quarta-feira, abril 8

6-2009: A crise da moiteira (3ª parte-FIM)

Foi num cenário em tudo semelhante ao descrito nos dois posts anteriores, com rivalidades já uma vez afloradas aqui, que se enquadra o episódio passado com um bem sucedido alfaiate da Zebreira, do qual vos dou aqui a minha versão. Baseada no que é comum contar-se na própria Zebreira, hoje vila, em Toulões e arredores, esta estória, da qual sobrou uma frase que se tornou adágio local para ilustrar situações de, digamos, alguma inabilidade: “Quem te disse a ti moiteira, …?”


Num tempo em que trabalhar por conta de outrem nem sequer era garantida a jorna ao fim do dia (e hoje não é diferente), ter vocação para aprender um ofício de artesão e a habilidade de o exercer, era uma alternativa para escapar ao difícil trabalho do campo.
O Henriques, acabada a terceira classe, aprendeu a geometria aplicada à traçagem a giz sobre os tecidos estendidos na planura da mesa de trabalho, as técnicas de utilização dos moldes, as de corte e costura das diferentes partes que compõem um fato, uma véstia, umas calças, debruadas e com algibeiras de vira, e outras farpelas usadas em dias festivos, fossem elas de saragoça, estopa ou pana espanhola.
E saiu-se alfaiate.
Em poucos anos, a mestria revelada na qualidade do trabalho apresentado, granjeara-lhe a confiança dos lavradores mais prósperos e outra gente distinta no trajar, com obras saídas da sua lavoura. Melhor só os afamados alfaiates da Covilhã. No pressuposto de que o alfaiate faz o homem, estes mágicos da transfiguração faziam de qualquer labrego endinheirado um fidalgo burguês de ar mais altivo que um ancho e espampanante pavão em período de acasalamento, criado no arraial do Vale Coelheiro.
Com a crise instalada no país, acentuada pela guerra civil de Espanha com reflexos em toda a zona de fronteira, que tal como uma enxurrada a inundar todos os redutos de esperança segundo o princípio dos vasos comunicantes, deixou os náufragos mergulhados numa ansiedade, expectantes em deitar mãos a uma bóia de salvação.
A clientela luzidia que lhe alumiava o governo da casa, ficou subitamente depauperada pela falta de condições de escoamento das colheitas. Feita a agulha do alfaiate para o remendão ou atraída pela novidade dos algibebes, precursores do pronto a vestir, recente novidade na indústria têxtil que rapidamente se impôs nas feiras, o Henriques viu-se forçado a embarcar a alfaiataria num processo de lay-off, deixando as letras de crédito do investimento feito na compra de uma moderna máquina de costura, já com sistema de chulear, a nadar no compromisso.
Para colmatar desta perfídia, ajeitava-se então a prestar uns serviços de barbeiro a uma escassa freguesia, também ela afogada na crise. Aos Sábados, depois da ceia, no lúgubre ambiente da oficina, entretanto adaptada a barbearia, iluminada pelo melhorado fluxo luminoso do gasómetro em substituição do ténue e bruxuleante cintilar do pavio da candeia e aos domingos, antes da missa, tinha motivos para dar largas ao regozijo de manobrar a tesoura, manuseada com uma habilidade inusitada, mas agora a cisalhar filamentos capilares. De resto, tirando uma vez ou outra durante a semana, invasões de pasmo irrompiam pela barbearia improvisada. Só o ícone de Nossa Senhora da Piedade ladeado pelo de São Domingos, ambos entalados no rebordo superior da moldura do espelho de provas, testemunhavam a sua amargura.
Ganhar a vida tornara-se difícil e fazer por ela, com o ofício, mesmo espremido, a não dar uma gota de sustento, passava por uma angustiante reconversão profissional: dar o corpo ao manifesto e alinhar no trabalho do campo.
Até aqui, as mãos mimosas, que raramente empunharam outra ferramenta com afagar mais agreste que a tesoura da costura e a pega do ferro das brasas de aprimorar a roupa, apenas sentiram o cabo da enxada numas fugazes cavadelas na horta das Tapadas. Lá era a mulher que mandava, mas também era ela que amanhava umas leiras de batatas e de hortaliças para o caldo e para a vianda. A falta de contacto com a dureza do trabalho agrícola deixava-o apreensivo quanto às suas faculdades.
Com o início do Verão veio a solução para os seus anseios.
Sem nunca ter sentido as mãos abrasadas pelo ríspido abarcar das paveias durante o estio das ceifas desde rapazote, entrou num quinto. Logo no primeiro dia uma reprimenda: “vieste pr’aqui a cêfer trigo para intcher o papo a uma pita, ó quêi?”.
