sábado, julho 29

22-2006: Férias é ida à terra

Festa de Santo António - Agosto 1982

Estão aí as férias. Há uns anos, significava, isto, ter de cumprir o dever de ir passar uns dias à Terra.
Hoje há outras prioridades e outras vicissitudes, mas os que lá continuam a ir, mantêm o mesmo espírito de há uns anos atrás.
Iamos ver a família e aproveitar a ocasião para rever os amigos que durante o resto do ano andam dispersos por esse mundo cada vez mais pequeno, mas onde cada vez nos reencontramos menos.
A festa traz cá toda a gente e aqui é o ponto de encontro.
Os três primeiros dias são dias de enreio. Sai-se de casa para ir tomar uma bica, e para andar uns escassos 100 metros, demora-se tanto tempo a fazer o caminho que, quando um gajo lá chega, já esta o café frio.
Enreios são mais de mil, mas são todos bons. Temos de cumprimentar e retribuir. É a manifestação da estima que reciprocamente se mantém e faz matar saudades aos já não se viam há uns tempos.
Enreios são também os convites a que não nos é permitido resistir, fruto da amizade que nos liga. Depois do abraço vem logo o esticão do... aguenta aí.
- Entra cá e bebe aqui um copo; vá lá, mai um "catcho" de chouriço.
- Agora vamos à minha casa!
E podemos lá nós fazer a desfeita de atravessar aqueles seis metros de rua.
- Queres uísque ou ricardo?
Isso de oferecer vinho foi água que há muito ano passou por baixo da ponte da Toula.
Para o Zé Manhouvas, que está na França, vai para vinte e tal anos, só mudaram os hábitos do que se põe à mesa. De resto, quando cá chega parece que o tempo parou durante todo aquele período. Recomeça a viver como se tivesse feito um interregno para continuar a vida do dia anterior. A França, apesar do trabalho "cansado", parece mais um local de hibernação para os emigrantes do qual acordam quando chega o mês de Agosto.
- Pega aí, queijo e uma trancha de jambom, vai! Este é de Baiona. É do melhor que lá há, mas no venham cá com merdas. Não chega aos calcanhares daquele que se tirava da salgadeira, com dois dedos de gordura, e com um naco a acompanhar uma gaspachada fresca à sombra de uma sobreira, era manjar de abade.
Vamos então todos ao café e lá encontramos mais uns frascos. Renovam-se os cumprimentos, fala-se das nossas vidas, contam-se mais umas histórias antigas, peripécias passadas e vem sempre à baila a lembrança dos que de certa forma esqueceram a terra e lá vão esporadicamente.
Depois inevitavelmente, relembra-se aquela história, que se conta um pouco por todo o lado, da rapariga que deixou a vida de pastora, tendo ido muito nova servir para Lisboa. Voltando, passados alguns anos, como que atacada pela síndrome do snobismo, já não distinguia um rebanho de ovelhas de uma cabrada.
Logo de seguida vem a comparação com episódio do Monarca que, dizia ele, habituado à vida da cidade já lhe custava refazer-se à terrinha e renegava por completo as suas orígens.
Espernicava-se todo para falar à moda alfacinha, tentando disfarçar o sotaque característico da aldeia que ainda conservava e, atraiçoando-o, lhe deixava transparecer algum complexo. Aquele pormenor era, para ele, como a marca idelével deixada por um ferro em brasa de identificar o gado.
O Monarca, convidado por dois amigos para beber, aceita de bom grado e entra na taberna.
Acercam-se do balcão. Ele fica ligeiramente para trás, como que a medo de lá encostar a barriga, mas de repente, numa ostentação de vaiadade...
- Eu é que pago!
- Atão o que é que vai? – pergunta o ti Bata.
- Um copo diz o Cravoeiro.
- Um traçado, que a hora ainda não está para esfregas – diz o Margaça
Atão e tu Jxquim ?
O Monarca que lá por lisboa se habituara a beber fino, pediu.
- Serve-me aí um vermute!
- Verimute? Qual verimute qual merda. Aqui no s’usam panelêrices. Bebes vinho cmós outros e mai nada.
Mesmo assim o João Bata ainda lha deu a escolher:
- Queres simples ou traçado?
Aqui fica o programa das festas de Toulões 2006, estando os leitores desde já convidados a participar.
Dele não constam os nomes dos artistas mais caros, mas sim dos bons, estando também implícita a hospitalidade das gentes de Toulões.
POVOS DAS REDONDEZAS, VENHAM À FESTA!
BOAS FÉRIAS A TODOS QUE EU TAMBÉM VOU!

