quarta-feira, junho 20

15-2007: Lagartos ao sol

Estou exultante!
O ênfase dado pelas entidades estatais com responsabilidade na matéria, no assinalar do dia dedicado ao Combate à Desertificação e à Seca, superou as minhas expectativas. O nosso Executivo deixou bem claro que seria dado um passo de gigante na recuperação do atraso de anos e anos, em que os sucessivos governos não apresentaram financiamentos, mas que, doravante, será invertida a tendência de desertificação do solo nas zonas afectadas do interior.
Mesmo a comunicação social, da qual se esperava uma tímida referência, badalou o assunto até à exaustão.
O impensável aconteceu: o rescaldo do jogo da selecção de sub 21 de Portugal, que esmagou a sua congénere Israelita, a provar que não passaram à fase seguinte, para disputar os primeiros lugares, porque não quiseram, preferindo, por amor ao futebol, ir disputar a ida aos JO de Pequim (sempre é mais um jogo), foi relegado para plano secundário. Nem sequer foi tido em consideração o estatuto de estrelas dos rapazinhos, ganho pela sua voluntariosa disponibilidade de, nos intervalos dos treinos, fazerem serviço cívico a arrancar mato, dando o seu contributo no atenuar do risco de incêndios e melhorar o meio ambiente.
Deste modo, aprendem também o que custa a vida nesta zona do país.
Foi com este espírito que em 1999, o então ministro do Ambiente (hoje nosso Primeiro), tomou a iniciativa de implementar o Plano de Acção Nacional de Combate à Desertificação, o famigerado PANCD, que visava intervir nesta área e que, até hoje, nunca tinha sido posto em prática.
Pois bem. Com a finalidade de assinalar a data, foi entregue às autarquias, para reduzir os elevados índices de desertificação, um kit de emergência para combate a incêndios há tanto almejado.
À falta de acções de formação para manuseamento do equipamento, que só serão facultadas após terminar a época de fogos (porque agora já não há tempo), foi fornecido aos utilizadores um manual de instruções em estrangeiro. Assim sempre aprendem línguas, não se repetindo a má experiência dos telemóveis que, mais ou menos com a mesma finalidade, foram entregues aos pastores serranos com manual em português, segundo diziam os próprios: "isto para mim é chinês".
Também já se pode dizer que, por cá, o "safe-se quem puder" e o "ai de mim se não for eu", que ia valendo aos raianos, que aqui nasceram e por cá se mantêm, fazerem pela vida, é coisa do passado.
A solvência das autarquias locais é agora um facto.
A conjuntura económica favorável e a vontade política do poder central, dão-lhes capacidade para resolver problemas de fundo, pelo que se acabou o ter que ir atamancando aqui e ali nas situações mais prementes.
As expectativas confirmaram-se e o governo vai passar a dar mais dar mais atenção a este canto de Portugal.
Foram desbloqueadas as verbas destinadas a atenuar a interioridade para resolver de vez o problema da seca e da desertificação, tanto dos solos como humana.
A revitalização da agricultura, que irá permitir a plantação de milhares de hectares de relva para campos de golf, estando garantida a rega através do acordo luso-espanhol (ou hispano-portugués, é a única dúvida) para, aproveitando o transvaze das águas entre Duero Y Tajo, aqui fazer chegar um canal.
Acabaram-se as negociatas para dar destino às verbas do orçamento que todos os anos originava uma nuvem negra provocada por uma clientela de necrófogos, que habitualmente gravitam pelos corredores dos luxuosos gabinetes da tecnocracia, onde agora as decisões que visam dar melhores condições aos desfavorecidos e desprotegidos, já não são tomadas cegamente. É tudo feito com conta, peso e medida.
Já que vem a talhe de foice, bem se pode dizer que esses investimentos, nos quais se incluíam aparelhos de climatização que, ano após ano, substituíam os que haviam sido colocados no ano anterior nesses gabinetes, foram canalizados para outras necessidades.
A climatização é agora feita através da ventilação natural, pelas janelas, e os ocupantes desses espaços tomaram consciência e passaram a sair à rua para apanhar sol, tal como os lagartos nos primeiros raios primaveris.
Todos os anos, em muitas empresas e instituições públicas, eram esbanjadas verbas do orçamento de investimentos que, ao invés de serem aplicadas onde realmente é necessário, eram aplicadas sem critério, gastando-se por gastar, simplesmente para justificar um pedido de investimento num devaneio qualquer e lhe não perder o direito se o investimento tivesse de passar para o ano seguinte.
Acabou-se o cortar no necessário para gastar no supérfluo, ou seja: acabou-se a política do "Isto no é meu nem de mê pai, que se tchape … toca a estranfoniar que prá frente é que é Lisboa".
Assim sendo, já não precisamos de tanta paciência para alimentar a esperança.

