terça-feira, setembro 4

21-2007: Sra do Loreto - Alcafozes

Pela primeira vez, Portugal recebeu a Red Bull Air Race 2007.
Este fim de semana nas margens do Douro entre o Porto e Vila Nova Gaia, para assistir ao espectáculo, uma enchente humana invadiu a zona ribeirinha. Até parecia que o rio havia transbordado.
Não fora a divulgação feita ao evento, ao ver toda aquela mole de gente que lá se juntou, muitos pensariam que se estava a assistir a uma corrida de rabelos à antiga duriense.
Mas não!
Todos os que se abeiraram do rio saberiam ao que iam.
O que muito poucos saberiam é que também neste mesmo fim de semana, em Alcafozes (uma aldeia vizinha, aqui a uns escassos 12 ou 13 Km de Toulões), iam decorrer (coincidência ou não – e nada divulgados) os festejos celebrados em honra de Nossa Senhora do Loreto, a Virgem Santíssima que em 24 de Março de 1920 foi consagrada pelo Papa Bento XV, Padroeira Universal da Aviação.
Está assim explicada a razão para tanto arrojo colocado nas manobras vertiginosas com que os malucos das máquinas voadoras que, competindo nos céus do Douro, brindaram o povo que assistiu àquele espectáculo inédito entre nós. É que ter as costas protegidas por Nossa Sra do Loreto sempre transmite outra confiança.
É na busca dessa protecção que, tradicionalmente, à romaria desta Santa que todos anos no dia em que culmina a festa (segunda feira a seguir ao primeiro fim de semana de Setembro) ali convergem representantes das mais diversas entidades ligadas à aeronáutica militar e civil para assistir à missa campal e fazer guarda de honra à padroeira durante a procissão em redor do recinto da festa.
Ele é o representante do Estado Maior e de vários militares da Força Aérea, ele são os representantes das Companhias Aéreas e dos seus tripulantes, das Associações e Sindicatos do sector da Aviação Comercial, dos Aero-Clubes dispersos pelo país (com especial destaque para o de Castelo Branco por ser o anfitrião), etc. e muitos populares, todos a encherem de ofertas e recordações a capela do santuário.
No decorrer da procissão, todos os anos uma esquadrilha de aviões patrulha os céu de Alcafozes, deixando atrás de si um troar ensurdecedor a fazer os fiéis se lembrarem de Santa Bárbara e um rasto de fumo branco como marca da sua passagem. Por vezes, quando o tempo o permite, também há lançamento de "páras".
Este ano coube aos F16 da FA e a algumas aeronaves do Aero-Clube de Castelo Branco cumprirem a tradição, mas noutros tempos, quando a guerra colonial que consumia material bélico nado criado de norte a sul do país, esse papel cabia às esquadrilhas de aviões Fiat e outros, que aproveitavam para sobrevoar as aldeias limítrofes e propagandear a actividade da Força Aérea com o lançamento de "papelinhos", no sentido de cativarem o interesse dos jovens e levá-los a alistarem-se nesta força militar.

Avião "T37 C", oferecido pela Força Aéra Portuguesa
(clicar sobre a foto para ler a placa)


Bom, mas se a parte religiosa da festa é, a seguir à Sra do Almortão, a romaria mais concorrida no concelho de Idanha-a-Nova, a parte pagã é também das que consegue atrair mais gente.
É, de longa data, conhecido o dinamismo e o espírito mobilizador das sucessivas Comissões de Festas alcafozenhas, que todos os anos tentam fazer melhor que o ano anterior, sempre como primeira preocupação, arranjar programas que mantenham a festa em alta durante três dias, nos quais nunca podem faltar as tradicionais garraiadas.
Foi das primeiras aldeias da região a possuir capacidade financeira para contratar artistas portugueses de nomeada.

