea unui animal
Cu drumul singur prieten
Fug de castelana morţii
Senhora do Almortao
Mă smulg din coşmar
Vreau să alung acel cor de bocitoare
Vreau să ies din acel cimitir
Acea capelă, unde nu vreau să intru
Acea capelă, în părăginire
Acel miros dulce, de leş
Coloane căzute, prin tavan se vede hăul
Acea capelă unde nu pot să intru
Acea capelă unde nu pot să mă uit, stomacul mi se-ntoarce de groază
Acea capelă unde mă descompun încet
Pe catafalc.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
Agradeço ao Filipe Machado (Aphatrad Portugal) por me ter conseguido a tradução de romeno para francês (foi o que se pôde arranjar).
A versão para português foi traduzida pelo chanesco. E quero dizer isto baixinho porque ele é muito modesto. Não gosta de falar dele. A verdade é que francês é com ele. Quer dizer... francês, Alentejano e do Douro, se lhe Dão...
Mas do que gosta mesmo!? Qual Roquefort, qual Camembert, qual pasteurizado, qual quê. Não há queijo melhor que o nosso, do daqui, diz ele. Do da ti Reija ou do da ti Camesona, por exemplo, com 4 ou 5 meses de cura em palha centeia, seja ele de ovelha, de cabra ou misto, é que é bom. No paladar sente-se a dedicação e a sabedoria com que a coalhada foi calcada e moldada no acincho, e o carinho com que cada uma destas delícias foi manuseada durante a cura.
Bom, deixa-me lá desta conversa que já estou a começar a saír do rego ou seja; a desviar-me do tema principal.
O que interessa é que segunda-feira lá estarei, para comer um bom catcho do genuino, à sombra de uma árvore qualquer.

terça-feira, abril 25

11-2006: DIA DA LIBERDADE


Excerto do poema
"As Portas Que Abril Abriu"
José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade

(pode ler aqui o poema completo)