segunda-feira, julho 24

21:2006 - Jogos menos tradicionais

Esta foto, tirada em 1992 em Trás os Montes, mostra um jogador de fito e uma assistência interessada.
Hoje vou cumprir a promessa feita há umas semanas a um leitor que mostrou interesse neste tema e vou aqui abordar um pouco os jogos tradicionais. Não daqueles jogos que todos conhecem. Os que são comuns, se não a todo o país pelo menos regionalmente, mas dos que, suponho eu, eram exclusivos, ou quase, aos habitantes de Toulões .
Digo, suponho eu, porque o mesmo jogo poderá ter um nome diferente noutra terra ou região e que eu desconheço.
É exemplo o Jogo da Bilharda que em Toulões se designa por Jogo do Moucho ou o Jogo do Espeta a que nós chamamos Jogo da Sovela ou até o popular Jogo do Galo que se joga ainda por todas as escolas. Por aqui, num tempo em papel e caneta escasseavam, jogava-se com marcações no chão, com pedrinhas que aqui dão pelo nome de chinas (tchinas) e que, por essa razão, se chamava mesmo o Jogo das Chinas.
À semelhança do que sucedia por todas as aldeias, os jogos tradicionais eram uma forma de entretenimento que servia para testar capacidades, desenvolver aptidões físicas e intelectuais e, quando decorriam de forma harmoniosa e civilizada, serviam, sobretudo, para fomentar amizades, tanto entre elementos de uma mesma equipa como entre adversários.
É claro que qualquer jogo pressupõe a perda e o ganho. Por esta razão, como naturalmente se entende, existe sempre o risco do desentendimento, mas, de um modo geral, eram bastas as vezes que o jogo, qualquer que ele fosse, e salvo algumas excepções, acabava sempre à volta de uma rodada de copos, naturalmente, paga pelos que perdedores. De qualquer forma sempre vale mais beber, mesmo perdendo e pagando, do que "jogar de arreda queixo".
Estes passatempos ou divertimentos tinham lugar nos tempos livres do árduo, e por vezes sofrido, trabalho do campo, sendo que, mesmo assim, alguns deles aconteciam em qualquer momento de pausa.
Era frequente, principalmente no fim das ceifas, quando se entulhavam os cereais, preparando-os para levar ao celeiro, ou nas sementeiras, fazerem-se desafios para ver quem conseguia por às costas sacas de trigo, cheias a rebentar, quando ainda o suor do esforço do trabalho ensopava a camisa.
Havia homens que logo de novos traziam a força bem puxada. Ainda se contam casos de alguns que chegaram a pôr ao ombro, sozinhos, sacas com cem quilos, arrancadas do chão com os fígados a rebentar sob a compressão dos abdominais.
Amiúde se viam também, à hora de uma bola retemperadora, principalmente jovens, desafiarem-se para o salto corrido (salto em comprimento), ou para o salto a pés juntos que são vulgares em qualquer parte. Enquanto uns fumavam uma cigarrada, ou matavam a sede, outros não queriam saber de descanso.
O salto a pés juntos tinha uma particularidade invulgar que era a de alguns saltadores utilizarem uma pedra em cada mão para saltar. Essas pedras, que alguns, para dar sorte acariciavam, no momento de dar o impulso para a frente, balançando os braços à retaguarda, eram atiradas para trás, fazendo as vezes de propulsor, permitindo chegar um bocadinho mais á frente.
Para fazer um bom salto as pedras deviam ser largadas no tempo certo pelo que o saltador tinha de ser possuidor de uma boa coordenação de movimentos.
Jogava-se ao Puxa o Pau em dois adversários se sentavam no chão, pés contra pés, pernas abertas e depois pegando ambos num pau com as mãos intercaladas, puxava cada um para si, tentando fazer com que o adversário levantasse as nalgas do chão.
E depois havia o Jogo da Vareta que já há muito desapareceu, afastado por uma nova tomada de consciência que as pessoas, entretanto, foram adquirindo gradualmente.
Este jogo, traçado para corredores natos, baseado na antiga corrida de perseguição, modelo que ainda hoje existe no ciclismo de pista, tomava por vezes foros de crueldade. Os dois corredores em despique faziam uma corrida num percurso na ordem dos 100, 150 metros. O da frente arrancava sempre com uma vantagem que variava de acordo com o combinado, mas que em média, rondava sempre os 5 ou 6 passos.
O corredor de trás levava na mão uma verdasca ou uma correia com o objectivo de recuperar a desvantagem e bater no da frente, enquanto não chegavam à meta. O da frente tinha de correr o mais depressa possível para não ser espancado. Chegados ao fim, a corrida era feita ao contrário invertendo os papéis. O perseguido passava a perseguidor.
Quando os corredores se equivaliam a coisa passava sem grande alarido. Agora quando havia grandes diferenças na velocidade de pernas, aquilo era mastocar sem dó nem piedade.
Eram as regras do jogo e só as aceitava quem queria. A aceitação do repto funcionava muito na base do "queres apostar!", á laia de provocação, propondo-se um avanço aceitável que podia variar da ida para a vinda.
Mas com alguma frequência este jogo acabava no Jogo da "Birúla" uma espécie de judo ou luta livre. Cada jogador dava uma moeda à "testemunha" e quem conseguisse derrubar o outro ganhava as duas moedas. Às vezes lá tinha de ir o fato domingueiro prá barrela e menos mal quando não era no inverno em que as ruas era só lama.
Em todos estes jogos havia sempre implícita uma certa intenção do medir de forças e o marcar de uma posição, por parte de alguns dos intervenientes, na tentativa de usufruir de uma certa hegemonia e até construir um currículo que poderia valer a obtenção de um trabalho.
Os mais valentes faziam sempre parte da primeira escolha permitindo-se mesmo mudar de patrão com alguma facilidade. Os mais fracos, que não tivessem a sorte de conseguir, por exemplo, entrar num quinto, estavam sujeitos passar um verão inteiro sem trabalhar.
Mas, em todos eles, alguns dos quais hoje se enquadram no âmbito desportivo, se iam fazendo ao longo do tempo, sempre que era oportuno, servindo de treino para as provas que se realizavam nas festas, duas vezes por ano, em que para além dos prémios que havia em disputa, havia o prestígio de que beneficiavam os vencedores.
Mas o ponto alto das tardes "desportivas" integradas nos festejos do Sto. António e da Sra. das Cabeças, eram as Cavalhadas. O nome não é exclusivo de cá mas a forma como se desenrolavam sim, embora haja algumas aldeias das redondezas também o tivessem adoptado.
Enquanto nalguns lados as cavalhadas são desfiles ou corridas a cavalo e outros em que existe uma certa semelhança com as de Toulões consistindo em encatrafiar uma bola num cesto ou enfiar uma lança numa argola ou roseta, não é a mesma coisa.
Aqui as Cavalhadas eram consideradas espectáculo maior. Atraiam imensa gente para ver aqueles cavaleiros armados em Dons. Quixote, tentarem lutar contra uns panêlos de barro pendurados numa corda, mais parecendo uma cantareira, com uma vara, geralmente das vacas, ou outra preparada propositadamente para o efeito.
Com o cavalo a galope em direcção ao alvo, com o objectivo de estchabaçar com uma pancada, um dos recipientes que eventualmente continha um prémio.
O prémios eram os mais diversificados: Rebuçados, moedas, tabaco em onças Duque ou maços de cigarros dos mais baratos da época (Matarratos, Provisórios, Definitivos, Três Vintes), água, cinza, terra, farinha, etc.
Num destes três últimos estava o mais cobiçado. No meio daquela mixórdia de terra e cacos, que não raras vezes atingia o cavaleiro, caía, ás vezes, como quando, no Outono, as folhas caem das árvores, uma folha de leituga com o valor facial de 20 "paus".
O entusiasmo pelas cavalhadas advinha do facto de, nesta altura, devido à actividade do contrabando (primeiro minério durante a guerra civil espanhola e depois o café até ao surto migratório do final dos anos 50 princípios de 60, para Lisboa ou para França, na busca de uma vida melhor), quase todas as famílias possuírem pelo menos um cavalo.
Na década de 70 já quase não havia cavalos em Toulões. À falta do elemento principal, as cavalhadas continuaram a fazer-se com burros até desaparecerem por completo.
As tardes desportivas das festas passaram então a fazer-se com os jogos de futebol entre solteiros e casados ou entre os da Terra e dos de Lisboa, corridas de bicicleta, etc. aparecendo mais tarde a moda do tiro aos pratos.
Hoje já só se faz a festa de vez em quando, mas quando se faz… FAZ-SE!
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
birúla;
queda desamparada
bola; pausa para descanso
encatrafiar; enfiar, encaixar
estchabaçar; partir em cacos
jogar de arreda queixo; perder, pagar e não pader beber
leituga; alface
mastocar; bater, sovar
nalgas; nádegas, rado
panêlos; púcaros de barro
quinto; modalidade de empreitada no trabalho da ceifa

