quinta-feira, julho 16

13-2009: Metamorfose

Casulo inicial - 1ª fase

Casulo com abertura provisória - 2ª fase

Metamorfose consumada - 3ª fase

Na pungente pacatez que lancina na quietude das aldeias Raianas, a fazer crer que uma ruralidade dorida, a gravitar suspensa nos ponteiros do tempo, está à espera de melhores dias, eis que, inesperadamente, contrariando a opinião de quem suscita a dificuldade em algo de novo acontecer por aqui, surge uma fulgurante mudança metamórfica.
Originada pela intempérie que fustigou Toulões e toda a região de Idanha-a-Nova numa noite invernosa de há dois anos, estas três fotos atestam as transformações sofridas pela porta da casa, arrancada pelas marcegas, casulo onde viveram uma vida inteira a tia Adosinda e o ti Mné Régio; porta em cuja soleira o valor da honestidade e a honradez foram certa vez elevadas ao seu máximo grau. Uma história que talvez um dia ainda aqui há-de vir a ser contada.
Esta porta, abertura única de ligação da habitação com o mundo, característica tradicional do tipo de construção em algumas zonas do interior beirão, com a funcionalidade de, durante o estio, defender os seus ocupantes das agressivas temperaturas que assolam esta região, tornando-as mais escuras e, consequentemente, mais frescas.
A falta de luminosidade no interior destas casas foi também fonte inspiradora para o velho Eusébio, um alentejano de Alter do Chão que durante alguns anos fez vida como lenhador e corticeiro cá em Toulões, fazendo, nas horas vagas, de poeta e filósofo na taberna.
Estranhando o contraste entre a bracura do reboco afagado das casas do seu Alentejo e o xisto à vista das Beirãs, comparava as nossas casas, sombrias, com a mulher na sua essência, mais ou menos nestes termos:
"Estas casas sem janelas são como as mulheres: todas escuras por dentro. Entrando nelas, deixamos de enxergar, perdemo-nos nos seus meandros e tarda-se em conseguir tornar a ver a claridade do dia."


quinta-feira, julho 2

12-2009: Ao chegar a Velho


Em tchegando a velho,
Um homa é uma merda
Já nem lhe vale quem o herda
Perde o vigor, perde a posse
Mal mija, dá-lhe a tosse
Encarrapatam-se-lhe as orelhas
Mal vê po’trás das sobrancelhas
A um homa mirram-se-lhe os parentes
Ós poucos caem-lhe os dentes
Já nem tchega c’o escarro à pilheira
Malhar: nem na eira, nem na feira

Em tchegando a velho,
Um homa fica ca alma vazia
À falta de alma, sobra sabedoria
Mas, no sendo mais senhor do seu nariz,
Já ninguém faz caso do que ele diz.
(... palavras dos velhos. Eu só as alinhei.)

