segunda-feira, dezembro 31

terça-feira, dezembro 11

Memórias curtas 14 - Madeiro do Natal - TOULÕES 2012


Foto (composta) roubada do f de António Marcelo

A custo, a tradição de o Madeiro do Natal ser colocado a cada dia 8 de Dezembro no adro da matriz de Toulões ainda se vai mantendo, graças à carolice e à vontade de quem conserva alguma força para ajudar a aguentá-la viva.
Defraudando também as expectativas de alguns gaudiantes “ambientalistas” detractores da genuinidade das tradições, que atropelam com leis cegas o simbolismo desta manifestação cultural (apenas vêem na queima do Madeiro do Natal uma fonte de poluição a libertar, em algumas horas, o carbono armazenado por uma azinheira durante um século), o acolhedor calor do Madeiro irá continuar a aquecer a nossa consoada.
Este ano ainda se cá arranjaram dois rapazes das sortes para representar a tesura desta comunidade envelhecida, a fazer pela vida na extrema oriental da Raia “Esquecida”.
Coube ao filho do Tó General e ao do Paulinho Torres, a incumbência da agilizar logísticas para, apesar de com um dia de atraso, o fazerem chegar inteiro e sem mazelas ao lugar onde na noite de Natal será “apichado” para consolo da população.

Mas se hoje por força das circunstâncias demográficas assim acontece, tempos houve em que os candidatos a mancebos eram tantos que no dia 7, depois da ceia, ao primeiro toque do búzio a marcar a hora de mobilizar, se formavam pelotões como que a querer antecipar a tão ansiada ida à tropa. Em marcha apressada até ao local da contenda, sempre na expectativa de que o azinheiro, previamente escolhido, desse pouca luta, evitando o tardar do seu derrube e antecipando o cerco ao petisco retemperador.
O arranque, a esgalha e o transporte do Madeiro, tendo acompanhado a evolução dos tempos, faz-se agora com recurso a maquinaria moderna (escavadoras, motosserras, tractores). Antigamente essas tarefas eram feitas com trabalho braçal a poder de enxadão de cabo atarracado, de “malho” com o fio bem aguçado e do garrafão quase sempre tresmalhado (este ainda hoje se mantem) para aquecer e dar alento aos manobradores da ferramenta. O transporte até ao povo era feito num carro de vacas, seguindo-se um ritual quase litúrgico, repetido ano após ano.

Findava-se o ano de 1947 que, segundo dizem os velhos, terá sido o ano do maior Madeiro alguma vez descarregado no adro.
A referência a esta data foi dada pelo que resta de uma malta de Toulões, forçuda, naquele ano a folgar do rigor imposto na finda empreitada do canal (rede hídrica de regadio da campina de Idanha) onde entregara o corpo ao trabalho, e então se agarrava ao que houvesse. Neste dia, com a jorna dada à comunidade por força da tradição, todos os meios eram reunidos para ir fazer o serão ao azinhal do Monte Velho em redor de um robusto azinheiro, entroncado como um deus mitológico de Miguel Ângelo.
A noite era de lobos. Uma invernia tormentosa, persistente em ofuscar a luz emitida por uns candeeiros de mão que mal alumiavam fora dos limites da chaminé e em condicionar a agilidade aos contendores, era propícia ao amolecimento da terra, facilitando assim a tarefa do descalce. Só o tamanho das raízes escondidas, que ancoram a árvore à terra, poderia ditar a demora no tombar do madeiro.
Mas se esta chuva incessante, que ensopava a terra e os ossos, ajudava ao desenlace das raízes, ela perturbava grandemente a operação de remoção e transporte do madeiro. Na hora de carregar o descomunal tronco, já uma luz difusa por entre nuvens anunciava o dia, reuniu-se todo o contingente, ali vindo ao que desse e viesse, para empurrar, puxar, rebolar aquele peso morto para cima do carro, entretanto colocado no fundo da caldeira onde a árvore enraizara.
Dois carros, cada qual com sua junta, vieram para o efeito. Um para carregar o madeiro e o outro para levar a lenha que, vendida, iria render o bastante para organizar uma festa de arromba, com tocador contratado e tudo para animar o povo.
E se assim deveria ser feito assim se fez!
Com a força bruta de trinta almas resistentes à chuva e ao frio, o madeiro foi acamado sobre o tabuleiro do carro, atado consolidadamente com um “calabre” e encaixados os “fugueiros”. Jungidas as duas juntas de vacas, uma ao tiro e a outra à frente a puxar com a ajuda dum cambão, a primeira força feita pelos animais mal fez bulir o carro dentro da cova. Mais um incentivo e outra bulidela. Mais outro incentivo e nada, e nada, e não havia meios.
Foi então o tocar a rebate para reunir de novo a massa humana presente que, com toda a pujança proporcionada por um garrafão cheio, arrancara o madeiro. Cada qual no seu posto obedecendo ao comando sincronizado com o esticão dado pelas vacas, em dois ou três impulsos o carro saiu daquela cratera.
Consta que sobre o terreno empapado por entre os azinheiros do montado, dali até apanhar caminho firme onde uma só junta chegaria para puxar, o carro fora levado de cadeirinha por aquela rapaziada, carregado com o madeiro e até levaria o tocador se lá estivesse.