sexta-feira, julho 14

20:2006 - A marrada



O campeonato do mundo já se acabou há uns dias, mas só hoje vou poder retirar a minha bandeira da janela, colocando este post em sua substituição.
Portugal portou-se bem. Podemos dizer que não fomos campeões do mundo mas ganhamos o nosso campeonato, o do reconhecimento.
Se ti João Páscoa estivesse ainda entre nós, ele que não perdia um relato radiofónico fosse de que acontecimento desportivo fosse - futebol, hóquei, ciclismo - num tempo em que a televisão não tinha conceito, diria inevitavelmente, sempre que o seu favorito não perdia, com aquela firmeza que fazia dele um homem sempre confiante: "Menos mal!"
Um campeonato completamente atípico.
Fazendo o balanço do CM2006 até às vésperas do nosso jogo com a Alemanha, o jornalista francês Stéphane REGY, do jornal Libération, escreveu um artigo intitulado "Touche de caractère" (para os menos afoitos no francês, touche é a linha lateral do relvado, sendo, neste caso, o banco do treinador).
Realista, sem facciosismos bacocos e sobretudo imparcial, nesse artigo é feito o elogio ao trabalho dos treinadores, principalmente os das equipas melhor sucedidas, que atingiram o patamar mais alto da competição, relegando para segundo plano as exibições individuais dos jogadores. Para ele, neste campeonato foi praticado um "futebol de autor".
O artigo começava por salientar uma frase de Guus Hiddink no início da prova que dizia:" O melhor jogador da Itália é o seu seleccionador" e efectivamente veio a verificar-se.
Se nos lembrarmos que o jogador Ribéry, numa conferência de imprensa antes do jogo França-Portugal, ironizou acerca do Scolari, dizendo exactamente o mesmo. A verdade é que, sem querer, acertou em cheio, indo de encontro à opinião de Stéphane REGY.
Alinhando ainda por uma alusão ao cinema, diz ele de Luiz Felipe Scolari, considerando-o o sósia oficial de Gene Hachman: - … é uma espécie de filosofo que pratica a "arte da guerra Sun Tzu" nos balneários.
- Klinsmman é o renovo do futebol Alemão.
- Lippi impôs-se dando um abanão nos velhos hábitos que dissociavam a palavra "squadra" da palavra"palmarés".
E continuando os elogios diz ele:
-
No país do "coaches", e com o aproximar da "Photo-finish", o CM2006 já designou os seus vencedores. Os apologistas do "coaching high-tech" dão pelo nome de Klinsmann, Lippi et Scolari e fazendo fé no que se diz a seu respeito, poderiam ser candidatos ao "Ballon d’or" em Dezembro próximo.
Ao treinador da França, não lhe retirando completamente o mérito de ter atingido esse patamar, "acusa-o" de se refugiar atrás do nome de Zidane e aguentar a imposição do regresso de alguns jogadores mais velhos, que, apesar de tudo, veio reforçar o espírito de grupo da equipa em redor do capitão.
Domenech, referindo-se a nós, foi provavelmente o treinador que mais infringiu a ética profissional, vindo posteriormente a emendar a mão relativamente a declarações proferidas anteriormente:
"Ne les réduisez pas à ces tricheries. Vous n'avez pas le droit, c'est une belle équipe qui a fait beaucoup de choses"
"a equipa portuguesa não é aquilo que dizem (ou aquilo que ele quis que dissessem – digo eu), mas sim um grupo de bravos jogadores, bem comandados por um excelente treinador".
Treinador é aquele que ensina uma equipa a não sofrer – Treina-lhe a dor.
A Itália saiu campeã por ter sido a equipa mais realista, depois de a França ter claudicado, em que o gesto, absurdo e irreflectido, de Zidane foi bem o reflexo disso.
É bem provável que o Italiano se tenha abeirado dele para lhe elogiar a mãe, e ele não foi de modas.
Para o bem ou para o mal, este gesto ter-lhe-á valido a nomeação para melhor jogador do torneio?
Apesar de tudo, neste campeonato do futebol de autor ele foi um dos últimos que praticou futebol de actor.
Ele que espalhou o perfume do futebol pelos estádios dos quatros cantos do planeta. Ele que, em Madrid, deliciou os espectadores, domando adversários com verónicas e chicuelinas, tão ao gosto espanhol, ao som de olés e passodobles, acaba a carreira desempenhando o papel de "O touro enraivecido".
Agora…
Transferindo este episódio para um tempo sitado aí uns 30 anos antes, passado no Vale da Gama, já ali para as bandas de do léque de Segura, onde o ti Mné Nogueira era o moiral.
O ti Mné Correia, grande lavrador, com três juntas, todas a lavrar, foi lá com uma vaca à cobrição.
A vaca foi posta à vontade dentro da cerca para a qual dava o curral, onde estava preso o touro que já era pai de uma manada. Não se sabendo se a Margaça perdera a lua pelo caminho, o certo é que o touro cortejou, cortejou, cheirou, cheirou, saltou, saltou, mas a vaca nunca se deixou por.
Dado algum tempo de espera, o ti Nogueira, concluindo que o animal se desinteressara, enlaçou-lhe a arreata nos cornos e foi prendê-lo à manjedoura. O touro deve ter-se sentido ferido na sua honra por ter sido retirado à fêmea e vai, espeta uma cornada no tratador deixando-o de tripa à banda.
- Ai-ai, ai-ai!- e o ti Mné Correia lá acudiu, arranjando maneira de levar o moiral ao hospital de Idanha, onde ficou cerca de quinze dias.
Durante uma visita de familiares que já sabiam da história disse-lhe um cunhado:
- Se calhar chamaste-lhe pandeleiro e ele virou-se a ti.
O Manel Nogueira, já recomposto e pronto p'ra paródia, contou então a sua versão do sucedido:
-
Antes fosse. Quando é com ele não se importa, o pior é quando lhe tocam na família.
É que o cabrão, quando eu o estava a prender, a ferver por ter visto fugir os cem mil réis do salto, puxei-lhe a corda e disse-lhe ao ouvido que a mãe era uma vaca e ele não se foi de modas.

sábado, julho 1

19-2006:FORÇA PORTUGAL


À janela uma bandeira e no relvado uma nação inteira
FORÇA PORTUGAL (*)
Quarenta anos depois atingimos de novo uma meia final do campeonato do mundo.
Do de 1966 tenho apenas a recordação do 5 a 3 à Coreia. Nem sequer da me lembro da meia final contra a Inglaterra, nem do Eusébio, considerado o melhor jogador e melhor marcador do torneio, lavado em lágrimas após a derrota com os ingleses, nem nada.
A televisão não era o que é hoje.
No entanto, lembro-me de um episódio por causa desse jogo (cinco a três foi a conta que Deus fez) como se fosse hoje.
Lembro-me do ti Zé Pirolas, polícia na Idanha, ter ido á nossa casa pedir a telefonia para ouvir o relato e, depois do reviralho, gritar que nem um desalmado com a vitória portuguesa.
Tanto eu, que brincava distraidamente, como a minha mãe e a mulher dele, a ti Pachina Leitoa, ficamos surpreendidos com a vibrante comemoração do Pirolas.
-Rapaziada vamos a eles. Vamos lá fazer melhor que em 1966!

