sábado, setembro 22

22-2007: Pajarito - Black-bull com asas

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... Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias… Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. ...
...- Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.

Pronto!

Excerto de Miura (BICHOS) - Miguel Torga

terça-feira, setembro 4

21-2007: Sra do Loreto - Alcafozes

Pela primeira vez, Portugal recebeu a Red Bull Air Race 2007.
Este fim de semana nas margens do Douro entre o Porto e Vila Nova Gaia, para assistir ao espectáculo, uma enchente humana invadiu a zona ribeirinha. Até parecia que o rio havia transbordado.
Não fora a divulgação feita ao evento, ao ver toda aquela mole de gente que lá se juntou, muitos pensariam que se estava a assistir a uma corrida de rabelos à antiga duriense.
Mas não!
Todos os que se abeiraram do rio saberiam ao que iam.
O que muito poucos saberiam é que também neste mesmo fim de semana, em Alcafozes (uma aldeia vizinha, aqui a uns escassos 12 ou 13 Km de Toulões), iam decorrer (coincidência ou não – e nada divulgados) os festejos celebrados em honra de Nossa Senhora do Loreto, a Virgem Santíssima que em 24 de Março de 1920 foi consagrada pelo Papa Bento XV, Padroeira Universal da Aviação.
Está assim explicada a razão para tanto arrojo colocado nas manobras vertiginosas com que os malucos das máquinas voadoras que, competindo nos céus do Douro, brindaram o povo que assistiu àquele espectáculo inédito entre nós. É que ter as costas protegidas por Nossa Sra do Loreto sempre transmite outra confiança.
É na busca dessa protecção que, tradicionalmente, à romaria desta Santa que todos anos no dia em que culmina a festa (segunda feira a seguir ao primeiro fim de semana de Setembro) ali convergem representantes das mais diversas entidades ligadas à aeronáutica militar e civil para assistir à missa campal e fazer guarda de honra à padroeira durante a procissão em redor do recinto da festa.
Ele é o representante do Estado Maior e de vários militares da Força Aérea, ele são os representantes das Companhias Aéreas e dos seus tripulantes, das Associações e Sindicatos do sector da Aviação Comercial, dos Aero-Clubes dispersos pelo país (com especial destaque para o de Castelo Branco por ser o anfitrião), etc. e muitos populares, todos a encherem de ofertas e recordações a capela do santuário.
No decorrer da procissão, todos os anos uma esquadrilha de aviões patrulha os céu de Alcafozes, deixando atrás de si um troar ensurdecedor a fazer os fiéis se lembrarem de Santa Bárbara e um rasto de fumo branco como marca da sua passagem. Por vezes, quando o tempo o permite, também há lançamento de "páras".
Este ano coube aos F16 da FA e a algumas aeronaves do Aero-Clube de Castelo Branco cumprirem a tradição, mas noutros tempos, quando a guerra colonial que consumia material bélico nado criado de norte a sul do país, esse papel cabia às esquadrilhas de aviões Fiat e outros, que aproveitavam para sobrevoar as aldeias limítrofes e propagandear a actividade da Força Aérea com o lançamento de "papelinhos", no sentido de cativarem o interesse dos jovens e levá-los a alistarem-se nesta força militar.

Avião "T37 C", oferecido pela Força Aéra Portuguesa
(clicar sobre a foto para ler a placa)


Bom, mas se a parte religiosa da festa é, a seguir à Sra do Almortão, a romaria mais concorrida no concelho de Idanha-a-Nova, a parte pagã é também das que consegue atrair mais gente.
É, de longa data, conhecido o dinamismo e o espírito mobilizador das sucessivas Comissões de Festas alcafozenhas, que todos os anos tentam fazer melhor que o ano anterior, sempre como primeira preocupação, arranjar programas que mantenham a festa em alta durante três dias, nos quais nunca podem faltar as tradicionais garraiadas.
Foi das primeiras aldeias da região a possuir capacidade financeira para contratar artistas portugueses de nomeada.

Cobram bem, mas também animam os festejos e atraem forasteiros em quantidade suficiente para darem consumo aos mais diversos e apetitosos petiscos, garantindo, assim, um encaixe financeiro que, somado às dádivas da população e às receitas das rifas que são (ou eram – ainda comprei algumas) vendidas em qualquer parte do mundo onde haja um alcafozenho, ajudam a assegurar o futuro da festa.
Bem! Mas o objectivo da entrada de hoje não é propriamente o de contar a história da festa à Senhora do Loreto, porque para isso qualquer filho desta aldeia Raiana o saberá fazer melhor que eu.
É, isso sim, a de contar uma história conhecida de todos os toulonenses do meu tempo; a cornada sofrida pelo t’Zé Monteiro Pêla-Ruça, que o deixou empalamado por uma valente temporada.
Numa altura em que ainda não tinha pegado a moda dos cantores, entretenimento maior em Alcafozes eram as afamadas largadas à vara larga pelas ruas do povo, com tradição certamente recolhida das famosas "touredas" de Idanha-a-Nova, aonde acudia gente de todos os povos das redondezas.




