terça-feira, janeiro 22

3-2008: Puro Raiano

Folha do tabaco na fase de secagem em estufa
- Coito das Areias (Zebreira / Idanha-a-Nova) -


Com a entrada em vigor da nova Lei do Tabaco, a ASAE virou definitivamente a marca da moda.
A sua, cada vez maior, visibilidade é ganha pelo protagonismo assumido em fazer a todo o custo cumprir a dita lei que, tal como outras anteriores, parece ter sido apressadamente despachada para fugir à ameaça de tsunami, provocada pelas ondas de choque originadas pela descarga da concentração aerofágica, acumulada por um grande da Europa incessantemente forçado a um doloroso deglutir em seco, engasgado com a instabilidade bolsista.
Naturalmente, quando as calamidades acontecem, é sempre o mexilhão que sofre piores danos colaterais, mas, com a ASAE vigilante, aparece sempre no momento oportuno uma mão amiga para dar uma palmada de reconforto, vincando a sua marca com o rigoroso cumprimento da lei.
Veja-se o que tem vindo a acontecer por toda esta Raia com os produtos regionais: enchidos, queijos, vinhos, azeite, doces e toda uma panóplia de sabores e saberes tradicionais cobertos pela poeira da história, que agora é preciso limpar em nome da modernização. Até a matança do porco, símbolo da união entre familiares e vizinhos, exemplo do espírito de entreajuda, está já amarrada ao banco para ser sentenciada.
Todas estas actividades já estão etiquetadas com a marca da ASAE, inclusivamente alguns cafés de aldeia já têm também a publicidade selada na porta, sinal da sua implacável intervenção.
Depois de provado que FUMAR MATA, pois claro, proíbe-se o fumeiro.
Agora chegou a vez do tabaco. Sempre pensei que a fiscalização fosse incidir sobre o contrabando, mas não: foi sobre o consumo e o consumidor, para desgraça dos agricultores idanhenses.A ameaça já pairava no ar desde 2005, quando a EU impôs o corte nos apoios ao cultivo do tabaco em Portugal. A sua produção, que se previa poder chegar até 2010, foi subitamente abandonada no ano passado e, claro está, a campina de Idanha-a-Nova, da qual saíam cerca de 65% da produção nacional na variedade Virgínia, ressentiu-se disso ao ser abrangida por esta medida.
Este abandono trouxe graves implicações sociais à vida agrícola por, no imediato, não ter sido dada alternativa (tudo aponta para a produção de bio-combustíveis, mas pelos vistos os estudos/projectos de viabilidade estão em combustão lenta) o que provoca revolta dos pequenos produtores que ficam de braços cruzados a verem o tabaco consumido, a ser importado.
"Pelo menos, mesmo que inconscientemente acontecesse, já não nos podem culpar da morte prematura de tantos portugueses" – dizem.
O abandono do cultivo do tabaco não implica o automático abandono do vício (ou do prazer) de fumar. Aproveitando a produção que ainda resiste, sem subsídios, e aproveitando a grande reputação de que goza a marca ASAE por todo o país, a ARBI (Associação de Regantes e Beneficiários de Idanha) e a APT (Associação dos Produtores de Tabaco) bem poderiam encetar negociações com o principal representante desta reputada marca (grande apreciador de cigarrilhas), propondo uma parceria para a instalação na campina de Idanha de uma unidade de produção de cigarrilhas e charutos, capaz de competir com as mais famosas marcas cubanas.
Num estudo de mercado elaborado após a promulgação de Lei do Tabaco, concluiu-se que esta forma de apresentação das folhas da planta Nicotina Tabacum, é a que mais probabilidades tem para singrar junto da restrita camada de consumidores, frequentadores dos locais contemplados na excepção à Lei que se adivinha estar para breve.
De futuro, se alguém se abeirar de si e lhe oferecer uma flor de tabaco, ouvirá certamente:
- Vai um puro Raiano ... um ASAE?