sábado, junho 6

11-2009: A caminho da EUROPA

Caminho de SEGURA (fronteira com a Europa)
Não pensava publicar este texto no dia de hoje, devido ao respeito pela reflexão que a lei obriga a guardar em véspera do acto eleitoral, não fosse ele, à ultima da hora, influenciar alguém a não ir votar. Mas como isto de eleições já não é o que era e o respeito pelos valores da cidadania parece ter ido a banhos, houve quem antecipasse os resultados enquanto eu gatafunhava estas linhas. Assim, realizadas as eleições, e depois de anunciada a vitória em toda a linha do seu vencedor, José Eduardo Bettencourt, estas parece terem ficado resolvidas.
Assim sendo, olhem, ...lá vai disto:
Alguém disse uma vez: "Desde a invenção da imprensa, esta tem servido a reis, eclesiásticos e governantes para controlar e manipular a opinião pública".
Acompanhando a evolução da imprensa através dos tempos desde a original máquina de Gutemberg, famosa por ter dado ao prelo a primeira edição impressa do famigerado jornal da caserna, revolucionando a forma de transmitir as notícias ao conferir-lhe o cunho da credibilidade (o que vem escrito em jornal não tem discussão), a história revela-nos esta verdade como insofismável. Hoje, graças ao avanço tecnológico que desenvolveu os meios de comunicação, fontes de polémica e lutas intestinas pelo seu controlo, o mesmo se verifica relativamente à televisão, a caixinha mágica que nos entra casa adentro e que dizem ter mudado o mundo.
Então, em tempo de eleições…ui,ui. Alegando o bem-estar do povo, é um "vê se te avias antes que eleitor te descubra a careca".
Com mais uma campanha eleitoral, cada partido pôs na rua a máquina de propaganda eleitoral, atido à influência exercida pela televisão junto dos potenciais eleitores. Para os elucidar sobre as vantagens de uma Europa Unida, a sobriedade e o bom senso deram lugar ao folclore. Aqui a palavra é coisa vã e todos os partidos fazem questão de usar a cantiga do cigano, tanto para embarrilar adversários políticos como para fazer chegar a sua mensagem a um eleitorado que, à força de tanta oratória caída à rua, já acredita mais no que dizem as pedras da caçada.
Em abono da verdade, são os pequenos partidos que, bombos da festa ou não, e nem sequer se podendo dizer que vão a votos para ajudar ao colorido das campanhas, não recaindo sobre estes a auréola redentora proporcionada pelos holofotes da televisão, pretendem ser esclarecedores e tentam fomentar o combate à abstenção. Contudo, sente-se-lhes no discurso, mais ou menos moderado, o pensamento nas legislativas que se aproximam e o tilintar dos 12 ou 13 euritos que vale cada cruzinha à frente da sua sigla .
Quanto aos partidos ditos maiores, circunstancialmente dizem o que convém, falam do acessório e omitem o principal. O debate para discutir a Europa, incentivando o apelo ao voto, parece mais ir mais no sentido de convencer aos abstencionistas a se manterem fiéis aos seus princípios, fica para depois de conhecidos os resultados eleitorais. Com mais ou menos votos, a ocupação dos 20 e picos lugares que cabem a Portugal no Parlamento Europeu pouco importa, já que esses, mais lugar, menos lugar, estão antecipadamente garantidos e com
salário de deputado Europeu melhorado.
Quanto aos discursos, que pretensamente se querem esclarecedores, alguns até os podemos considerar sem qualificação já que, pela maneira como os oradores, candidatos, atropelavam as palavras, não houve a possibilidade de dar credito à sua voz.
Veja-se o caso do secretário geral do PS (ou seria o nosso Primeiro - é que ainda não consegui entender esta destrinça de cargos) que, demonstrando um estreitamento cada vez maior entre os dois povos da península, se deslocou propositadamente a Valência para, com o seu homólogo espanhol, abrir em simultâneo a campanha eleitoral das Europeias nos dois países irmãos (em simultâneo é como quem diz: primeiro em Espanha e sete horas depois em Portugal).
Não fora a televisão, tanto espanhóis como portugueses não teriam tido a grata oportunidade de apreciar a eloquência de José Socrates a discursar num escorreito castelhano, espernicado numa pronúncia quase tão boa como a do ti Zé Domingos, daquela vez quando, em tempos de contrabando, entrou na igreja de Portage para negociar a carga do café com o padre da paróquia.
-
Cónho senhor cura, osté tiem que me pagar mais um catchito.
- Habla de espacio, José, que no te entiendo.
- Que inveja tengo dos crios espanholes que, com 4 o 5 anhitos, todos sabem hablar melhor que ió
– pensava o ti Zé em voz alta para o padre ouvir.
Depois de esmiuçado o discurso, concluiu-se que todos os espanhóis conseguiram perfeitamente entender a última frase: "Viva España, viva a Europa".
Para retribuir a generosidade a Sócrates, José Zapatero (não sei se o nome lhe assenta em redundância combinada com el sombrero de charro do Zapata, ou se alguma adjectivação a qualificá-lo como mau tocador de rabecão) veio abrir a campanha europeia no comício de Coimbra. Zapatero, num português tão límpido como as águas que flúem entre as margens do Mondego, e que até terão levado mais um pouco de desalento aos pescadores da Figueira da Foz, conseguiu esclarecer toda a gente do que é o ideal europeu e as vantagens de ser participativo na vida eleitoral Europeia. Com a sua característica bem espanhola de arrebatar simpatias, conquistou a dos portugueses, reforçando-lhes a opinião de que a Europa é para ser discutida pelos europeus e não pelos portugueses.
Para rematar este discurso, especialmente dirigido a "noestros hermanos", termina com dois emocionados vivas: "bibá pòrtugal, BIBÁ ESPAÑA!!!"

domingo, maio 24

10-2009: Lenga-lenga à porta

Para não ouvir " depois da casa arrombada trancas à porta... " escuso-me a aidentificar este local
(tal como aconteceu a uma enorme pia em "cantaria" na vinha do Ti Dominguinhos)
(outros exemplos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui... emuitos mais)


Miscelânea de lenga-lengas



Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta

Truz, truz, truz,
Nem chus, nem bus
Truz, truz, truz,
- Oh da casa!
Truz, truz, truz,
Pode-se entrar patroa?
Trago-lhe duas notícias
Quer a má ou quer a boa?
Truz, truz, truz,
- Quem vem lá?
- Gente viva, que morta não se quer cá!
- Onde é que estás?
-Na cadeirinha
- O que estás a fazer?
- Renda sem linha
Tiroliroliro
À porta assentada
Todos a dormir
Só eu acordada
Tiroliroliro
À porta assentada
Estou a fazer renda
Com uma linha apagada

segunda-feira, maio 11

8-2009: Fátima

Casa da Ti Flávia (adro)
Levas e levas de peregrinos em direcção a Fátima. E estrebuchem no papel os livres pensadores. Se não há sobrenatural, como eles afirmam, há pelo menos transcendência. Elêusis, Delfos, Meca, Compostela, Lourdes e outros locais onde o céu e a terra se confundem são a mesma Cova da Iria renovada no tempo. O ar miraculoso que ali se respira, mesmo que fraudulento, vem ao encontro de aparências recônditas do nosso subconsciente. O homem é um crédulo envergonhado quando tem de acreditar sozinho. Mas, se encontra companheiros de fé, desafia todas as críticas e absurdos. Apoiado no número, desinibido, faz de chavascais lugares santos, que visita sempre que pode, carregado das suas atribulações. E, em procissão, vai-as alijando pelo caminho, até que, despojado de todas as gangas mundanais, tem acesso disponível às nascentes sagradas que, parecendo manar do chão bendito que pisa, lhe brotam de dentro da própria alma.