(*) Divisa da Selecção Nacional inscrita no autocarro que transporta os jogadores e a comitiva.

sexta-feira, junho 23

18-2006: Defumemos o São João


Se por um lado o mês de Junho é o mês dos ninhos e da passarada; se é o mês do solstício que nos traz o estio que tempera as searas e as apura para terminarem decepadas sob um sol tórrido que até assa canas à sombra (como dizia jocosamente o velho Eusébio, genuíno alentejano de Alter do Chão, que durante uns anos foi adoptado pelas gentes desta terra, pondo nas palavras um segundo sentido - "até há sacanas à sombra"); ele é também o mês dos santos populares que, um pouco por todo o lado, põem meio mundo em reboliço, a cheirar a sardinha e a rosmaninho durante quinze dias.
Embora Toulões tenha como orago o popular Santo António, no qual o povo inteirinho deposita toda a sua devoção, que se manifestava (agora só de vez em quando) na celebração dos festejos realizados anualmente, em Agosto, é, no entanto, o São João que leva a palma, no que concerne o mobilizar de almas nesta quadra em que os dois santos rivais, Santo António e São Pedro, são timidamente lembrados.
Nas vésperas do São João, ao anoitecer, a cada porta se fazia uma fogueira. Dois ou três dias antes, começava a acumular-se rosmaninho junto ao local onde vão ser acesas as fogueiras e cada um fazia ao sua reserva.
No regresso dos trabalhos do campo havia sempre tempo para um desvio fugaz, do caminho, para ajeitar dois braçados de rosmanos e levá-los até casa. Não se podia começar a juntar com muita antecedência sob pena de quando se lhe fosse deitar o fogo já estivessem secos.
A fogueira quer o rosmaninho verde, para a fumegar intensamente.
Toda a santa gente, novos e velhos, salvava aquele pequeno braseiro fumegante, extravasando alegria pela noite dentro, pelo menos enquanto houver rosmanos para queimar e fazer fumo, que, nessa noite, enevoa toda a aldeia.
O fumo intenso por vezes provocava acidentes. Bastas vezes, havia faísca da grande, quando cabeças, vindas de lados opostos, chocavam em pleno salto.
- Recordo ainda um amigo que foi fazer exame da 4ª com um olho mais roxo que uma flor de rosmano.
A rapaziada procurava encontrar alento para dar continuação à festa e "correr a manilha", saltando, uma a uma, todas a fogueiras por onde passava, procurando impressionar as raparigas, exclamando frases que se repetiam ocasionalmente nesta quadra e patenteavam o estado de espírito de cada um:
"Em louvor do S. João defumemos o coração"
Os mais velhos; digo melhor: as mais velhas, já que os homens eram pouco dados a este incómodo, não sentindo, nem a pujança nem a motivação para saltar, aproveitam para tomar banhos de fumo e, assim, "atabafar" a sarna incomodativa que, na maior parte das vezes, não passava de comichão nervosa. Diz o povo que uns banhos ascéticos de fumo de rosmaninho, rejuvenescem a pele e aliviam a coceira.
"Em louvor do percevelho defumemos o pantelho"
As mulheres, mais supersticiosas, faziam a fogueira mesmo à porta de casa deitando-lhe erva do paraíso, para intensificar o efeito do defumadouro. As portas ficavam escancaradas e o fumo desta erva, com um forte aroma de incenso, misturado com o do rosmaninho, empurrava-se para dentro com um avental, uma manta ou com um pano desfraldado. As casas mais afastadas eram defumadas com uma tocha retirada da fogueira.
Defumar é perfumar. O intenso aroma a lavanda, exalado pelo fumo proveniente da queima, entra pelas casas para purificar o ambiente e expulsar os espíritos que por elas cirandam. No final, põe-se então um pouco de azeite, também ele defumado, no buraco de fechadura para impedir que os espíritos voltem a entrar.
"Em louvor do rosmano defumemos o catano"
Havia também quem aproveitasse, o que a tradição trazia à tona dos dias, para tirar conclusões científicas e acertar contas com o futuro. É que nisto da agricultura é sempre bom saber antecipadamente o que nos reserva o São Pedro.
O ti Sarinéu, sábio nas questões da previsão do tempo, era o senhor boletim meteorológico, segundo consta, muito mais fiável que o tão afamado manda chuva, Dr. Antímio de Azevedo.
Nunca se ouviu dizer a ninguém: "lá esta o Sarinéu a meter água".
Observava o comportamento dos animais, o voo dos pássaros, principalmente das andorinhas, se era alto ou rasteiro, observava o astro e outras coisas mais para saber se chovia nos dias imediatos.
No dia de S. João, tinha sempre a preocupação de ir verificar, à fogueira do adro, para que lado o vento levava o fumo. Com tantas fogueiras que havia na aldeia esta não era escolhida ao acaso. O adro é um largo que se situa na confluência de duas ruas orientadas de tal forma que parecem desenhadas sobre a rosa-dos-ventos com o norte apontado ao polo.
Esta observação, que lhe indicava a orientação do vento, mantinha-se nos cinco dias seguintes (até ao São Pedro), a fim de prognosticar o tempo para o ano inteiro. Durante esse período a orientação que predominasse era a que iria prevalecer para a maior parte do ano.
Assim, sendo a predominância dos lados da Serra da Morracha (Norte) indicava que seria um ano frio e seco. Se viesse dos Malhadis (Sul) teríamos um ano húmido e quente, mas se o vento viesse do lado dos Frades (Oeste) o ano seria, por certo, frio e húmido.
Para o vento que vinha de Leste não havia previsão, mas fazendo fé no adágio de que "de Espanha nem bom vento nem bom casamento" adivinhava-se borrasca da valente, "por supuesto".
A prova provada sentia-se, no inverno, quando a gélida aragem que soprava, oriunda da Sierra de Gata, até arrepiava os gorrões dos caminhos.
Mas voltando às fogueiras.
Como em quase tudo também neste caso existem rivalidades quanto à maior e melhor fogueira da aldeia. Se a cada porta existia uma fogueira também, nalguns casos, os vizinhos se agrupavam, e uniam esforços, para fazer uma fogueira comum. Eram geralmente três os locais onde tradicionalmente se faziam as mais concorridas. O Adro, o Terreiro das Baraças e o largo do Poço da Malhadinha.
A fogueira do Adro era da canalha da escola. Por ser perto da casa da professora, nessa tarde, depois das aulas, iam em bandos, para o campo arrancar rosmanos e lá vinha cada um com seu molhinho, para engrossar o monte que se iria queimar à porta da mestra. Esta razão deixava-a, de certa forma, fora de compita.
O despique era quase sempre entre o Terreiro das Baraças e o Poço da Malhadinha.
Num ano em que um dos rapazes, querendo agradar a noiva, juntou dois ou três amigos, roubaram, emprestada, a carroça ao velho Txintxanau e foram aos Dreitos carregá-la de rosmanos para queimar no largo do Poço da Malhadinha. Nesse ano fez-se lá uma fogueira descomunal que dificilmente alguém conseguiu saltar. As faúlhas indo cair dentro do poço que servia a população deu origem a um dito que se dizia aos garotos e que às vezes os deixava desconsertados.
"Foste tu que deitaste fogo ao poço e ateaste o rabo ao gato!?"
Para rematar, agora digo eu:
"Em louvor da tradição defumemos o São João" e já que vem a propósito defumemos também a nossa selecção!