17 comentários:

Barão da Tróia II disse...

Mais um excelente texto, parabéns. Em relação a tal facada política a que alude, isso não me interessa seja ou não verdade coisa que também estou em crer que seja verdade, também não me interessa se o homem é engenheiro ou não isso não é relevante, nada mesmo, o relevante é atitude persecutória, bem como o ridículo disto tudo, a perda de tempo e o despautério. Boa semana

sonhadora disse...

"Não te digo tanto quanto quero, nem te faço tanto quanto sonho"

Maria Teresa Horta


Beijinhos embrulhados em abraços de carinhos

asn disse...

Olá Canhesto
Esta está bem apanhada...
Bem prega Frei Tomás!
Um abraço
António

al cardoso disse...

Mas que rico texto, ja lhe estavamos a notar a falta; Parabens!

Um abraco d'Algodres.

Ana Ramon disse...

Sabes, se não fosse no nosso país e ter a ver com a nossa gente, seria um texto hilariante e é até difícil não nos deixarmos rir com uma ou outra passagem tua. Mas no fim fica um aperto no peito e um amargo de boca tramado. A minha pergunta é sempre a mesma: Até quando?
Fiquei contente com o teu regresso. Um beijinho

Meg disse...

Mas que glorioso naco de prosa, Chanesco. É de babar...
E quanta ironia, já que de outra forma, a coisa era capaz de correr mal. Já viste ao que chegámos?
Virei cá reler-te, e apoiar-te eheheeh
Um abraço

Tozé Franco disse...

Mais um excelnte naco de prosa.
Mal vai este país. Temnhamos espeança, se ainda for possível, qua a coisa melor.
Um abraço.

J.G. disse...

Gosto das verdades ditas de forma irónica para refrearmos os primitivos instintos de encher a cara de bofetadas auns quantos vermes...

Um abraço, amigo raiano.

Jofre Alves disse...

afastei-me do mundo dos blogues, por causa dum insulto que sofri dum individuo que tem o ego maior que o Mundo.

Como em determinada altura não visitei o blogue dessa pessoa, teve o desplante de deixar vários comentários negativos, queixas e lamúrias, até na minha caixa de correio.

Como não alimento vaidades, resolvi fazer uma cura sabática e retirar-me.

Eis o motivo da minha ausência. Não é nada consigo, mas agora, aos poucos creio que vou voltar, mas somente para visitar meia dúzia de amigos. Um abraço.

Eddy Nelson disse...

Talvez não seja um "Portugal com medo de existir", talvez seja um Portugal que nunca existiu. Estou-me a referir ao Portugal das promessas politicas, ao Portugal mentido, que o seu belíssimo texto tão bem aponta e ilustra!

um abraço raiano

Anónimo disse...

Epara aparar a relva dos compos de golf compram-se umas cabeças de gado. Sempre se pouca em maquinaria de jardinagem.

abraço
J Dias

Sonhador disse...

É sempre um prazer visitar o seu blog e deliciar-me com as suas histórias, que nunca as esqueço, mesmo que sejam muito antigas.

nabisk disse...

Um aparte.
O amigo Chanesco não vive no concelho de Almada?

J.G. disse...

Passei por cá, e como já comentei anteriormente, hoje deixo o meu abraço.

Meg disse...

Mais uma visita para reler e para reclamar... QUEREMOS MAIS!!!
Um abraço

Jofre Alves disse...

Venho aqui sempre na esperança de encontrar novos e bonitos textos, porque tudo, mas tudo, é lindo, duma grande beleza, um verdadeiro prazer visitar este blogue. Dos melhores, na nossa blogosfera. Até breve e boa semana.

Manuel Maria disse...

Como eu gosto desta zona! Dos tempos em que advoguei no Fundão e dava uma voltas pr essas bandas.