Cobram bem, mas também animam os festejos e atraem forasteiros em quantidade suficiente para darem consumo aos mais diversos e apetitosos petiscos, garantindo, assim, um encaixe financeiro que, somado às dádivas da população e às receitas das rifas que são (ou eram – ainda comprei algumas) vendidas em qualquer parte do mundo onde haja um alcafozenho, ajudam a assegurar o futuro da festa.
Bem! Mas o objectivo da entrada de hoje não é propriamente o de contar a história da festa à Senhora do Loreto, porque para isso qualquer filho desta aldeia Raiana o saberá fazer melhor que eu.
É, isso sim, a de contar uma história conhecida de todos os toulonenses do meu tempo; a cornada sofrida pelo t’Zé Monteiro Pêla-Ruça, que o deixou empalamado por uma valente temporada.
Numa altura em que ainda não tinha pegado a moda dos cantores, entretenimento maior em Alcafozes eram as afamadas largadas à vara larga pelas ruas do povo, com tradição certamente recolhida das famosas "touredas" de Idanha-a-Nova, aonde acudia gente de todos os povos das redondezas.




O rei da Música Pop Portuguesa, Quim Barreiros, condimentou o ambiente festivo com o picante das sua cantigas.


A garraiada nocturna não teve a emoção de outros tempos

Agora as garraiadas são feitas num redondel construído junto ao recinto das festas, se bem me lembro, aí por finais da década de 80, onde já foram feitas touradas a sério, com cavaleiros, forcados e tudo.
Mas já não é a mesma coisa. Verdade seja dita que também já não há rapazes com "farnis" como havia antigamente, destemidos e com genica para enfrentar o garraio.
As ruas que desembocam no largo da igreja eram vedadas com cancelas robustas e nalgumas portas, principalmente numa das tabernas que dá para o largo, que faz esquina no lado poente do mesmo, era colocado, ao alto, um tranqueiro a atravancar a passagem, impedindo a entrada à rês que estivesse a ser corrida.
Os animais que participavam neste divertimento eram vacas bravas, mas em último, para aumentar a adrenalina aos mais tesos, era na maior parte das vezes libertado um touro. Um verdadeiro. Um daqueles que, como escreveu Herberto Hélder, "é uma espécie de pedra gigante dotada de dinamismo", com força bastante para levantar um reboque de tractor carregado de gente (como aconteceu uma vez no Ladoeiro - não ganharam para o susto!) e com a manha aprendida a correr atrás dos cavalos e dos forcados, nalguma das monumentais praças portuguesas.
Como a grande maioria das gentes raianas, o t’Zé Pêla-Ruça também gostava de "faenas" e fora à festa na companhia de uns amigos. A dado momento, para retemperar o organismo da desidratação provocada pelo calor da movimentação no largo, entraram na taberna para beber um copo.
Na rua um touro "bromelho" torrado fora largado e, ali mesmo à porta da tasca, investia num espantalho feito com uma saca de serapilheira cheia com palha centeia, como que a querer provar à assistência que a cor da pelagem nada tem a ver com a bravura.
O espantalho suspenso numa corda que, pelo ar, atravessava de um lado para o outro da rua, era manobrada numa janela de um primeiro andar, de forma a dar movimento àquela figura humanizada para distrair ou assanhar a fera.
Aborrecido com o engano, o animal virou-se para a porta da taberna e investiu contra umas pernas que se mostravam em movimentos de pontapés no vazio vindos lá de dentro rente ao tranqueiro, no qual se vingou o touro por ter falhado a investida. O pau, mal seguro, à segunda ou terceira cornada saltou de "su sítio" e meia tonelada de carne entrou de rompante tasca adentro, marrando às cegas, sem sequer ter parado para colocar a questão, que habitualmente os touros colocam aos forcados antes do momento da reunião, aquando das pegas de caras nas touradas à portuguesa.
Quando touro e forcado, num frente a frente, cruzam olhares com hesitações mútuas, o touro já farto de ser enganado, com uma das patas dianteiras a escavar na arena, parece perguntar ao moço:
- Vens cá tu ou vou lá eu?
Aqui não foi o caso. O touro, ao entrar na taberna, parecia raposa em galinheiro. A debandada foi geral. Enquanto uns voaram pela janela ou esbracejaram pela porta, outros, que até se vangloriariam da sua grandeza, borrados da sua cagança, tentaram fazer-se pequeninos e invisíveis, e imóveis reduziram-se à sua natural insignificância.