quarta-feira, junho 14

17-2006: Os frascos

Antes: Seara de centeio no Monte Velho de Cima. Paisagem rara nos dias que correm.
Depois: Esta é a paisagem mais comun que podemos encontrar.
Um montado no Carrascal cheio de mato entre os azinheiros.
- Ó Zé, ó Tó, ó Zétó, ó merda cagalhão - bradava a ti Cascaroa, baralhada com os nomes dos três filhos.
Largando os afazeres em volta da masseira, na azáfama de ter de aprontar o pão para levar ao forno, assomou fugazmente ao postigo da porta de casa para chamar pelo mais novo, assim que sentiu a algazarra da canalha à saída da escola.
O Zetó bem ouvia a mãe, mas fazia-se dissimulado. Naquele instante, a prioridade era ir aliviar águas à rua de trás, juntamente com os amigos. Depois do palheiro do ti Flacisco, numa parte mais inclinada da rua, mijavam todos ao mesmo tempo para uma pocinha, espécie de regadeira em ponto pequeno, e quantos mais fossem melhor, para a fazer transvazar e verem a enchente correr pela rua abaixo, torcendo para que fosse ultrapassada a marca deixada na vez anterior. Só depois, o Zetó, à pressa, ia comer a bodinha que a mãe já lhe tinha preparada.
A boda era uma forma ardil de fazer comer os garotos mais renitentes à comida, pondo-lhe pedacinhos de pão com queijo ou chouriço prontinhos a comer, geralmente acompanhados de uma gemada fortificante, sempre com um pouco de vinho ou cerveja, de preferência preta, porque de pequeno é que se começa a ser homem.
"O vinho abre o peito e a cerveja alarga ss costelados".
A alguns garotos, nem com o Ceregomil que o Ti Felizardo trazia da Espanha, junto com alguns chocolates e "riboçados", alpergatas e talhos de fazenda de pana que contrabandeava por encomenda para ganhar a vida, fazia proveito o que teimosamente ingeriam.
Terminada a pequena merenda, lá ia o Zetó ajudar à horta enquanto os dois irmãos, o Tó, e o Zé, mais velhos, andavam por lá com as ovelhas que, por vezes, também ele guardava.
Mais de meia primavera já tinha passado. Com o mês de Junho chegavam os ninhos e, consequentemente, as romarias aos montados e aos olivais que todos conheciam tão bem como conheciam o caminho entre a casa e a escola.
Era a cisma pelos ninhos de rola. Palmilhava-se termo e mais termo, sempre de olhar virado ao céu como que a procurar ajuda divina, na esperança de encontrar aquele simples emaranhado de pauzinhos que os caracteriza, instavelmente apoiados numa forquilha de ramos ou numa pernada mais grossa. Depois era só subir à árvore, sozinho quando se podia, ou, então, com a ajuda dos companheiros, tendo sempre o cuidado de verificar se a rola estava no ninho não fosse ela rejeitá-lo.
"Ninho rejeitado ovo gorado e nem o cuco o quer dado".
A Granja, o Pradinho o Vale da Ribeira das Corujas, o Vale de Cardas do lado de Alcafozes e o Monte Velho de Baixo e Monte Velho de Cima, o São Macal, o Carrascal do lado de Salvaterra e tantos outros lugares que todos os anos se cobriam grandes searas que lhe serviam de repasto, eram sítios a que a natureza dera condições para as rolas nidificarem.
O Tozé, quase se podia dizer, conhecia todo os azinheiros e sobreiras do montado, como conhecia as casas nas ruas de Toulões.
"Bem! O mesmo não se pode dizer do ti Chicote que uma vez, a fugir à venatória, escondeu a espingarda dentro da toca de um azinheiro perdendo-lhe o sítio até ao dia em que foi abatido, sem dó nem piedade, avolumando o monte de lenha que seria vendido em leilão para pagar o vinho à rapaziada, no dia do arranque do madeiro do Natal. Aquilo é que foi pontaria. Ao fim de vinte e tal anos, no meio de tanto azinheiro escolher logo um com um cano que rebentou com duas correntes de motosserra.
(Já me ia esquecendo de referir que aqui dizemos azinheiro em vez de azinheira e sobreira em vez de sobreiro).
Isto foi apenas um aparte, para dizer que a ninho achado raramente se lhe perdia o sítio, mas acabava-se sempre por referenciar a árvore com uma pedra ao toro, mais a fazer a marcação de posse do que de localização. Os ninhos eram de quem os achava primeiro e a pedra era apenas uma testemunha.

