quinta-feira, dezembro 7

32-2006:Tchupistas


Se há notícias sérias, notícias pertinentes, daquelas com fundamento razoável e com as quais rejubilamos, como é o caso da que foi objecto do post anterior sobre o Carriçal, outras há para as quais não se encontra uma explicação lógica que nos permita pensar se valeu a pena serem divulgadas, mesmo que uma chusma de idóneos jornalistas se tenha perfilado para recolher, em primeira mão, a última exclusividade, que fica fora de moda logo que cai o pano do espectáculo mediático.
Em Novembro de 1996, (já lá vão dez anos e parece que foi ontem) uma insólita notícia pôs esta anónima aldeia de gente, tão humilde quão desprotegida, na capa de quase todos os jornais e até teve honras de abertura num dos telejornais da noite.
Nascida sabe-se lá por que artes do diacho, chegou escorreita e sem pecado aos jornais regionais Gazeta do Interior e Povo da Beira, passou pelo JN e, por obra e graça da maleita do "voyeurisme", chegou às televisões já de tal forma empolada que os ecos da sua invulgar existência se repercutiram até aos espanhóis El Mundo e Cambio16, chegando também, pasme-se, até aqui.
Então foi mais ou menos assim:
O Monte Fidalgo é um antigo coito, quase roubado à herdade da Zebreira, encantinhado entre a ribeira da Toulica junto à ermida de São Domingos, os Malhadis e o Vale de Cardas, onde a flor de tabaco Virgínia ainda vai dando algum ar garrido à faina agrícola que, segundo dizem, para rodar a terra respeitando a alternância de culturas (ou talvez pelas agressivas campanhas anti-tabágicas), está a dar as últimas fumaças, preparando-se já a sua substituição pela doce amargura da cana sacarina, com vista à produção de bio-combustível à base de álcool.
O povo, que por aqui vai sobrevivendo das magras oportunidades que esporadicamente vão surgindo, queixando-se de que isto vai de mal a pior, já diz: "É de vício em vício! Larga-se o tabaco e encarrilha-se na copaneira!".
Este terreno de cultura diversificada em que abunda o azinho e o sobro que, apesar da folha pintalgada que denuncia a doença do sobreiro assim como sintomas da seca que nos tem assolado, continua a oferecer de nove em nove anos, quase de mão beijada, umas valentes arrobas de cortiça que mal vão dando para as quebras.
Um enorme olival, em tempos bem tratado, produzia um azeite de primeiríssima qualidade. Hoje, à semelhança do que acontece nos grandes olivais da região, a azeitona fica na oliveira para matar o bicho à passarada.
Visto que a jeira nem chega prá peneira, deixou de ser rentável a sua colheita.
Os olivais fazem agora o deleite dos caçadores de tordos que aqui chegam de todo o país durante a época venatória e vão dando alguma animação a esta zona. Alguns, vindo mais pelo convívio, nem chegam a enxergar os tordos, mas que vão de cá atordoados com as nossas delícias gastronómicas, lá isso vão.
E é aqui que começa a história!
Naquela altura, as pastagens por entre este arvoredo enchiam a barriga a um enorme rebanho que, até então, dava origem a um divinal queijo amarelo da Beira Baixa.
Esse bem cuidado rebanho, sem explicação plausível, começou subitamente a ficar desfalcado.
Um dia faltavam duas ovelhas, passados oito dias faltavam outras duas, na semana seguinte faltavam mais três e assim por diante durante algum tempo. Vinte e tal ovelhas levaram sumiço, tendo sido encontradas mortas apenas nove, todas elas com um profundo buraco na garganta, sem vestígios de mais nada.
Na procura de uma razão que explicasse este facto, chegou-se a uma hipotética conclusão alvitrada pelo ti Zé Pequeno e corroborada por algumas autoridades locais na área agropecuária: "um lobo velho, só com um dente (o outro partira-o por qualquer motivo), atacava os pachorrentos ovinos".
Dado o alerta montou-se uma vigília, mas sem resultados.
Para a televisão, este misterioso fenómeno era, taxativamente, obra de um chupacabras, relacionando esta notícia com as recentemente chegadas de alguns países sul-americanos, dando conta de acontecimentos semelhantes, em que relatos de testemunhas diziam tratar-se de um morcego gigante que atacava as rezes para lhes sugar o sangue, cuja descrição era feita por Jorge Martin da revista UFO, em Outubro de 1996, escrevendo desta maneira:
