sexta-feira, dezembro 16

Memórias curtas - BOAS FESTAS




Para todos um abraço e votos de


BOAS FESTAS


A melhor chama natalícia é aquela que aquece o nosso espírito e o daqueles que, na noite do caramelo, connosco partilham o calor emanado do madeiro a arder em silêncio no adro das nossas aldeias.


Como prenda de Natal para todos os que já ganharam o hábito de por aqui passar à procura de novidades e principalmente para os que através dos comentários revelam preocupação para comigo pela falta delas, deixo este postal do madeiro dos Toulões e um delicioso "bronhuelo" (penso que é a forma de dizer broa de mel na nossa fala) amargo-doce confeccionado com a sensibilidade de David Mourão-Ferreira.


Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

quarta-feira, outubro 19

MEMÓRIA CURTAS 6 - Rostos e expressões de Toulões

A Revista VIVER, VIDAS E VEREDADS DA RAIA, na sua edição nº 18 (lê-la aqui), dedicada ao tema "A força da união", na rubrica "Rostos e Expressões da BIS", concedeu honras de apresentação a alguns toulonenses anónimos, acompanhada do seguinte texto:


TOULÕES (IDANHA-A-NOVA)


A palavra Toulões, quando mal pronunciada, por vezes percebe-se "Tão longe", mas, na realidade e fazendo o enquadramen-to geográfico, esta é uma pequena freguesia do concelho de Idanha-a-Nova. Assim que coloco os pés no chão, ainda mal tinha saído do carro, oiço: "Vai estar quanto tempo?", "Tem que pagar 50 euros pelo estacionamento" - já estava a ser abordado por dois senhores com idades de 84 e 85 anos, sentados num banco junto a uma capela a observar quem passa. A abordagem feita num contexto de brincadeira lá serviu de pretexto para meterem conversa, curiosos por saber quem chegava e o que ia lá fazer. Após uns minutos de conversa percebe-se que nesta pequena freguesia há poucas crianças e as que por ali se encontram estão de férias com os familiares, restando os resistentes à desertificação, que são os mais velhos, os que sempre ali viveram. Mas para o registo fica o momento em que estas pessoas, sempre muito vaidosas para a fotografia, desabafam um pouco da sua vida e se "abrem" contando algumas histórias pessoais e da aldeia, ricas em termos culturais e testemunhas vivas da identidade de um território.
Uns verdadeiros "contadores de Estórias".


Nota:

Toulões já noutra ocasião foi referida na VIVER, nomeadamente no seu nº 5, em que um texto publicado foi pescado aqui na A Arca Velha (vê-lo aqui - pág. 55).

Para os interessados em consultar um documento de qualidade, deixo o link (aqui) do arquivo da Revista.

domingo, setembro 25

quinta-feira, setembro 1

DITOS & DITADOS

Foto de uma peça (asado e respectiva banca) colhida na exposição patente no Centro Cultural Raiano sobre a olaria de Idanha-a-Nova.


Se fores à Idenha, no te ponhas do lado da água nem da lenha.

sexta-feira, agosto 12

MEMÓRIAS CURTAS 5 - Exercício de memória

(clicar sobre a imagem para ampliar)


Com o início, hoje, dos festejos em honra de Santo António, deixo uma foto da festa de 1980 para exercício a memória.

terça-feira, agosto 9

Imagens de férias

Esta postagem é para homenagear as abelhinhas que não tiraram férias neste verão. As que, tendo ficado a trabalhar ao serviço da Troika, suando as estopinhas em espaços sem ar condicionado por força das restrições orçamentais, estão a tratar de endireitar a nossa vida e a aliviar-nos o peso da carteira.

quinta-feira, julho 7

MEMORIAS CURTAS 4 - Piléria

Ainda a propósito da cooperativa, uma anedota:


O ti Anjinho tinha um burro que lhe servia de muleta – ou de mula, como se queira – para lavrar e acarretar umas coisas do campo para casa. Como o burro, velho e gasto, já não dava conta do recado, o ti Anjinho comprou outro.
No dia seguinte o vizinho Bitcho foi-lhe bater à porta.
– Atão Anjinho, decheram-me que tens dois burros. Oulha qu’ agora que introu o comunismo, vamos ter de devidir tudo irmãmente. Se tens dois burros, tens que dar um a mim.
– Ai éi, ele agora co comunismo éi assim. Atão pronto, leva lá o burro, homa
.
Passadas duas semanas o ti Anjinho soube que o vizinho comprara duas vacas e foi logo a casa dele.
– Atão Bitcho, parece que tens duas vacas. Agora tens de me dar uma a mim.
– A vaca no ta posso dar.
– No ma podes dar proqêi? Se estamos no comunismo e é tudo pra devedir, tens de ma dar.
– Não no tenho. É que o comunismo só vale prós burros.