Uma das vezes em que o marido da senhora professora, ficou a tomar conta da escola enquanto ela teve de faltar, conhecendo a predilecção do Tozé por rolas, pediu-lhe que lhe arranjasse um casalinho, de preferência já a comer.
A comer era difícil, porque isso de tirar "borrachos-rolos" do ninho para criar, tem lá os seus quês. Tem de ser antes que voem. É preciso andar ali perto de um mês, duas vezes por dia, a encher-lhes o papo, grão a grão, sempre com o cuidado de não lhes partir o frágil bico, até se tornarem autónomas.
"Rolinha de colher partida passa fome toda a vida"
Quem não tinha trigo arranjava-o no rebusco da espiga ou na moagem do ti Chico Raxenol ou do ti Capinha, ganho a troco de uns recados.
Às vezes, a pretexto de uma visita ao moleiro, lá se metiam sorrateiramente duas "mancheias" ao bolso, tiradas da tulha que alimentava um sem-fim que elevava o trigo para uma tremonha de onde, por trepidação e gravidade, caía para o centro da mó.
Ninguém lhe encontrava a falta e as rolinhas agradeciam.
E dar-lhes de beber? Era um acto de ternura!
Depois de lhes encher o papo, metia-mos água na boca, punham-se a beber nos nossos lábios e ficavam a arrolar de satisfação.
O Tozé, sempre pronto a ajudar fosse quem fosse, acedeu ao pedido. Quando saiu ao recreio da manhã, foi, como habitualmente, com os colegas atrás do palheiro do ti Flacisco dar uma ajuda para aumentar o caudal da enchente rua abaixo e, pela surra, moscou-se, rumando às oliveiras do Pradinho para tirar os rolos que tinha encontrado uns dias antes e que já deviam estar capazes.
Entrando olival adentro, como que guiado pelo instinto de orientação dos pombos-correios, o Tozé vai direitinho à oliveira que tinha então marcado. Lá estava ainda o gorrão, de sentinela, a fazer fé de propriedade ao toro da velha oliveira carrasquenha.
Foi-se aproximando, cuidadosamente, para não atormentar a ninhada. Chegado debaixo da árvore logo se apercebeu que o ninho estava vazio. Rolos nem vê-los. Analisando-o, os vestígios indiciavam o abandono prematuro.
Pela quantidade de excrementos e pela consistência dos mesmos, deviam ter deixado o ninho nessa manhã ou no final da tarde do dia anterior.
Fora obra de gato-montês? Vestígios de sangue não havia. Teria sido a cobra?
Ficou desacorçoado. Tinha de encontrar outro ninho para justificar a falta à escola naquela tarde e arranjar uma atenuante para aliviar o castigo do qual, ele sabia, não se podia livrar.
"Mas que se lixasse. Mais vale um gosto que duas verdiçadas"
O Tozé, na impossibilidade de encontrar outro ninho que servisse para justificar a falta, voltou para casa e foi pedir emprestado, ao Barralito, um casal que ambos tinham tirado duas ou três semanas antes. Até finais do verão ainda ia a tempo de restituir o empréstimo.
No Domingo, já à tardinha, lá foi ele, meio amedrontado, entregar a encomenda ao senhor Zé que o recebeu muito bem e até lhe agradeceu. No entanto não se livrou do segundo ralhete da professora por ter faltado à escola. O primeiro tinha sido logo de manhã à saída da missa, onde tinha ido com a mãe e que lhe valeu um bom castigo.
Regar dois leirões de couves à poça e uma leira de feijões e outra de tomates de caldeiro ao rego.
No dia seguinte, como habitualmente, assim que a professora apareceu ao cimo da rua, foi o passa-a-palavra, pararam as correrias e foi o toca a reunir à porta da escola, bem encostadinhos à parede, alinhados numa fila, dois a dois, esperando pela chegada da senhora.
Abriu-se a porta, entraram todos e, como todas as segundas-feiras, a primeira pergunta foi:
- Quem é que ontem faltou à missa?
Silêncio absoluto.
A professora varre a sala para um lado com o olhar e, no movimento inverso, fixa-se na direcção do Barralito.
- Não vi o menino na igreja! Não foste à missa?
- Nada não!
- Nada não…, não! Nada não minha senhora.
- Nada não nha senhora!
- Explique-me lá porque razão, ontem o menino não foi à missa.
- A minha mãe pediu-me para ir com o gado
- Ainda por cima és mentiroso.
- Eu vi lá a tua mãe e ela disse-me que não sabia de ti.
Baixou a cabeça em sinal de anuimento, sem que a professora pedisse, levantou-se, e dirigiu-se para junto do quadro, local de todas as tormentas.
As vinte reguadas, condenação para o crime de falta à eucaristia, não foram poupadas.
O Tozé sentiu a primeira reguada na mão do Barralito como se lhe tivesse entrado pelo peito, já que ele faltara à missa para o poder ajudar a arranjar o casalinho de rolas.
Sentiu no goto atravessar-se-lhe o embaraço de não poder repor justiça, mas, num impulso de coragem, levantou-se da carteira tropeçando na sacola dos livros, e interpôs-se entre a professora e o seu grande e verdadeiro amigo do peito, o frasco, como se tratavam mutuamente, tal como se tratavam (e ainda tratam) os quintos para o resto da vida, depois de passarem à peluda.
- Essas reguadas são pra mim nha senhora. Por minha causa é que ele não foi à missa!

INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
Arrolar;
1] O mesmo que arrulhar 2] Hábito antigo de arrotar de satisfação depois de uma boa refeição
Cano; pernada oca de uma árvore
Dissimulado; teimoso, fingir que não ouve
Frasco; tratamento fraterno entre amigos
Gorrão;pedra de seixo
Quinto; tratam-se por quintos os rapazes/homens nascidos no mesmo ano e que vão juntos à inspecção e à tropa.
Verdiçadas; Pancadas com verdiceiro (verdasca), verdascada