("Criatura que tem a forma de animal, um par de asas, é muito selvagem, mede cerca de 1,15 m e é horrível", segundo um observador na periferia de Guayaquil, Equador, a 270 Km de Quito. O facto ocorreu em junho de 1996. Esse "Chupacabras" equatoriano tinha semelhanças com o que também apareceu em Porto Rico e México).
Estava oficializado: o chupacabras fizera sangue em Toulões.
A notícia, tal como foi dada a conhecer, passou aos olhos da generalidade portugueses com áureas de fenómeno sobrenatural, e o mistério que encerrava causou alguma perplexidade junto da população. Não era todos os dias que em Portugal se testemunhavam acontecimentos desta natureza.
As imagens dos animais e as entrevistas feitas no local, ao ti Zé Pequeno, o zeloso pastor e ao ti Domingos Gago, o feitor, deram-lhe credibilidade pela forma convicta com que descreveram o sucedido com as ovelhas.
Também numa primeira reacção, os toulonenses, principalmente as pessoas mais velhas que, tal como a generalidade do nosso povo é propenso a crenças e superstições, mal a notícia, pulando as cancelas do bardo, se difundiu no éter, fizeram logo o seu vaticínio, relembrando antigas histórias de bruxas que se contavam nos serões de Inverno sentados ao lume. Via-se, pelos indícios, que a evidência era óbvia: "aquilo é obra da diabólica que por onde passa, dá conta de tudo".
Para os mais sépticos, habituados a lidar diariamente com o gado e com os protagonistas deste enredo, a notícia possuía contornos de veracidade duvidosa e muitos lhe torciam o nariz, de tal forma que durante algumas semanas o fenómeno do chupacabras se tornou anedótico e sem importância, tendo apenas dado origem a mais um episódio, no mínimo, caricato.
A palavra chupacabras, que, entre galhofadas, andava alto e bom som nas bocas do povo, veio desenterrar o fantasma do Tchupa-a-tchiba. A velha alcunha que o ti Martinho ganhara quando era garoto pelo hábito de ordenhar a cabrinha bragada directamente para dentro da boca, mas que os anos deitaram no esquecimento e da qual já ninguém se lembrava.
Nesse tempo o Tchupa-a-tchiba rivalizava no nome com a do Mama-na-burra deixando-os ambos a rabiar que nem uma bicha-tanaza. E quanto mais rabiavam mais lho chamavam.
As nomeadas, oportunistas, apareciam sem serem esperadas, sempre que a ocasião era propícia e geralmente assentavam que nem uma luva, dado o conhecimento que o "padrinho" tinha do "afilhado". (ver aqui uma teoria sobre as alcunhas).
O ti Martinho, já à unha com o peso da idade, agarrado ao cajado de quando ainda era pastor e que agora lhe amparava as cruzes rangentes por via do caruncho, não estava pelos ajustes. Para ele, que ainda não se tinha inteirado das balelas, esta palavra envenenava-lhe o sentido. Confundindo Tchupa-cabra com Tchupa-a-chiba, sentindo-se alvo de chacota, ficava fora de si disparando pragas em todas as direcções .
- Catanos ma tchapem s’eu no esborraçar os miolos a um! - e alçava o cajado com a intenção de arrear no que estivesse mais perto.
Esta história, um mero assunto familiar a ser resolvido entre paredes, que tanta celeuma levantou, permaneceu durante alguns anos num segredo sacramental, até que um dia, zangando-se os compadres, e quando já todos a julgavam definitivamente sepultada, eis que ressuscitou e, trazendo à luz do dia toda a verdade, revelou toda a sabedoria contida no velho adágio.
Nunca constou que a televisão alguma vez tivesse feito mais qualquer referência a este assunto.
É que tirar esta região do anonimato, promovendo aquilo que tem de bom e que vale a pena ser dado a conhecer, não dá audiências, mas propagandear especulações e "aldravadas", valendo-se da boa fé e da ingenuidade desta gente tão vulnerável, transformando assuntos de família em "fait divers" é o que está a dar.
Era de bom tom que, intercalando com big brothers, futebóis e brasileiradas, as televisões que vão sendo, a par da mulher do pão e do homem do peixe que aqui vêm vender, os únicos elementos exteriores que por aqui, quebram a rotina, passassem também a transmitir programas apelativos para auxiliar na batalha contra o analfabetismo e a iliteracia, em prol da nossa cultura e da nossa identidade.

