sábado, dezembro 19

VIVÓ MADEIRO, QU'INDA ESTÁ INTEIRO


O Madeiro, tal como manda a tradição em Toulões e em todas as localidades, tanto do concelho de Idanha como dos concelhos limítrofes, já está no adro desde o dia 8 de Dezembro. Acamado e composto, à espera da noite da consoada para aquecer o ambiente natalício, está pronto para ser apichado com o mesmo entusiasmo com que a canalha se atiçava a ele nas vésperas do Natal.
À semelhança destes últimos anos, no dia em tempos ansiosamente esperado pelos mancebos, a quem competia arrancá-lo, fazendo-o com o maior dos regozijos, foi trazido do montado pela junta de freguesia. Esperado à entrada do povo pela população, em cortejo alegórico foi acompanhado pelas ruas até local da queima.

A origem deste evento perde-se no tempo. Já em 1885, Teófilo Braga, no seu livro «O Povo Português nos Seus Costumes, Crenças e Tradições», o descrevia assim:
«Na noute de Natal, na Idanha-a-Nova, é costume queimar-se o Cêpo, como na Covilhã e em Trás-os-Montes: "Três semanas antes, ou um mês, da noite de 24 de Dezembro, vão ao campo buscar o madeiro, que para este fim se acha já cortado, sendo quase sempre escolhido para elle uma das árvores mais corpulentas. Se o carro quebra, ou os bois cansam, vão outros buscá-lo, e por último conseguem trazê-lo com acompanhamento de chulas e descantes até ao sítio em que deve ser queimado, e onde o descarregam, saudando-o nessa ocasião com um prolongado vito! Deste modo deitam mais dois ou três nos adros de diferentes igrejas. Chegada a véspera do Natal, logo ao cerrar da noite lhes largam o fogo, e depois começam a malhar neles para ver quem tira a maior lasca, e cada uma que se despede é de novo festejada com um vito! por quantos se acham presentes. ..

 Foto retirada daqui:  cm-penamacor



Se nalgumas povoações a custo se consegue por o madeiro na aldeia, outras há em que, por desígnio de “avivar a chama da tradição”, a população se mobiliza e com alegria festiva junta lenha numa pira cada vez maior ano a ano.
É o caso do Madeiro de Penamacor, no concelho contíguo ao de Idanha.
A fama ganha por ser divulgado à escala nacional como sendo o maior do país, traz a esta já designada de “Vila Madeiro” algum provento do ponto de vista turístico. Dado o sucesso da iniciativa, numa atitude de pretender criar mais-valias, o Município candidatou, junto da UNESCO, esta tradição secular a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.
No sentido de reduzir o isolamento geográfico, partilho da opinião que todos devemos apoiar esta candidatura, mas que, a ser aceite, o seja pelo que simboliza o Madeiro do Natal para as populações onde esta tradição está enraizada e não pela ostentação de uma grandeza que chega a assumir foros de alarvidade.

VOTOS DE 
BOAS FESTAS 

quinta-feira, novembro 12

O Outono



O Outono…

As folhas com os matizes
Da paleta dos pintores
São tintas, são vernizes
É a morte toda às cores

São na relva o esplendor
São uma beleza reflectida
São um rufar de tambor
São uma alegria incontida

As cores dão vida à vida
Deste campo ao abandono
Cada folha morta caída
Dá mais vida ao Outono

Toulões, Outubro de 2013

quinta-feira, novembro 5

Tradição

Tenho em mim que aquilo a que chamamos tradição, elemento aglutinador de vontades e empatias entre defensores activos dos nossos usos e costumes, das nossas memórias e outros valores identitários da nossa cultura, que vão sendo deixados em testamento à geração seguinte, já não é o que era.
Com o passar do tempo, tudo muda.
Até a tradição, elemento de ajuda à projecção do futuro, por estes dias invocada em vão pelos pretendentes ao “trono” parlamentar, incluindo os que consideram a preservação das tradições um acto retrógrado, já serve de argumento político para disputas partidárias. A provar que a tradição se define pela espontaneidade genuína do povo, os seus eleitos no Parlamento organizaram, para animar as hostes, já para dia 10, um magusto de São Martinho a ter lugar na casa da democracia. Não faltará certamente o jogo do pau e a não menos tradicional castanhada: não há nada como servir uma moção de rejeição ao governo, recheada de umas punhadas do bom fruto da Terra Fria e generosamente regada com água-pé, cuvée reserva especial, estagiada em fundelho de pipa de quatro almudes (mordomias).
E para resto de festa, como também pede a tradição, lá estarão os cantares ao desafio e o bailarico saloio, com despique entre bailarinos do governo e da oposição, ambos com o vezo do passa-culpas, a ver quem se livra do ridículo de ficar a dançar com a vassoura.