Coimbra, 12 de Maio de 1975

MIGUEL TORGA, "Diário XII "

sexta-feira, abril 24

7-2009: Senhora do Almortão

Dia 27 de Abril, segunda feira, realiza-se mais uma tradicional romaria à Senhora do Almortão, padroeira do concelho de Idanha-a-Nova.
Uma das características desta romaria é o “dar as alvíssaras” à Santa por parte dos romeiros. Vindos de toda as terras do concelho, entoam a cantiga ao som do adufe cujas quadras, as mais conhecidas, se repetem ano a ano ou então, outras novas são elaboradas para o efeito ou saídas de improviso ali à porta da capela.
Todas elas, escolhidas ou não, estão sujeitas a fazer parte da recolha que compõe o “Cancioneiro da Senhora do Almortão”.

No que me toca, aqui deixo o meu contributo.
Senhora do Almortão
À vossa porta m’impino
Dai um rumo a Portugal
Que ele anda sem destino

Senhora do Almortão
Rogai pelos pecadores
Dai dignidade aos políticos
Equiparai-os aos pastores

Senhora do Almortão
Livrai-nos do desgoverno
Prometeram-nos o céu
E ofereceram-nos o Inferno

Senhora do Almortão
Livrai-nos desta crise
Dai alento aos Raianos
E a quem dele mais precise

Senhora do Almortão
Minha tão linda arraiana
Virai costa a Castela
Enquanto sejais Lusitana

Senhora do Almortão
Neste Abril lá estarei
Fazei cumprir a liberdade
Que ainda a não encontrei

quarta-feira, abril 8

6-2009: A crise da moiteira (3ª parte-FIM)

Foi num cenário em tudo semelhante ao descrito nos dois posts anteriores, com rivalidades já uma vez afloradas aqui, que se enquadra o episódio passado com um bem sucedido alfaiate da Zebreira, do qual vos dou aqui a minha versão. Baseada no que é comum contar-se na própria Zebreira, hoje vila, em Toulões e arredores, esta estória, da qual sobrou uma frase que se tornou adágio local para ilustrar situações de, digamos, alguma inabilidade: “Quem te disse a ti moiteira, …?”