quarta-feira, junho 29

MEMÓRIAS CURTAS 3 - Circo eleitoral (parte 2/2)

Arraial da Granja (1980)


(Dando continuação ao Circo Eleitoral parte 1/2, mais um desabafo que oura coisa, talvez já temporalmente fora de contexto, deixo aqui a parte 2/2)

CIRCO ELEITORAL (parte 2)


Em 1975, ao fim de um ano de democracia, uma baforada de ar novo nas aldeias do interior onde, até então, o ar respirável chegava quase por favor, como dizia Torga do seu Reino Maravilhoso, as primeiras eleições livres foram uma novidade aceite com alguma indiferença. O obscurantismo, inibidor da instrução e da liberdade, nunca tinha dado azo a comparações.
Eleições? Votar, servia para quê?
A pouca informação e a falta de educação política, trazidas teimosamente pela arreata até Toulões, aliadas ao facto de poucos saberem ler e escrever, levava a que o boletim de voto fosse, sobretudo para os que mais anos amargaram, um verdadeiro quebra-cabeças. Distinguir, no papel, o partido no qual votar, seguindo a indicação orientada pela opinião de um vizinho ou familiar, só pelo distintivo: punho fechado, foice e martelo, setas para o céu, etc., uma vez que a letras das siglas não passavam de hieróglifos tão complexos de decifrar como os escritos deixados pela “diabólca”, gatafunhados no gorrão de sentinela à água da Fonte da Serra. E segurar firmemente uma caneta para cruzar dois riscos dentro do quadradinho escolhido, era bem mais difícil que pegar numa sachola para abrir uma regadeira num leirão de milho.
Nas eleições seguintes, em 1976, o povo foi chamado pela segunda vez a expressar-se livremente através do voto, para escolha dos mais altos signatários da Nação. Este ano de maturação em democracia trouxe mudanças significativas ao quotidiano de Toulões.
A reforma agrária ramificara até ao concelho de Idanha. Impulsionada pelo ideal revolucionário de “a terra a quem a trabalha”, surgida no Alentejo a pretexto de dar cultivo a terras onde só medravam silvas e carapetos, culminou, sob o mesmo pretexto, na ocupação de algumas propriedades do concelho. A Granja do “Marroques”, 1600 ha de terra a perder de vista, ao dar origem à Cooperativa da Granja de S. Pedro, saciando apetites oportunistas, foi uma delas. Pertencente geograficamente ao termo de Alcafozes, era, no entanto, de gente de Toulões a grande força do trabalho que fazia bulir a Granja.
Com a constituição da Cooperativa após as longas reuniões da Queijeira, alguns toulonenses saídos não alinhados com as propostas dos “cabecilhas”, apesar das vantagens em termos sociais para os trabalhadores (descontos para a “caixa”, baixa médica, férias pagas), abdicaram das regalias proporcionadas pela cooperativa e preferiram fazer-se à vida por outras paragens.
Em busca de melhores salários, aproveitaram a estratégia engendrada pelos “ricos”, proprietários e rendeiros de coutos das imediações, um subtil esquema de contra-força, para impedir o alastrar de veleidades políticas inconformes com os seus interesses. Temendo a ocupação selvagem da sua terra, aliciar a escassa mão-de-obra disponível, dado o êxodo migratório verificado uns anos antes e granjear a fidelidade de alguns jornaleiros, era uma forma de garantir a defesa da propriedade.
Os que ficaram, alguns menos capacitados e com dificuldades em conseguir trabalho fora dali, (a cooperativa facultava emprego social) arrolados por um grupo bem definido ideologicamente, ganharam simpatia pela doutrina esquerdista ao ponto de um ou outro ser ter tornado interventivo.
Entre os que saíram e os que ficaram, com pontos de vista diferentes, as opiniões políticas divergentes eram por vezes exacerbadas ao balcão da taberna, com desentendimentos resolvidos de forma tão violenta como caricata.
Com as eleições que se avizinhavam, e a contrastar com a primeira campanha eleitoral, passada ao largo como raposa a rondar vinha vindimada, a campanha passou desta vez com ares de pregação a tentar fazer valer a máxima “um voto é um voto, por um se ganha, por um se perde”.
Ainda o acesso que trazia os visitantes a Toulões, os levava de volta pelo mesmo caminho, as caravanas chegavam aqui com os mesmos apetrechos chamativos que a tropa-fandanga dos saltimbancos.
Era o circo eleitoral. Davam meia volta pelo povo, abrandavam no adro, a fazer mais lavarinto que a canzoada no dia de vacina, indo, invariavelmente, montar arraiais no “Salão” para completar o espectáculo.