Chegado ao povo, acompanhado em cortejo até ao adro da igreja, aí foi descarregado e colocado. Talvez sem a leveza das figuras postas pelas moças no presépio mas, certamente, com a mesma devoção ao Menino Jesus.

quarta-feira, novembro 28

Memórias Curtas 13 - OE 2013

Paradoxalmente, este Orçamento de Estado 2013, votado e aprovado ontem, foi discutido e votado na generalidade a 31 de Outubro, dia mundial da poupança e em simultâneo do americanizado dia das bruxas (dia do esbanjamento), seguindo-se a este o dia de todos os santos e o dia de finados.
É de letra que qualquer orçamento se resume a um conjunto de valores parcelares a grande parte errados, mas cujo somatório resulta num valor total aproximado ao pretendido.
Mas há orçamentos e orçamentos.
Superstições à parte, alguns erram sempre nas mesmas parcelas.
Fatalidades!

sexta-feira, novembro 16

Memórias curtas 12: ...



Hoje um tempo de eleição passou fugaz pela minha rua. Fugaz mas rude. Num pronto mudou de cara como quem muda de máscara nos bastidores de uma peça trágica e com voz de trovão fustigou o que encontrou pelo caminho.
À sua passagem, a calçada ficou pejada de austeridade.

terça-feira, novembro 13

Memórias curtas 11 - Responde o tempo que passa



Responde o tempo que passa

Pergunto ao tempo de outrora
P’la força do meu egrégio povo
Tanto trabalho que o devora
Há um Estado que o explora
Para bem dum Estado Novo
 
Pergunto ao tempo que passa
Pelos cravos da democracia
Caça-se o voto com negaça
E o povo rende-se na praça
Às ilusões da burguesia
 
Pergunto ao tempo há-de vir
Pelas cores da minha bandeira
Há meia haste para brandir
Fala-me de um Hino a falir
E dum idioma sem fronteira

Pergunto ao tempo da razão
Pela verdade na justiça
Quanto valerá a rectidão
Se a mentira lavra a tostão
Emparelhada com a cobiça

Pergunto ao tempo perdido
Pela gente do meu do meu país
Fala-me de um povo esquecido
De um povo sem apelido
Filho duma árvore sem raiz

Pergunto ao tempo caduco
E de Portugal, que se espera?
Fala-me dum Estado eunuco
Dum povo a cantar de cuco
A anuciar nova Primavera

Toulões, Outubro de 2012

sábado, outubro 13

DITOS & DITADOS




Não há companhia mais prestável que a de uma boa navalha.
Com uma navalha se descasca a fruta, se fazem rocas e colheres, se casa o pão com o conduto e com uma navalha se amedronta o medo.
Sim, que o medo foge de uma navalha como o Diabo da Cruz.