Num tempo em que trabalhar por conta de outrem nem sequer era garantida a jorna ao fim do dia (e hoje não é diferente), ter vocação para aprender um ofício de artesão e a habilidade de o exercer, era uma alternativa para escapar ao difícil trabalho do campo.
O Henriques, acabada a terceira classe, aprendeu a geometria aplicada à traçagem a giz sobre os tecidos estendidos na planura da mesa de trabalho, as técnicas de utilização dos moldes, as de corte e costura das diferentes partes que compõem um fato, uma véstia, umas calças, debruadas e com algibeiras de vira, e outras farpelas usadas em dias festivos, fossem elas de saragoça, estopa ou pana espanhola.
E saiu-se alfaiate.
Em poucos anos, a mestria revelada na qualidade do trabalho apresentado, granjeara-lhe a confiança dos lavradores mais prósperos e outra gente distinta no trajar, com obras saídas da sua lavoura. Melhor só os afamados alfaiates da Covilhã. No pressuposto de que o alfaiate faz o homem, estes mágicos da transfiguração faziam de qualquer labrego endinheirado um fidalgo burguês de ar mais altivo que um ancho e espampanante pavão em período de acasalamento, criado no arraial do Vale Coelheiro.
Com a crise instalada no país, acentuada pela guerra civil de Espanha com reflexos em toda a zona de fronteira, que tal como uma enxurrada a inundar todos os redutos de esperança segundo o princípio dos vasos comunicantes, deixou os náufragos mergulhados numa ansiedade, expectantes em deitar mãos a uma bóia de salvação.
A clientela luzidia que lhe alumiava o governo da casa, ficou subitamente depauperada pela falta de condições de escoamento das colheitas. Feita a agulha do alfaiate para o remendão ou atraída pela novidade dos algibebes, precursores do pronto a vestir, recente novidade na indústria têxtil que rapidamente se impôs nas feiras, o Henriques viu-se forçado a embarcar a alfaiataria num processo de lay-off, deixando as letras de crédito do investimento feito na compra de uma moderna máquina de costura, já com sistema de chulear, a nadar no compromisso.
Para colmatar desta perfídia, ajeitava-se então a prestar uns serviços de barbeiro a uma escassa freguesia, também ela afogada na crise. Aos Sábados, depois da ceia, no lúgubre ambiente da oficina, entretanto adaptada a barbearia, iluminada pelo melhorado fluxo luminoso do gasómetro em substituição do ténue e bruxuleante cintilar do pavio da candeia e aos domingos, antes da missa, tinha motivos para dar largas ao regozijo de manobrar a tesoura, manuseada com uma habilidade inusitada, mas agora a cisalhar filamentos capilares. De resto, tirando uma vez ou outra durante a semana, invasões de pasmo irrompiam pela barbearia improvisada. Só o ícone de Nossa Senhora da Piedade ladeado pelo de São Domingos, ambos entalados no rebordo superior da moldura do espelho de provas, testemunhavam a sua amargura.
Ganhar a vida tornara-se difícil e fazer por ela, com o ofício, mesmo espremido, a não dar uma gota de sustento, passava por uma angustiante reconversão profissional: dar o corpo ao manifesto e alinhar no trabalho do campo.
Até aqui, as mãos mimosas, que raramente empunharam outra ferramenta com afagar mais agreste que a tesoura da costura e a pega do ferro das brasas de aprimorar a roupa, apenas sentiram o cabo da enxada numas fugazes cavadelas na horta das Tapadas. Lá era a mulher que mandava, mas também era ela que amanhava umas leiras de batatas e de hortaliças para o caldo e para a vianda. A falta de contacto com a dureza do trabalho agrícola deixava-o apreensivo quanto às suas faculdades.
Com o início do Verão veio a solução para os seus anseios.
Sem nunca ter sentido as mãos abrasadas pelo ríspido abarcar das paveias durante o estio das ceifas desde rapazote, entrou num quinto. Logo no primeiro dia uma reprimenda: “vieste pr’aqui a cêfer trigo para intcher o papo a uma pita, ó quêi?”.
Mesmo com a cúmplice ajuda dos camaradas, a reduzida produtividade levou o manajeiro, numa atitude visionária que viria a ter a sua aplicação com o fim da ditadura, a enquadrar-lhe a jeira com a das mulheres: “a trabalho igual salário igual”. Do ponto de vista da justiça laboral, não podia ser mais acertada, mas para ele foi uma facada no seu bom-nome de prestigiado alfaiate.
Poupado à humilhação do despedimento, tão aviltante como um alfaiate aparecer desgolado diante de gente após um dia de trabalho, lá se arranjou para fazer o resto do quinto a atar, a amontoar relheiros e a dar molhos ao carro para a acarreja até à eira. Acabou a ceifa de pulsos abertos pelo repetitivo estremecer do mongal, nas longas horas de malha na debulha retardada de uma meda centeio.
Até ao São Miguel o tempo foi célere a completar o ciclo das colheitas. Mal dera para alinhavar um fato ao Tchico Zé, que casava a filha, e já a falta de encomendas o empurrava de novo para os trabalhos agrícolas.
Sem nunca ter verdadeiramente calejado as mãos numa rabiça de arado, mal uma junta sabia encangar, meteu-se de ganhão a “labrar à torna”. Valeu-lhe o instinto tarimbado das vacas a orientarem a lavoura, seguindo o rasgo aberto na terra pela junta da frente, para ter aguentado dois dias sem ter sido obrigado a aviar a fatada.
Despedido, a fama de inadaptado correu a Zebreira. Enjeitado pelos seus e pela providência da Senhora da Piedade, todos viam a incompetência do Henriques fora da alfaiataria, sem meditar nas circunstâncias.
O Dr Crisóstomo, amigo, sabendo das suas dificuldades, intercedeu a favor do seu desânimo soprando-lhe a notícia: «O Manzarra está a meter gente no Monte Velho de Baixo para arranque do mato».
A vontade de ultrapassar a necessidade a tudo obrigava, nem que fosse meter-se a fossar terra no fim do mundo. Arrancar mato nos Toulões era de somenos, mesmo correndo o risco de ser acusado de usurpação de um posto de trabalho em território de rivais.
Com a proibição em fazer queimadas, grandes ranchos de homens e mulheres eram contratados para fazer esse trabalho, enquanto a terra ainda ressumasse a humidade das últimas chuvas.
Todo o mato, bravio, medrado por cabeços ávidos de terra revolta, era arrancado no estrito cumprimento da lei de Lavoisier: na Natureza nada se perde, tudo se transforma.
Incorporado num rancho de gente dos Toulões, em tempos de rivalidades mais agressivas que moitas de tojos, com o sistema nervoso na latência da explosão, resistia às provocações.
«Atão ó Henriques, no m’ queres fazer uns safões pró Inverno?»
«Atão no vês qu´o rapaz é alfaiate, no é albardêro.»
Bem lhe apetecia responder, “Sim, para o Inverno talho-te uma albarda”, mas o escárnio amadurecia-lhe a paciência e o trabalho calejava-lhe a dignidade. O desbravar de terra inculta seguia a eito, sempre a progredir até ao Ribeiro das Areias, com a mesma cadência com que se ia apagando a hostilidade dos touloneiros a um tresmalhado do rebanho da Zebreira.
Salvada a linha de água, com o cair do outro lado, tudo mudou. Num denso campo de giesta-piorna, quase impenetrável, sobressaía, imponente, uma piorneira mãe.
Um carro de lenha.
«Aquela é minha» disse o alfaiate aos seus botões, alentado com a esmola de tolerância proporcionada pelos rivais, desafiando-se a mostrar a sua valentia. Mas, arbusto com uns dez anos a ganhar corpo, não se deixa vencer por uma aragem de voluntariosidade.
Homem e piorneira lançam-se a uma compita de braço de ferro, passada, com o esquentar da animosidade pelo atrito da rixa, numa luta corpo a corpo sem honra nem glória. Impotente para arrancá-la à terra, firmemente enfateixada à vida, abraçou-se a ela exausto, desvanecendo. Caíu vagarosamente para trás, estatelando-se diante daquela enorme moita, com o sentimento dúbio de que a Natureza, norteada pela opinião dos que o subestimavam, troçava de si.
As imagens do filme dos seus dias, desde que falhara o primeiro pagamento das letras de crédito da máquina de costura, desfilaram-lhe na Via Láctea da meninge. Tira do bolso o lenço tabaqueiro e, num gesto arrastado pelo peso da resignação, limpa a fronte inundada de suor. Mas com uma voz cavernosa, ainda ofegante, questiona a vultuosa giesta.
- Mas quem te disse a ti moiteira que eu era o Henriques alfaiate da Zebreira?
Decidido a por fim à crise da moiteira, foi-se por um enxadão. Com artes de alfaiate, meteu o enorme arbusto lenhoso no fato e, de seguida, engravatou-o com as cores mais garridas com que traja a temperança.