Assim aconteceu com o CDS a abrir as hostes. À altura conduzido pela batuta de Freitas do Amaral, prometia bater o pé ao PS e ao PPD, já hegemonicamente instalados, e, sobretudo, desancar no PCP. Chegou aqui com a cavalaria a galope, tendo-se apeado à porta do Salão para o esclarecimento da praxe.
Encostado ao balcão do bufete, com ligação para o interior do salão onde decorria o “comício”, “B.”, ainda com a farda com que limpou a cama ao vivo, cheia de esterco, pouco se importou com o fato domingueiro de quem dava ouvidos à reacção. Nunca gostou e impostrices. Para entrar na taberna e beber um copo, haveria necessidade de mudar de roupa? Para mais, vistas as circunstâncias, sempre era uma oportunidade para dar um sinal de hostilidade para com o CDS, manifestamente contra as cooperativas.
O palestrante, bom orador, propagandista quanto baste, tentava umas incursões pelo sentimento empedernido do povo.
“B.”, de pé atrás com as intenções do orador, filosofa para os que o rodeiam:
“Há que desconfier mas é dos bem falantes. São eles que nos enfiam a garruça”.
E já pingado, continuava a desfolhar uma réstia de impropérios contra o CDS(ML), figurativo usado por um elemento do PC de Castelo Branco, visita assídua da Cooperativa e ao qual achava graça..
“ML? Marxista e Leninista, o CDS?” - admirava-se com a tirada o ti Pintalgado, que sabia mais que a justiça velha e para quem uma enciclopédia não era unicamente o ciclomotor a pedais com que designava as “mobilettes” trazidas pelos “franceses”.
“Marxista e Leninista, não. Mê e Lê é Monopolista e Latifundiário.” - E lança um grito de guerra: – "Viva o PCP!"
“M.Z.”, por defeito com postura cronicamente do contra, instruído pelo patrão e também por um copo de três a mais para ser um aguerrido elemento anti esquerda, pegou no argumento de “B” para armar algazarra. Antigos cúmplices nas lides do contrabando, andavam agora desavindos por causa de políticas divisionistas. Acendeu-se a discussão, com mutuas promessas de morte pelo meio, que só amainou mercê da forte intervenção da assistência.
O que veio depois dá que contar.
Na manhã seguinte, por obra e graça de uma inspiração nocturna, surgiram escritas na parede caleada da casa do Beato, “uma casa sem dono”, umas enormes e esborratadas letras num esmaltado azul-marinho.
“PCP”.
Talvez devesse ser vermelho, mas era certamente a cor que estava mesmo ali á mão de semear. Pela rigidez gestual com que pareciam ter sido desenhadas, com a tinta escorrida e a esbeiçar sobre os caixilhos e numa vidraça da janela, adivinhava-se no autor deste garrafal despropósito mais anos de ligação ao analfabetismo que à ideologia graficamente explanada sobre parede alheia.
Foi uma intriga que ralou as mentes passantes logo pela manhã a caminho da missa. Por desconhecimento do alfabeto, poucos sabiam interpretar o significado.
Descodificado o enigma, nas cogitações do povo só podia ser alguém ligado à cooperativa da Granja, único sitio das redondezas onde o partido tinha ramo verde para pisar e, mesmo assim, consta que passado algum tempo lhe era refreado o impeto. O medo do papão de terrenos trazia o povo retesado.
A notícia do sucedido trouxe à rua a visita de uma romaria de curiosos.
Admiração geral. Falatório.
Mas quem teria sido o alma-do-diabo, o sem careio, que pôs uma bostada destas?
“M.Z.”, inteirado do sucedido, cegou ao encarar com aquela provocação.
Presumindo ser “B” o autor da façanha, e etilicamente já composto, foi a casa buscar a caçadeira e montou-lhe a guarda à porta. Possuído de raiva desatou um chorrilho de injúrias e impropérios.
O aparato montado deixou a vizinhança de plantão dentro de casa a vigiar pelas frestas. Não vendo vivalma acercou-se da entrada do palheiro ao lado e vociferou:
"Abriu a caça ao coelho." – e dispara um tiro para o ar.
O estrondo provocado pelo estoiro da pólvora despoletou dentro do palheiro um alvoroço animalesco. A porta, entraberta, rangeu ligeiramente .
"Estás aí drento, mê comunista de merda? Aparece que te hei-de arrebentar c’a fessura e c’as intranhas."
Assomou-se para o interior escuro do palheiro, empurrou a porta e, de espingarda em riste, entrou de rompante. Conforme entrou assim foi posto na rua, caindo de borco na soleira, impulsionado por uma parelha de coices à queima-roupa. Prostrado, gemia com uma mão no baço e outra nas costelas.
Um “matcho” anónimo e politicamente analfabeto acabara de lhe dar lição de democracia.