terça-feira, outubro 2

DITOS & DITADOS

(Clicar na imagem para aumentar)

- ALTO E PÁRA O BALHO! Quem é que apalpou a minha filha?
- FOI O TOCADOR.
- Atão siga a dança, qu' ele é homa de confiança.

sexta-feira, setembro 28

DITOS & DITADOS

Vigília em Belém - (Foto de Vera Moutinho - SAPO)

Tão ladrão é o que rouba a horta
como o que fica à porta

quinta-feira, fevereiro 2

Memórias Curtas 10 - SINAIS

Foto roubada ao Eddy

O texto que se segue, é a transcrição da crónica radiofónica SINAIS de hoje, da autoria do jornalista (poeta) Fernando Alves, transmitida diariamente na TSF.


O Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Universidade Nova de Lisboa, chama-nos para a mesa já neste sábado. O encontro está marcado para o Centro Cultural Raiano, em Idanha a Nova. O mote: "Da terra à mesa, às mesas do campo".
A iniciativa, coordenada cientificamente pelo antropólogo Vasco Valadares Teixeira, reúne uma boa mesa de investigadores em dois painéis, depois do almoço. Eles propõem-se "valorizar as dimensões de identidade e representação" que turismo e gastronomia contêm. É uma ementa fora da receita habitual. A intenção é mastigar bem algumas ideias. E o interesse temático dos dois painéis de discussão abre apetites, desafia gostos muito apurados.
Escutai e amesendai-vos.
A socióloga Maria Manuel Valagão, que há muito nos desafia para regressarmos ao campo, à mesa, dizendo-nos que aquilo a que chamamos acompanhamento deve ser a base principal, intimando-nos a que descubramos o sabor da urtiga, vai estar em Idanha-a-Nova aludindo ao modo como a tradição e a inovação alimentar podem gerar "novas dinâmicas nos territórios". José Manuel Sobral, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, vai falar da alimentação local como recurso. Inês Ornelas e Castro, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova, aborda a "cultura da viagem: o espaço e a mesa do Outro". Vasco Valadares Teixeira propõe uma comunicação intitulada "A-pelos e penas: algumas notas sobre perdizes". Pedro Prista, do ISCTE, fala de "Hospitalidades e gastronomias". Maria João Figueiredo Forte leva-nos "da cerdeira à cereja do Fundão".
Ora o que é uma cerdeira? Há tantos povoados, por essas serras, colhendo o nome Cerdeira. Há uma Cerdeira no Gerês, outra na Serra do Açor, não longe do Piódão. E o brasão dessa Cerdeira, terra de tibornadas e chanfanas, é uma cerejeira, entre dois cachos de uvas.
Chamam-se Cerdeira, esses lugares, por se situarem onde existem, ou existiam, muitas cerejeiras. Outra coisa não é, pois, a Cerdeira, senão o outro nome de cerejeira, prunus avium com a sua drupa globosa, tão carnuda.
Em Idanha-a-Nova, este fim de semana, à mesa do campo, os sentidos abertos para a surpresa das urtigas. Em fundo, a enorme desigualdade que existe no acesso aos alimentos.
Está à mesa José Manuel Sobral, que muitas vezes nos lembrou o quanto a História da Humanidade depende da alimentação.
Sabes quanta água é consumida para produzir um bife?
Ele tem dito coisa mais amargas que urtigas. Sei lá eu, que nunca provei urtigas… E contudo, às mesas do campo, com a crise em fundo, as urtigas são como as cerejas.