Esta sequência de fotos foi tirada um ou dois anos após a inauguração da "praça"




O ti Pêla-Ruça, não. Descansadamente encostado ao balcão a dar três dedos de conversa entre dois goles de tinto, nem tempo teve para pestanejar. Foi apanhado por aquele "red bull" que lhe meteu um corno entre as pernas e lhe deu asas para ir aos céus.
Mas como o tecto do estabelecimento era o limite, depois de ter esbarrado nos caibros do forro, não lhe valendo a protecção da Senhora do Loreto, foi forçado a um voo picado e aterrou desamparado no cimento do chão, apenas almofadado com uma camada composta por um manto de cascas de tremoços, cascas de cascabuéis e um salpicado de piriscas brancas.
Por sorte o animal, que para além de míope, estrábico e daltónico também devia sofrer de claustrofobia, vendo-se encurralado naquela exiguidade, atraído pelo movimento do pessoal em fuga, desviou a atenção para a luz vinda da porta e conforme entrou assim saiu, poupando o ti Zé a mais umas valentes cornadas.
Mas a Santa redimiu-se e só um milagre seu fez com que a ambulância dos bombeiros voasse entre Idanha e Alcafozes para socorrer o homem e o transportar ao hospital.



Mas uma coisa é certa: o ti Pela-ruça, pequeno, era homem de fibra!

Porque se não fosse, nunca mais voltava às touradas de Alcafozes, como aconteceu muitas mais vezes.
E quando o episódio da cornada vinha à baila havia sempre alguém que lembrava a arrancada, sempre oportuna, do ti João Páscoa:
- São cousas ó Zéi. No dizem que quem se quer bem sempre se encontra?

Atão assim foi, parente!

20 comentários:

al cardoso disse...

Parece que a Senhora do Loreto, protegeu aqueles audazes que andaram as curvas sobre o Douro, pois nao aconteceu nada grave.

Mais um texto de se lhe tirar o chapeu!

Um abraco do d'Algodres.

J.G. disse...

Gostei imenso do relato desta entrada do toiro na tasca e do voo ao tecto do Ti Pela-Ruça.
Claro que esses picante se foi perdendo, mas ao menos ficam registos como este que a mim me transportou à festa.
Ainda que deteste espectácullos que metam toiros.

Um abraço.

Anónimo disse...

Parabens pelo seu blog,fico contente por finalmente encontrar alguém que se interessa em divulgar os pontos de interesse das nossas terras, sou Alcafozense de coração e é sempre com emoção que leio noticias como esta. Bem aja pela divulgação que está a fazer, permita-me uma sugestão: que tal compilar algumas das alcunhas das nossas terras! Um abraço de uma Cometa-pacaná.

Tozé Franco disse...

Bem me parecia que havia uma mão invisível que protegia os gloriosos malucos das máquinas voadoras! E pelos vistos também os toureiros improvisados.
Excelente história.
Um abraço.

as-nunes disse...

Essa Sra. do Loreto, com o devido respeito, então não devia ter protegido um bocadinho melhor o ti Pela-Ruça? Mesmo assim, vá lá vá lá, que podia ser o cabo dos trabalhos, não fora essa catrefa de problemas psico-somáticos do bicho.
Veja lá, Chanesco, as coincidências! Ou foi mesmo escolhido o dia do tal Festival Internacional de modo a receber as devidas bênçãos da N. Sra. do Loreto que nestas coisas de se correrem riscos e de aventuras, nunca fiando.
O meu amigo sempre em forma a contar a preceito, quais históricas que ficam com um jeito muito peculiar e irresistível.
Um grande abraço
antonio

C Valente disse...

Boa narrativa. parece que de facto o programa agradou
saudações amigas

bettips disse...

Parece impossível: ia começar o meu resposta-mail com um "quem se quer bem sempre se encontra"...! Palavra de blogger. Quando dou com a tua última frase... Atão? Quem me dera estar na Sª do Loreto que aqui é tudo muito "sintético" e eu fujo, como o ti Zé. Para esclarecer: a última/primeira foto, de relevo na pedra, é do escultor Jorge Vieira (julgo) e faz parte dos dois posts anteriores onde deambulei pelo Edifício Aguas Livres. Isto é tudo um rosário de muitas contas...
Um grande abraço e bem sabes que "me pélo" pelas tuas descrições. Sempre! Abraços

Ana Ramon disse...