O rei da Música Pop Portuguesa, Quim Barreiros, condimentou o ambiente festivo com o picante das sua cantigas.


A garraiada nocturna não teve a emoção de outros tempos

Agora as garraiadas são feitas num redondel construído junto ao recinto das festas, se bem me lembro, aí por finais da década de 80, onde já foram feitas touradas a sério, com cavaleiros, forcados e tudo.
Mas já não é a mesma coisa. Verdade seja dita que também já não há rapazes com "farnis" como havia antigamente, destemidos e com genica para enfrentar o garraio.
As ruas que desembocam no largo da igreja eram vedadas com cancelas robustas e nalgumas portas, principalmente numa das tabernas que dá para o largo, que faz esquina no lado poente do mesmo, era colocado, ao alto, um tranqueiro a atravancar a passagem, impedindo a entrada à rês que estivesse a ser corrida.
Os animais que participavam neste divertimento eram vacas bravas, mas em último, para aumentar a adrenalina aos mais tesos, era na maior parte das vezes libertado um touro. Um verdadeiro. Um daqueles que, como escreveu Herberto Hélder, "é uma espécie de pedra gigante dotada de dinamismo", com força bastante para levantar um reboque de tractor carregado de gente (como aconteceu uma vez no Ladoeiro - não ganharam para o susto!) e com a manha aprendida a correr atrás dos cavalos e dos forcados, nalguma das monumentais praças portuguesas.
Como a grande maioria das gentes raianas, o t’Zé Pêla-Ruça também gostava de "faenas" e fora à festa na companhia de uns amigos. A dado momento, para retemperar o organismo da desidratação provocada pelo calor da movimentação no largo, entraram na taberna para beber um copo.
Na rua um touro "bromelho" torrado fora largado e, ali mesmo à porta da tasca, investia num espantalho feito com uma saca de serapilheira cheia com palha centeia, como que a querer provar à assistência que a cor da pelagem nada tem a ver com a bravura.
O espantalho suspenso numa corda que, pelo ar, atravessava de um lado para o outro da rua, era manobrada numa janela de um primeiro andar, de forma a dar movimento àquela figura humanizada para distrair ou assanhar a fera.
Aborrecido com o engano, o animal virou-se para a porta da taberna e investiu contra umas pernas que se mostravam em movimentos de pontapés no vazio vindos lá de dentro rente ao tranqueiro, no qual se vingou o touro por ter falhado a investida. O pau, mal seguro, à segunda ou terceira cornada saltou de "su sítio" e meia tonelada de carne entrou de rompante tasca adentro, marrando às cegas, sem sequer ter parado para colocar a questão, que habitualmente os touros colocam aos forcados antes do momento da reunião, aquando das pegas de caras nas touradas à portuguesa.
Quando touro e forcado, num frente a frente, cruzam olhares com hesitações mútuas, o touro já farto de ser enganado, com uma das patas dianteiras a escavar na arena, parece perguntar ao moço:
- Vens cá tu ou vou lá eu?
Aqui não foi o caso. O touro, ao entrar na taberna, parecia raposa em galinheiro. A debandada foi geral. Enquanto uns voaram pela janela ou esbracejaram pela porta, outros, que até se vangloriariam da sua grandeza, borrados da sua cagança, tentaram fazer-se pequeninos e invisíveis, e imóveis reduziram-se à sua natural insignificância.



Esta sequência de fotos foi tirada um ou dois anos após a inauguração da "praça"




O ti Pêla-Ruça, não. Descansadamente encostado ao balcão a dar três dedos de conversa entre dois goles de tinto, nem tempo teve para pestanejar. Foi apanhado por aquele "red bull" que lhe meteu um corno entre as pernas e lhe deu asas para ir aos céus.
Mas como o tecto do estabelecimento era o limite, depois de ter esbarrado nos caibros do forro, não lhe valendo a protecção da Senhora do Loreto, foi forçado a um voo picado e aterrou desamparado no cimento do chão, apenas almofadado com uma camada composta por um manto de cascas de tremoços, cascas de cascabuéis e um salpicado de piriscas brancas.
Por sorte o animal, que para além de míope, estrábico e daltónico também devia sofrer de claustrofobia, vendo-se encurralado naquela exiguidade, atraído pelo movimento do pessoal em fuga, desviou a atenção para a luz vinda da porta e conforme entrou assim saiu, poupando o ti Zé a mais umas valentes cornadas.
Mas a Santa redimiu-se e só um milagre seu fez com que a ambulância dos bombeiros voasse entre Idanha e Alcafozes para socorrer o homem e o transportar ao hospital.



Mas uma coisa é certa: o ti Pela-ruça, pequeno, era homem de fibra!

Porque se não fosse, nunca mais voltava às touradas de Alcafozes, como aconteceu muitas mais vezes.
E quando o episódio da cornada vinha à baila havia sempre alguém que lembrava a arrancada, sempre oportuna, do ti João Páscoa:
- São cousas ó Zéi. No dizem que quem se quer bem sempre se encontra?

Atão assim foi, parente!