segunda-feira, janeiro 23

Memórias curtas 9 - As janeiras do ti Bertlameu

Bartolomeu Moreira, cego de nascença e espontaneamente de "Cego" alcunhado por o destino o ter estigmatizado ao negar-lhe a faculdade de poder desfrutar das cores da vida, fazia o que podia com a sua menina dos olhos, a mulher, para dar aos filhos o pão e a criação.
Se a natureza foi madrasta em lhe conceder a vista, deu-lhe entretanto um ouvido que bem poderia ser o diapasão afinador da harmoniosa lira de Apollo.
Esta dádiva, por ele desenvolvida de forma natural, conjugada com umas lições de guitarra ministradas pela dedicação dos manos mêlgos, seus primos, também eles com a visão mergulhada no mundo das trevas, armou-o para vencer adversidades - sem contar com as partidas dos garotos e as não detectadas na ponta da verdasquinha de marmeleiro a tactear caminho pelas ruas do povo - permitiu-lhe adquirir uma exímia forma de harpejar as cordas tensas do instrumento. Os mêlgos ceguinhos, o João e o António - pese embora a diferença de idade, dois ou três anos, eram duas figuras cópia uma da outra - vinham todos os anos uns dias no Verão e pelo Natal e por aqui deambulavam por todo o lado sempre confiantes. Estudados, cultos, faziam a admiração da canalhada a ouvir-lhes contar histórias, lidas com a ponta dos dedos num livro sobre o colo, sentados à porta do ti Celézinha, no baturel de pedra também barra de tribunal improvisado para julgamento da vida alheia nos longos serões estivais. Estes dois homens com paciência de santo e a calma dum cantchal, virtuosos da guitarra com tarimba ganha em grandes serenatas coimbrãs, eram o bálsamo do "Bertlameu Cego", no seu afã em descobrir todos os segredos que o bojo do moderno alaúde podia desvendar e em fazer-se tocador.
Um ofício ingrato.
Impedido de ganhar a vida a trabalhar normalmente como os demais homens, abrilhantava bailes de casamento e a consequente sarinata aos noivos na noite nupcial e aos domingos advertia a mocidade de partido com modas aprendidas a ouvir cantar os vendedores de folhetos nas feiras onde, com o seu toque, ora melodioso, ora repicado, costumava acompanhar a mulher, também cantadeira de circunstância enquanto estendia a bolsa das esmolas ao espírito samaritano.
Arrondeava-se assim, com este fado vadio, a ganhar uns vinténs para quebrar as agruras de uma vida de pobre. A esmola, pedida com a vergonha dos honestos, foi durante muitos anos um meio de subsistência.
Pedir era uma necessidade e esta mandava-o para longe. Pelo final da primavera, com o seu vagar, envolvido na escuridão que o rodeava, dava uma ajuda à mulher no arrear do matcheco, no embêlfá-lo à carroça - habitação improvisada para estas campanhas – e, com os filhos atrás enquanto foram pequenos, partiam para paragens de além Tejo. Portalegre, Nisa, Ponte de Sôr eram terras prometidas, distantes daquelas onde a boa vontade parecia por vezes já esgotada. Voltavam a casa quando as partidas do tempo não permitiam mais pernoitar ao relento.
Do "Sã Meguel" aos Santos e dos Santos ao Natal eram duas cantchadas de semeador.
O Natal era passado como pedia a regra: no conchego da família, apegados ao calor de três cavacas que incandesciam as trempes onde se empoleirava a sertã das filhoses. Consoavam umas batatas com couves, em dia de festa excepcionalmente regadas de azeite a tento no gasto e com pouco conduto, se ainda o houvesse. Comia-se mais uma filhó ou duas e cama, que o petróleo estava caro e no dia seguinte era preciso levantar cedo para ir beijar o Menino, a única luz que impressiona a retina dum cego, como lho fizera ver o ti Chico-à-Rolha, extremoso sacristão.
Findas as festas natalícias, aproveitando a ocasião que a tradição lhes proporcionava na Epifania, juntava-se a eles uma irmã de Bartolomeu, também ceguinha, com família constituída, capaz de ir à fonte de cântaro à cabeça, lavar roupa no ribeiro e fazer a lida da casa como as mulheres "mai listras".
E iam pedir as janeiras.
Os três de braço dado, guiados pelos olhos brilhantes da Luisa, sempre a reflectir agradecimento, percorriam as ruas do povo a cantar de porta em porta. Bartolomeu, com a guitarra presa por um cordel à laia de bandoleira, e a irmã, de cesta enfiada no braço livre, ladeavam a Luisa, cantadeira de cantorias apropriadas à ocasião, sempre a rematar no pedido de "qualquer coisinha" para juntar na cesta.
Uma vez, era domingo, os manos mêlgos, para dar um empurrão às janeiras mercê do carisma gozado no seio da comunidade toulonense, juntaram-se ao trio. Acabada a missa, inicia-se o cante de porta em porta, liderado pelo requintado quadrar do João "Ceguinho", sempre em obediência à matriz que regula este tradicional evento: saudações pessoais invocativas dos nomes dos donos da casa, respeitando a hierarquia dos membros da família, elogiando-lhe os dotes físicos, morais e materiais, em particular os da dona. Era ela, com o coração mais mole e conhecedora do inventário da despensa, a chegar à porta e oferecer uma peça vinda de um fumeiro ainda fresco, um fanoco de pão sovado, uns ovos, umas passas, uma medida de feijões grandes que, diziam os cavadores, davam força ao agarrarem-se às costas.
Dinheiro pouco: a carteira da casa era austeramente gerida pelo dono.
Se algum coração mais empedernido recusasse contribuir, eventualmente a reagir a uma réstia de inveja pelo vislumbre de uma camisa lavada num pobre, logo detectada pelo quinto sentido do João, avesso a maus íntimos e hostilidades gratuitas manifestadas pelo fazer pouco da desgraça alheia, por entre uma cantata de cortesia em bom tempo dissimulava uma quadra de reserva, chapeirada nas ventas a quem estivesse a pedi-las.
Deixe lá essas janeiras
Que a nós já não dão jeito
Guarde-as ao lado da pedra
Que ainda lhe bate no peito
Episódios escassos, estes.
Bartolomeu e a mulher, reconhecidamente merecedores da estima de todos, raramente eram deixados em pouco. Terminada a ronda das janeiras, por uma vez pedidas e cantadas com três guitarras e um coro, surtiu o efeito da abastança. O espectáculo, oferecido à porta de cada um, apreciado e elogiado por cada qual, teve retribuição a condizer: uma cesta merendeira que chegava para dar de comer a um rancho de quinteiros.
Repartida irmãmente a colecta, os manos mêlgos abdicando da parte que lhes caberia, Bartolomeu, de guitarra às costas, com a cesta das "coisinhas" numa mão e a varinha de marmeleiro na outra, partiu sozinho para casa, ali ao cimo do povo no caminho como quem vai para serra, enquanto a mulher ficou a dar uma mão nos arrumos à cunhada.
Àquela hora, já a chocalhada dos rebanhos ao longe, a descerem do Serralhão, era música para os seus ouvidos, relógio a assinalar o tempo de recolher.
Entrou em casa e depositou a cesta no corredor. A mulher arrumá-la-ia quando chegasse com os garotos. Foi acautelar a guitarra na sala e chegou-se ao borralho mortiço. Não tardou, na rua passava a algazarra dos chocalhos e campainhas em uníssono com os berros de comando do pastor a orientar o gado e o ladrar dos cães de passagem, num diálogo de ralho com os que, de sentinela, davam sinal de presença nos quintais.
Algum tempo depois chegou a mulher. Avivou o lume com mais uns gravatos, arrumou-lhe uma panela com água para pôr a ceia e foi acomodar o vivo. Procurou depois pela cesta ao marido, mas não deu com ela. Misteriosamente, da cesta das janeiras apenas restava a dita. Duns batateiros, dumas farinheiras, de dois ou três butchanos em ponto de irem acabar de curar numa vara de fumeiro sobre o borralho, nem o cheiro restou. Uma boa tora de toucinho e outra de presunto, curado como só a ti Maria da Piedade sabia, a bolsa com à volta de meia quarta de feijão e outra tanta de grãs, pão … "foi tudo com dono".
Encontrada a porta entreaberta, as primeiras suspeitas recaíram sobre os cães dos pastores. Bastas vezes, estes intrusos eram postos a marchar de casa para fora à tanganhada, mas os sem vergonha, talvez atraídos pela farta pobreza da casa, a cada pé de passada lá entravam de novo.
Melhor vistas as coisas, dedução lógica da Luisa, os cães, por mais que fossem, não rapavam o fundo à cesta; e cão, por mais esperto que seja, não sabe por feijão a cozer, nem é burro ao ponto de o comer cru.