12 comentários:

Eddy Nelson disse...

Concordo plenamente consigo, tantas proibições, tantos sinais vermelhos, a bem de quem? Relativamente aos produtos tradicionais que comportam um saber-fazer ancestral e uma paisagem, um património construido, etc, etc., nada interessa, nada mesmo! Interessa sim, uniformizar, pós-industrializar tudo, entramos na era da "inoxização", da super higienização das aldeias e dos lugares. Mas atenção, muito atenção mesmo, porque o que esta super policia da higiene poderá estar paulatinamente a contribuir, secalhar sem o perceber, é para acabar com toda uma cultura culinária que a própria UNESCO valoriza e manda preservar. Afinal em que ficamos? Muitos paises europeus, contornaram muito bem esta higienização e continuam a produzir os seus produtos tradicionais na palha, no colmo, na madeira, etc..

MPS disse...

Caro Chanesco

Magnífica ironia!

Um abraço

Meg disse...

E que dizer mais, senão que está tudo dito neste post.
E temos de levar o assunto com uma certa ironia, porque o caso está feio.
Ainda acabamos todos a comer comida sintética...

Tinha saudades destes nacos de prosa.

Um abraço

bettips disse...

É que ninguém fala disso!!!
Uma clareza e acutilância de que já estava saudosa.
Um abraço longo, até aí à raia. Com desejos que se resista.

Porca da Vila disse...

Cá por mim, acho que vou emigrar... Para a Madeira, que o AJJ diz que vão abrir uma data de buracos na lei do cont'nente!

Um Xi Grande

Mocho-Real disse...

Fico sem palavras!

Só ironizando se consegue adocicar, de facto, o cheiro a azedo desta nova Polícia de Costumes.
Em breve nos obrigarão ao uso de uma farda, igual para todos os povos da UE.
NÃO O PODEMOS PERMITIR!

Um abraço.

Ana Ramon disse...

Mesmo quando se usa a ironia não se consegue anular a inquietação de nos sentirmos completamente manipulados e nas mãos de mentes absurdas que lançam leis completamente estúpidas.Como dizes e bem, não se trata só de proibir ou dificultar o uso do tabaco. A intenção é mais profunda e não totalmente visível. Até quando vamos permitir que arruinem todo o nosso património gastronómico?
Beijinhos amigo

C Valente disse...

Subscrevo
Saudações amigas

al cardoso disse...

Se coisa que os governos deste pais nunca souberam defender em Bruxelas, foi a nossa agricultura!
Nao souberam ou nao quiseram e, depois quem sofre e o interior.
Continuo a constactar que as autoestradas, continuam fundamentalmente a servir para os cada vez menos habitantes, melhor possam emigrar ou para o estrangeiro ou para o litoral!

Um abraco d'algodrense.

as-nunes disse...

Em suma, estamos lixados. Não iria tão longe como o Manel Boto (PSD lá dos Algarves) a comparar a ASAE com a PIDE, mas... A malta está a sentir que algo de persecutório contra os pequenos negócios em que muitos portugueses iam vivendo (Muitos, mal, mas lá iam vivendo)está a acontecer. A olhos vistos e com efeitos devastadores na pequena economia de subsistência. Ficam as multinacionais com maior campo de manobra e muitos de nós estão a regressar à, julgávamos nós, emigração. Até para Espanha, veja-se.
Quem nos acode?
Um abraço
António

ManuelNeves disse...

Viva!

A fina ironia do seu texto, não esconde a verdade dos dias que correm. A ASAE, torna-se um caso sério de policia, a policia das tabernas, dos tascos, das mercearias, das pequenas retrosarias, da loja de ferragens... não faltará muito e será a policia das pequenas esquadras da policia ( e GNR também...)

Um Abraço

Tozé Franco disse...

Proponho que ao lado abram um casino para o comendador-mor da ASAE poder fumar à vontade.
Um abraço.