15 comentários:

Ana Ramon disse...

Vê lá tu como são as coisas: com este post lembraste-me essa notícia que já estava completamente esquecida mas que na altura também me surpreendeu pelas várias hipóteses arranjadas para explicar essas mortes estranhas. Não me lembro de ter ouvido a que conclusões teriam chegado - essa do morcego gigante, está divinal :)) - Mas tens toda a razão. Temos que estar bem prevenidos (e nem sempre estamos) contra os efeitos nefastos das notícias mediáticas. Um grande abraço e aparece sempre

Tozé Franco disse...

Ora acabaram-se os fenómenos sobrenaturais. E agora?
Um abraço.

Jofre Alves disse...

Chanesco: adorei ler o texto com profundo sentido do mais refinado humor e qualidade para revitalizar a "Tchupa-a-tchiba". Passei para apreciar e desejar bom fim-de-semana, depois de ler esta agradável e informativa prosa cheia de interesse, vou embora satisfeito. Até breve.

Jorge P.G. disse...

Chanesco, Vim cá num salto pois estou com falta de tempo.
bom fds e 1 abraço.
Jorge g

bettips disse...

Claro, amigo, esquecem-se do país real e (muito) do interior. Lembram-se pelas piores razões, nunca pela beleza das suas paisagens e gentes! Abç

Anónimo disse...

nao me lembro dessa historia, qual foi a conclusao?

Anónimo disse...

Chupa que e cana doce.

Belo texto cheio de humor e realismo.

Um abraco serrano.

little_blue_sheep disse...

Oi!
Gostei mto do post!!!!

Saudações,
;)

asn disse...

Sim senhores, o que este nosso amigo Chanesco vai desencantar!
Um encanto este desencantamento!
Um abraço e bom Domingo!
António

Chanesco disse...

Caro Anton

Esta história foi um assunto de família que ficou resolvido no seu seio, pelo que, para não melindrar ninguém, o seu desfecho foi propositadamente omitido.
De qualquer forma, com este post não tive a intenção de apurar a verdade, nem julgar fosse quem fosse, mas sim alertar para uma situação anormal em que é feito o aproveitamento da ingenuidade das pessoas das aldeias, algumas já com idade avançada.
Assim sendo, lamento não poder satisfazer a sua curiosidade.

Mas volte sempre!

Eddy Nelson disse...

Caro Chanesco

Não tinha conhecimento que o dito "chupa-sangue" também brindasse pelas terras dos Toulões. Mas que "estória" fabulosa. Parece-me que o verdadeiro nicho ecologico desta tão terrivel e ameaçadora especie ("chupa-sangue"), sejam mesmo os midia.

um abraço

MPS disse...

Lembro-me tão bem desta história - vista nos noticiários, claro está! Lembro-me, também, de ter pensado: como é possível fazerem-se peças que são a negação da essência jornalismo? Contar os factos, verificar os dados, pesquisar, seguir pistas para chegar à verdade. Em vez disso servem-nos anedotas.

Salva-se o seu texto, de uma ironia notável.

Um abraço... estou quase, quase, a ir sentir o frio da Serra da Nogueira, que me aquece a alma.

karraio disse...

A questão pode sempre colocar-se: estes fenómenos, ou melhor o surgimento deste tipo de fenómenos poderia registar-se noutro contexto que não o do mundo rural? Os mitos que lhes estão associados não fazem parte da matriz simbólica própria do espaço rural? Que juizo de valor devemos fazer deles? Vê-los (e senti-los) de dentro e integrá-los (academicamente) na matriz (como de certa forma tu fazes Chanesco - e eu, já agora),ou, olhá-los de fora e atirá-los para a categoria do folclore rural, no sentido depreciativo do termo, como fizeram os abutres da televisão?
Claro que o mundo rural há muito se rendeu à "ideologia dominante" e se urbanizou em muitas práticas e consumos e isso pode ser sinónimo de "progresso". O que, necessariamente, significa descaraterização, e tudo indica que o processo é inevitável e irreversível. A nós, a ti, a mim, a muitos outros que felizmente por aí pululam, cabe-nos o direito (e o dever) de defendê-lo desses tchupistas a quem só interessa a perspectiva folclórica. Por mim, conto fazê-lo entre o pragmatismo e o humor, sem exagerar na nostalgia.

Anónimo disse...

Bravo, bravo, aplaudo de pé este teu soberbo post, parabéns, dá gosto ler alguém que assim escreve, gostei mesmo. Boa semana

Anónimo disse...

Como taloeira foi uma agradável surpresa encontrar este blog. Foi bom reconhecer nomes, histórias e até reconhecer rostos desfocados na foto.
Tive pena que alguns comentários não estivessem à altura.
Beijinhos