Mesmo com a cúmplice ajuda dos camaradas, a reduzida produtividade levou o manajeiro, numa atitude visionária que viria a ter a sua aplicação com o fim da ditadura, a enquadrar-lhe a jeira com a das mulheres: “a trabalho igual salário igual”. Do ponto de vista da justiça laboral, não podia ser mais acertada, mas para ele foi uma facada no seu bom-nome de prestigiado alfaiate.
Poupado à humilhação do despedimento, tão aviltante como um alfaiate aparecer desgolado diante de gente após um dia de trabalho, lá se arranjou para fazer o resto do quinto a atar, a amontoar relheiros e a dar molhos ao carro para a acarreja até à eira. Acabou a ceifa de pulsos abertos pelo repetitivo estremecer do mongal, nas longas horas de malha na debulha retardada de uma meda centeio.
Até ao São Miguel o tempo foi célere a completar o ciclo das colheitas. Mal dera para alinhavar um fato ao Tchico Zé, que casava a filha, e já a falta de encomendas o empurrava de novo para os trabalhos agrícolas.
Sem nunca ter verdadeiramente calejado as mãos numa rabiça de arado, mal uma junta sabia encangar, meteu-se de ganhão a “labrar à torna”. Valeu-lhe o instinto tarimbado das vacas a orientarem a lavoura, seguindo o rasgo aberto na terra pela junta da frente, para ter aguentado dois dias sem ter sido obrigado a aviar a fatada.
Despedido, a fama de inadaptado correu a Zebreira. Enjeitado pelos seus e pela providência da Senhora da Piedade, todos viam a incompetência do Henriques fora da alfaiataria, sem meditar nas circunstâncias.
O Dr Crisóstomo, amigo, sabendo das suas dificuldades, intercedeu a favor do seu desânimo soprando-lhe a notícia: «O Manzarra está a meter gente no Monte Velho de Baixo para arranque do mato».
A vontade de ultrapassar a necessidade a tudo obrigava, nem que fosse meter-se a fossar terra no fim do mundo. Arrancar mato nos Toulões era de somenos, mesmo correndo o risco de ser acusado de usurpação de um posto de trabalho em território de rivais.
Com a proibição em fazer queimadas, grandes ranchos de homens e mulheres eram contratados para fazer esse trabalho, enquanto a terra ainda ressumasse a humidade das últimas chuvas.
Todo o mato, bravio, medrado por cabeços ávidos de terra revolta, era arrancado no estrito cumprimento da lei de Lavoisier: na Natureza nada se perde, tudo se transforma.
Incorporado num rancho de gente dos Toulões, em tempos de rivalidades mais agressivas que moitas de tojos, com o sistema nervoso na latência da explosão, resistia às provocações.
«Atão ó Henriques, no m’ queres fazer uns safões pró Inverno?»
«Atão no vês qu´o rapaz é alfaiate, no é albardêro.»
Bem lhe apetecia responder, “Sim, para o Inverno talho-te uma albarda”, mas o escárnio amadurecia-lhe a paciência e o trabalho calejava-lhe a dignidade. O desbravar de terra inculta seguia a eito, sempre a progredir até ao Ribeiro das Areias, com a mesma cadência com que se ia apagando a hostilidade dos touloneiros a um tresmalhado do rebanho da Zebreira.
Salvada a linha de água, com o cair do outro lado, tudo mudou. Num denso campo de giesta-piorna, quase impenetrável, sobressaía, imponente, uma piorneira mãe.
Um carro de lenha.
«Aquela é minha» disse o alfaiate aos seus botões, alentado com a esmola de tolerância proporcionada pelos rivais, desafiando-se a mostrar a sua valentia. Mas, arbusto com uns dez anos a ganhar corpo, não se deixa vencer por uma aragem de voluntariosidade.
Homem e piorneira lançam-se a uma compita de braço de ferro, passada, com o esquentar da animosidade pelo atrito da rixa, numa luta corpo a corpo sem honra nem glória. Impotente para arrancá-la à terra, firmemente enfateixada à vida, abraçou-se a ela exausto, desvanecendo. Caíu vagarosamente para trás, estatelando-se diante daquela enorme moita, com o sentimento dúbio de que a Natureza, norteada pela opinião dos que o subestimavam, troçava de si.
As imagens do filme dos seus dias, desde que falhara o primeiro pagamento das letras de crédito da máquina de costura, desfilaram-lhe na Via Láctea da meninge. Tira do bolso o lenço tabaqueiro e, num gesto arrastado pelo peso da resignação, limpa a fronte inundada de suor. Mas com uma voz cavernosa, ainda ofegante, questiona a vultuosa giesta.
- Mas quem te disse a ti moiteira que eu era o Henriques alfaiate da Zebreira?
Decidido a por fim à crise da moiteira, foi-se por um enxadão. Com artes de alfaiate, meteu o enorme arbusto lenhoso no fato e, de seguida, engravatou-o com as cores mais garridas com que traja a temperança.

