quarta-feira, setembro 13

24-2006: No rescaldo da festa I I

Largo do Adro

Largo do Poço da Malhadinha
Ainda no rescaldo da festa, e desanuviando a neblina que nos turva a memória, ficam a descoberto outras histórias que marcaram muitos de nós.
Desde há pouco mais de meia dúzia de anos que as festas de Toulões se realizam na Terra da Cadela.
Aproveitando um ringue construído uns anos antes para suprir a carência de infra-estruturas desportivas para a juventude, (a destempo, já que quando havia rapaziada para jogar à bola, em qualquer parcela de lameira por amanhar se improvisava um campo de futebol e agora, que a aldeia está despovoada, fez-se um ringue para estar às moscas durante o ano, servindo apenas alguns dias durante o verão aos netos cá da terra que ainda vêm vindo visitar os avós), a autarquia, bem ou mal, associou ao ringue umas instalações para a realização das festas.
Essas instalações foram apetrechadas com todas as comodidades - palco com camarins para os artistas, casa para "comes e bebes" com resguardo para grelhador, balcão com telheiro e nem a "cantareira" para as prendas da quermesse ficou esquecida. Enfim, tentou-se dar mais utilidade àquele espaço e dignificar o trabalho de quem graciosamente se disponibiliza para fazer com que a tradição não desfaleça.
É certo que – e é caso para dizê-lo – "só serve uma vez por festa!". Mas esta iniciativa permitiu retirar a parte pagã das festividades do adro da igreja já que por ser um espaço bastante acanhado, em que, naqueles três dias, em termos de circulação de veículos, a povoação ficava partida ao meio, separando a Malhadinha do Cimo do Povo.
Como a mudança traz sempre resistência, a quebra deste hábito muito antigo chegara a gerar algumas guerras fratricidas.
Por mais de uma vez, festeiros com maior espírito de iniciativa, tentaram levar a festa para espaços mais amplos como eram o Largo do Poço da Malhadinha (chegou mesmo a esquiçar-se um plano que previa a construção do palco sobre o poço público que dá o nome ao largo, em vez de utilizar, como habitualmente, os reboques dos tractores) ou o Terreiro das Baraças, que apenas perdia por ser ligeiramente mais inclinado, mas, opiniões divididas, falta de consenso, as vozes discordantes levaram sempre a melhor.
Era a tal história: "Todos concordavam em mudar a festa de sítio desde que fosse para a porta do vizinho" por isso, lá continuou anos sucessivos encafuada na exiguidade do adro.
A solução encontrada de mudar a festa para fora do casario, foi de se lhe tirar o chapéu, mas, mesmo assim, os mais antigos e mais apegados a valores religiosos, não viram com bons olhos a nova localização.
É que o nome "Terra da Cadela", que por si só já era um valor, não podia ser evocado em vão em memória dos entes queridos dos Toulonenses que lá repousam.
Para todos os homens que, ao passar à porta do cemitério, repetiam o gesto que aprenderam desde criança, de descobrir a cabeça e se benzer em sinal de respeito pelos que já se foram, tirar o chapéu à decisão tomada era apenas para considerar a festa, naquele local, um fúnebre acontecimento.
O mesmo para as mulheres que, por uma razão comum carregavam o luto toda uma vida, se persignavam ao passar, baixando a cabeça e evitando olhar através das grades impedidas por uma consciência providencial, seria uma triste alegria.
Mas como diz o povo:
"Meu amigo, a cevada não é trigo e com o devido respeito, fez-se?... está feito e o que se fez tem jeito" portanto...
A vida continua e a tradição também!

7 comentários:

TSFM disse...

E viva a tradição

bettips disse...

Gosto do que (d)escreves, da raia, da lonjura, das tradições acesas, do campo imenso e sem mapa. Obg pelo tua passagem! E voltaremos a ver-nos nas abas do País, tu na fronteira da terra, eu na fronteira do mar. Abç

bettips disse...

E acrescento que ano passado estive no Outono aí! Monfortinho e tudo à volta. Essa côr e esse silêncio, os passaros azuis a voarem da estrada...deu-me saudade ao ler-te. Tenho fotos lindíssimas e de lonjuras! É uma grata recordação e, claro, conheço Toulões e pequenas terras esquecidas. Adorei Penha Garcia, um presépio ao por do sol, as pedras e as pessoas que encontrei.

Tozé Franco disse...

A Raia tem zonas muito bonitas.
Com estas descrições mais vontade temos de as conhecer.
Monfortinho, Penha Garcia e Monsanto são terras com sabor.
Imagino que Toulões também o seja mas, infelizmente , não conheço.
Obrigado pela visita e pelas palavras simpáticas.
Um abraço.

aavozaida disse...

Estive a ler as suas estórias. Um espanto!
E porque não escrever um livro?
Serei uma das suas leitoras, pode crer.
Um abraço de amizade.
Zaida

asn disse...

Vinha com o intuito de retribuir a sua amável visita ao meu blog "dispersamente", mas não posso passar sem lhe deixar mais umas palavras, depois de ler as estórias que tem vindo a contar neste seu/nosso sítio de encontro.
Quantas recordações me assaltaram, ao ler estes seus belíssimos textos reportados ao tempo de antes da luz eléctrica. Lembro-me de agumas situações parecidas, dos tempos em que a rua principal da aldeia, que também era a estrada de ligação com as outras terras à volta e a cidade, Viseu, ainda era de terra batida, de carros de bois e as consequentes bostas, da luz do petromax...
Do Cimo do Povo, do Eirô e dos afamados bailaricos no fundo do Povo, quantas vezes ao som do violino que um tio meu tão bem tocava; das minhas escaladas ao cimo duma enorme videira a fazer parreira, em casa da minha avó, aí com os meus 7 anos, a cantar a pedido dos espigadotes:"Na noite de Maio/Toca o violão/Ai que lindas pernas/Tem a Conceição!"
A Conceição já nem me podia ver/ouvir...
Ficarei a ser um visitante assíduo deste seu blogue.
Um grande abraço.
António

al cardoso disse...

E olhe que os habitantes do cemiterio, nao devem ter-se ralado a reclamar.

Pois que continue a festa por muitos anos.