domingo, junho 19

IDANHA-A-VELHA

Idanha-a-Velha, ainda engalanada com o florido primaveril, prova que tem mais para mostrar para além dos vestígios arqueológicos, que lhe valeram a classificação de aldeia histórica, e atraem estudantes, especialistas e turistas curiosos.



Catedral


Uma foto lapidar


Publicidade
Artesanato e produtos regionais
Provar, sem falta, o queijinho da zona


A gárgula dos segredos


Catedral (interior)

Há vida nova na catedral

À conquista de território

Posto de vigia

Monte de "rosmanos" junto à matriz. Preparativos para os santos populares?

- São as calças do rei wamba! (Comentário de um "turista" enquanto eu fazia esta fotografia)

SALVATERRA DO EXTREMO

No fim de semana de 9 a 12 de Junho foi levado a cabo, em Salvaterra, um ecofestival organizado pela Quercus. Uma forma de dar vida a uma das aldeias bastante esquecidas no extremo de Portugal.
Ainda sobre Salvaterra, louva-se a renovação da página da Câmara de Idanha e a remoção da foto qu identificava a aldeia. Com tanto para ver por aqui, Salvaterra não necessitava de uma foto do Castillo de Peñafiel (do lado espanhol da fronteria) para fazer de ex-libris.

Igreja matriz


Didgenbass" - duo de interpretes que combina música sintetizada electronicamente com o suave zumbido de uma espécie de vuvuzela, resultando numa sonoridade agradável ao ouvido.


Um brinde com chá livre


As armas do mê adufi / Sã de pau de laranjêra / Quem houvera de tocar nêli / Há-di teri a mã legêra


(Bateria pertencente ao grupo de musica tradicional "Sabão Macaco") Varanda do sol-pôr

Publicidade


Casa do Forno - Empreendimento de turismo rural
"Eu tenho um vasinho à janela ...."

furdas


Um vasto conjunto de construções (3 fotos), abrigo para criação do porco, importante contributo para a economia doméstica, em Salvaterra têm a particularidade de assentarem sobre um maciço granítico conferindo-lhe um aspecto precário, mas que durou até hoje.

domingo, junho 5

DITOS & DITADOS

Ora vamo' lá ver, o qu' é qu' a fruta vai render.

MEMÓRIAS CURTAS 2 - Circo eleitoral (parte 1/2)

Circo eleitoral - (parte 1)


