terça-feira, fevereiro 12

5-2008: Uma cacada na Quaresma


Talvez não já seja muito oportuno, em plena Quaresma, vir remexer nos restos mortais do mafarrico tchocalheiro, morto à meia noite de Terça-Feira-Gorda e enterrado com três pazadas à laia da podoa nas cinzas de Quarta-feira, reconduzidas na pilheirinha dos despejos.
Mas como é para enquadrar a estória deste post, fica escrito...

O período que antecedia esta longa quarentena, nalguns casos iniciado logo a seguir aos Reis, onde um pouco por todo o lado (Toulões, com a Vaca-Galhana a mandar - aqui e aqui - não fugia à regra) era, por natureza, um período de tropelias, provocação e abusos.
Consentindo ou não, cada um dos eleitos pelos Entrudos a ser atchocalhado, zurrado, tchorado ou alvo de umas valentes cacadas à porta de casa, tudo acontecendo a coberto de um anonimato pouco anónimo, com recurso a disfarces urdidos com o que estava à mão de semear ou à escuridão da noite, dependia da carantonha posta pelo visado durante os restantes dias do ano.
Por cá o lema era: "Quem tenha rabos de nagalho, não adormeça ao borralho".
Finda a folia, entra então a Quaresma: sinónimo de abstinência e jejum, de recolhimento e meditação, conceitos impeditivos de toda e qualquer manifestação, acto ou celebração, não condizentes com a o estipulado pelos cânones conciliares.
Estavam proibidos os bailes, os toques desgarrados à guitarra ou à concertina, a solo ou a acompanhar cantares, e até o toque do pífaro dos pastores. Estava também proibido ralhar, praguejar e deitar mau olhado a pessoas e animais.
Qualquer desvio da vereda trilhada por preconceituosos costumes, praticados pela santa ignorância daquelas almas, cujas mentalidades estavam reféns de crendices sobrenaturais e do hermetismo eclesiástico, transformava-se no temor de ser excomungado pela divina providência. Esse temor mantinha o respeito e todos, neste período, homens e mulheres, cumpriam à risca os preceitos estabelecidos.
O seu não cumprimento dava azo a que os santos do altar se revoltassem contra o pecador, condenando-o à lapidação pelo olhar reprovador do povo inteiro.
Pelo menos assim se pensava que era.
Uma vez, aconteceu em Toulões.
A Quaresma chegara, temporoa, com o Inverno ainda sem largar o gabão. O frio intenso que por aqui persistia, traspassando a telha vã das casas pobres, assolava a da ti Maria Cristóva, empontada na correnteza do quarteirão, ao cimo da rua que é hoje a de São José.
Pelas mesmas tchincadeiras que no verão lhe enchiam de zenitais réstias o ambiente sombrio da casa como a querer peneirar o sol, estrelando o chão térreo da habitação, entravam agora arrepiantes correntes de ar que um lume mortiço não conseguia debelar.
Desde que o marido, o ti André, fora levado na paz dos anjos para a Terra da Cadela, nunca mais tivera calor, nem de gente nem decente.
Deitava-se ainda de dia, mal acomodava as quatro pitas que pernoitavam num poleiro improvisado a um canto da casa. A noite passava-a encolhida, esmagada pelo peso de cinco ou seis mantas de arêlos, que nem aqueciam nem arrefeciam, mas moíam o corpo a uma pessoa.
O engenho aguçado da velhota levou-a a arranjar uma alternativa para aquecer os pés durante a noite. Pegou na prática exercida pela ti Mari Pinta, a vizinha, que enchia com água quente uma velha garrafa de porcelana, das da genebra, enfiava-a na manga de uma blusa sem préstimo e colocava-a por debaixo das mantas para temperar a friura da cama.
Aquela botija em grés, cor de terracota, que mais parecia uma pedra reboleira das que correm ribeiro abaixo com as enchentes, deu-lhe a ideia de aquecer um gorrão ao lume para fazer as mesmas vezes.
Aquecida a pedra em cima de umas trempes, com elas a transportou até ao quartelho onde dormia e a colocou, sem adornos, ao fundo da enxerga, cobrindo-a com cautela.