A TODOS UMA FELIZ PÁSCOA

quinta-feira, abril 2

5-2009: A crise da moiteira (parte 2)


A Zebreira, com mais ou menos garantias de prosperidade, desde tempos ancestrais soube proporcionar meios de sobrevivência ao seu povo que, reconhecida e agradecidamente, retribuía venerando-lhe Santo Isidro, e Nossa Senhora da Piedade.
A Herdade das Casas do Soudo (ou Herdade da Zebreira como simplistamente a designamos), propriedade com mais de dois mil hectares, pertença do povo, é administrada pala Junta de Freguesia através de um sistema comunitário de exploração agro-pecuária implementado logo de início.
Deu pão a muitos lavradores, pastores e outros que, seguindo as regras estipuladas para o seu fabrico, dela tiravam usufruto.
Sendo possuidor de uma junta de vacas, condição primordial para poder ser admitido ao sorteio dos talhões disponibilizados numa das 3 folhas a distribuir para cultivo, qualquer habitante da Zebreira podia ali orientar a sua vida. Quem não reunisse essas condições podia dedicar-se à pastorícia nas outras duas folhas que ficavam a rodar em pousio para pastagem ou trabalhava à jeira para algum dos fruidores dessa benesse.
Este processo de exploração (objecto de vários estudos de carácter sociológico – ver aqui um deles) remonta ao início do Século XVII, tendo durado até 1954, altura em foi reformulado por um diploma legal emanado do Estado Novo até ao 25 de Abril. Nesta altura, a actividade na Herdade nitidamente reduzida por mor da emigração maciça de muitos trabalhadores para Lisboa e para o estrangeiro uns anos antes, passou, sob a égide de uma liberdade em botão, a ser gerido pelo método do "regabofe".
Mas este processo, antes da primeira reformulação, tinha uma particularidade constatada por muitos toulonenses. Apesar deste lugar anexo ser (ainda com a designação de Monte dos Toulões) parte integrante da Junta de Paróquia da Zebreira, até 1951, à qual todos os lavradores de Toulões pagavam os seus impostos, era-lhes sonegado o direito de utilização, pelo impedimento em participar nos "sorteios da Herdade".
Esta é provavelmente a origem da rivalidade fratricida que perdurou durante anos entre os povos de Toulões e da Zebreira. A oportunidade de se hostilizarem e até humilharem mutuamente, nunca era desperdiçada. Perante esta atitude da recíproca falta de cordialidade entre ambos os contactos eram pouco mais que ocasionais.
Os da Zebreira, salvo bem fundadas excepções, raramente se chegavam aos Toulões. Tão raras eram que dos dizeres do povo aqui nasceu o ditado: "Zebrêrenho que pr’aqui venha, só se for de ida à Snhô d’Assenha)" aludindo ao facto de Toulões se interpor no caminho que leva ao santuário da Senhora da Azenha em Monsanto, escondido pelo horizonte recortado do vulto majestoso da serra da Murracha.
Outros, mais empedernidos, glosavam o ditado substituindo "Assenha" por "lenha", chacoteando com os que, fazendo vida na Herdade, andavam aqui pelos arrabaldes ao rebusco de uns gravatos para aquecer o caldo. É que, dada a adesão à Campanha do Trigo decretada pelo Estado em 1929 e cujos resquícios vivem ainda nas ruínas da "Agrícola", nome dado por aqui à Estação Experimental de Culturas de Sequeiro, em agonia ali no leque de Segura, uma grande parte da Herdade foi arroteada, tendo sido dizimado o montado de azinho. Ganhou-se em área cultivável, mas os utilizadores da Herdade ficaram sem a lenha das limpezas.
Por sua vez, os dos Toulões apenas se deslocavam à sede de freguesia por três, vá lá quatro, motivos: para irem à feira de Setembro, que por questões de força maior terminavam quase sempre numa rodada de albroque; para irem ao mercado de Janeiro: a derradeira oportunidade de compra do bacorinho que dali a um ano, depois de anafado com o que a terra dá, haveria de morrer deitado e uma parte amortalhada na sua própria tripa e a outra sepultada na salgadeira até haver ordem para ser exumada; para irem ao ti João Afonso mandar lavrar o assento à canalha, às vezes procurando-o na horta.
Esta razão, por falta de vagar, dia a dia protelada ou delegada em alguém que inadiavelmente tivesse de lá se deslocar, acontecia frequentemente muito para além do prazo limite. A data de nascença, sob pena de coima, teria obrigatóriamente de se encaixar nos três (?) meses anteriores à data da participação. Este delegar de funções, a juntar ao facto de o Ti João Afonso tomar nota dos registos em papel de mortalha, sujeitos a posteriormente desaparecerem em fumo, aquando da transposição para os livros originava idades falsas e deturpações no apelido de família. Bastas vezes se encontram irmãos com apelidos diferentes, filhos ilegítimos à força.
Uma última razão para justificar uma ida à Zebreira, que só acontecia perante a eminente ameaça de extrema-unção, era para uma visita de médico ao Dr. Guesóstmo (Crisóstomo), sempre na esperança de não lhe ouvir uma palavra de despedida definitiva. Este médico municipal não era propriamente um João Semana como Fernando Namora que nesta época acudia à desgraça lá "detrás da serra", mas era digno do respeito de todos, também pela forma conciliadora com que lidava com as rivalidades entre Toulões e a Zebreira.
( CONTINUA... )

