terça-feira, fevereiro 23

6-2010: Entrudo 2010 - Toulões (crónica)


Fazendo fé na profecia de Nossa Senhora das Candeias, antevisão meteorológica para o período que se segue ao dia 2 de Fevereiro, já se previa que o Inverno iria ser rigoroso nestes dias mais próximos.
Este provável desconforto, sem a presença dos primeiros raios de Sol primaveris, que nos últimos anos, por esta altura, já dão tempero aos dias ainda aziagos de tamanha invernia, não arrefeceu as expectativas criadas em torno do sucesso do Entrudo do ano passado.
Os muitos foliões que aderiram à iniciativa, assim como a população em geral, que a gosto seguiu aderrabo do cortejo, quase tão concorrido como a procissão da festa de Santo António, nunca mostraram a parte fraca. Convenhamos que o almoço agendado para este dia, resultante do ofertório das Janeiras, bem servido e melhor regado, deu metcha basta para enfrentar a friagem que rebota da espanhola Serra da Gata, "um parapeito onde esbarram os ventos húmidos do Atlântico", denominados por "nuestros hermanos extremeños" de "aires de Portugal". (Ainda me hei-de inteirar de qual é o ditado, em espanhol, equivalente ao nosso "de Espanha, nem bom vento nem bom casamento")
Tal como no ano passado, o carnaval dos Toulões, sempre longe da sátira política e social (aqui prevalece o terra-a-terra da diversão pela diversão), foi o mais trapalhão possível, tendo havido trapalhadas para todos os gostos.
Desde a Vaca-galhana, que não podia faltar, este ano exibindo um disfarce bem americanizado, modernizando-se e dando mostras de adaptação aos tempos que correm, até às bruxas que, antigamente, ao bater da meia noite povoavam os terreiros e exerciam a sua magia maléfica libertando a diabólica, que fazia das suas por esses compos fora, e açulando a má-hora a dar caça aos noctívagos mais incautos, todos, com disfarces urdidos de maior ou menor sofisticação, se equivaleram na hora de se expandir com alegres brincadeiras.
Os mais novos, nesta onda de colagem ao Carnaval importado, não deixaram créditos por mãos alheias.
Entre os mais velhos, um grupo vestido a rigor trouxe à memória o tempo das ceifas, o tempo em que a alegria no trabalho atenuava a dureza castigadora imposta pela canícula. Nem sequer faltou uma espontânea representação do "estender da merenda" ou do "fazer uma bola" para retemperar as forças consumidas pela árdua tarefa, não de ceifar, mas de ter percorrido as ruas do povo numa caminhada de mais de hora e meia.

E não fora ali ainda dada por finda a jorna.
À noite, estes mesmos ceifadores, no caso mais as mulheres, reeditaram o balho à moda antiga, aprofilando-se com trajes de gala, à época usados ao Domingo ou em ocasiões festivas, peças de uma indumentária pacientemente confeccionadas. Notou-se nelas o orgulho de mostrar o "feito por nós", autênticas obras de arte dos lavores, revelando pormenores de grande genuinidade e tão perfeitos que bem mereciam ser apreciados fora de Toulões. Desde os xailes bordados com ponto de Castelo Branco, às simples algibeiras de cinta rameadas a ponto cruz, às saias, aos corpetes e aos mandis, tudo enfeitado com nastro de várias cores, numa harmonia há mais de 50 anos guardada no baú que, sabe-se lá, estará de novo na moda num futuro menos longínquo do que se pensa.

3 comentários:

Romeu disse...

Mano Chanesco!
Portaste-te bem, como e costume, estiveste à altura de grande repórter! Claro que outra coisa não seria de esperar.
Parabéns, mano e...não te esqueças de aderiri no Facebook ao Grupo de amigos de Toulões!!

Eddy Nelson disse...

cumpriu-se o calendário ritualistico anual...e mais um entrudo com todas as nuances destes tempos actuais que mais uma vez confirmam e comprovam de que não existem sociedades fechadas sobre si mesmas. gostei desse apontamento do "bailarico" e das suas vestes coloridas...

um grande abraço

MPS disse...

Caro Chanesco

É comovedor ver os mais velhos na folia, ensinando aos mais novos como tudo deve ser feito. Que todos saibam aproveitar.

Um abraço