E se tivesse sido um pastor? Quem é capaz de engordar gado conduzindo-o para terras de semeadura, roubando o pão que encheria a barriga a uma familia pobre, também seria capaz de passar aqui à porta, encher o sarrão e abalar todo relampante.
Mas não. Uma falta por prevaricação aponta-se a qualquer, mas dos que aqui passam, nenhum teria as aldrácias de entrar em casa a roubar.
A Luisa orientou então o sentido para uma família de ciganos, de malhada estendida logo ali debaixo da frondosa sobreira do ti Proposta, com fama de comprarem certas coisa sem falar com o dono. Pelos antecedentes conhecidos e por desconfianças várias, não admiraria que tivessem despejado a cesta no regaço do mandil e ala que se faz tarde.
Provar tal infâmia, que tirou da boca dos filhos a comida de um bom par de semanas, era difícil. Palavra de cigano assim o demostrou.
O desaparecimento das Janeiras do Bertlameu Cego chegou aos ouvidos do povo sob a forma de consternação. Luisa, perscrutada pela vizinhança num manifesto acto solidário, quase de pesar, acanhada pela sua humildade, resignada com o infortúnio, respondia:
- Foram os cães dos pastores!
- Tamém te digo, Luisa! Cães com sorte os qu’ atcham dinheiro na rua, não distinguindo uma coroa dum vintém.