A TODOS UMA FELIZ PÁSCOA

7 comentários:

Isamar disse...

"Ganhar a vida tornara-se difícil e fazer por ela, com o ofício, mesmo espremido, a não dar uma gota de sustento, passava por uma angustiante reconversão profissional: dar o corpo ao manifesto e alinhar no trabalho do campo."

Assim o fez o Henriques "sem pingo de vergonha" porque havia que assegurar o sustento e outros meios mais modernos ainda não tinham vingado. Estaria nos dias de hoje a viver de um rendimento mínimo, escasso, em vez de dar o corpo ao manifesto?
Não creio!
Mais um texto que me sabe a pouco de tão bem contado e escrito.

Bem-haja, amigo.

Um abraço fraterno

Isamar disse...

Uma Páscoa feliz, cheia de docinhos tradicionais, saúde e alegria.

Bem-haja!

MPS disse...

Meu caro Chanesco

Tive muito prazer em conhecer o alfaiate Henriques. Obrigada por mo apresentar: em tempo de crise ninguém cruze os braços.

Um grande abraço

Meg disse...

Caro Chanesco,

Estou rendida a este Henriques, um sobrevivente como haverá poucos, hoje.
Mais uns minutos de prazer, estes que passei a ler-te.
E serei repetitiva mas honesta... adorei, como sempre.

Bem hajas!

Um abraço

Tozé Franco disse...

Caro Chanesco:
É impressionante a maneira como conta estórias e nos faz vivê-las.
Esta recoredou-me o meu avô materno, que era alfaiateas, e que muito sofreu com a advento do pronto-a-vestir. Bem me lembro de ele ainda ter costureiras a ttrabalhar para ele quando era "piqueno". Depois acabou a trbalhar sozinho, pois os clientes foram rareando.
Um abraço.

Maria de Fátima disse...

Caro Chanesco
Sou natural da Zebreira, tenho 54 anos e saí de lá quando tinha 6.
Não vivi esta e outras situações mas conheço-as através das "histórias" que os meus pais e família foram contando; do "Arriques" alfaiate (como se diz na Zebreira) e tantos outros.
Confesso que não imaginava que desse lugar tão recôndito surgissem estes textos.

António Serrano disse...

Aqui, em Palmela, senti uma doce e terna saudade de tempos bem difíceis, em que Homens de garra eram capazes de tirar da terra o sustento - mais dos outros que dos filhos!!! - com a coragem com que o alfaiate Henriques afrontou a moiteira!!!
Este texto - e li outros - é uma bela surpresa. Rendo-me à sua arte de nos contar a vida que foi das nossas Aldeias e aqui lhe expresso sinceros parabéns. Conto voltar.
Se os planos se concretizarem, lá pela meia-noite estarei a estacionar na Rua dos Toulões, em freguesia próxima de concelho aí limítrofe do da Idanha. Lá nasci. Ali volto, de quando em quando, este ano pela segunda vez.