Bom, mas deixemos os tradicionalismos politiqueiros.
Por estes dias a tradição foi outra: o Halloween, ou Dia das Bruxas, que na noite de Sábado passado, aproveitando a minha ausência, se fez cumprir com artes de pasteleiro francês, enfeitando-me a porta com farinha para brioche.
De origem celta, pelo que consta, adoptada pelos países anglófonos e fortemente arreigado lá pelos States, chegou a Portugal há alguns anos, importada ao abrigo do acordo comercial para a chinesice com a promessa de fortalecimento da economia resultante do depauperado tecido produtivo português. Paradoxalmente escolheu dia 31 de Outubro, Dia Mundial da Poupança, para assentar arraiais com o sentido primeiro de rapinar a carteira aos aderentes mais modernistas, foliões de um carnaval antecipado, e aos pais da garotada que agora nas escolas é instada a aderir a esta pretensa tradição, colocando nela mais empenho que no acto subversivo e pouco patriótico de aprender a trautear o Hino Nacional. A miudagem, enfeitada a preceito com adereços horripilantes, calcorreia de porta em porta num peditório com finalidade plausível: “Doçura ou travessura”?
Em Toulões, o peculiar peditório cerimonial do Dia de Todos os Santos, “Pedir a Bica”, semelhante ao de algumas terras do concelho de Idanha, e limítrofes, em que é designado por "Santóro", ou "Pedir o Santóro", está praticamente resoluto. Não por influência do Halloween, também a tentar sem grande sucesso alastrar ao recôndito beirão, nem pela abolição do feriado de 1 de Novembro, mas pela acentuada desertificação do interior que acabou com a canalha (gaiatada).
O “Pedir a Bica” levava os afilhados (quando ainda os havia) a receber a bênção dos padrinhos. Entrava-se, dava-se solenemente a salvação e recebia-se a benzedura ministrada pela madrinha. Largava-se um bem-haja murmurado e recolhia-se o ofertório: um sarrão sortido com fruta da época (marguédas (romãs), marmelos, dióspiros), umas passas de figo cuidadosamente capadas e enfarinhadas, tudo a acompanhar a gulosa bica de azeite, feita em observância com o tradicional evento. E sortudos eram os que, a acrescentar ao rol, se viam prendados com duas ou três coroas, invariavelmente destinadas a investir no mágico despoletar do berlinde no gargalo do pirolito.
Aos mais velhos, pouco dados a modernices, o globalista Dia das Bruxas nada diz. No entanto, guardam na memória a imagem de um elemento que caracteriza este novo costume invasor: a botelha (abóbora) rectro-iluminada, que dantes aparecia à noite nas encruzilhadas, com origem sabe-se lá de onde, para afugentar a má-hora. Por certo, bem útil seria no próximo dia 10 para cumprir a ambivalente função de servir de assador de castanhas e proteger o povo dos maus presságios.

sábado, outubro 3

DITOS & DITADOS - Vamos a votos?

É cíclico.
Em tempos de campanha eleitoral, os candidatos de cada um dos partidos, aperaltados como manda o redundante e estereotipado marketing político, dirigem-se ao povo que os elege com a mesma estratégia comercial com que uma qualquer marca de um produto de consumo imediato publicita a sua última novidade.
Muita espampanância, muita artificialidade, ...

É caso para dizer:

Aperalta-te tranca para pereceres uma santa.

sábado, maio 16

DITOS & DITADOS - Xaropada

Há dias, para explicar o processo de cura do país, gravemente afectado por essa doença que dá pelo nome de crise, o nosso primeiro ministro, quase a meter os pés pelas mãos, utilizou a metáfora da terapêutica em modo popular. Fosse ele de Toulões e com uma frase curtinha estria tudo dito:
- QUEM SE CURA NÃO SE REGALA.