segunda-feira, janeiro 16

Memórias curtas - As Janeiras às portas da Europa



Diz no livro das tradições que as Janeiras, cantar as Janeiras ou "cantar os Reis" é uma tradição que consiste no cantar de músicas pelas ruas por grupos de pessoas anunciando o nascimento de Jesus, desejando um feliz ano novo. Esses grupos vão de porta em porta, pedindo aos residentes as sobras das Festas Natalícias. Hoje em dia, essas 'sobras' traduzem-se muitas vezes em dinheiro.


É para cumprir com esta tradição, sobretudo com o sentido "nas 'sobras' traduzidas muitas vezes em dinheiro", que os nossos governantes, PMs e PRs que sucessivamente se vêm sucedendo, todos anos, pelos Reis, recorrem também ao tradicional marketing politico-etnográfico, convidando grupos de cantares para a pretexto das janeiras, através da televisão, entrarem em casa do cidadão comum, este ano a exigirem as sobras dos subsídios de férias e natal. Bajuladores, embebedam o povo com doses de esperança e optimismo, com o mesmo sofisma com que se embebedam os perus em vésperas da consoada, e depois, com a gula das rapinas esvaziam a vida de cada um, não dando margem a protestos. Este ano, ainda mais exigentes no pedido, fizeram constatar que a colecta não deverá render para os gastos.
Assim sendo, para voltar a encher o celeiro da economia, gasto a alimentar o monstro, resta ao PM, com a sua falta de jeito para cantorias, por a equipa governativa liderada por um MF, caçador de fantasmas, a ornear as janeiras às portas da Europa, sabendo de antemão que a mandona da dona Troika dá uma salsicha a quem lhe der um porco inteiro.
O magro produto do peditório, junto com os nossos impostos, servirá para encher chouriços à tripa-forra, temperados com loureiro de Cabo Verde, sumo de lima criada a custo no planalto transmontano e fumados com folha de oliveira da costa.
O fumeiro, reserva para alimentar toda a família lusa, será dizimado por alguns que, por antecipação e sem trabalho nem sacrifícios de permeio, se digladiam pelo melhor quinhão, tal como aconteceu à cesta das janeiras do ti Bartolomeu Cego, quando uns cães de pastoreio lhe entraram casa adentro e pela surra lhe derriçaram o que de melhor tinha granjeado graças à solidariedade dos conterrâneos.


A estória virá brevemente no próximo post.