domingo, março 22

4-2009: A crise da moiteira (1ª parte)

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A crise, essa voraz predadora que de forma cíclica e mais ou menos previsível ataca os desgovernados, iludidos pelo faz de conta proporcionado à moderna sociedade de consumo, por uma economia condicionada pela vontade externa como é o caso da nossa, terá nascido do cruzamento de uma casta especulativa do lucro fácil com uma variedade de ganância sem escrúpulos.
Com a sua voracidade, movida por um insaciável apetite, depois de esganar os mais indefesos e de seguida lhes sorver as vísceras, qual "manteiga em focinho de cão" como disse Jerónimo num eloquente discurso, deita-se aos fortes, não lhes conseguindo, no entanto, abocanhar a brancura imaculada dos colarinhos.
O nosso país, economicamente debilitado, cujas empresas devido à contaminação pela crise, ou aproveitando-se fraudulentamente dela, ficam descapitalizadas de valor financeiro e, por arrastamento, humano, deixa famílias inteiras endividadas à mercê de tudo o que a pobreza possa acarretar.
Para combater o flagelo, o governo, sempre atento, tomou as medidas necessárias e mais eficazes. Sabendo que a chegada da crise deixa uma grande quantidade de portugueses de calças na mão, expeditamente impôs o apertar do cinto e tratou de distribuir cartas com as regras do jogo das paciências, para se entreterem nas filas dos centros de emprego até passar esta "maré de azar".
Depois será só baralhar e dar de novo.

Em tempos remotos a crise era palavra com significado menos abrangente. Se hoje a sua pronúncia nos suscita de imediato má política energética, má política ecoriómico-financeira, caos, falência laboral... tudo chavões inventados para nos manter ocupados a fazer contas à vida enquanto nos dão cabo dela, antigamente todas estas palavras resumiam-se a: "tempo da fome", como lembram os mais velhos.

Aqui pela raia, nomeadamente em Toulões, aldeia encalacrada entre latifúndios, para quem não possuísse terras de onde tirar o sustento para assegurar a sobrevivência da família, a crise era uma constante. Mesmo assim, os que as possuíam, lavradores remediados, em anos de fraco gradar dificilmente conseguiam cumprir com o pagamento das sementes e adubos adquiridos a prestações, recorrendo ao crédito muitas vezes avalizado por fiadores agiotas. À primeira falha não se coibiam de cobrar a dívida com uma parcela de terra de valor várias vezes superior.
Para a população em geral, na sua grande maioria de classe baixa, a falta de oportunidades para conseguir um trabalho com continuidade sempre foram escassas. Este trabalho, sazonal, que mesmo remunerado com um salário mísero não chegava para todos, originava situações de carência extrema a que nem sempre se podia acudir, nem com a caridade da família e da vizinhança. Salvo louváveis excepções, os patrões pouco ou nada se preocupavam com a gente que os servia. Pediam braços para a labuta sem se importarem se para além dos braços havia uma pessoa necessitada.
Era o tempo em que se saía de casa ao primeiro cantar do galo para ir trabalhar longe. Chegados ao local, depois de calcorreadas uma, duas e às vezes mais léguas, sabe-se lá por que lapatcheiros, se a meteorologia destemperasse, voltava-se pelo mesmo caminho com a jorna perdida, às vezes dias a fio.
Não havia dinheiro, não havia consumo.
A economia não estava estruturada tal como hoje a conhecemos e o dia-a-dia era feito na base da auto-suficiênçia.
Na horta estava a fonte da alimentação. Um porco que dava carne para todo o ano, umas galinhas, umas cabras e um burro para quem podia, eram complementos que não estavam ao alcance de todos. Adquiriam-se as faltas com as sobras: cortas-me o cabelo e eu pago-te com meio alqueire de centeio; dás-me um litro de azeite e dou-te uma dúzia de ovos... e vivia-se.