sexta-feira, maio 26

16-2006: O Terreiro das Baraças


O terreiro das Baraças, no coração da Malhadinha, sempre foi dos lugares mais movimentados da aldeia. O mundo girava ali naquele largo.
Aos domingos, tirando a porta da Igreja na hora da missa e a porta do Salão às horas de baile, era lá que se juntava a povoléia para brincar, confraternizar e também discutir, mas só em pequenos grupos que o regedor andava vigilante.
Era lá que os homens tiravam teimas, no jogo da barra ou da malha.
Era lá que batiam a cavaquinha, no parapeito de uma qualquer janela, sempre acompanhados por uma assistência atenta e entendida, que conjecturava e ia fazendo os seus vaticínios.
Era lá que jogavam a raioula, que a taberna do ti Cavalinho e mais tarde a do ti Fontes eram logo ali ao lado.
Era lá que as raparigas jogavam ao mata e outros jogos da Quaresma e que os rapazes jogavam à sovela ou ao porro. Este tinha de ser um pouco mais afastado não fosse o diabo tecê-las, ao atirarem a pedrada ao alvo (porro), acertar onde menos se esperava.
Também era lá que, em noites de lua cheia, se fazia o baile das bruxas e se reunia a diabólica, antes de desabelhar pelas ruas em grande algazarra e desaparecer pelos campos absorvida pelas sombras que se escondem da lua. Na manhã seguinte constatavam-se as marcas da sua passagem em tudo quanto era "espinhos, espetos, cardos e carapetos".
E isto, podem crer que era verdade, porque testemunhos não faltavam.
O tempo foi passando, o tempo foi mudando, mas o largo foi continuando o mesmo.
Nas longas e quentes noites de verão funcionava ali o tribunal.
Ao serão, as mulheres sentadas num baturel, davam largas à sua veia justiceira, inquirindo, julgando e condenando, sempre à revelia, a vida alheia.
Nesse mesmo baturel sentava-se, aos domingos à tarde, quando a sombra já refrescava, o ti J’quim do Ribeirinho com o seu caixote de laranjas d’imbigo, mais doces que mel de abelha marçanica, colhidas nas laranjeiras lá da horta e vendidas a 6, 10 tostões. Quem aceitasse levar a dúzia era brindado com um cartuchinho de tremoços. "Não pensem já que foi aqui que as grandes multinacionais - tipo mequedonaldes - vieram buscar a ideia dos brindes promocionais. Nessa altura, já a farinha predilecta de muita canalha, trazia um soldadinho de colecção dentro da caixa".
O negócio sempre rendia o esforço de ter passado um verão a regar laranjeiras.
O ti J’quim era homem dado a grandes conversas. Falava, falava, falava. Por vezes perdia-se e perdia, tentando ser demasiado persuasivo na sua venda.
Já todos conheciam as suas histórias, principalmente aquelas em que fazia descrições pormenorizadas da cidade de Lisboa.
Ele, que nunca tinha ido à capital, conhecia-a apenas da cartografia militar, e pouco mais, mas falava dos monumentos, das ruas, dos bairros populares, como se lá tivesse sido carteiro toda a vida.
Não sabia uma letra, mas em contas ninguém lhe passava a peneira.
E memória? Prodigiosa. Qualquer coisa que lhe entrasse no sentido e que nela pusesse fé, era certo que ficava cativa naquela mioleira que, como ele dizia:
- A terra há-de mos comer, mexidos com ovos de pita choca.
Para verem a memória do homem dou-lhes um exemplo.
O correio (cartas e encomendas), era a ti Alfaiata que o ia buscar à Zebreira, fazendo diariamente a viagem de ida e volta a cavalo na sua burranca, sendo depois distribuído à porta da taberna do ti João Bata, que nessa altura tinha o depósito dos despachos dos CTT e também o telefone público. Estes serviços, mantendo os mesmos moldes, passaram, mais tarde, a funcionar na taberna do ti Fontes, mesmo ao pé do Terreiro das Baraças. Nesta altura já a ti Alfaiata tinha passado o lugar ao "homem do correio" que fazia o percurso ao contrário: vinha da Zebreira trazer a correspondência a Toulões e voltava.
A distribuição era feita ali mesmo. Todos os dias, mais ou menos à mesma hora, lá estava um magote de gente pronta para responder à chamada.
O ti J’quim raramente faltava à leitura do correio. Àquela hora arranjava sempre um tempo para fazer uma bola e ir ouvir nomear os destinatários das cartas que chegavam.
É aqui que ele puxa pela memória.
Quando via alguém que fazia vida no campo e passava muito tempo sem vir a casa, cujo nome fora mencionado, tratava logo de avisar:
- Vai lá à Conceição Donija (Dionísio) que tens lá carta! – mencionando sempre o dia em que a dita "fora lida" pela primeira vez, mesmo que já tivesse passado um mês ou dois. E o carimbo dos correios, descontando os dois ou três dias em que a carta andava em circulação, não enganava.
No terreiro das Baraças havia por vezes outras teimas, não que fizessem girar o mundo, mas às vazes faziam chispas.
Era digna de ser presenciada, quando aparecia o ti Zé Pintalgado e se pegava com o ti J’quim, ambos a discutir fosse que assunto fosse, a discussão resultante.
Uma luta de teimosos, cada um a querer dar mostras de maior sabedoria que o outro.
O ti Zé Pintalgado trazia sempre no bolso umas folhas de jornal que guardava religiosamente dobradas e embrulhadas. Exibia-as em algumas ocasiões, já com algumas letras sumidas, para mostrar notícias, aí com 5 ou 10 anos, que dissipavam dúvidas quanto a veracidade de algumas das suas tiradas.
Por vezes já era motivo de chacota e afinava quando o ti J’quim o picava:
- Atão e o Sr. Padre da Mata-Mourisca tamém dá leite, no é? – fazendo alusão a uma notícia sobre distribuição de leite em pó por parte do pároco que era referida numa das folhas do maço que mais parecia um velho pasquim.
Mas ele, sempre resposta pronta na ponta da língua, não se ficava e rematava de seguida:
- Atão tu que sabes tanto, mê paspalhão, responde-me lá a esta: Quantos quilos de serradura tenho de dar a comer o mê burro para cagar duas tábuas de solho em pau de pinho?
Mas, brincadeira à parte, o ti Zé Pintalgado era mesmo dono de grande sapiência.
Citava com frequência os prognósticos proféticos do Bandarra, uma espécie de Nostradamus à portuguesa, para enquadrar uma determinada situação.
- Já o Bandarra dizia…- e deitava p’rali um corgalho de versos, num arcaico que mal se percebia.
Falava da memória da água, e exemplificava o fenómeno com o funil com que o ti Cavalinho trasfegava o vinho, previamente baptizado, do pipo para o garrafão. E a coisa era mesmo verdade, porque o jornal fazia prova.
Sabia fazer contas com "cobrados", conhecia a história de Portugal de fio a pavio, falava das civilizações grega e romana e por aí fora.
Homem já entrado na idade, grande conversador e grande pedagogo, tinha sempre uma regra para ensinar aos mais novos, mas também gostava de lhes pregar umas rasteiras. Não eram raras as vezes em que punha à prova a sabedoria dos cachopos que vinham passar as férias escolares.
- Atão parente, em que ano andas? Sabes em que dinastia D. Pedro III foi rei de Portugal?
Nem esperava pela resposta e avançava logo com o sacramental problema do pombal das cem pombas e do gavião (lembram-se?), atrapalhando o raciocínio ao sortudo a quem tivesse calhado a rifa.
A dada altura é que foram elas.
Numas férias grandes, apareceu por ali um rapaz a cavalo numa montada que não precisava de esporadas nem de puxões de rédeas para se empinar nas patas traseiras e abrir, campo fora, desenfreada. Aquela Kawasaki 125 cross, que parecia um potro ainda por amansar, deixava tudo abismado. Com dois pinchos para lá e dois para cá ia à Granja e voltava.
Aquilo é que era uma novidade das valentes.
Era o filho do Ferreta, vaqueiro na Granja. Alguns ainda se lembravam dele em garoto, quando estudava no seminário. Sempre que cá vinha, ajudava o senhor padre António na missa, mas depois, tendo ido estudar para Coimbra, chegava à Granja de fugida para visitar os pais e nem vinha aos Toulões.
O bom do ti Zé, uma vez que o apanhou a jeito, tratou logo de lhe fazer o teste. O rapaz conseguiu inverter posições e, como grande malabarista da matemática que era, passou ele a questionar. Ao conseguir provar diante dos seus olhos, que 1 era igual a 2 e, depois, que 2+2 era igual a 5, deixou o ti Zé descomposto.
- Este sabe mai qu’ a justiça velha!
Recompondo-se, sacou da cartola o trunfo que guardava sempre que se via enrascado. O problema das laranjas que ainda ninguém lhe tinha resolvido. Nem ele o sabia resolver. Sabia apenas o resultado, mas revelá-lo..., tá quieto.
Ditou o problema sem grandes explicações.
O Zécá só pediu para recapitular:
- Ora vejamos: três guardas, metade das laranjas mais metade de uma sem partir nenhuma a cada um e ficou com zero laranjas.
- Quantas colheu?
Pede-lhe a "BIC cristal escrita normal" que guardava no bolso da véstia e, num papel com que o ti J’quim encartuchava os tremoços, faz meia dúzia de rabiscos, põe o problema em equação e apresenta a solução.
- Veja lá se está certo senhor Zé.
Olhando para o papel, pensa lá para com ele:
- Este gajo sabe tralha basta. Atão no é que atinou logo à primeira.
Rendido à inteligência do rapaz, lança um elogio em tom de desabafo:
- Já vi que sabes mai qu’ o Bandarra.
INTÉRPRETE PARA FORASTEIROS
baraças; 1] neste caso, o nome é alusivo à alcunha de uma família que habitava o largo(terreiro por não ser calcetado) e que lhe deu o nome. 2] cordeis
burranca; burra nova
corgalho; atado de coisas
desabelhar; retirar-se rapidamente, pôr-se a andar, desaparecer
fazer uma bola; fazer uma pausa no trabalho para fumar um cigarro ou beber água
laranjas d'imbigo; Laranjas de umbigo, laranjas da baía
leitura do correio; anunciar os nomes das pessoas a quem se detinava a correspondência
parente; Tratamento amistoso dado pelos mais velhos aos mais novos
paspalhão; palerma
passar a peneira; enganar, ludibriar
pincho; salto, pulo
povoléia; populaça