Actualmente, as campanhas eleitorais que massacram a paciência ao mais que alheado cidadão eleitor, descrente com a política lesa-pátria da "troika" que há anos, em alternância, nos governa e se vai governando, não são o período de esclarecimento nem de apelo à reflexão para, sem dúvidas, podermos escolher a cor da mortalha para o voto a colocar na urna.
Em campanha fala-se de tudo menos do essencial. Argumenta-se contra as birras e arrufos dos adversários políticos com arrufos e birras à medida, uma vez que o programa de governo que se discute, proposto por cada partido, é um manual boas maneiras.
A ideologia politico/partidária é posta à margem da campanha. Como chamariz servem os nomes dos cabeças de cartaz, que chegam aos comícios para mostrar a sua habilidades circenses. Já não se apela ao voto, a favor ou contra, o partido A, B ou C, para referir apenas estes a que as sondagens dão maior cotação, baseadas na opinião dos inquiridos acerca do sex-appeal dos oradores com voz de bagaço ou da cor da sua gravata. Apela-se, isso sim, a favor ou contra o voto no malabarista, no trapezista, ventríloquo, ou artista dos cãezinhos amestrados. Ou seja, os comícios são num espectáculo de saltimbancos em que os intervenientes culminam numa ronda, de chapéu na mão, a pedir o voto à populaça chamada a assistir e a ovacionar de bandeirinha em punho.

Mas vá lá, valha-nos santa Bárbara; acabou a campanha, acabou a trovoada.

O jogo Portugal/Noruega não podia ter vindo mais a propósito para apagar a campanha da memória e me ajudar a reflectir sobre a incerteza do futuro. A mim e ao meu vizinho. A nossa vitória sobre os Noroegueses animou-me. Ganhámos ao país com maior rendimento "per cápita" da Europa, logo somos melhores. Amanhã vou votar mais alegre, consciente de que o meu voto e o do meu vizinho, que vota numa cor diferente da minha, vão conceder a Portugal legitimidade para governar quem o governa.

sábado, maio 14

MEMÓRIAS CURTAS 1 - A promessa

Igreja de S. Domingos (Largo de S. Domingos- Lisboa)