Claro está! Uma pedra praticamente incandescente, apanhando uma enxerga de palha moída, quase isca, é como apichar um rastilho a uma bomba rabia.
A imprevidência da velha Cristova originou que o fogo tomasse imediatamente conta do exíguo aposento.
Nem teve discernimento para abafar a ala com as mantas. A sua única reacção foi salvar a imagem imaculada de nossa senhora de Fátima, que lhe dormia à cabeceira enganando a solidão e zelando pela bênção daquele lar e sair numa pressa desengonçada, limitada pela curvatura da acentuada espandilose que a vergava.
Aos gritos por um Deus-me-acuda, abraçando e apertando a santinha contra o peito, saiu com ela porta fora a clamar por socorro.
Nem foi necessário tocar a rebate. O espírito de entreajuda da vizinhança rapidamente acudiu em peso para, num pronto, afogar a tragédia com cântaros e caldeiros de água.
Feito o rescaldo e remediado o estrago, ao outro dia, chega a Rosa Manjarica da fonte com um asado à cabeça, para ali deixar a água ao que desse e viesse.
Apondo-se a transpor a entrada de casa, embateu com o bocal do asado na tosse da porta e este, desamparadamente, estchabaçou-se em mil cacos na pedra da soleira.
A água, perder-se foi o menos; ao asado é que nem o feitio se lhe aproveitou.
Este descuido não podia ter acontecido em pior altura.
A Lhanor (Leonor) Raspa, rival de estimação da Rosa Manjarica por antigos desaguisados com namoricos, chegava no momento com a burra de arrédea, com dois molhos de lenha nas ingarelas, um dos quais para descarregar à porta da ti Maria. Por caridade ia arranjando uns chamiços à velhota, que já não podia ir por eles, para acender o lume.
Aquele monte de cacos à porta não escapou ao espírito de crítica da Lhanor, sempre à coca de uma oportunidade para largar uma laracha:
- Cónho?! Atão é Curesma e ainda andais a dêter cacadas?
A Rosa, que dias antes perdera o humor por uma tchoradela de Entrudo lhe ter desarranjado o namoro da filha com o Tchico da Garruça, desentendida ou por entender, não quis dar fé do gracejo.
Apesar de andar sempre a bater com a mão no peito e a estender a língua à hóstia, não hesitou em retalhar a conversa. Diziam as más línguas, que a dela era mais afiada que a matadeira do ti Zé Cochinho.
- Nós dêtemos cacadas e tu apanhaste os cacos lá no meio do milho c’ o Tónho Fàdista!
Bem!... Como isto do ralhar e do rezar é só para quem tem vagar, a coisa embalou e prolongou-se.
Cada uma desfiou o seu rosário de impropérios e insultos com que roga pragas ao gado desobediente e a coisa descambou para o lado do ralho desfraldado… e lá vieram os alhos e as cebolas, com rama e tudo.
Um branquear de sacrilégios!
Chegando as duas mulheres a vias de facto, com arranhões, arrepelões e roupa rasgada, interveio a boa-vontade apaziguadora da ti Mari Costóva a tentar apartá-las, exibindo à porta a imagem da virgem de Fátima benzida pelo padre António e rogando em voz alta ao Divino Senhor, que pusesse cobro àquele vilipendiar dos predicados da Quaresma.
Mas o impensável aconteceu!
No calor aceso do lavarinto, um encontrão descontrolado de uma das beligerantes fez com que a velhota deixasse cair a Virgem, indo fazer companhia ao asado escavacado de fresco. Não tinha o palmo e meio de estatueta chegado ao chão, a ti Maria leva as mãos à cabeça, temendo pela justiça divina. Já não bastava o castigo calhado em sorte por lhe ter ardido a casa, ainda teria de sofrer as sevícias infligidas pelo escárnio popular.
O quebrar da venerada imagem gerou um grito de dor e desespero, que congelou a refrega.
Subitamente, o silêncio imperou.
- Abençoada cacada que devolveu a ordem à Quaresma!

17 comentários:

al cardoso disse...

Como sempre muito bem contadas as suas historias!
Sabe na minha terra em vez de bailes na quaresma, a rapaziada juntava-se para jogar a "pela"!!!
Agora nem rapaziada existe, infelizmente!