quarta-feira, maio 17

15-2006: Água na boca


"Isto é que é lousa!"
Em Toulões, esta expressão, acompanhada de um "humm" de satisfação e de uma lambidela de dedos, qualifica os melões, ou outra fruta da boa, desde que se trate de "cousa lousa", ou seja: coisa fina, apetitosa, saborosa, suculenta.
Para os apreciadores de bom queijo a expressão tem exactamente o mesmo valor. Significa que o produto é realmente de excelente qualidade.
Se alguém te disser - Não queiras que não presta! - aceita porque de certeza que é bom.
Por aqui o queijo sempre foi afamado. A sabedoria da feitura artesanal do queijo foi, e ainda é, empírica e vem de pais para filhos, embora hoje já não haja filhos para serem pastores nem para serem queijeiros.
Tanto nas queijeiras (locais onde se faz queijo) dos grandes coitos, onde o pastor trabalhava à soldada, como em sua casa, em que era o dono do seu rebanho, o trabalho era de uma dureza castigadora. Não sendo um trabalho pesado, implicava, no entanto, muitas horas de dedicação. Não havia domingos nem dias santos, porque, ao fim de semana, o rebanho também tinha de se alimentar e o leite não podia ser conservado.
E se o povo é categórico em dizer que "Vida de pastor e vida de cão são vidas de mandrião" ou "ao pastor e ao seu cão, Deus deu vida de calão", engana-se redondamente.
O rebanho não dá tréguas.
Mudar os bardos com cancelas pesadíssimas, todos os dias ou dia sim dia não, tosquiar, tratar das crias e sobretudo ordenhar.
A durereza desta última tarefa vê-se nos calos formados nos nós dos polegares como consequência da quantidade de ubres que muge duas vezes por dia. Uma ao raiar da aurora e a outra ao entardecer.
Neto e filho de pastores, ao ti Antónho dos Crostos, nasceram-lhe os dentes a andar aderrabo das ovelhas. Lembro-me de o ver, enrolar o cigarro com aquelas pontas dedos impregnados de nicotina, por força dos muitos anos a tirar o tabaco da onça Kentuky que guardava numa pataca de cabedal e a compo-lo na mortalha, dos quais sobressaiam aquelas bugalhas parasitas agarradas aos mata pulgas.
Para ter mesmo boa qualidade, o queijo necessita dos seguintes ingredientes:
- Leite de cabra ou ovelha que se apascente em pastagens macias (nem erva não muito viçosa nem pasto muito seco) dizem os especialistas modernos que confére melhores qualidades organoléticas ao queijo.
- Flor de Cardo de boa qualidade. Recolhida na altura certa e seca durante alguns dias. Põe-se a dose correcta de cardo num almofariz de madeira, junta-se água morna e pisa-se. Deixa-se a mistura macerar durante cerca de meia hora. Côa-se para o leite que já está na celha, junto ao lar, para adquirir a temperatura ideal a fim de que a coalhada adquira a consistência ao ponto.
Substituindo o cardo por um coagulante de origem animal (um pedacinho específico de estômago que é retirado quando se mata um cordeiro de leite) e uma cura rigorosa, teremos o famoso queijo queimoso, muito apreciado por quem gosta do queijo a apeguilhar.
- Muita limpeza nos utensílios, desde a ordenha até à cura (picheiro, cilho, acinchos, francela ou parreirão e local onde o queijo se vai tornar delicia).
- Se os pastores guardam os rebanhos são as sua mulheres que fazem o queijo. Como elemento principal, é necessário ter mão de queijeira (ou roupeira como se diz nalguns lados). Dizem os entendidos que a mão tem que estar fria na hora de calcar a coalhada. Mas eu tenho por mim que o melhor queijo desta região é feito com o coração.
- O sal tem de ser do lavado (não vale sal da salgadeira) e a palha centeia onde o queijo irá estagiar deverá ser mudada de vez em quando.
- Agora é só esperar aí uns quatro mesitos e verão o que é lousa.
Nos dias de hoje a descrição feita anteriormente já raramente acontece desta forma. Os pastores não são tão sacrificados. A maior parte vai dormir a casa todos os dias e aos fins-de-semana distribuem rações aos animais.
O processo de ordenha já é mecanizado, deixando ao pastor moderno tempo para usufruir mais da vida.
Os produtores de queijo, nomeadamente a Coperativa de Produtores de Idanha-a-Nova, têm agora todas as condições de higiéne e controle de qualidade (produtos devida e comprovadamente certificados) que proporcionam toda a confiança ao consumidor no produto que chega ao mercado.
Mas que me perdoem os que teimam em acabar com os produtos regionais de origem artesanal, impondo novas regras.
Eu continuo a gostar mais do queijo da terra, mesmo sabendo que de vez em quando lá há uma caganita que vai parar dentro do picheiro, mas que é retirada imediatamente.
Bem. Agora que o gado já está no rodeio, deixem-me ir descansar um pouco, mas antes quero dar-vos um pequeno conselho:
Não esquecer que o queijo provoca esquecimento.
Moderação!
INTÈRPRETE PARA FORASTEIROS
Acincho; Molde feito com uma tira de lata perfurada e um gancho que serve para regular o diâmetro de acordo com a quantidade de coalhada ou o tamanho pretendido para o queijo. A perfuração serve para fazer a drenagem do soro
Apeguilhar;Ter um sabor muito intenso (mais no queijo picante) que origina um consumo mais moderado. Antigamente fazian-se refeições só de pão e queijo. Sendo o queijo o conduto dizia-se que: "quanto mais apeguilha mais se poupa"
Andar aderrabo; Andar atrás de, perseguir
Calão: preguiçoso, mandrião
Cilho; Recipiente de barro (pequena celha) onde o leite, depois de coado, era colocado, adicionando-lhe o cardo, junto ao lume a uma distância que permita manter o leite a uma temperatura amena e constante (cerca de 30 ºC) enquanto o leito é coalhado.
Francela; Pequena bancada de madeira onde se coloca o acincho e se faz o queijo, com um ligeiro declive para escoamento do soro que corre para dentro de um recipiente.
Parreirão; O mesmo que a francela mas com capacidade para comportar 10, 12 ou até 15 queijos de uma só vez.
Queimoso; Picante
Soldada;Vencimento mensal que era composto por dinheiro e géneros.