Apesar de todas as amargas vicissitudes passadas ao longo dos anos, com crises sucessivas que não deixam saudades, estes homens e mulheres guardam desses tempos uma memória musealizada que faz parte da história desta terra.

Tal como ainda hoje, a crise era um aguilhão que espicaçava na carne. A necessidade obrigava ao desenrasca. Trabalhava-se ao que houvesse, mesmo se a aplicação do ditado do "sapateiro remendão..." fizesse todo o sentido, tal como aconteceu com o alfaiate da Zebreira, cuja história será objecto do próximo post.

ATÉ LÁ.....

quarta-feira, março 4

3-2009: Vaca-Galhana 2009 (o filme)


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Como vos dei conta no post anterior, e aqui, este ano o Entrudo dos Toulões foi um arcaz de surpresas. Uma delas, como o demonstra o filme que ilustra este texto, foi a Vaca-Galhana que saiu à rua decorridas que foram mais de 4 décadas sobre a sua queda no esquecimento.
No ano passado, pela mão do Tchico Nacinzo, este animal endiabrado ainda fez uma tentativa de correr-a-manilha pelas ruas do povo. Pena foi que o tempo, temendo ser escorneado no anticiclone, ou levar com alguma tchapeireda alostrada com rabo da dita na superfície frontal, tratou de fazer apelo ao que a meteorologia tem de mais desagradável e, com alguma precipitação, inviabilizou o desenrolar do acontecimento.
Mesmo assim, constrangida, ainda deu um ar da sua graça entre muros na sala de convívio do Centro de Dia, fazendo, o seu ressurgimento, destapar a caixinha das memórias aos mais velhos.

Este minuto de imagens, pacífica recriação surgida espontaneamente à margem do cortejo, é um pequeno exemplo de como era e de como agia a Vaca-Galhana até ao início dos anos 60, altura em que este tradicional costume foi abandonado.
Tivesse sido a sério e nenhuma das pessoas que assiste ao evoluir deste insólito costume estaria a salvo de ser molestado por esta esquelética figura encorpada pelo ti Antónho Faca, que já não tem propriamente o fulgor dos jovens que a manobravam antigamente, nem esta demonstração tem o mesmo propósito que tinha naquele tempo.
Este ano foi assim, para o ano logo veremos.

quinta-feira, fevereiro 26

2- 2009: O Carnaval dos Toulões (crónica)


Adeus Entrudo, viva o Carnaval.
Apesar de se dizer que Entrudo e Carnaval são uma mesmíssima coisa, tenho por mim que, por este recanto da Raia Perdida, o Entrudo sempre manteve alguma distância em relação ao Carnaval. Embora ambos sejam sinónimo de folguedo, de comportamento provocador, de excessiva falta de respeito, Carnaval era coisa que piava fino, coisa mais palaciana.
O Entrudo não: beirão dos sete costados, bruto do quinto dos infernos
, chocalheiro, trogalheiro, era mais terra-a-terra, mais intimista, mais do povo.