Um abraco dalgodrense.

Anónimo disse...

Oi Chanesco! já algum tempo sigo os teus "contos" (a minha mãe é fã)
um abracinho,
Henrique (Alcântara)

Porca da Vila disse...

Coitada da ti Cristóva... Uma desgraça, realmente, nunca vem só!

Adorei o conto, a fazer-me lembrar outros tempos em que na Semana Santa algumas rádios [Emissora Nacional e Rádio Renascença] praticamente só transmitiam música clássica e religiosa, tal era o temor a Deus Nosso Senhor e à Santa Madre Igreja!...

Um Xi Grande

Mocho-Real disse...

Mais um naco de boa prosa!

E assim se vai fazendo a BOA Blogosfera! O resto...

Um abraço.
Jorge G.

Meg disse...

Pronto, Chanesco, agora além do conto, d magia das palavras que aqui sempre me surpreendem, ainda de mandas para outras paragens (que eu clico onde é para clicar). Lá aumentaram os Favoritos... e os links...

Um abraço

MPS disse...

Temos o bom Chanesco de volta! Só não grito "Aleluia" porque é tempo de Quaresma...

Que bem me soube voltar a lê-lo, embora à custa da tragédia da ti Maria Cristóva!

Um abraço

Tozé Franco disse...

OLá Chanesco
Mais um excelente edaço de prosa, desta vez sobre a Quaresma.
COm tantos cacos nem sei como não apareceu o Santo António que tinha fama de consertar asados partidos na fonte.
Um abraço.

C Valente disse...

Aqui temos historias com unteresse
Saudações amigas e bom fim de semana

Eddy Nelson disse...

Extraordinárias "estórias" que nos narra dos quotidianos de outrora desta encantadora aldeia dos Toulões.

Um "saludo"

Meg disse...

Caro Chanesco,
É natural que encontre o Zé Pádua, pois é aí que ele mora e onde mantém um círculo de amigos e têm mesmo uma tertúlia, que é uma coisa que já não se usa, mas que nós, os que vivemos naquelas paragens, uma infância sem TV, muito cultivávamos.
E é disso, da palavra falada e bem utilizada que tenho saudades.

Um abraço

ManuelNeves disse...

Viva!

Mais um conto extraordinário, bem a propósito deste tempo que passa.

Adoro as expressões típicas dessa zona do País e o meu amigo escreve como ninguém.

Um Abraço

nabisk disse...

Caro amigo Chanesco, também gostava de saber descrever tao bém as recordações da nossa infancia.
Tenho que ler as de quem sabe.
Obrigado.

as-nunes disse...

Caro Chanesco
É um regalo ler estas suas crónicas, autênticos portentos de autenticidade, recheadas de narrativas que não lembra ao diabo mas que nos fazem recordar (aos mais velhotes) os velhos tempos das aldeias com as ruas em terra batida, luz do petróleo ou ou petromax, as casas com parede em granito, interiores tudo em madeira, toeca muitas vezes, e aquelas tradições de usos e costumes que, às vezes, também davam para o torto.
O meu pai, agora com 83 anos, bem me falava que, por causa das raparigas, era ver a rapaziada do Casal e de Gumiei à paulada, no caminho que ligava as duas povoações, emboscadas à moda antiga.
Fiquei maravilhado com este seu trabalho.
Um abraço
António

Mocho-Real disse...

Não há novas, mas deixo um abraço.

Boa semana!

Jorge G.

Meg disse...

Ainda não foi hoje, caro Chanesco, que vim dar de beber ´do vício das palavras... mas não devo estar a perder pela demora!
Amanhã cá passo outra vez.
Um abraço

Mocho-Real disse...

Obrigado pelos comentários deixados no Sino.

Um abraço.

Jorge G.

al cardoso disse...

Ainda ca voltei e depois de voltar a ler a sua excelente proza, e talvez porque estou nos meus dias ri-me a bandeiras despregadas, menos mal que nao estava ninguem presente, senao ainda haviam de dizer que tinha perdido o juizo!

Bem haja por me ter dado um excelente inicio de fim de semana.

Um abraco dalgodrense.