:)))))))))))
Quando estou uns tempos sem visitar alguns blogs que trago no coração, acontece-me sempre isto que é ter uma série de belíssimos textos para ler. Não fazes ideia da boa disposição que este teu post me trouxe. Comecei a manhã com a cara fechada e neste momento sinto-a leve e sorridente. Sei que já te tenho dito isto montes de vezes mas apetece-me repetir: É sempre um enorme prazer ler-te. Um beijinho grande

Eddy Nelson disse...

Caro chanesco,

Embora não seja adepto de touradas, fiquei realmente extasiado com mais uma das suas deliciosas histórias. Insisto mais uma vez, pense seriamente em publicar todas estas deliciosas memórias destas milenares gentes que povoam este maravilhoso concelho. O concelho ficaria, com toda a certeza, muito mais rico...

um abraço raiano

Barão Van Blogh disse...

Dóceis contornos esculpidos a cinzel

Que reflectem a frescura da sua pele

Sophiamar disse...

Foi a primeira vez que aqui passei e deparei-me com um blogue interessantíssimo com a descrição de uma festa religiosa assim como de um aspecto rocambolesco que me deixou a rir.
Agradeço a tua visita lá no meu canto.
Beijinhos

MPS disse...

Não conhecia a festa. Um dia, querendo a Senhora do Loreto, hei-de lá ir.

"Palha centeia" ou "palha triga" são expressões que também usamos e que rescendem a eira e a perfume de enxergão acabado de encher. Com isto, hoje o Chanesco ajudou-me a matar saudades!

Quanto à placa: eu quase precisei de tirar um curso de iniciais/siglas para a entender; quem a escreveu precisa, pelo menos, de um curso de pontuação.

Um abraço

Meg disse...

Ó Chanesco... se eu adivinhasse o quanto me ia rir ao ler esta tua história...
Passo por aqui, mas para te ler devidamente, tem de ser com tempo só para ti. Foi hoje.
E valeu, como sempre, o tempo, pois, além do prazer de te ler, ri a bandeiras despregadas com aquela pega, porque me vi observando a cena "de balcão".
Haja mais, Chanesco! Obrigada,
Um abraço

C Valente disse...

Passei e deixo os meus cumprimentos
Saudações amigas

Ariel Sharon Tate disse...

Não tiveram "farnis" na garraiada? No linguajar das minhas bandas diz-se "décimos" :)

J.G. disse...

Como não há escrito novo, renovo o último abraço e desejo uma boa vida com saúde e alegria.

Anónimo disse...

Por um acaso descobri este blog e fiquei rendida. O meu pai é de Alcafozes e a tasca de que fala na história era do meu avô... Faia de seu nome.

doberto disse...

Muito me apraz registar que alguém se lembre de uma terra que, infelizmente, ainda hoje não aparece nalguns mapas.
Gostaria de saber quem é o chanesco já que poderiamos criar tipo um dicionário de vocábulos dessa terra cada vez mais esquecida pelos mais novos à mediada que o tempo passa e cada vez mais deserta à medida que os velhos morrem.
E já agora chanesco diz-se tchanesco.
Há uns tempos frequentei umas aulas de russo e descobri que em russo há uma letra que designa o nosso TCH usado na aldeia.

Ana Isabel Pires disse...

O meu pai de seu nome José António Pires, filho de António Pires e MAria Ribeira, é um dos filhos de Alcafozes, e o que posso dizer é que esta terra é do nice, é bonita em todas as ´´epocas do ano, tendo cada época o seu encanto. A festa da Nossa Senhora do Loreto, devia ser vista por todas as pessoas, é do melhor,aquilo só mesmo visto, não existem palavras...VIVA ALCAFOZES!!!

Emilia disse...

Olá, Ana Isabel Pires!!!
Como vai a minha sobrinha??
Até que enfim que te apanho na net :)

Realmente a "nossa" festa é ponto de passagem obrigatório!