Sempre viveu paredes-meias com o Entrudo do lado e juntos… o Entrudo era o Diabo.
Nunca destapava a cara. Cobria-a com um reposteiro velho, um farrapo azado ou um pano de renda surripiado ao bocal de um asado onde cumpria a função de o enfeitar e proteger o copo e o telhador das cagadelas desses dípteros domésticos, exímias máquinas voadoras que dão pelo nome de moscas, quase tão aborrecidas quanto o Entrudo.
Enquanto fazia a ronda pelas ruas, às vezes de casa em casa, atentando meio mundo com as suas tropelias e as mais diversas manifestações de escárnio, o Entrudo defendia-se de todas as investidas assovinadas pela calhandrice, na tentativa de não se deixar desmascarar. Pois era o anonimato, às vezes difícil de manter, que transmitia ao acontecimento um certo clima ritualista.
Em tempos idos, este personagem exercia na canalha um fascínio que inspirava tanto a curiosidade da descoberta (saber quem se escondia por detrás daquela carantonha), como o medo associado à possibilidade de dar de caras com um dos seres sobrenaturais que povoavam a sua imaginação, alimentada por histórias contadas pelos mais velhos ao serão, às vezes verdadeiras lições com que se iniciavam os garotos na formação da maturidade e no ganho de afoitesa.
Este ano, decididamente, o Entrudo dos Toulões deixou cair a carantonha. Contudo, se na forma de se expandir tende para uma colagem a algum modernismo importado que não trás nenhuma mais valia, vindo apenas espicaçar o vírus do consumismo que também já contaminou às aldeias, o espírito no seio das famílias manteve-se fiel ao tradicional.
A prová-lo está o cortejo que no Domingo Gordo percorreu as ruas do povo, realizado após um bom almoço em que não faltou a tradicional bexida dos ossos e o arroz doce que dantes era servido numa travessa, com muita canela, e se comia de barranhão.
Como já uma vez aqui referi, foi um daqueles acontecimentos com os quais somos apanhados de surpresa quando cá chegamos, desprevenidos, apenas para retemperar.
Numa tentativa de dar animação à aldeia, a Junta de Freguesia em boa hora se lembrou de organizar um concurso de Carnaval, com prémios e tudo, apesar das limitações inerentes à falta de meios. Tocou a mobilizar, inscrições feitas e foi levado a cabo um corso carnavalesco à semelhança do que se vai fazendo noutras terras. Mesmo um pouco contra o que se previa, a adesão foi massiva e a imaginação dos farsantes não podia ser mais profícua.
Este facto confirma as tradições das aldeias como um elemento aglutinador e impulsionador da coesão entre os seus habitantes, tanto dos residentes como dos que vivem fora, muitos deles, por lá, mortinhos por matar saudades da família e dos amigos.
Com três carros alegóricos, dois deles bem representativos da etnografia local, onde não faltou a brejeirice que caracteriza estes eventos e um terceiro, marcado pela originalidade de ser um carneiro a puxar uma "carroça".
Também um sem número de foliões de todas as idades, mais ou menos vanguardistas, todos de cara destapada, deram corpo ao desfile. Até o Bata, vejam só, teve as aldrácias de transformar aquele belo exemplar de Labrador que lhe guarda o quintal num andrajoso manequim da casa Chanel e correr as ruas com ele pela trela.
A lembrar o Entrudo à moda antiga, também não faltou a emblemática Vaca-Galhana (vê-la também aqui) que desta vez, sem a fugacidade do manobrador (o Tónho Faca já deve andar nos setentas), passou mansa e sem deixar, na calçada, o rasto perfumado da sua passagem.
Pelo que se comentava, foi um acontecimento sem precedentes apesar de algumas memórias ainda darem fé de um famoso cortejo realizado no início dos anos 80 sob a temática do contrabando.
Consta que as ruas se encheram de burros carregados com sacos de palha a fazerem as vezes das cargas do café, perseguidos pelos Carabineiros espanhóis com os seus característicos "chapéus em folha-de-flandres", substituídos por caldeirinhas de lata e penicos de esmalte do mais fino talhe e também pela Guarda Fiscal que marcou presença trajada a rigor, com a habitual farda de cotim e umas reluzentes polainas confeccionadas com a melhor cortiça virgem que se produz no nosso montado.
Foi uma paródia em redor de assunto sério que marcou uma época, quando o recurso ao comércio ilícito de produtos entre os dois lados da fronteira, sempre vigiada pelas autoridades, era um meio de sobrevivência para muitas famílias.
Um dos "quadros" que mais marcou quem assistiu ao Entrudo desse ano, e porque a jocosidade é do que mais resiste à limpeza da memória, foi a imitação do ti Felizardo e do Chico Calibranca. Esta dupla de contrabandistas, pai e filho, que nunca levou uma carga de café para Espanha sem ser às costas, tinha uma particularidade contada por quem acompanhava com eles.
O Chico, com ligeiro atraso de intelecto que não lhe permitia assimilar uma réstia de educação, não conseguia conter uns frequentes, e às vezes denunciadores, ataques de flatulência de que era acometido durante as caminhadas pela calada da noite com a carga às costas, não guardando assim o respeito devido ao seu progenitor.
Como no Carnaval ninguém leva a mal e que no Intrudo vale tudo (menos tchincar olhos, como dizia o ti Lavacolhos) a coisa compôs-se.
Pegando neste "rabo-de-palha" (salvo seja), dois Entrudos galhofeiros desse ano vestiram a pele do ti Felizardo e do filho. Este, servindo-se de um dispositivo que imitia uns bem sonoros flatos, não se livrava do ralhête do pai:
- "Um-rais-ta-caia Tchico, atão adonde é q’está o respêto. Ah mê javardo, atão tu peidas-te assim… à mnha frente… sem mai nem menos."
E durante todo o percurso, lá lhe vai o pai arriando umas valentes cartchantadas no Chico, para o tornar mais comedido com o uso da artilharia.

Mas este ano foi diferente: maior participação, alguma organização (a coisa não foi espontânea), mais condizente com a realidade actual e com algumas partidas valentes às quais também não escapei.
Lá me pregaram a partida de, à última da hora, como mandam as regras carnavalescas em que o improviso é o melhor conselheiro, ser integrado no júri e ter de repartir a injustiça que foi definir uma ordem de classificação dos participantes inscritos, para a atribuição dos prémios.
A verdade é que, independentemente dessa ordem final, apesar da crise deprimente que se faz sentir e com a Europa a considerar-nos um país de taciturnos, como diz o meu amigo Fortunato no seu Lusonews, o Carnaval dos Toulões deixou o povo feliz.