A promessa

O Francisco da Cruz, dito Xico "Bombarral" - que a alma lhe esteja em descanso - foi militar de carreira. Embarcou para Moçambique em 1954 para reforçar o contingente das designadas tropas de guarnição normal, tendo-se fixado em Lourenço Marques, onde casou e acabou por formar nova família. Só veio à Metrópole em 1966 para um curto período de férias, por alturas da Páscoa, passados dois anos de a Guerra de África, que em 1961 rebentara em Angola, ter alastrado a Moçambique. Foram dois anos destacado em "defesa da Pátria", repartindo-se entre esporádicas visitas à família em Lourenço Marques e o serviço na "fornalha" de Tete.
Ao voltar para Moçambique – A missão obriga-me! – deixou a mãe, ti Isabel "Isidra", mais descorçoada e de espirito mais vazio que quando abalou pela primeira vez para o Cabo dos Infernos. Agora, já com meia vida a carregar o luto pelo marido, falecido quando o Xico era ainda moço imberbe, (de doença provocada pelo gás respirado nas trincheiras da Flandres durante a guerra de 14/18), temia pelo filho, sujeito a ficar por lá ou a ser acometido pela moléstia que dilacerou as vísceras ao pai.
Num ambiente quase fúnebre, entre choros carpidos e abraços de despedida da família, soltou-se o optimismo das promessas: quando regressasse de vez, ofereceria aos paroquianos dos Toulões uma imagem esculpida de N. Sª da Imaculada Conceição e a mãe, embalada pela mesma onda de esperança, prometera a N. Sª Fátima entregar-lhe em mão uma parte do seu suor.
O momento do regresso, tão ansiosamente aguardado, veio finalmente em Janeiro de 1968.
Foi um alívio. Ela que desde sempre, todas as noites, ao deitar-se, pedia a Deus e a Fátima que lhe livrassem os filhos dos maus topes, manifestava a sua fé numa longa reza surdinada. Não tanto pelo António e pelo José, mais velhos, nem pela mais nova, a Ana, todos de vida ajeitada, mas mais por este pobre cujo destino quis que seguisse a vida da tropa e andava agora na guerra.
A oração era a sua almofada para um sono de justo: um descanso para as preocupações, persistentes em atentar-lhe a tranquilidade da consciência.
Ter reavido o filho, são e salvo, impunha o cumprimento da promessa feita de ir a Fátima.
Entrou Maio. Arranjou-se com o cunhado e com a mulher, o João "Bombarral" e a Cristina "Ruça", e com mais dois peregrinos fretaram o "carro de alugo", para viajar até ao lugar sagrado.
Na véspera das celebrações, ainda a alva por entre umas farropas de neblina assomava por detrás do azinhal do Monte Velho, lá saiu a carrada acondicionada no robusto "Chevrolet" do ti Fontes, com o tempo contado para chegar à Cova da Iria antes de principiar a procissão das velas.
A viagem parecera interminável, mas chegaram com folga bastante para se livrarem dos maiores apertos. A multidão afluente àquele fervilhante lugar de culto custou a caber na imaginação da ti Isabel; em quantas romarias da Senhora do Almortão se juntaria tamanho gentio.
O ti Fontes, avisado por experiências anteriores, alertou: - No meio desse adjunto, acuaitelai as carteiras!
A reacção instintiva provocada por aquelas palavras, levou o ti João "Bombarral a levar a mão ao peito e sentir-lhe o enchumaço no bolso de dentro da véstia. Ela, pelo sim, pelo não, passou também a mão pela anca direita para se certificar se a algibeira aonde guardava o dinheiro da promessa, presa à cintura e pendurada entre a saia e o saiote, ainda estava no sítio.
Após uma volta atribulada pelo recinto do Santuário, abeirando-se com dificuldade do vulto da azinheira grande, contrastante com a ténue iluminação ambiente e da Capelinha das Aparições, epicentro do movimento conturbado de uma enorme massa humana, integraram-se na procissão nocturna com milhares de bruxuleantes pontos de luz em movimento, a compor um quadro vivo representando a devoção à Virgem.
Foi uma noite de vigília forçada, ao relento, com uma manta singela, mal dormida, mas descansada quanto baste. Com fé suplantam-se todos os sacrifícios. A manhã, fresca, acordou renovada e até o astro, resplandecente, fazia jus ao mistério da Aparição.
Durante a espera pelo momento ecuménico proporcionado por um cardeal estrangeiro, sempre as contas do terço a passarem-lhe a compasso pelos dedos, foi então tempo de ir à casa das oferendas libertar a alma. Parte das poupanças, religiosamente guardadas, recurso para atalhar a lavoura de uma doença ruim, serviam nesta ocasião para agradecer à Virgem a protecção providenciada ao seu Xico. Enfia a mão pela abertura lateral da saia e puxa para fora a algibeira de saragoça preta, rameada com bordados garridos, onde guardava cinco notas. Veio, primeiro, o lenço de mão. Procurou de novo, vira, volta, revolta, mas o dinheiro … viste-o!
Confirmado o sumiço das notas, roubadas ou perdidas, sem entender como tal infortúnio poderia ter sucedido, deixou-se cair num choro convulsivo e com o lenço numa mão e o rosário na outra, esconde a cara entre ambas num acto meio de desespero, meio de vergonha, por faltar à palavra prometida a Nossa Senhora.
A Cristina "Ruça" e o "homa", que havia um bom punhado de anos tinham promessa, nunca conseguindo usufruir da alegria de a poder cumprir, por Nossa Senhora nunca lhes ter concedido a graça da fecundação, ampararam a companheira de peregrinagem.
Mal conformada, passou todo o tempo, do início da homilia até ao adeus à Santa, no automóvel que a levaria de regresso a Toulões, firmemente agarrada ao rosário, a rogar pelo fim do pesadelo. Em toda a viagem, desalmada, pesarosa, não se lhe ouviu palavra.
Reconstituía mentalmente todos os momentos passados no vislumbre de um ponto de displicente distracção. Fixou as duas vezes em que puxou do lenço: para limpar o rosto arrasado num pranto de lágrimas à solta e se recompor da emoção de, à distância de um beijo, estar perante o corpo presente da Imagem de Fátima e, mais tarde, aquando do aceno de despedida que Lhe dirigiu no final da procissão. Em qualquer destas alturas o dinheiro se poderia ter esgueirado por entre as farpelas das suas vestes festivas.
Chegaram a casa já à noite. Deitou-se mas não dormiu sem antes se justificar à Virgem, rogando-Lhe que não a julgasse por esta falta, na certeza de que Santo António, advogado para as coisas perdidas, não lhe iria frustrar o desígnio e se encarregaria de a ajudar repará-la.

MEMÓRIAS CURTAS


A invernia assolou a condição deste arcaz, mas o arquivo de memórias manteve-se intacto, necessitando apenas de algum restauro, trabalho a ser feito com paciência.
As estórias de Entre Toula e Morracha que aquei publicarei, serão todas MEMÓRIAS CURTAS.


Um abraço a todos os que por aqui se perdem de vez em quando.